Peter Conradi
O pianista de Hitler
Ttulo do original em ingls HITLER'S PIANO PLAYER
JOS OLYMPIO EDITORA - 2009
Gnero: biografia
Numerao: cabealho - 420 pags


Contracapa

O ELO HISTRICO ENTRE HlTLER E ROOSEVELT
No caos da Baviera dos anos 1920, Ernst Hanfstaenql, o refinado teuto-americano conhecido como "Putzi", ajudou a promover Adolf Hitler. Duas dcadas mais tarde,
o presidente Franklin D. Roosevelt usou o conhecimento privilegiado que Putzi tinha do Fiihrer em uma cruzada com vistas a
destruir o flagelo nazista.
Por meio de documentos que apenas recentemente se tornaram acessveis ao pblico, de entrevistas com membros da famlia Hanfstaenql e de manuscritos
originais de Putzi, o pesquisador Peter Conradi elaborou a narrativa do elo histrico perdido entre Hitler e Roosevelt.

Orelhas

A incrvel histria da nica pessoa que
conviveu com Hitler e Roosevelt - Ernst
Hanfstaengl, o homem que ajudou a
gerar o monstro do nazismo e depois conspirou para destru-lo.
Quem foi Ernst Hanfstaengl?
FILHO DE PAI ALEMO abastado e me
norte-americana bem-relacionada,
formou-se na Universidade de Harvard
em 1909 e freqentava a Casa Branca.
REGRESSOU  ALEMANHA do ps-guerra, onde se tornou obcecado por Adolf Hitler aps ouvi-lo discursar em uma cervejaria de Munique em 1922.
TORNOU-SE AMIGO NTIMO, financiador e pianista de Hitler, aprimorando-lhe as boas maneiras e apresentando-o  alta sociedade alem: trabalhou como colunista
para o futuro Fhrer junto ao magnata das notcias William R. Hearst.
DEPOIS DE ANOS como chefe da imprensa estrangeira nazista, "Putzi" (como era conhecido Hanfstaengl) caiu em desgraa, escapou de uma tentativa de assassinato em
1937 e fugiu para a Sua e a Inglaterra.
EM JUNHO DE 1942, a pedido de seu amigo, o ento presidente Franklin Delano Roosevelt, Hanfstaengl foi transferido para os EUA pelos ingleses.
TORNOU-SE A ESTRELA do ultrassecreto Projeto-S de Roosevelt, revelando ao presidente norte-americano informaes privilegiadas a respeito da liderana nazista e
assessorando a campanha contra o Terceiro Reich.
ESCREVEU UM RELATRIO de 68 pginas intitulado "Adolf Hitler", um retrato psicolgico completo do Fhrer, descrevendo sua formao, dieta e vida sexual; Roosevelt
chamava-o de "Histria de ninar de Hitler".
DEPORTADO PARA A ALEMANHA em 1946, Putzi foi "desnazificado" e absolvido
de todos os crimes de guerra dois anos mais tarde.
COMPARECEU  sua 65a Reunio de Turma
de Harvard em 1974 e morreu em
Munique em 1975, aos 88 anos.
Peter Conradi  jornalista e pesquisador, tendo publicado The Red Ripper. Inside the Mind of Russia's Most Brutal Serial Killer, Mad Vlad: VladimirZhirinovsky and
the New Rssia n Nationalism e ris Murdoch: A Life, The Authorized Biography. Graduado pela Universidade de Oxford, tambm cursou a Universidade Ludwig-Maximilian
de Munique. Conradi  professor emrito na Kingston University e editor de The Sunday Times. Mora em Londres e tem trs filhos.

Peter Conradi
O pianista de Hitler
Ascenso e queda de Ernst Hanfstaengl, confidente de Hitler e aliado de Franklin D. Roosevelt
Traduo Ana Luiza Borges
JOS OLYMPIO EDITORA

Ttulo do original em ingls HITLER'S PIANO PLAYER
(c) 2004 by Peter Conradi
Reservam-se os direitos desta edio 
EDITORA JOS OLYMPIO LTDA.
Rua Argentina, 171 - So Cristvo
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Tel.: (21) 2585-2060 Fax: (21) 2585-2086
Printed in Brazil l Impresso no Brasil

 minha famlia
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ISBN 978-85-03-01057-3
Capa: INTERFACE DESIGNERS / SRGIO LIUZZI
Texto revisado segundo o novo Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.
CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
Conradi, Peter C764p     O pianista de Hitler : ascenso e queda de Ernst Hanfstaengl, confidente de
Hitler e aliado de Franklin D. Roosevelt / Peter Conradi; traduo Ana Luiza Borges.
- Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2009.
Traduo de: Hitler's piano player Inclui bibliografia ISBN 978-85-03-01057-3
1. Hanfstaengl, Ernst, 1887-1975. 2. Hitler, Adolf, 1889-1945Amigos e companheiros. 3. Nazistas - Biografia. I. Ttulo.
09-3637
CDD: 920.990086
CDU: 929:94(43) "1933/1945"

SUMRIO
Prefcio 9
Nota do Autor 11
PARTE 1: De Munique  Quinta Avenida 13
PARTE 2: Refinando Hitler 59
PARTE 3: A voz de seu mestre 131
PARTE 4: Atrs das linhas inimigas  239
PARTE 5: Lealdade dividida 313
Notas finais ndice remissivo Sobre o autor

PREFCIO

NO  UM NOME FACILMENTE pronuncivel, mas a primeira vez que deparei com Ernst Hanfstaengl em um artigo no Boston Globe, em abril de 2001, fiquei imediatamente
intrigado. O artigo, de Mark Fritz, foi motivado pela divulgao da CIA de vrios arquivos contendo um grande volume de um material pessoal fascinante sobre Adolf
Hitler e outros nazistas proeminentes. Um dos itens
mais estranhos, escreveu Fritz, era um perfil do Fhrer descrito por um "ex-amigo ntimo de Hitler" chamado Hanfstaengl. Em
68 pginas, era fornecida a "viso surreal de um agente secreto" sobre tudo, dos hbitos alimentares e predileo por partidas de futebol americano, at sua fobia
em relao a ser visto nu. Entretanto, pouco foi revelado, no artigo de Fritz, sobre o prprio Jianfstaengl, exceto que era um graduado de Harvard que fizera parte
do crculo de Hitler no comeo da dcada de
1920, mas que aparentemente mais tarde passara para o lado aliado.
Comecei a estudar esse elo curioso e pouco conhecido entre a Alemanha nazista e os Estados Unidos de Franklin D. Roosevelt. A prpria autobiografia de Hanfstaengl,
escrita na dcada de 1950, oferecia a sua verso da relao com Hitler, mas revelava pouco sobre o papel secreto no esforo de guerra aliado nos Estados Unidos durante
a Segunda Guerra Mundial. Uma tese de ps-doutorado de 1988, no publicada, de David Marwell, forneceu um grande nmero de novos detalhes. Muitos relatos e histrias
contemporneas da Alemanha da dcada de 1930 contm algumas pginas torturantes sobre ele, enquanto documentos e cartas preservados em bibliotecas em Munique, na
Alemanha, no Hyde Park, em Nova York, e no Public Records Office, em Londres, ajudaram a completar o quadro.

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Quanto mais me aprofundava, um retrato intrigante emergia de uma personagem real que ajudou a criar o monstro que foi Adolf Hitler e que depois passou o resto de
sua vida arrependendo-se do que fez. Isso tambm resultou em uma lista longa e ecltica de nomes famosos que cruzaram seu caminho; no somente Hitler e seus seguidores,
mas tambm figuras como Theodore Roosevelt Jr., Winston Churchill, Randolph Hearst, Djuna Barnes e Diana e Unity Mitford, todos amigos de Hanfstaengl.
Infelizmente, Putzi j estava morto h mais de um quarto de sculo quando iniciei este livro. Mas tive o prazer de conhecer seu filho, Egon, em dezembro de 2002,
em sua casa em Munique, cidade na qual eu tinha estudado vinte anos antes. Gostaria de agradecer-lhe por partilhar comigo recordaes de seu pai e de seu padrinho,
Adolf Hitler. O filho de Egon, Erik, leu meu manuscrito e comparou o homem que eu havia descrito com seu av, o qual conhecera quando era menino. Meu agente, Andrew
Nurnberg, foi, como sempre, otimista, enquanto Philip Turner e Keith Wallman, na Carroll & Graf, foram excelentes editores. Ginny Buechele buscou as centenas de
pginas de material sobre Hanfstaengl na Franklin D. Roosevelt Library. Alison Graham, do Sunday Times, em Londres, orientou com competncia a escolha de imagens.
Mesmo contra sua vontade, minha famlia foi aliciada para o projeto. Meus filhos, Elisabetta, Alexander e Matthew tiveram dificuldades em entender o fascnio que
essa personalidade de uma poca distante exercia sobre o pai. Quando ficarem mais velhos, tenho certeza de que entendero. Elisabetta aplicou suas habilidades tcnicas
no uso do escner para reproduzir as fotografias. Roberta, minha mulher, no s foi obrigada a dividir o marido com um nazista morto h muito tempo por quase trs
anos, como tambm leu o manuscrito e aconselhou, de maneira inestimvel, formas de aprimor-lo.
Este livro  dedicado a eles todos, e a Gaston, meu pai, - que serviu na Royal Air Force, e a Marjorie, minha me, que, adolescente na Londres em tempo de guerra,
sobreviveu ao inferno que Hitler desencadeou e que, lamentavelmente, no viveu para ver esta obra concluda.

NOTA DO AUTOR

Todos os dilogos entre personagens histricas neste livro foram selecionados
das memrias de Ernst Hanfstaengl, arbitragens legais e outros escritos, dos relatos em artigos de jornais e revistas contemporneos e de cartas e livros dos prprios
litigantes.

PARTE 1
   DE MUNIQUE  QUINTA AVENIDA
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OS CARTAZES FICARAM EXPOSTOS nas ruas de Munique por vrios dias; compostos em vermelho vivo, prometiam a salvao ao povo que s conhecia o desespero. A multido
estava reunida h vrias horas e o humor no interior do Kindlkeller estava tenso com a expectativa, A cervejaria, em forma de L, na Rosenheimer Strasse, estava apinhada
de gente.
Uma figura aristocrtica entrou. Na faixa dos 35 anos, media cerca de
1,90 metro com um queixo proeminente e uma mecha de cabelo que pendia na testa. Ernst Sedgwick Hanfstaengl parou por um instante. Essa no era a Alemanha que ele 
deixara uma dcada atrs para dirigir a galeria de arte da famlia em Nova York.'*
A reunio estava para ter incio. Olhando atravs da fumaa dos cigarros, examinou os rostos cansados da pequena burguesia amontoada  sua volta, muitos acompanhados 
da esposa. Aqui e ali, personagens mais refinados, Beamtentypen [funcionrios pblicos] ou antigos oficiais militares. A maior parte, no entanto, era de homens jovens, 
alguns deles com o traje tradicional de kderhosen [calas justas de couro] e meias de l compridas. O que teria reunido um grupo to heterogneo em um nico lugar? 
A atmosfera lembrou a Hanfstaengl um baile a que comparecera durante seu servio militar no Regimento de Cavalaria bvaro.
Abriu caminho at o palco. Perto do pdio havia uma mesa reservada para a imprensa. Hanfstaengl sentou-se e virou-se para um jornalista de mais idade,  sua esquerda.
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- Qual desses homens na mesa principal  realmente Herr Hitler? perguntou, falando em seu alemo nativo.
O jornalista examinou-o por cima de seus culos de armao metlica.
- Voc no deve ser daqui, colega, se no o reconhece entre as pessoas
- replicou com um forte sotaque bvaro. - De onde voc ?
- Estive viajando-respondeu Hanfstaengl.-Morei fora por muito tempo, e agora sou correspondente para jornais de lngua alem no exterior.
- Ento  isso - concluiu o homem.
E comeou a apontar os presentes: o homenzinho  esquerda, com um brao s, era Max Amann, o diretor do partido. Tinha sido sargento de Hitler no exrcito durante 
a guerra. E ali, no meio, usando culos, era Anton Drexler, o verdadeiro fundador do partido, embora no tivesse muito a dizer atualmente. Em seguida, o homem que 
dirigia o show, aquele com um pequeno bigode - Hitler.
- Um verdadeiro Teufelskerl [sujeito diablico], pode ter certeza. Nunca ouvi um orador como ele - disse o homem.
O jornalista no podia dizer se escutariam a sua retrica habitual naquela noite. Hitler tinha acabado de ser libertado depois de dois meses na priso por violao 
da ordem pblica, portanto teria de tomar cuidado com as palavras. Qualquer pronunciamento mais inflamado, seria trancafiado novamente.
Enquanto o homem falava, Hanfstaengl examinou Hitler com cuidado. No parecia ver nada to notvel nesse Teufelskerl. Pelo contrrio. Tudo nele parecia muito normal
e comum: constituio fsica mediana, um bigodinho cmico  la Charlie Chaplin acima de um colarinho mole, uma roupa de aparncia barata, como o palet de couro
e um par de velhas e toscas botas do exrcito que ele batia no cho. Parecia um garom em um restaurante de estao ou um ajudante de barbeiro, embora tanto um quanto
outro provavelmente se vestissem melhor.
Quando Drexler apresentou Hitler  multido, uma tempestade de aplausos irrompeu no salo. Empertigado, passos rpidos e rgidos, dirigiu-se ao pdio, logo reconhecvel
como um soldado com roupas civis. Estava a menos de trs metros de Hanfstaengl, que pde ver cada nuance de seus gestos e cada movimento de seus traos. O mais impressionante
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eram os seus penetrantes olhos azul-escuros. Hitler esperou os aplausos silenciarem e comeou a falar.
Preste ateno, vai comear - sussurrou o jornalista a Hanfstaengl,
empurrando os culos mais para cima do nariz, expectante.
No comeo dessa semana, o telefone tinha tocado no pequenino apartamento que Hanfstaengl dividia com a esposa, uma americana alta, Helene, e o filho de um ano, Egon, 
em Schwabing, o bairro bomio de Munique. Tinha sido um toque longo e contnuo, o que significava uma chamada oficial. Hanfstaengl ficou surpreso. Nem bem completara 
um ano desde que a saudade de sua terra o fizera trocar a vida confortvel de sua famlia em Nova York pela turbulncia da Alemanha ps-guerra. Poucas pessoas tinham 
o seu nmero de telefone.
- Permanea na linha e fique repetindo seu nome - disse uma voz feminina annima. - Est recebendo uma chamada de Berlim. Daqui a pouco o poremos em contato com 
a chamada oficial em uma linha especial.
- Berlim, uma chamada oficial em uma linha especial - sussurrou Hanfstaengl  sua mulher e ps-se a repetir seu nome com a devoo de um monge tibetano.
Era 18 de novembro de 1922, um dia cinzento, nublado. O humor na Alemanha era sombrio. O pas estava se partindo sob o peso das reparaes punitivas impostas pelos
aliados vencedores da guerra. Parecia somente uma questo de tempo at uma guerra civil ser deflagrada entre a Prssia e a Baviera, os dois estados mais poderosos
da recm-declarada Repblica de Weimar. A economia estava se deteriorando acentuadamente: a produo industrial, j gravemente abalada pela guerra, fora ainda mais
prejudicada pelas greves dos trabalhadores. Alimentos e combustvel para o inverno estavam fora do alcance de muitos. A nica atividade prspera era o mercado negro.
Os pensamentos de Hanfstaengl foram interrompidos por uma voz que crepitou do ter. Era Warren Robbins, um ex-colega de Harvard. Os dois se conheciam de um dos animados
shows de besteirol da universidade em
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que tinham atuado. Hanfstaengl, do alto de seus quase dois metros, tinha, incongruentemente, cantado em falsete, como os tiroleses, vestido de mulher, fazendo o 
papel de Gretchen Spootspfeifer no show de 1908, The Fate Fakirs. Robbins tinha representado um dos admiradores de Gretchen.
Robbins, recentemente investido no posto logo abaixo do comandante na embaixada americana em Berlim, precisava de um favor. A embaixada queria ver por si mesma o 
que estava acontecendo na Baviera e estava enviando o capito Truman Smith, assistente do adido militar, para dar uma olhada e falar com o maior nmero de pessoas 
possvel.
- Tenho de admitir que ele  de Yale, mas apesar disso  um sujeito simptico e brilhante - disse Robbins. - Ele ir procur-lo nos prximos dias. Por favor, cuide 
dele e o apresente a algumas pessoas. Pode fazer isso?
-  claro, amigo, sem problemas - replicou Hanfstaengl.
Antes que tivesse tempo para fazer qualquer pergunta, a linha emudeceu. Truman Smith chegou alguns dias depois. Na faixa dos 30, era afvel e receptivo. Impressionou 
Hanfstaengl como algum que sabia o que queria, mas que tambm percebia que havia dois lados em quase tudo. Como Hanfstaengl, era amante da msica e, especialmente, 
admirador de Wagner. Depois de uma breve refeio de boas-vindas, o norte-americano desviou a conversa para o objetivo de sua misso e apresentou ao anfitrio uma 
longa relao de polticos que ele queria conhecer.
Hanfstaengl sentiu-se constrangido.
- O melhor que posso lhe oferecer so alguns contatos sociais - disse ele. - E nem mesmo sei se tm muito peso poltico.
Props, ento, apresent-lo a Paul Nikolaus Cossmann, editor-chefe do Mnchener Neueste Nachrichten, um dos jornais mais importantes da cidade. Truman Smith foi 
v-lo em seu escritrio na Sendlinger Strasse.
Quatro dias depois, Truman Smith retornou para almoar. Tinha estado muito ocupado: para surpresa de Hanfstaengl, j havia falado com quase todos os grandes nomes 
da poltica bvara, do prncipe herdeiro Rupprecht ao general Erich Ludendorff, heri de guerra. Truman Smith achara todos interessantes, mas havia algo levemente 
similar em relao a eles - davam as mesmas respostas s suas perguntas e no ofereciam nenhuma soluo original aos problemas crescentes, polticos e econmicos, 
da Alemanha.
No entanto, tinha conhecido, nessa manh, outro poltico que deixara uma impresso bastante diferente: parecia ser um verdadeiro lutador. Ele faria um discurso em 
Munique naquela noite e dera a Truman Smith uma licena para a mesa de imprensa. O oficial norte-americano estava convencido de que era algum a quem valia a pena 
assistir. Infelizmente, tinha de pegar o trem de volta a Berlim e pensou que talvez Hanfstaengl pudesse ir ao encontro em seu nome e depois contar-lhe como tinha 
sido.
Intrigado, Hanfstaengl perguntou o nome do poltico.
- Adolf Hitler - respondeu Truman Smith.
Hanfstaengl tinha certeza de que ele confundira o nome com o de outro poltico nacionalista, com quem j esbarrara e sobre quem no tinha
uma boa opinio.
- A sua aparente descoberta chama-se, na verdade, Hilpert e, se permite a algum que quase sempre se abstm da poltica, mas por acaso o conhece, dar a sua modesta
opinio,  um poltico idiota.
Truman Smith retrucou que no tinha dvida de que o homem chamava-se Adolf Hitler-algo que Hanfstaengl teria percebido por si mesmo se tivesse se dado o trabalho 
de olhar para os cartazes, por toda Munique, com o nome de Hitler.
- E afirmo que ele sabe usar bem as palavras e diz exatamente o que, hoje, os alemes famintos querem ouvir - prosseguiu Smith. - Nacionalista, mas com um lado socialista. 
E antijudeu. Provavelmente, com o tempo, vai moderar o tom, como outros fizeram antes dele, mas tem um talento para falar que convence as pessoas. Ento, voc vai 
ou no?
Hanfstaengl no pde recusar. Concordou em acompanhar Truman Smith  estao de ferro e mais tarde ir ao encontro.
Nessa noite, quando chegaram  plataforma de onde o trem partiria para Berlim, um homem de aparncia suspeita, de origem tnica indeterminada, estava esperando por 
eles. Hanfstaengl antipatizou com ele no mesmo instante. Seu rosto era plido e quase sem expresso, e parecia descuidado. Tinha um certo ar de espio da polcia.
- Este  Herr Rosenberg, assessor de imprensa de Herr Hitler - disse Truman Smith ao se aproximarem.
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Depois de feitas as apresentaes, explicou a Rosenberg que enviaria Hanfstaengl para represent-lo nessa noite.
Hanfstaengl olhou surpreso para os dois homens e se perguntou se havia escutado direito. Um poltico supostamente hbil poderia ter uma figura de aparncia temerria
como o seu porta-voz e conselheiro? Todo tipo de pergunta passou pela sua cabea. A principal foi: o que esse Hitler estava fazendo com um sujeito to repugnante?
A comdia prosseguiu. Rosenberg, de sbito, fez uma reverncia a Truman Smith e, com um acentuado sotaque alemo bltico, prosseguiu com um discurso de despedida 
em ingls que obviamente tinha-se esforado para decorar.
- Capito - declarou ele com a voz aumentada -, tenho a honra de transmitir-lhe em sua partida as saudaes militares de Herr Hitler e, ao mesmo tempo, expressar 
seus agradecimentos por seu interesse em nosso movimento. Herr Hitler deseja-lhe boa viagem.
Hanfstaengl no conseguiu deixar de rir para si mesmo diante do absurdo da cena que se desenrolava na sua frente. Se a exibio de Hitler apresentasse mais algumas 
dessas inovaes, ento a noite seria, no mnimo, divertida. De fato, os ltimos minutos antes de o trem partir passaram-se de maneira relativamente agradvel: at 
mesmo as feies hostis de Rosenberg foram suavizadas por um sorriso forado quando Hanfstaengl, de uma maneira quase exagerada, traduziu para o alemo as observaes 
positivas que Truman Smith lhe dissera sobre Hitler. Logo depois o apito soou, e o trem, soltando vapor, partiu da estao com destino a Berlim.
Sozinho com Rosenberg, Hanfstaengl sentiu-se sem jeito ao segurar o passe da imprensa que Truman Smith lhe dera. O que estava ele, como alemo, fazendo ao representar 
a embaixada americana em um comcio poltico apresentado por tal nulidade? Talvez devesse tratar tudo aquilo como uma piada, ou quem sabe abrir mo da oferta de 
Truman Smith e simplesmente voltar para casa. Mas estava intrigado. Meia hora depois, ele e Rosenberg chegaram ao Kindlkeller.
Quando Hitler comeou a discursar para a multido, Hanfstaengl logo ficou impressionado com a amplitude de seu registro e o alcance de sua retrica. Tinha escutado 
vrios grandes oradores de seu tempo. O presidente Theodore Roosevelt, que conhecera pessoalmente quando estudava em Harvard com seu filho, tinha sido um deles. 
Thomas Pryor Gore, o senador cego de Oklahoma, outro. Mas nenhum deles obtinha a extenso de efeitos de Hitler, que falava de forma livre e entusistica, e sem o 
menor tom professoral dos outros polticos alemes. Absorvia todos os sentimentos irracionais e fantasias de sua audincia e os expressava de maneira a parecerem 
seu propsito pessoal - transformando-os, no processo, em uma espcie de caixa acstica. Usando do mesmo talento para o mimetismo que demonstrava com freqncia 
quando com amigos, Hitler manifestava uma empatia com seus ouvintes que lhe permitia traduzir suas intenes e metas para os termos e lngua da platia. Dominava 
com igual maestria o vocabulrio da dona de casa inquieta com o Viktualienmarkt vazio, o mercado de alimentos de Munique, o jargo do soldado comum ou o alto oficial 
descontente, e o mundo intelectual do proprietrio de imveis expropriado pela inflao.
Hitler era extremamente persuasivo tambm por causa da sua convico inabalvel em suas prprias palavras. Ele tinha o tipo de f que movia montanhas. Envolver-se 
com a massa, disse mais tarde a Hanfstaengl, era
como falar a uma mulher que tivesse escutado muitas coisas negativas a seu respeito. Era preciso tentar persuadi-la e, gradativamente, ela se tornaria a sua defensora
mais feroz. No que, como Hanfstaengl, com um certo desagrado, notou, Hitler tivesse muita experincia com mulheres.
Os primeiros dez minutos do discurso de Hitler consistiram em um breve resumo do que tinha acontecido  Alemanha desde novembro de
1918: o colapso da monarquia, a proclamao da Repblica, as conseqncias do Tratado de Versalhes - com a aceitao dos alemes imposta pela culpa da guerra - e
a fraude por trs das palavras dos pacifistas e marxistas. Quando Hitler viu que a sua posio seria aceita, relaxou a perna esquerda - como um soldado na posio
de descanso-e comeou a ilustrar suas palavras com uma variedade de gestos, coisa que possua em profuso. Seu tom tornou-se mais agressivo, mas tambm manifestou
um humor
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zombeteiro. Hanfstaengl percebeu a espirituosidade vivaz da cafeteria de Viena na malcia sutil de suas insinuaes e a elegncia de suas frases. Hitler denunciou
o kaiser e seus conselheiros por sua fraqueza no momento decisivo da rendio alem e escarneceu dos polticos da esquerda por terem concedido aos vencedores tudo 
o que poderia ter minorado o sofrimento de seu prprio povo. Tampouco demonstrou simpatia pelos separatistas bvaros e catlicos confessos. Contrastou sua atitude 
com a do nobre soldado no/ron, que vai em socorro de seu colega ferido independentemente de ele ser bvaro ou prussiano, catlico ou protestante.
- Esse  o esprito de que ns, alemes, precisamos mais do que qualquer outro neste tempo de emergncia - declarou Hitler. - Esse  o esprito que realiza milagres 
e conduz aqueles que foram derrotados e iludidos a um novo futuro.
Bastava  sua audincia ver o exemplo de Benito Mussolini, o lder fascista italiano, que apenas h algumas semanas tinha conduzido seus camisas-negras em sua marcha
triunfante em Roma, disse ele. Seguiram-se aplausos rumorosos.
Quanto mais Hitler inflamava seu tema, e quanto mais altos os aplausos, mais aumentava o volume e a velocidade de seu discurso. Se algum tentasse interromper com
perguntas, ele levantava as mos como se apanhasse uma bola e neutralizava o protesto com um sorriso astuto. Duas ou trs frases cheias de humor e, de novo, tinha 
a multido a seu lado. Sua atuao habilidosa lembrou a Hanfstaengl um grande violinista que raramente precisa usar a extenso total de seu arco.
Despertando de seu devaneio, Hanfstaengl olhou em volta da sala. Pouco restava da massa rude e excitada pela qual abrira caminho uma hora antes. Tinha sido substituda 
por uma comunidade de pessoas, todas profundamente comovidas. A cerveja ficara morna em suas canecas pela metade. A audincia estava ocupada demais bebendo cada 
palavra de Hitler. No muito longe, Hanfstaengl viu uma jovem que tinha levantado os braos como se estivesse na presena do Messias.
Anos mais tarde, depois de Hitler ter transformado a viso que tinha delineado nessa noite em uma realidade terrvel, Hanfstaengl se perguntaria com freqncia como 
se deixara impressionar tanto com o que tinha
vido no Kindlkeller. Como se tinha deixado iludir por um homem assim? Talvez porque Hitler tivesse moderado suas palavras com medo de
ser detido e preso de novo. Ou talvez porque a recente tomada de poder
de Mussolini, na Itlia, tivesse tornado seus argumentos especialmente pertinentes. De qualquer maneira, quando Hitler, duas horas
depois, terminou, Hanfstaengl se viu aplaudindo de maneira to entusistica e descontrolada como qualquer outro ali na cervejaria. Despedindo-se do jornalista a
seu lado com um tapinha afetuoso no ombro, levantou-se e aproximou-se da plataforma dos oradores, onde Hitler, banhado em suor, era congratulado por seus partidrios.
Hitler recebeu as saudaes de Hanfstaengl com um sorriso confiante, mas sem nenhuma arrogncia, e escutou com ateno quando se apresentou como representante de
Truman Smith. Hitler parou enquanto enxugava o suor da testa com um leno e examinou Hanfstaengl.
- Ento,  amigo do grande capito que ligou hoje de manh - disse Hitler. - Ele mencionou que voc viria. O que vai lhe relatar?
- Uma nica coisa - respondeu Hanfstaengl. - Vou dizer pessoalmente que concordo com 95 por cento do que disse e que expressei o desejo de discutir os cinco por
cento em um momento apropriado.
- Realizarei seu desejo com prazer - disse Hitler, rindo. - Pois tenho certeza, Herr Hanfstaengl,
de que acabaremos concordando tambm a respeito desses cinco por cento.
Despediram-se, e Hanfstaengl foi para casa. No conseguiu dormir nessa noite. Sentou-se  sua mesa tentando compor o relato que enviaria a Truman Smith. O primeiro
rascunho do texto e o seguinte foram jogados na cesta de papel. No conseguia tirar da cabea a retrica de Hitler, o dinamismo de seu discurso e a notvel formulao
de seu programa. Por outro lado, tambm ficou impressionado com a parte do discurso que achou absurda e paradoxal.
Hanfstaengl viu-se concordando com Truman Smith. Por mais comum que Hitler parecesse  primeira vista, era algum que tocava como um virtuoso no teclado da alma
humana e parecia destinado a um dia desempenhar um papel decisivo de uma forma ou de outra. Tinha uma aura incomum  sua volta. Enquanto estava ali, Hanfstaengl 
refletiu tambm
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sobre o entusiasmo e a espontaneidade com que se aproximara de Hitler e lhe dissera que concordava com 95 por cento de seu discurso.
Uma coisa estava clara: depois do que tinha ouvido nessa noite, Hanfstaengl no podia mais simplesmente dar de ombros e continuar a sua vida como se nada tivesse 
acontecido. Partilhava da mesma tristeza e raiva diante do destino de sua amada Alemanha com o resto da audincia no Kindlkeller. Ao contrrio de outros polticos, 
Hitler, na verdade, articulava esses sentimentos e parecia oferecer solues.
Hanfstaengl precisava admitir, no entanto, que algumas das idias de Hitler pareciam completamente absurdas e seu pouco conhecimento do mundo requeria uma retificao 
urgente. Hanfstaengl pensou, particularmente, no desprezo  importncia dos Estados Unidos - o pas em que Hanfstaengl tinha passado quase 17 anos; em sua exigncia 
do fim do pagamento de todas as reparaes para a Frana e na sua resistncia  ocupao militar, o que quase com certeza levaria a uma guerrilha; e, finalmente, 
em seu antissemitismo desenfreado, uma mistura de teorias mticas de raa e de lugares-comuns antijudeus que vicejavam no meio pequeno-burgus de Viena.
Hanfstaengl no conseguiu deixar de recordar uma conversa com Rudolf Kommer, um brilhante jornalista austraco judeu do gueto de Czernowitz, que conheceu quando 
os dois trabalhavam em Nova York.
"Em um asilo de loucos, onde tambm h escassez de alimentos, todo mundo  louco  sua prpria maneira", tinha dito Kommer. "Mas quando a situao na Alemanha se 
normalizar de novo, as coisas acalmaro e toda essa loucura desaparecer."
Era um pensamento tranquilizador, ao qual Hanfstaengl recorria repetidamente para se confortar nos anos seguintes,  medida que se tornava mais ntimo de Hitler. 
Era tambm um pensamento errado.
A ASCENDNCIA DE ERNST HANFSTAENGL implicou que sua lealdade fosse sempre dividida - fator que influenciaria a sua vida desde a tenra infncia e que se revelou tanto
a sua salvao quanto a sua runa. Nasceu em 11 de fevereiro de 1887, em uma das famlias mais importantes e bem relacionadas da Baviera. Seu av, Franz, foi um
pioneiro no mercado de reproduo de arte e fez reputao pela Europa quando recebeu a encomenda do estado da Saxnia, em 1835, para reproduzir a coleo inteira 
da Galeria de Dresden. Franz, que j alcanara a fama como um retratista litgrafo, percebeu rapidamente as oportunidades apresentadas pelo desenvolvimento da fotografia
e, em 1853, abriu seu prprio estdio. O kaiser Wilhelm, a rainha Vitria e Franz Liszt estavam entre seus modelos mais proeminentes.
O filho de Franz, Edgar, seguiu os passos do pai, transformando a firma da famlia em um dos nomes mais respeitados nesse campo, abrindo filiais em Nova York e Londres.
O sucesso do negcio proporcionou aos Hanfstaengl uma riqueza considervel. Com o dinheiro veio o status social: Edgar, assim como seu pai e av antes dele, foi
conselheiro particular do duque de Saxnia-Coburgo-Gotha.
Ernst, entretanto, no era bvaro puro-sangue. Sua me, Katherine Sedgwick Hanfstaengl, nascida Heine, era uma norte-americana cuja linhagem no ficava atrs da
de seu marido. O pai de Katherine, William Heine, que fugiu da Alemanha para os Estados Unidos depois do fracasso da revoluo liberal de 1848, era
um arquiteto e ilustrador famoso que tinha trabalhado na pera de Paris. Tornou-se general na Guerra Civil e foi um
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dos homens que carregaram o caixo de Abraham Lincoln. A me de Katherine, Catherine, era da famlia Sedgwick, um dos cls mais eminentes da Nova Inglaterra. O general
John Sedgwick, heri da Guerra Civil com esttua em West Point, era seu tio.
Edgar e Katherine, ou Kitty, como todos a chamavam, viviam em grande estilo em uma casa grande na Liebigstrasse, 30, perto do rio Isar, uma das partes mais prestigiadas 
de Munique. A Villa Hanfstaengl, como era conhecida, foi construda para eles em 1889 pelos proeminentes arquitetos de Berlim Heinrich Kayser e Karl von Grossheim. 
Suas janelas davam para uma esplndida vista do rio, a ponte Isar e o Maximilianeum, ento sede do Landtag [parlamento] bvaro. Situada em um amplo terreno, a casa 
media quase 28 metros de lado a lado. S no trreo havia mais de 15 cmodos. O lugar de honra era a sala de msica, que se baseava na antecmara dos aposentos do 
bispo na Munich Residenz e media mais de 45 metros quadrados. Obra de vrios artistas talentosos e artesos habilidosos, era decorado com madeiras diversas e mrmore, 
assim como vidro, couro e seda. A sala de jantar, com paredes de madeira, tinha lugar para vinte a trinta pessoas. Havia tambm vrios quartos de dormir e quartos 
de criados, um grande complexo de cozinha, estbulos para seis cavalos, um jardim de inverno, duas varandas e quatro banheiros - um luxo considervel para a poca. 
Kitty tinha decorado alguns cmodos de verde, aparentemente porque essa era a cor favorita da rainha Vitria. Um retrato assinado da monarca, dedicado a Edgar, estava 
em uma pesada moldura de prata.
Kitty conhecera Edgar em 1872, quando tinha apenas 13 anos. Retornando, depois da Guerra Civil americana, a uma Alemanha recm-unificada, seu pai tinha procurado 
Edgar em Munique para discutir a publicao de algumas de suas ilustraes e levou a filha consigo. Edgar, nos seus 30 anos, causou uma profunda impresso na adolescente. 
Ele acabara de chegar de uma viagem de sete anos  China, era fascinante e bonito, e mencionado como a causa do rompimento do noivado de Sophie Charlotte, duquesa 
da Baviera, com o rei Ludwig II da Baviera.
Edgar e Kitty casaram-se uma dcada depois, em novembro de 1882. Seu primeiro filho, Egon, nasceu em julho de 1884, e sua nica filha, Erna, em 1885. O ltimo filho, 
Erwin, nasceu em 1888, um ano depois de
Ernst. Segundo uma tradio estabelecida pelo pai de Edgar, Franz, todos receberiam nomes comeados pela letra "E". Franz e sua mulher, Franziska, tinham perdido
muitos filhos bebs e passaram a dar ateno  profecia da mulher de um guarda-florestal que trabalhava para o duque Ernst de Saxnia-Coburgo-Gotha, que dizia que 
os nomes comeando com E como o do prprio duque - garantiriam que a sua prole chegasse  idade
adulta.
Apesar de seu nome, Ernst quase no viveu para ver o seu segundo aniversrio. Algumas semanas antes foi acometido de um quadro especialmente grave de difteria. Sua
garganta estava to inchada que ficou incapacitado de comer durante vrios dias. No terceiro dia de jejum, os mdicos comearam a se afligir e disseram ao pai que 
pouco podiam fazer por ele. Aflito e querendo fugir do sofrimento, Edgar foi pescar. Quando voltou, hesitou por um momento antes de entrar em casa, temendo que o 
filho estivesse morto.
No tinha considerado Kati, uma camponesa idosa que trabalhava para a famlia. Ela estava determinada a salvar o menino e o alimentava pacientemente com uma colher, 
repetindo: "Putzi, agora coma isto, Putzi." E, para o espanto de todos, o menino, que havia se recusado a responder quando chamado de Ernst, estava de repente comendo. 
Edgar no acreditou no que
viu quando entrou.
No dialeto bvaro da poca, Putzi significava "rapazinho", e o nome pegou. A partir de ento tornou-se o nico nome a que o menino atendia. Por mais que os pais 
tentassem, recusava-se a atender ao nome Ernst. E, desse modo, o apelido continuou a ser usado, mesmo quando o menino se tornou um jovem robusto. Na verdade, at 
o fim da sua vida, Ernst foi chamado de Putzi-por mais que em adulto tentasse ele prprio livrar-se
do apelido.
Os Hanfstaengl escolheram mulheres inglesas para cuidarem de seus filhos, acrescentando uma terceira cultura  mistura da americana com a alem. A primeira bab 
de Putzi foi Bessie Clapp, uma garota baixinha, com culos de lentes grossas e armao de metal. Aps cerca de um ano foi substituda por Bella Farmer, uma jovem 
bonita, de Hartlepool, no norte da Inglaterra. Putzi afeioou-se particularmente a ela, mas para sua infelicidade, aps alguns anos, ela partiu para se casar e comear 
sua prpria
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famlia. Foi substituda, em 1895, por Caroline Jones, uma metodista inabalvel, de Swansea, em Gales do Sul. Putzi, mais tarde, escreveu recordando-se da inocncia
e convico de Jones de que a vida era essencialmente um teste de Deus. Sua fala, lembrou ele, "exalava mximas triviais de devoo e um esforo determinado, isto 
, todos deveriam desenvolver os talentos dados por Deus". Ela tambm lhe falava do poder do Imprio britnico e contava histrias de amigos que tinham ido para 
a frica como missionrios.
Jones tentou inculcar na cabea de Putzi os princpios de boas maneiras, que, nunca hesitava em dizer, "fazem o homem": levante-se ereto e mantenha os ombros para 
trs; no se coce nem se mostre irrequieto; no resmungue nem coma com pressa; e no discuta coisas se no for s claras. s vezes, perdia a esperana com os humores 
incontrolveis do garoto e costumava repreend-lo quando se virava na rua para olhar meninas bonitas.
- Isso no  elegante - dizia ela. - Isso no se faz.
O jovem Putzi no se deixava convencer. Escreveu mais tarde a respeito dela: "Por trs da fachada de puritanismo vitoriano, estava uma alma reprimida, ansiando por 
amor e encontrando expresso na Pattica, de Beethoven, e nos noturnos de Chopin."
Edgar tambm tinha conscincia da necessidade "de colocar um pouco de estofo em quatro filhos que corriam o risco de serem mimados por mentes adultas excessivamente 
artsticas". E, assim, toda tarde de domingo, o sargento-ajudante Franz Streit, da Guarda Real bvara, ia dar aos meninos treinamento militar, fazendo-os marchar 
para cima e para baixo do gramado. Um soldado montando guarda deveria gritar trs vezes "Haiti Wer da?" - Alto! Quem vem l? - e depois atirar. Para seu horror, 
a irm de Putzi, Erna, tambm era obrigada a participar.
Alm de berrar ordens para eles, Streit entretinha as crianas contando bravatas militares - o que, como Putzi recordou mais tarde, era estranho, j que ele no
conseguia se lembrar de o exrcito bvaro ter vencido, pelo menos uma s vez, em campo de batalha. No obstante, Streit, que ostentava um bigode exuberante, causou
impresso no menino. O sargento-ajudante, escreveu ele, foi "o meu primeiro encontro com o militarismo 
la Bavarois, e de certa maneira um elemento inesquecvel em minha
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weltanschauung". Sem o treinamento militar, aprendeu o jovem Putzi, um jovem  apenas "meia pessoa".
A msica exerceu uma influncia ainda maior sobre o menino. Desde cedo, o quarto de Putzi foi decorado com retratos de Brahms, Hans von Blow, Wagner, Liszt, Tchaikovsky, 
e outros, que eram recortados de um calendrio - inspirao precoce de seu sonho de uma carreira musical. A famosa Hertha Hauptmann Emmerich ensinou-lhe piano; Heinrich 
Bihrle, violino; e Josef Horbelt, um msico da corte bvara que tambm deu aulas na Akademie der Tonkunst de Munique, cuidou da teoria musical e do canto. Apesar 
de aparentemente desajeitado e com m coordenao, Putzi revelou-se, desde cedo, um pianista talentoso, para o deleite de seu pai, que sempre convidava amigos para 
o escutarem tocar. A me de Putzi esperava que um dia ele se tornasse maestro.
Por questo de status, os pais de Putzi gostavam de entreter a nata da sociedade de Munique. Mark Twain, Buffalo Bill Cody, John Philip Sousa e Richard Strauss estavam 
entre os nomes ilustres que honravam sua lista de convidados. Nas tardes de domingo, Edgar quase sempre recebia convidados, que se reuniam em seu estdio para discutir 
poltica. Putzi, s vezes, sentava-se e ouvia. Subseqentemente, datou o comeo de sua conscincia poltica no fim da dcada de 1890.
Havia na Baviera, no incio do sculo XX, duas tendncias polticas opostas: de um lado, os federalistas democratas, que acreditavam fortemente nos direitos do indivduo 
e dos estados, tais como a Baviera, que formavam a federao alem. Como tal, identificavam-se no ntimo com o kaiser Wilhelm I e com Bismarck, o antigo chefe de 
governo, que havia sido deposto em maro de 1890. Agrupados contra eles, estavam os partidrios do "junge Kaiser", Wilhelm II, os quais acreditavam em uma Alemanha 
forte, centralizada e militarista. Uma demonstrao desse credo - e do "Wilhelmscult" - aconteceu em maio, quando o imperador apareceu no teatro lrico Wiesbaden. 
Foi recebido com uma ovao em p da platia, que entoou "Ein Kaiser, Ein Reich, Ein Glaube" [Um Imperador, um Imprio, uma F]. Edgar e outros intelectuais liberais 
de Munique defendiam firmemente o federalismo. Para eles, sentimentos como esse expresso no
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Wiesbaden pareciam uma declarao de guerra da Prssia protestante e autoritria contra a sua Baviera catlica.
Quando cresceu, Putzi tambm tomou conscincia de outra linha de pensamento que viria a desempenhar um papel decisivo em sua vida: devia ter cerca de 13 anos quando 
ouviu falar pela primeira vez de uma Associao Nacional-Socialista, fundada por Friedrich Naumann, um pastor alemo liberal. O objetivo de Naumann era melhorar 
a situao das classes trabalhadoras do pas desenvolvendo um novo socialismo nacional, de base crist, que, ele esperava, os afastaria das idias de luta de classes, 
de inspirao marxista, e os integraria na nao-estado alem recentemente unificada. O Die Hilfe, o semanrio fundado por Naumann em 1896, esteve durante muitos 
anos entre as diversas publicaes na mesa de Edgar. Por acaso, o ponto central de distribuio do jornal ficava perto da casa da famlia.
Em setembro de 1897, Putzi foi admitido no Wilhelmsgymnasium Real Bvaro, em Munique, um edifcio imponente de arenito vermelho e amarelo, na Thierschstrasse, prximo 
ao Maxmonument, onde seus dois irmos mais velhos j estavam estudando. Fundado por jesutas em 1559, era o Gymnasium mais antigo da capital bvara e um dos mais 
prestigiados. Putzi, cuja educao havia sido, at ento, confiada a
governantas, ficou encantado por enfim ter aulas com homens.
Seu primeiro professor foi Gebhard Himmler, cujo filho, Heinrich, tornou-se um dos nazistas mais importantes. Gebhard Himmler tinha sido tutor do prncipe Heinrich
da Baviera. Putzi considerava-o um tremendo esnobe que favorecia os alunos com ttulos e era duro com os "comuns"
- mesmo aqueles que vinham de famlias abastadas, proeminentes como os Hanfstaengl. Heinrich era muitos anos mais novo do que Putzi, de modo que seus caminhos no 
se cruzaram na escola. Mas Putzi o via ocasionalmente, quando ia entregar trabalhos na casa dos Himmler, na Sternstrasse. Lembrou-se dele como uma criana "chata, 
com cara de lua", que tinha a reputao de covarde, correndo at seu pai para falar dos outros meninos.
Esse esnobismo era lugar-comum numa escola que se orgulhava de ser freqentada pelos pajens reais da corte de Wittelsbach, a famlia real bvara. Cinco dcadas depois 
de se formar, um dos colegas de turma de Putzi ainda se lembrava vividamente do comportamento arrogante dos membros
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da "pequena nobreza bvara, presunosa, ainda que insignificante", que faziam questo de se distanciar da "escria branca, conhecida como Brgerliche. Quando esses
meninos nobres se reuniam, durante o recreio da manh, no ptio do Gymnasium, coitado do pequeno-burgus que, inocentemente e sem saber da cortina de ferro exclusiva 
estabelecida, tentasse se aproximar amigavelmente de um ou outro desses rebentos da suposta elite".
Apesar dos talentos incontestveis de Putzi, faltava-lhe dedicao aos estudos. Era, veio a admitir mais tarde, "o campeo mundial em ficar para trs", e teve de 
repetir o segundo ano - depois de no passar em latim e geografia - e o quarto, de novo por problemas com o latim. O grego, "penosamente alcanado e dificilmente 
compreendido", revelou-se outro desafio. "O grego tem trs qualidades", anotou. "Requer muito tempo para ser aprendido,  esquecido rpido e torna a pessoa culta." 
Os fracassos de Putzi foram em parte, sem a menor dvida, causados pelo tempo considervel que dedicava  msica. Seus professores, Bernhard Stavenhagen e August
Schmidt-Lindner, tinham estudado com Liszt e eram exigentes
ao extremo.
Ao contrrio de seus irmos mais velhos, Putzi quis prosseguir sua educao no na Alemanha, mas nos Estados Unidos. No apenas porque era a terra de sua me, como 
tambm porque haviam planejado que ele assumiria o ramo de negcios da famlia fundado por Edgar na dcada de
1880, na Quinta Avenida, em Nova York. Isso significou conhecer o pas em que comearia a sua carreira. Kitty ficou entusiasmada e uma amiga sua, americana, ajudou 
Putzi a garantir a sua admisso condicional na turma de calouros da Harvard University. Concluiu o curso no Gymnasium em julho de 1905 e passou o vero com a famlia 
no lago Starnberg, no sudoeste de Munique. Antes de deixar a Alemanha, conheceu um recmformado de Harvard, William Chase, no Hotel Vierjahreszeiten, em Munique. 
Chase deu alguns conselhos valiosos a Putzi sobre como se comportar na sua futura escola: "Mantenha-se longe da Yard, dos chamados 'caxias', dos clubes baratos, 
conhea as 'pessoas certas', saia para remar, v ao Deutsche Verein [o Sindicato Alemo], a apresentaes de msica em Musical Clubs. Cuidado com Dean Hurlbut, consiga 
as boas graas do maitre no Hotel Tourraine, em Boston."
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Em 12 de setembro, Putzi despediu-se de sua famlia e partiu, de trem, para Hamburgo, onde, dois dias depois, embarcaria no vapor S. S. Hamburg para os Estados Unidos.
Chegou dez dias depois. Durante a travessia, algumas senhoras idosas lhe perguntaram sobre seus planos futuros e em que pretendia trabalhar ao chegar aos Estados 
Unidos.
- Sou um Kunstmensch [homem de arte] e venho de uma famlia que publica as belas-artes, portanto pretendo ser o que meu pai e meu av foram - respondeu ele, pomposamente.
O perodo do comeo do sculo at a deflagrao da Primeira Guerra Mundial tem sido descrito como os ltimos anos de inocncia para os Estados Unidos. Foi um tempo 
durante o qual a unio de 48 estados contguos foi concluda, e seus cidados, em sua grande maioria, concentraram sua ateno nas questes domsticas. O mundo exterior 
no interessava ao povo norte-americano, e os Estados Unidos no interessavam ao mundo exterior.
Harvard era o corao do establishment norte-americano: era ali que as futuras elites poltica, intelectual e empresarial se formavam e se conectavam. Para Putzi, 
a preeminncia da universidade estava resumida em "On the Aristocracy of Harvard", de John Collins Bossidy, que escarnecia da proeminncia de antigas famlias, como 
os Lowell ou Cabot, as duas tendo atravessado o Atlntico a partir de Bristol, no sculo XVII.
E esta  a boa e velha Boston,
A casa do fulano e do sicrano
Onde os Lowell falam somente com os Cabot,
E os Cabot somente com Deus.
Apesar da linhagem refinada de sua me, Putzi - ou Hanfy, como era conhecido durante seus anos em Harvard - era um estranho com quem implicavam por causa de sua 
origem estrangeira. Em seus escritos, encontramos uma lista de preconceitos norte-americanos em relao aos alemes, compilados, aparentemente, na poca. "Os alemes 
so excessivamente sentimentais. Seu humor  excessivamente pesado e as mulheres alems so exageradamente gordas", diziam seus colegas de turma. A lngua era
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muito difcil. As igrejas gticas da Alemanha no tinham nada de gticas, e a sua artilharia e submarinos eram inferiores aos franceses. Quanto s lingias alems,
s faziam engordar, e a cerveja de Munique no era to boa quanto a norte-americana. Alguns de seus colegas de turma tambm o gozavam por causa da tradio da vida 
de estudante alem, especialmente sua obsesso por duelar. Os pais de Putzi tinham tido pouco tempo para a esgrima, de modo que ele nunca aprendera. Mas era um alemo 
patriota o bastante para se chatear com crticas desse tipo, se bem que no poderia comear a esgrimir s para mostrar a seus colegas o que estavam perdendo.
Putzi foi capaz de colocar-se acima desses esteretipos. Seu carter surpreendente e a determinao com que se dedicou s atividades extracurriculares logo o tornaram 
um dos alunos mais estimados e conhecidos de Harvard. Sua altura e corpulncia lhe propiciaram uma posio no time de Harvard; sua voz o tornou chefe de torcida 
do time de futebol; e a sua exuberncia lhe granjeou muitos amigos durante os quatro anos que ali esteve. Foi lembrado por seus contemporneos, segundo o New York 
Times, "principalmente por suas excelentes interpretaes da msica wagneriana e a apreenso sentida por seus ouvintes diante de qualquer piano que ele atacasse 
na universidade e, depois, no Harvard Club, em Nova York".
Putzi tambm conquistem o status de heri logo que chegou. No comeo de 1906, um canoeiro quase se afogou ao naufragar nas guas geladas do rio Charles. Putzi, que 
passava por acaso por ali, mergulhou e o salvou. O caso correu rapidamente por Harvard e ele foi exaltado em uma manchete do Boston Herald: "Hanfstaengl, o heri 
de Harvard."
Orgulhoso de suas razes alems, Putzi tambm se tornou presidente do Deutsche Verein. Seu estatuto, aprovado em 7 de maio de 1909, proclamava que "o objetivo do 
clube ser unir os homens de Harvard interessados na divulgao do conhecimento da Lngua e da Cultura alems". Suas atividades consistiam em conferncias, uma pea 
anual e uma srie de sesses no Kneipe - um bar de estilo alemo. Em seu segundo ano, Putzi comeou a presidir reunies do Deutsche Verein com uma espada, que lhe 
havia sido dada de presente pelo comandante da embarcao de cruzeiro Bremen em sua visita a Boston.
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Apesar de zelar pelos estudos, Putzi tambm tocava com afinco - como mostrou em uma noite quente de primavera, em 1909, quando subiu a escadaria de um dos clubes
mais prestigiados de Harvard, chamado Sphinx. Cerca de vinte homens estavam sentados s pequenas mesas, fumando, conversando calmamente, e bebendo cerveja e stinger*
Um deles viu Putzi e o chamou. Ele pediu cerveja e participou da conversa at um deles, de repente, insistir: "Toque alguma coisa para ns, Hanfy." Putzi no precisou
de mais para se convencer: encaminhou-se ao piano encostado  parede e suas mos volumosas percorreram as teclas. A msica, que comeou suave, logo se tornou mais
pesada e marcial. "Soldier's Field", foi o brado, e Putzi tocou a msica agitada de uma das canes de futebol de Harvard. "Pelas arquibancadas em um vermelho flamejante, 
as bandeiras de Harvard adejam", algum entoou, e os outros se uniram a ele.
Espalhava-se a notcia de que Putzi estava tocando, e um nmero cada vez maior de homens de outros clubes apareciam no Sphinx. Quando a sala enchia, Putzi comeava 
a tocar pera. Depois, estimulado por mais cerveja, passava para Wagner. E assim prosseguia madrugada adentro, com pequenas pausas para descansar e mais cerveja. 
 medida que a manh se aproximava, as pessoas se tornavam mais turbulentas.
- Vamos conseguir um caminho e levar Hanfy para tocar pelas ruas de Cambridge - gritou um dos estudantes.
Formou-se um pandemnio. Conseguiram um caminho e o conduziram  porta do clube. Foram necessrios oito folies para transportar o piano escada abaixo e coloc-lo
no caminho. Depois, foi a vez do banco. Putzi foi, literalmente, cercado pelo grupo e arrastado escada abaixo. Subiu no caminho e se ps, de imediato, a tocar
mais marchas de futebol. Tocou como um demnio, a multido,  sua volta, rindo, gritando, cantando e correndo para acompanh-lo. O bando enlouquecido desceu a rua
e dobrou a esquina. Cabeas comearam a surgir nas janelas, a raiva de terem sido acordados cedendo o lugar ao fascnio diante do estranho acontecimento l embaixo.
No momento em que partiam, Putzi viu quatro freiras indo  missa na igreja do outro lado da rua. Quando ergueu a mo, a
*Bebida feita de creme de menta, conhaque e gelo. (N. da T.)
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multido fez, momentaneamente, silncio: as freiras entraram rpido na igreja, horrorizadas com a cena de balbrdia a que tinham acabado de assistir. Em seguida,
ele voltou a tocar.
Assim como conquistava a afeio dos colegas, Putzi invadia o establishment norte-americano tornando-se um convidado freqente na casa de Charles William Eliot, 
presidente da Harvard. Tambm se tornou amigo do filho mais velho de Theodore Roosevelt, que, em setembro de 1901, tornara-se o presidente mais jovem dos Estados 
Unidos, com a idade de
42 anos. Na verdade, Putzi tornou-se to ntimo de Theodore Jr. que foi convidado  Casa Branca, em 1908, para as festividades do Natal. Putzi ficou lisonjeado com 
a maneira como o presidente falou com ele, de igual para igual, convidando-o em seguida a tocar no magnfico piano de cauda Steinway da Casa Branca. A partir de 
ento, foi um convidado freqente em outras solenidades em Washington, D.C. Durante um baile oficial, Putzi e vrios outros jovens convidados deram uma escapada 
e fizeram uma festinha particular em uma das salas no subsolo. Putzi tocou em outro piano, mais modesto, que encontraram, e de maneira to entusiasmada que arrebentou 
sete de suas cordas.
Nesse perodo, tambm conheceu a outra linha da famlia Roosevelt, da qual o futuro presidente Franklin Delano Roosevelt descenderia. Entre os eruditos com que travoujimizade 
estavam Hamilton Fish, que mais tarde se tornaria uma influncia importante na faco isolacionista na Cmara de Deputados, T. S. Eliot, Walter Lippman, Hendrik 
von Loon, Hans von Kaltenborn, Robert Benchley e John Reed.
Inevitavelmente, devido  energia que canalizava para a sua vida social, seu rendimento acadmico estava longe de ser brilhante. De incio, havia sido admitido em 
Harvard somente como um aluno especial "em teste", e, apesar de conquistar um status regular em algumas semanas, seu desempenho subsequente foi decepcionante. Em 
novembro de 1906, foi posto em perodo de experincia pela primeira vez. Em uma carta a seu pai, o decano, Byron Satterlee Hurlbut, culpou suas atividades extracurriculares.
"O rapaz admite francamente que seu fracasso deve-se  sua dedicao excessiva a questes externas ao currculo da universidade", escreveu Hurlbut. "Acho que dedica 
tempo demais  msica." Punido com razo,
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Putzi trabalhou arduamente para que o perodo de experincia fosse suspenso em abril. Mas logo comeou a relaxar de novo e, trs meses depois, foi reprovado e voltou
ao perodo de experincia.
Quando Putzi foi passar as frias de vero na Alemanha, Hurlbut escreveu-lhe uma carta em que o advertia: "S retorne se estiver preparado para colocar a universidade 
acima da diverso." Uma advertncia similar foi enviada a seu pai, adoentado desde que
sofrera um ataque cardaco mais ou menos um ms antes de Putzi partir para
Harvard. E assim foi at o fim de sua carreira acadmica.
Na primavera de 1909, Putzi estava perto de se formar. As notcias de casa no eram boas: o estado de seu pai tinha se agravado. Os estudos de Putzi continuavam
a no ir bem e ele corria o risco de no se graduar. Perdeu de tal modo o controle de sua tese sobre a viagem de Goethe  Itlia que ultrapassou o prazo de entrega, 
na sexta-feira, e s a entregou na segunda-feira seguinte na casa de seu professor. No que pareceu a Putzi um exemplo espantoso de mentalidade tacanha, foi rejeitada 
e ele se viu na iminncia de retornar  Alemanha sem o diploma to desejado. No foi a primeira nem a ltima vez na sua vida que a msica o salvou. Putzi foi admitido 
no curso de frias de harmonia, ministrado pelo catedrtico Marshall, ex-aluno de Joseph Reinberger, nome proeminente em msica sacra, na Baviera.
A generosa nota recebida deu-lhe o ponto necessrio que faltara em
*
seu trabalho final.
Com o grau de cincias humanas em arte, literatura, histria e filosofia, Putzi retornou a Munique no fim de 1909 para realizar um ano de servio militar voluntrio 
na infantaria da Guarda Real. Depois de quatro anos nos Estados Unidos, foi como retroceder ao sculo XVIII: o jovem recruta levou armas sobre os ombros, desfilou 
com a bandeira do regimento e montou guarda  entrada do palcio real e outros edifcios importantes. Putzi brincava que o nico gostinho de ao que experimentou 
foi quando alguns amigos de Harvard, liderados por Hamilton Fish, esbarraram com ele de servio e ameaaram arrancar seu elmo de ponta e faz-lo de bola de futebol. 
Fugiram quando ele ameaou chamar alguns de seus camaradas.
Apesar dessas brincadeiras, os meses que se seguiram  sua formatura foram um perodo de tristeza. Em 29 de maio de 1910, aps uma longa deteriorao de seu estado, 
seu pai faleceu. Putzi, com o restante da famlia, estava  sua cabeceira. Em suas ltimas palavras ao filho, Edgar insistiu em que ele cumprisse seu dever. Depois 
de concluir o servio militar, Putzi foi a Viena estudar litografia, antes de trabalhar por seis meses na firma da famlia, em Munique, para aprender a ser editor. 
Tinha chegado a hora de um novo desafio.
NO OUTONO DE 1911, Putzi retornou aos Estados Unidos. Embora s tivesse 24 anos, ficou como o responsvel pela Galerie Hanfstaengl, a sucursal de Nova York da Kunstverlag
Franz Hanfstaengl. Foi ajudado por Friedrich Denks, filho de um pastor luterano que trabalhava para a famlia em Munique e que acabara de chegar aos Estados Unidos. 
Putzi pode ter sido um novato no negcio de arte, mas a sua falta de experincia foi mais do que compensada por sua personalidade expansiva e a excelncia dos contatos 
sociais que tinha acumulado em Harvard. Lanou tudo isso na sua atividade, trabalhando quase todos os dias de 7 horas da manh s 8 da noite. A galeria prosperou 
e o dividendo enviado via Amsterd  firma da famlia em Munique cresceu regularmente.
No comeo de 1913, os negcios iam to bem que Putzi mudou a galeria para uma das esquinas mais movimentadas - e mais caras - da Quinta Avenida. Na esquina da rua 
45, no nmero 545, a galeria era "uma combinao deliciosa de negcios e prazer", recordou mais tarde. "Foram muitos os nomes famosos que me visitavam: Pierpont 
Morgan, Toscanini, Henry Ford, Caruso, Santos-Dumont, Charlie Chaplin, Paderewski e a filha do presidente Wilson." Gari Muck, o famoso regente do Festival de Wagner, 
em Bayreuth, e diretor da Boston Symphony Orchestra, costumava passar para conversar sobre arte e msica, quando estava em Nova York. Outros msicos alemes, quando 
em viagem pelos Estados Unidos, tambm o visitavam. De fato, Putzi tentou transformar a galeria em um ponto de encontro para amantes da msica e da arte, no somente 
para entreter
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a si mesmo, mas porque era bom tambm para os negcios. No metr, a caminho de casa, Putzi pegava seu dirio e memorizava os nomes de todas as pessoas que tinha 
conhecido para poder saud-las pelo nome na prxima vez em que as visse.
Putzi cultivou cuidadosamente seus contatos com os Roosevelt e foi hspede ocasional em seu retiro em Sagamore Hill, na Oyster Bay, em Long Island. Um final de semana, 
em 1912, Theodore Roosevelt afastou-se com Putzi e o questionou sobre seu servio militar. Para surpresa de Putzi, ele elogiou o exrcito alemo como "uma escola 
excelente... Enquanto o Volk alemo tiver um exrcito em que tm de prestar o servio militar, no vai se degenerar", disse ele. Roosevelt tambm propiciou-lhe um 
discernimento poltico que permaneceria com ele at o fim de sua vida. O fundamental no era escolher entre a melhor de duas opes, mas sim qual das duas teria 
conseqncias menos graves e menos desagradveis. Bismarck talvez falasse da poltica como arte, mas "se tivesse de dizer o que entendo por poltica, diria que  
a escolha do mal menor", disse Roosevelt a Putzi.
Ele tambm teve a oportunidade de renovar a relao com Franklin D. Roosevelt, que era ento advogado e senador em Nova York. Com pouco tempo e pouca inclinao 
para cozinhar, Putzi costumava fazer quase todas as refeies no New York Harvard Club, que era convenientemente perto, na rua 44 Oeste. F. D. Roosevelt tomava o 
caf da manh na grande sala de jantar do clube quando vinha de Albany para Nova York. Quase sempre, Putzi j estava l, sentado ao piano de cauda Steinway, tocando 
o repertrio familiar de Bach, Beethoven, Schubert, Liszt, Brahms e Wagner.
F. D. Roosevelt, ento com 30 e poucos anos, era um homem vigoroso, lpido. Cumprimentava Putzi, ao chegar, com um movimento de cabea, e sentava-se  sua mesa favorita, 
perto da lareira, lendo o jornal e escutando msica. Putzi ficava impressionado com o desfile de nomes conhecidos que se reuniam l: Walter Lippmann, que estava
apenas no comeo de sua carreira jornalstica; Jack London, o escritor; John Reed, que se tornaria famoso mundialmente por seu testemunho da revoluo russa; e Harold
Laski, um dos grandes pensadores do movimento trabalhista britnico. A poltica deles era de certa forma liberal demais para o gosto de Putzi, mas isso no o impediu 
de desenvolver uma amizade ntima com o futuro presidente.
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Nos negcios, assim como na vida privada, Putzi j comeava a mostrar sinais da excentricidade que marcaria a sua carreira. Em certa ocasio, percebeu um homem com
o estojo de um violino olhando desejoso o retrato de Paganini na vitrine de sua galeria. O homem finalmente reuniu coragem para entrar e perguntar o preo, mas se
mostrou desanimado ao saber como era caro. Putzi props o pagamento a partir de uma troca. O violinista ficou encantado e, em algumas semanas, um conjunto de cordas
tocava l todas as tardes.
Um dia, em 1914, enquanto Putzi trabalhava na galeria, uma bela jovem chegou com um portflio de desenhos debaixo do brao. Com 20 e poucos anos, 1,72 metro, curvilnea,
olhos cinza, cabelo ruivo e uma pinta perto do olho esquerdo. Seu nome era Djuna Barnes e estava destinada a se tornar uma das escritoras mais proeminentes de sua
gerao. Mas nessa poca estava comeando como jornalista e
ilustradorafreelance. Quando viu Putzi, vender seus desenhos no pareceu mais to importante. Os dois
"se olharam e se apaixonaram", recordou ela mais tarde.
Tornaram-se amantes rapidamente. Putzi parece no ter-se assustado ao ficar sabendo, no comeo da relao, que Djuna era bissexual e que, se
tivesse de escolher, preferiria mulheres. Houve uma atrao sexual muito forte. Em certa ocasio, segundo boatos, Putzi sofreu o rompimento, extremamente doloroso,
de um vaso no pnis enquanto estava com ela. Mas o amor de Putzi era mais profundo. Um dia, Barnes mencionou que seu editor a tinha designado para um vo em um avio
caseiro. Putzi achou extremamente imprudente e lhe ofereceu os 25 dlares que receberia se prometesse no ir. Foi um pedido afortunado. O avio sofreu uma pane,
matando todos a bordo. Putzi tornou-se um freqentador assduo da casa da famlia Barnes em Morris Park, Nova York (em Long Island), travando amizade com o irmo
dela, adolescente, Saxon, a quem deu um lbum de selos. O garoto achava Putzi agradvel e ficou genuinamente impressionado com a sua arte militar e com o fato de
ter sido capaz de passar, de maneira convincente, pelo treinamento militar com um rifle.
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Os sentimentos de Putzi por Barnes eram recprocos - como ficou demonstrado em uma seo eliminada da ltima verso de Nightwood, famoso romance desta, em grande
parte autobiogrfico, publicado em 1936. A seo, preservada nos documentos de Barnes, descreve a herona apaixonando-se por um alemo que parecia to "alto, melanclico
e engraado, com uma cabea com a praga da loucura nela". Quando se beijaram enquanto atravessavam a Ponte de Brooklyn, foi "a primeira vez que fui beijada ou desejada
em seis anos, e o amei de todo corao", escreveu ela. "E continuou por trs anos, e eu disse: Vou me casar."
No entanto, o casamento de verdade no aconteceria, em parte por causa dos eventos na distante Sarajevo. O assassinato, em 28 de junho de 1914, do arquiduque Francisco
Ferdinando, o herdeiro do trono austro-hngaro, desencadeou uma srie de eventos que, em semanas, resultaria na deflagrao da Primeira Guerra Mundial. O impacto
imediato na vida dos Estados Unidos, entretanto, foi insignificante. Woodrow Wilson, que tinha sucedido a Theodore Roosevelt no ano anterior, declarou que o seu
pas ficaria fora do conflito. Apesar dos laos tradicionais dos Estados Unidos com a Gr-Bretanha, Wilson no pretendia abrir mo de sua poltica antiga de isolacionismo
em favor da participao em uma guerra europia. Tambm tinha de levar em considerao o grande nmero de alemes e austracos que viviam nos Estados Unidos.
Em virtude de seu servio na Guarda Real, Putzi era um reservista e tinha obrigaes militares na Alemanha, mas estava a milhas de sua unidade. Ele alegou, subseqentemente,
que se sentiu entusiasmado para retornar  sua terra e que tinha se apresentado a Franz von Papen, o adido militar alemo em Nova York. Von Papen deu-lhe um endereo
onde devia se apresentar e providenciar sua viagem, mas a informao foi fornecida de maneira to aberta e negligente, que Putzi ficou convencido de que o lugar
estaria infestado de espies britnicos. Como os navios norte-americanos eram freqentemente revistados pela Marinha Real assim que deixavam suas guas, e todos
os homens a bordo, em idade de servio militar, eram detidos, Putzi decidiu no se arriscar. Entretanto, vrios outros de sua idade conseguiram fazer a travessia.
A no participao de Putzi no conflito e na camaradagem das trincheiras o oprimiria bastante nos anos seguintes. Enquanto a sua unidade estava combatendo no Front
Ocidental e na Itlia, Srvia e Romnia, ele estava seguro em Nova York. "De certa maneira, nunca consegui me livrar da sensao opressiva de no estar no/ront durante
esses anos difceis que ceifaram a vida de tantos de meus amigos de infncia e camaradas de regimento", escreveu ele.
Nesse meio tempo, a vida para um alemo em Nova York no era to agradvel quanto j tinha sido. Mesmo antes da deflagrao da guerra, os jornais norte-americanos
tinham-se tornado cada vez mais crticos ao militarismo do kaiser e, por extenso, aos alemes como um todo. Quando a tenso nos Blcs cresceu e as potncias europias
comearam a se rearmar, Putzi achou que seus compatriotas estavam sendo culpados por
(tudo o que estava errado no mundo. Essa disposio cada vez mais hostil foi exemplificada para Putzi por um incidente em 1912 durante um concerto no Metropolitan
Opera em homenagem aos mortos durante o naufrgio do Titanic. Putzi tinha sido convidado pela sra. Fairfield-Osborn, esposa do diretor do Museu de Histria Natural,
mas, quando ele estava para sair de seu camarote, ela virou-se e    disse que o desastre tinha sido culpa da Alemanha, por construir navios cada vez mais velozes. 
A nica maneira de o Titanic poder competir, disse ela, era tomando
a rota fatal para o norte, o que levou ao desastre. Em outra ocasio, logo depois, uma socialite declarou a Putzi:
- Eu mataria todos os alemes.
- Por favor, senhora,  melhor comear por mim - replicou ele. Apesar da poltica de neutralidade do presidente Wilson, tais arroubos antialemes deram lugar a uma
hostilidade franca e concentrada depois que a guerra comeou. Governantas alemes foram demitidas, as peras de Wagner retiradas de programas artsticos, e as pinturas
de mestres alemes retiradas das paredes de galerias de arte e confinadas em pores. As vitrines da Galerie Hanfstaengl eram estilhaadas com freqncia.
At mesmo o querido Harvard Club no ficou imune ao sentimento antigermnico. Em suas memrias, ele descreve um incidente em que
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Donald Rogers, o playboy ruivo, filho de uma famlia rica de Newport, chegou no bar, pediu um "Bullfighters Dream" e, ao ver Putzi, acrescentou:
- O kaiser  um filho da puta.
Putzi ficou diante de um dilema: ou jogava o copo de cerveja alem em Rogers e arriscava ser expulso do bar ou ficava ali e se deixava humilhar. Estendia o brao
para pegar o copo quando Jimmy, o barman irlands, salvou a situao. Sorrindo, deu a Rogers o drinque, com as palavras:
- Tem razo, senhor, a sua me era inglesa.
A situao s piorou depois do afundamento do Lusitnia, um transatlntico britnico, pesando 32.000 toneladas, por um submarino alemo, que zarpara de Nova York
para Liverpool, no mar irlands, prximo a Queenstown, em 7 de maio de 1915.Dos 1.959 passageiros e tripulao a bordo, 1.198 morreram - entre eles 128 cidados
norte-americanos. A perda de tantas vidas americanas provocou uma onda de indignao que quase convenceu o governos dos Estados Unidos de desistir de sua poltica
de neutralidade. Mas o pas ainda no estava pronto para se unir a aliados.
Segundo um boato, quando as notcias do afundamento do navio chegaram, Putzi levantou-se no bar do Harvard Club e brindou os responsveis, incitando uma espcie
de tumulto. At seus ltimos dias, ele negou que o incidente tivesse acontecido, repudiando-o como uma calnia sem fundamento. "Tentei descobrir a fonte, mas esbarrei
sempre com um muro de pedra de silncio", escreveu ele quase duas dcadas depois. "Meus colegas de turma, de Harvard, fizeram o possvel para dispersar essa calnia
terrvel - mas foi em vo."
Tal reao  ainda mais improvvel na medida em que Putzi tinha vrios amigos no navio. Alm disso, estava de luto pela morte de seu querido irmo mais velho, Egon,
um tenente da reserva do Regimento de Artilharia de Campanha Bvaro, que tinha cado em Peronne quatro dias antes. Foi um golpe particularmente duro para ele. Putzi,
de repente, foi tomado por uma "saudade da ptria convulsiva, penetrante", ao pensar naqueles que "agora cumpriam seu dever na Alemanha ou outro lugar, em postos
avanados". Foi a segunda tragdia pessoal do conflito que ele tinha sofrido: em agosto, seu irmo caula, Erwin, morreu de febre tifoide, em Paris, aos 26 anos.
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Independentemente de se foi ou no verdico o incidente no Harvard Club, h poucas dvidas de que Putzi se sentia cada vez mais desconfortvel na atmosfera pr-aliados
do clube, e de que se manifestou contra alguns sentimentos antigermnicos cada vez mais intensos. Finalmente, renunciou  sua condio de scio do clube em maio 
de 1916.
Graas  cidadania de sua me e  sua educao em Harvard, Putzi poderia ter acentuado seu lado norte-americano e passado por um cidado exemplar de sua terra adotiva, 
mas tanto seu sobrenome quanto seu temperamento abrandaram tal lado. A deflagrao da guerra na Europa fez com que se sentisse mais alemo e mais determinado a se 
expressar em nome de seu pas natal.
Sua relao com Barnes foi uma das primeiras vtimas. Com quase 30 anos, Putzi sentiu que estava na hora de se estabelecer e ter filhos. Estava tambm convencido 
de que a mulher com quem se casasse deveria ser uma alem. Um dia, em 1916, comunicou que estava deixando Djuna.
No fim de sua vida, quando lhe perguntaram sobre Putzi, Barnes tentou se mostrar indiferente.
- Fui noiva de Putzi por 12 horas - disse ela, antes de acrescentar rindo: - E foi tempo suficiente! O que eu teria feito com todos aqueles filhos alemes?
Na seo apagada de Nightwood-que talvez, reconhecidamente, apre-
sente uma verso floreada do que aconteceu de fato -, a histria  outra. Ali, Barnes descreve como, em uma certa manh de domingo, o alemo da histria procurou
a herona, usando sua cartola, e disse simplesmente: "No posso me casar com voc, porque, para isso, voc teria de ser alem." Os dois foram para o sto dela,
em Washington Square, e choraram at anoitecer. Quando ele saiu e-ficou sob as rvores embaixo, ela se debruou na janela. Quase saltou para a morte, mas foi dissuadida
por uma vizinha. Dois dias depois, ela no suportou mais e correu para a casa do alemo. "Eu o amo de qualquer maneira e pode fazer como quiser", declarou ela. No
entanto, ele no era do tipo de mudar de opinio e a acusou de tentar prend-lo no casamento gerando um filho seu. Depois de uma discusso dramtica e violenta,
separam-se de novo - dessa vez, para sempre. Sua futura mulher, insistiu ele, "ser alem".
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A nacionalidade de Barnes talvez no tenha sido a verdadeira razo do rompimento, especialmente se considerarmos que Putzi quase que imediatamente aps se envolveu
com Mimsey Benson, uma loura estonteante, to alem quanto Barnes. Mais tarde, ele alegaria que o motivo real teria sido o contnuo interesse de Barnes por mulheres. 
De fato, sua relao seguinte parece ter sido com uma mulher: Mary Pyne, uma bela jornalista ruiva que, como ela, estava escrevendo para o New York Press. Quando 
Barnes chegou em Paris, no comeo da dcada de 1920, ela disse  sua amiga, a poeta Mina Loy, que j tinha tido 19 amantes. As mulheres, disse ela, eram melhores 
na cama do que os homens.
Barnes no foi o nico acesso de Putzi  sociedade bomia de Nova York. Durante os anos de guerra, ele tambm travou amizade com dois outros enfants terribles da 
literatura que tinham aparecido na cidade: Hanns Heinz Ewers, escritor e epicurista alemo, e Frank Harris, dramaturgo irlands, especialista em Shakespeare e amigo 
de Oscar Wilde e George Bernard Shaw. Atravs de Harris, Putzi foi apresentado a Aleister Crowley, o escritor ocultista, que passava os anos de guerra nos Estados 
Unidos. Putzi parece ter-se sentido atrado, acima de tudo, por seu desdm pela hipocrisia da moralidade convencional anglo-sax e por sua admirao pelo livrepensamento 
alemo. Tambm ajudou o fato de serem ardorosamente antibritnicos.
Ewers, que havia chocado o mundo literrio de sua terra com suas histrias de atavismo e sede de sangue, fazia uma figura pitoresca com seu monculo e cicatrizes 
causadas por sabres. Apesar de se casar duas vezes, parece que se sentia atrado por homens e freqentava crculos homossexuais. Ele e Putzi conheceram-se no fim 
de 1914, aparentemente na galeria, e, apesar de Ewers ser 16 anos mais velho, os dois foram amigos prximos por muitos anos.
Ewers estava viajando pela Amrica do Sul quando a guerra foi deflagrada e subiu para Nova York. Como Putzi, ficou preso no lado errado do Atlntico e no podia 
retornar ao seu pas. Impedido de servir a sua nao, no campo de batalha, voltou-se para a propaganda pr-alem, escrevendo para uma revista de lngua inglesa, 
The Fatherland, "dedicada a fazer justia  Alemanha e  ustria". Ewers foi mais do que um mero
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propagandista poltico: estava tambm determinado a experimentar tudo o que Nova York tinha a oferecer. Suas experincias a, durante a guerra, serviram de base 
para
o seu romance Vampir, que foi lanado na Alemanha em
1920. O livro, que fala de uma doena estranha que ataca um alemo, Frank Braun, e que s pode ser curada ao se beber o sangue de uma judia, chocou muita gente com
a sua descrio de sexo e do uso de peiote. Foi descrito de maneiras diversas pelos crticos como um "labirinto amoral de caminhos em um atoleiro sexualmente patolgico"
e como "uma comdia divina e uma stira combinadas". Ewers foi descrito por um crtico como um Marqus de Sade alemo.
Putzi no revela at que ponto participou das atividades libertinas com Ewers. Mas admitiu, na verso alem de sua autobiografia, que Vampir foi "uma reproduo, 
em uma forma acidamente estranha, de suas [de Ewers] e de nossas experincias em Nova York-um misto de sexo e saudade da Alemanha". De maneira significativa, Putzi 
tentou mais tarde diminuir a importncia da sua relao com Ewers declarando, em um artigo publicado em 1951 - oito anos depois da morte do escritor-que tinham se 
conhecido somente em 1917. No entanto, foi obrigado a dizer a verdade depois de uma troca de cartas irada com a viva de Ewers, Josephine. "Sei to bem quanto voc 
sobre a longa amizade que existiu entre voc e ele [Ewers]", escreveu ela. O fato de Putzi ter faltado com a verdade pode ser atribudo, em parte, a seu esforo 
para desvincular seu nome ao de um homem que havia permanecido intimamente identificado com os nazistas. Entretanto,  difcil evitar a impresso de que tambm relutou 
em deixar aparecer at que ponto se aventuraram juntos no lado mais amargo da vida de Nova York.
O afundamento do Lusitnia no foi a nica causa do sentimento antigermnico cada vez mais intenso nos Estados Unidos. A raiva tambm estava sendo incitada por uma 
srie de exploses misteriosas em fbricas que produziam munio e outros suprimentos essenciais para o esforo de guerra aliado. A mais dramtica foi na noite de
29 de julho de 1916. O per Black Tom, em New Jersey, em frente  esttua da Liberdade e apinhado de
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milhares de toneladas de munio, pegou fogo e explodiu. A exploso estilhaou janelas em Times Square, balanou a Brooklyn Bridge e despertou os que dormiam at 
mesmo em Maryland. A munio no per estava destinada  Inglaterra, Frana e Rssia, para que a usassem contra a Alemanha. As autoridades no precisaram de muito 
tempo para se darem conta de que a exploso tinha sido obra de sabotadores alemes promovendo uma campanha para impedir que suprimentos dos neutros Estados Unidos 
chegassem aos inimigos de seu pas.
Wilson foi reeleito com o slogan "Ele nos mantm fora da guerra", mas os Estados Unidos estavam, de qualquer maneira, tendendo a participar do conflito. Em 3 de 
fevereiro de 1917, dois dias depois de a Alemanha incrementar a atividade de seus submarinos, as relaes entre Washington e Berlim foram cortadas. Em 9 de maro, 
Wilson ordenou o armamento dos navios mercantes norte-americanos para que pudessem se defender dos ataques dos submarinos alemes. Um ms depois de as resolues 
passarem pelo Senado e pela Cmara dos Deputados, o presidente declarou guerra. A me de Putzi, que, ao contrrio do filho, tinha conseguido atravessar o Atlntico, 
estava na poca em Nova York. Retornou  sua terra em 5 de maio no "navio da embaixada".
A entrada dos Estados Unidos na guerra teve conseqncias imediatas e desastrosas para os negcios da famlia. Putzi administrava a galeria com a procurao que 
sua me lhe passara em maro de 1912. Como tal, foi considerado um negcio estrangeiro segundo a lei comercial e precisava de uma licena para continuar a funcionar. 
Embora Putzi tenha sido rejeitado no comeo, seus advogados acabaram conseguindo uma licena temporria que lhe permitia gerir o negcio sob a superviso da Alien 
Property Custodian.
Enquanto Putzi lutava para manter o negcio, estava sendo, assim como alemes importantes, vigiado pelas autoridades dos Estados Unidos. Um relatrio para o Department 
of Justice's Bureau of Investigation, em fevereiro de 1917, expressava apreenso em relao  sua lealdade potencial. Putzi, dizia o relatrio, era um "reservista 
alemo, um cavalheiro instrudo e da classe alta". Seu autor lembrou como antes da guerra Putzi tinha explicado a vrios membros do Harvard Club, usando um mapa 
da Europa,
como o exrcito alemo atravessaria a Blgica, capturaria Paris, impondo depois seus prprios termos  Rssia. Um conflito desse tipo, assegurou-lhes, estaria encerrado
em seis semanas - a Inglaterra no teria tempo suficiente de desembarcar um exrcito para causar muitos danos. "Como a maioria dos membros do Harvard Club  de pr-aliados, 
ele se ressentiu e renunciou ao clube", prosseguia o documento. "No  um homem de instinto criminoso, mas, se for declarada a guerra entre a Alemanha e os Estados 
Unidos, provavelmente ser melhor que seja preso, pois tem a capacidade de um oficial para liderar homens aqui ou no Mxico."
Preocupaes semelhantes foram expressas em outra carta enviada s autoridades, nesse maio, por um membro do cl Roosevelt. "Conheo o Sr. Hanfstaengl h muitos 
anos e, apesar de no v-lo desde maio do ano passado, sei que  violentamente antiamericano, que manteve contato ntimo com a embaixada alem antes desta partir, 
 inteligente e competente ao extremo, e um admirador quase fantico de sua terra natal", escreveu Nicholas Roosevelt. Sua concluso foi severa: "Consequentemente, 
considero-o um homem perigoso e acredito que, de fato, seria melhor que fosse mandado para Ellis Island."
Mas Putzi tinha um bom advogado, Elihu Root, ex-senador, que havia sido ministro das Relaes Exteriores de Theodore Roosevelt. Assim, em troca da promessa de no 
envolvimento em atividades antiamericanas, Putzi obteve autorizao para permanecer em liberdade. No entanto, seu negcio sofreu uma mudana para pior nos meses 
finais da guerra. Apesar da garantia de sua licena provisria, o Alien Property Custodian assumiu o ativo da galeria e, por fim, vendeu-o em um leilo artificial 
em julho de 1919. Alcanaram o preo de apenas 8.200 dlares - uma frao do meio milho de dlares que Putzi considerava que valia.
Depois do Armistcio, Putzi pde estabelecer um pequeno negcio prprio na rua 57 Oeste, n 153, logo em frente ao Carnegie Hall. Chamou-o de Academy Art Shop. Mas 
a guerra tinha abalado a antiga ordem econmica. "As pessoas que enriqueceram rpido no tinham interesse nas belasartes", escreveu Putzi. "As pessoas que tinham 
interesse na arte no tinham
um tosto."
EM 13 DE DEZEMBRO DE 1919, uma jovem entrou na AcademyArt Shop. Como Putzi, Helene Elise Adelheid Niemeyer era de origem germanoamericana. Tambm era alta, loura 
e extremamente atraente.
Putzi ficou encantado em rev-la. Tinham-se conhecido semanas antes em um baile beneficente no Waldorf-Astoria Hotel. Helene estava acompanhada de Otto Julius Merkel, 
um amigo de Putzi que mais tarde se tornaria diretor da Lufthansa, a companhia area alem. Sentiram-se logo atrados um pelo outro, mas a lealdade a Merkel impediu-o 
de tomar qualquer iniciativa. Portanto ficou contente, e no menos surpreso, quando ela apareceu de sbito em sua loja. A razo de sua visita, alegou ela, foi um 
carto que acabara de receber da Alemanha, do amigo comum Ewers, que retornara  sua terra depois da guerra. O escritor tinha-lhe pedido que desse um abrao em Putzi. 
Era um pretexto nada convincente, e os dois sabiam disso. Helene tinha ficado intrigada com Putzi e estava ansiosa por rev-lo. Mas a rapidez com que os eventos 
se desenrolaram surpreendeu os dois. Ficaram noivos na mesma noite e a data do casamento foi acertada para dali a dois meses.
Na manh de 11 de fevereiro de 1920, o trigsimo terceiro aniversrio de Putzi, casaram-se em Long Island, em uma cerimnia civil que durou apenas doze minutos. 
Depois Putzi voltou  loja e Helene ao escritrio em que trabalhava como secretria. Nessa noite, os recm-casados jantaram na casa dos pais de Helene, em Elmhurst, 
no Queens. Houve muitas lgrimas algumas horas mais tarde, quando Putzi partiu com sua noiva e
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atravessaram a neve pesada, com suas malas, em direo  estao de ferro. Foram levados ao Judson Hotel, na Washington Square, Nova York, onde iniciaram a vida
de casados.
Putzi estivera solitrio e desorientado durante anos, como se "definhasse com a vida longa, solitria, lenta". Helene chegou na hora certa. "No momento psicolgico 
em que eu, por assim dizer, me encontrava  beira do abismo, Helene Niemeyer apareceu - ou melhor, Schnappel, como eu a chamava", escreveu ele  sua me nesse ms
de maio. Apesar da aparente impetuosidade de seus atos, estava pronto para declarar a sua unio um sucesso: embora cauteloso em fazer profecias, os trs meses intervenientes
tinham mostrado que "os passos que eu tinha dado tinham sido certos", disse ele.
J antes do casamento, Putzi tinha comeado a questionar se o seu futuro estava nos Estados Unidos ou na Alemanha. A galeria oferecia uma renda estvel, mas no 
grande e suficiente o bastante para sustent-lo e a Friedrich Denks, que se tornara seu scio na nova aventura. O casamento de Putzi tornou a questo financeira 
mais crtica. As relaes entre os dois homens se deteriorava e parecia claro que um deles deveria regressar  Alemanha. Putzi, de fato, queria rever sua terra, 
mas estava apreensivo em relao ao retorno e inseguro quanto ao papel que desempenharia na firma da famlia. O problema principal era seu irmo mais velho, Edgar, 
que havia assumido os negcios aps a morte do pai e subestimava abertamente os talentos de Putzi. Uma carta que Edgar lhe enviou um ms depois de seu casamento, 
descartando um trabalho em Munique, deixou-o profundamente irritado.
"Ele parece me achar um completo idiota, que precisa ter sempre uma bab do lado para viver", escreveu Putzi, de certa forma desesperanado,  sua me em maio. "Que 
tipo de atividade ele pode me oferecer na empresa de Munique se me considera to incompetente?" A idia de se tornar um "parasita" ao retornar  Baviera no era 
nada atraente. A crtica de Edgar pareceu ainda mais injusta a Putzi devido ao progresso que estava realizando com a galeria de Nova York. Aps alguns meses bem-sucedidos, 
embora bastante cansativos, estava indo bem e j tinha liquidado suas dvidas com a empresa dos pais em Munique. De modo geral, Putzi parecia
orgulhoso de seus negcios e relutou em abrir mo deles. "O melhor seria eu permanecer com o negcio aqui, que agora me mantm satisfatoriamente, at que se torne
uma subsidiria da Franz Hanfstaengl de Munique ou outra soluo vantajosa seja encontrada", concluiu ele. Parece que era Denks que regressaria  sua terra.
As circunstncias logo se modificaram: Helene engravidou. Egon nasceu em 3 de fevereiro do ano seguinte, no Lenox Hill Hospital, em Manhattan. Embora Egon estivesse 
automaticamente qualificado para obter a cidadania americana, Putzi preferiu que fosse criado na Alemanha. Com nostalgia da terra natal, apesar das razes que estabelecera 
durante a estada nos Estados Unidos, no fundo ainda se sentia um alemo: to alemo quanto seu pai e seus dois irmos que haviam morrido durante a guerra. To alemo 
que retornara ao pas para prestar o servio militar. A impresso dada de desertar de sua ptria quando a guerra foi deflagrada, disse ele, foi meramente porque 
qualquer tentativa de regressar teria resultado em "99 por cento de chance" de ser capturado pelos britnicos.
Helene pensava da mesma maneira. Embora criada nos Estados Unidos, havia sido em um meio distintamente alemo. Seu pai, Johann, um relojoeiro, tinha emigrado na 
dcada de 1880 de Bremen para os Estados Unidos, onde se casara com Elina Magnus, uma costureira, ela prpria uma imigrante recente. O alemo, e no o ingls, continuou 
a ser falado em sua casa em New Jersey. Helene tambm queria muito retornar  terra natal de seus pais.
Putzi comeou as negociaes com Denks de como seu scio poderia continuar a gerir a loja e, por fim, assumi-la integralmente. Antes de atravessar o Atlntico, Putzi
teve mais um obstculo administrativo a superar: como alemo, precisava de permisso do Ministrio das Relaes Exteriores para deixar os Estados Unidos. No vero
de 1921, finalmente a obteve e, em 5 de julho, ele, Helene e Egon zarparam de Hoboken a bordo do cruzeiro Amerika, rumo ao porto de Bremen, no norte da Alemanha.
Putzi viajou com documentos expedidos pelo consulado de Nova York, que estava tratando dos interesses alemes no perodo ps-guerra imediato.
Fazia uma dcada que no pisava em seu pas, e ele e Helene tinham grandes esperanas em relao ao que encontrariam l: esperavam ser
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capazes de "unir os fragmentos de (...) [suas] vidas, torcendo para terem, na Alemanha, uma chance de recuperar a independncia econmica". A situao no se revelou
assim to simples. A travessia deu-lhe muito tempo, entretanto, para ponderar os motivos e expectativas dos alemes que, como ele, tinham decidido regressar  ptria. 
"O relgio tinha parado no dia em que seu vapor zarpou da costa da terra natal", escreveu ele mais tarde. "A ltima impresso levada tendo sido uma imagem querida-a 
viso de uma Alemanha imutvel e idealizada."
Ficaram alguns dias em Bremen com o tio e a tia de Helene, antes de pegarem o trem para o sul, para a Baviera. Prevista para 12 horas, a viagem durou vinte interminveis 
horas. Os servios da rede ferroviria alem ainda precisavam de tempo para alcanar a regularidade e eficincia de antes da guerra. O casal foi recebido na estao 
de ferro central de Munique pela famlia de Putzi, que, com a morte de seu pai e dois irmos, se reduzia  me, seu irmo mais velho, Edgar, e sua irm, Erna. Tomaram 
um nibus velho e instvel at o Hotel Vierjahreszeiten, onde comeariam sua nova vida. Enquanto atravessavam a cidade, Putzi ficou impressionado com a aparncia 
miservel, sem pintura, das casas e da fachada descascada do Great Court Theatre.
O hotel era um dos melhores de Munique, mas aparentemente sem servio de restaurante. O problema mais imediato era encontrar um pouco de leite para Egon, que berrava 
de fome. O leite estava estritamente racionado e a nica soluo foi encomendar uma grande quantidade de caf, cada um acompanhado de uma pequenina jarra de creme. 
Helene logo percebeu que os gneros de primeira necessidade, que nunca faltavam nos Estados Unidos, como leite, manteiga e ovos, eram escassos na misria da Alemanha 
ps-guerra. Felizmente, a me de Putzi, nesse meio tempo, tinha comprado uma pequena fazenda no Staffelsee, aos ps dos Alpes. Egon logo teve uma fonte segura de 
leite.
O casal alugou um pequeno apartamento na Gentzstrasse l, em Schwabing, parte da cidade ao norte da universidade, que Putzi gostava de chamar de o Montparnasse de
Munique. Pertencia  enteada do pintor Franz von Stuck. Era muito simples: apenas trs cmodos, alm de uma sacada, onde punham o carvo e secavam a roupa lavada.
Sua nova casa foi mais um choque para Helene: os cmodos com tetos altos eram extremamente
frios no inverno.
O primeiro desafio de Putzi foi esclarecer sua posio perante a empresa da famlia. Seu receio de que Edgar tentasse exclu-lo se confirmou. Em outubro de 1917,
enquanto Putzi estava nos Estados Unidos, um novo contrato havia sido assinado, em que Edgar representava os interesses de seu irmo ausente e o status de Putzi 
reduziu-se ao de um scio comanditrio. Putzi ficou furioso, principalmente porque no foi feito nenhum contato antes de o documento ser assinado. Seguiu-se uma 
batalha amarga entre os dois irmos.
Uma trgua, se assim podemos dizer, foi declarada, por fim, em abril de 1923, quando o contrato foi substitudo por outro. Segundo o novo documento, Edgar e Putzi 
receberiam, cada um, RM (marco do Reisch)
2.100.000 em aes, com RM 900.000 para Kitty e Erna. Edgar, entretanto, era o scio principal, e os trs outros, scios menores. Se Putzi quisesse desfrutar o mesmo 
status do irmo, teria primeiro de trabalhar para a empresa por um ano e, depois, poderia ser promovido a scio principal somente por votao unnime. Ele nunca 
perdoou Edgar pela maneira como foi tratado. Como tantas rixas familiares, as coisas s fizeram piorar com o passar dos anos.
Putzi foi obrigado a elaborar outro plano para se manter. Agora no comeo da faixa dos 30, decidiu voltar a se dedicar aos estudos acadmicos, apesar de sua atuao 
nada brilhante em Harvard. Seu objetivo era conseguir ensinar na universidade. Escolheu histria, concentrando-se em duas figuras muito diferentes - reflexo das 
duas direes pelas quais, como germano-americano, sentia-se atrado. Seu primeiro tema era o "louco" rei Ludwig II - o excntrico rei-poeta da Baviera, famoso por 
ter construdo o castelo de contos de fadas de Neuschwanstein -, que se afogou no lago Starnberg, sul de Munique, em 1886.
O rei, que tinha sido admirador e protetor de Richard Wagner, era um tema atraente, e o estudante que renascera mergulhou com entusiasmo na tarefa, conversando com 
cantores de pera e criados que o haviam
conhecido, reconstituindo os seus movimentos.
O segundo tema de Putzi era Benjamin Thompson, mais tarde elevado a conde de Rumford, patriota e reformador social norte-americano que
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remodelou a administrao e vida pblica da Baviera na dcada de 1780 em nome do arcebispo-eleitor de Mainz, Karl Theodor. Enquanto Ludwig atraa o lado romntico
de Putzi, Rumford parecia oferecer o modelo de algum, vindo dos Estados Unidos, que tinha sido capaz de dar uma contribuio significativa  vida na Alemanha - 
algo que o prprio Putzi ansiava fazer. Designado em 1784, Rumford tinha comeado a lidar com problemas sociais considerveis da poca: cozinhas pblicas para desabrigados 
foram instaladas onde a chamada Sopa Rumford era distribuda; mendigos foram retirados das ruas e colocados no exrcito ou em trabalhos altamente arregimentados, 
onde realizavam obras pblicas e ajudavam no desenvolvimento de indstrias manufatureiras subsidiadas pelo Estado. Putzi, percebendo paralelos entre os problemas 
na poca do conde Rumford e no seu prprio tempo, props-se a escrever um livro sobre ele. Rudolf Kommer, escritor austraco que ele conhecera em Nova York, ficou 
to intrigado com o tema que props at mesmo fazer um filme. Os dois trabalharam em um roteiro em uma vila em Garmisch-Partenkirchen, mas que, segundo Putzi, resultou 
em algo com "as dimenses de Guerra e paz, de Tolstoi". No  de admirar que o filme nunca tenha sido realizado. Mas Putzi gostou da experincia. Atravs de Kommer, 
conheceu Fritzi Massary, a famosa prima-dona de Berlim, e seu excntrico marido, Max Pallenberg. Apesar de Putzi e Kommer divergirem com freqncia em relao ao 
trabalho, concordavam com o lema de Pallenberg - cogito, ergo bibamus - penso, logo bebamos.
Como Putzi tinha temido ao atravessar o Atlntico, a Alemanha  qual regressava era muito diferente do pas que ele vira antes da guerra. Sentiuse um estranho em 
uma terra ainda mais estranha. Uma dcada depois, j com os nazistas no poder, pintou um quadro sombrio de seu pas. "A Alemanha era um urso domesticado, doente, 
sem rumo, sendo conduzida por vigaristas astutos", escreveu ele. A caracterstica dominante de seus compatriotas era a apatia, unida  falta de amor-prprio. "A 
Alemanha era como
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um cavalo que corria contra um muro de pedra no porque estava cega, mas porque simplesmente no estava nem a."
A renncia imposta do kaiser, em novembro de 1918, e a proclamao, em agosto do ano seguinte, de uma nova constituio alem, em Weimar, tinham anunciado o nascimento
de um novo pas. Mas a Repblica de Weimar, como ficou conhecida, no foi amada por seus cidados desde o comeo. Alm disso, estava irremediavelmente dividida em
um nmero desconcertante de partidos polticos: em um extremo do espectro estavam os comunistas, estimulados e confiantes depois da revoluo bolchevique de 1917, 
e convencidos de que a Alemanha estava pronta para seguir o exemplo. No outro, estavam os nacionalistas vlkisch. No meio dos dois extremos estavam todos os outros 
partidos.
Os problemas da nao agravaram-se ainda mais com a rivalidade entre as autoridades federais em Berlim e o governo do estado da Baviera. Isso s fez se intensificar 
depois da posse, em maro de 1920, de Gustav Ritter von Kahr, um monarquista antiquado, de direita, como primeiro-ministro. Von Kahr estava determinado a transformar 
seu estado em uma "clula de ordem", comprometida com valores nacionalistas verdadeiros, mesmo que isso o colocasse em antagonismo com os social-democratas, que 
dominavam em Berlim. Sob a administrao de Von Kahr, a Baviera tornou-se rapidamente um refgio
para os grupos vlkisch, unidos pelo nacionalismo extremo, antissemitismo
e desejo de retornar ao passado teutnico glorioso ainda que mtico. As diversas milcias locais e exrcitos privados, que j contavam com mais de 300 mil soldados,
aumentaram com o influxo de direitistas e nacionalistas de outras partes da Alemanha, decididos a usar a Baviera como base para a sua luta contra o que repudiavam
como os "Judeus da Repblica". Foi nesse contexto que Adolf Hitler, o ex-pintor de paredes austraco de nascimento, recentemente dispensado do servio como voluntrio
no exrcito bvaro, fez sua primeira incurso experimental na poltica de Munique.
Putzi, por temperamento e formao, sentiu-se naturalmente atrado pelos ideais dos nacionalistas, principalmente por sentir nostalgia da segurana da era anterior
 guerra. Tambm tinha conscincia de que vrios dos grupos eram pouco mais do que relquias de uma era perdida. Depois
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de quase uma dcada vivendo nos Estados Unidos, era natural que sentisse simpatia pelos partidos democratas que surgiam na Repblica de Weimar. Ainda assim, eles
lhe pareciam pouco mais que uma "caricatura lamentvel" do que havia visto em Boston e Nova York.
Como muitos dos intelectuais alemes, Putzi entristeceu-se com o que estava acontecendo com o pas, ainda que no acreditasse que os grupos, da esquerda ou da direita, 
tivessem uma soluo para os problemas. Alm do mais, nunca se envolvera com poltica e no pretendia se envolver agora. Com livros a escrever sobre o rei Ludwig 
e Benjamin Thompson - assim como com uma esposa e um filho -, tinha mais do que o suficiente com que se ocupar. Tudo isso mudaria, entretanto, quando, a convite 
de Truman Smith, foi pela primeira vez escutar Hitler falar.

PARTE 2
REFINANDO HITLER
POUCO DEPOIS DE Putzi ver Hitler no Kindlkeller, teve a segunda chance de ouvi-lo. A impresso dessa vez foi muito menos poderosa: a voz pareceu ter perdido muito
de seu magnetismo e fora. Talvez tenha sido porque Putzi chegou atrasado e, sem querer chamar a ateno, tenha assistido  distncia, da porta. Mesmo de longe, 
o texto lhe desagradou. O governo francs estava ameaando reocupar o Ruhr e Hitler defendia a resistncia usando a guerrilha, se fosse preciso. Para Putzi, era 
a linguagem de um facnora, no de um poltico racional: um pas densamente povoado como a Alemanha no se prestaria facilmente a uma campanha militar levada por
"bandos irregulares de franco-atiradores". Esse chamado s armas tambm era sintomtico das opinies alarmantes que Hitler expressava sempre que desviava para a
poltica externa - conseqncia, segundo Putzi, de sua ignorncia do mundo alm da Alemanha e da ustria.
Ainda assim, havia, sem dvida, algo em Hitler que o atraa e intrigava: "um certo ingrediente cosmopolita, o faro do Danbio-aquele horizonte poltico alemo mais
rico, que vi quando estudante na Viena poliglota". Estava ansioso por rev-lo, de preferncia a ss, para descobrir o que estava "por trs do crebro desse homem 
curioso". Quanto s opinies de Hitler sobre a poltica externa, ocorreu-lhe uma idia, que mais tarde se tornaria quase uma obsesso: de que poderia gui-lo a uma 
abordagem mais razovel e mais racional.
Putzi foi ao escritrio de Max Amann, que servia de base para o novato movimento nacional-socialista. O prprio Amann estava l, assim como
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Hermann Esser, jornalista e orador talentoso que havia sido socialista, e Christian Weber, um ex-comerciante de cavalos, homem rude, quase to largo quanto alto,
com um imenso bigode  la kaiser. Acharam engraado o recm-chegado desengonado, com sua testa imensa, queixo bastante pronunciado e maneirismos excntricos. Putzi,
que estava acostumado a freqentar crculos sociais mais nobres na Alemanha, assim como nos Estados Unidos, no se impressionou ao v-los. Quando foi levantada a
questo de se unir ao partido, pediu para ser colocado em uma lista de membros secretos. Receava que uma declarao aberta de seu entusiasmo pelo movimento o expusesse
ao deboche da sociedade elegante de Munique.
No entanto outro homem presente, Kurt Ldecke, percebeu rapidamente os benefcios que algum da posio social de Putzi poderia trazer aos nazistas. "O empado de
Hitler precisava de uma crosta por cima", comentou mais tarde. "Provavelmente encontraramos um trabalho especial para um homem desse tipo fazer." Desse modo, tirou
rapidamente um lpis dourado e, pondo um formulrio de inscrio como membro do partido diante de Putzi, tentou persuadi-lo a assinar pela soma principesca
de um dlar por ms - o que, com a moeda alem se desvalorizando rapidamente por causa da inflao descontrolada, valia aproximadamente seis mil marcos. Putzi
sentiu-     se pressionado por Ldecke e protelou assinar at Amann sair de sua sala.
No foi uma coincidncia Ldecke ter tomado a iniciativa de recrut-lo. Como Putzi, ele era uma espcie de estranho que havia posto uma pitada cosmopolita no que,
de modo geral, era um fenmeno bvaro. Trs anos mais novo do que Putzi, tinha nascido em Berlim, mas, aps prestar o servio militar, fora para Londres e depois
para a Frana. Alegava ter-se tornado um jogador bem-sucedido - de fato, to bem-sucedido que poderia viver confortavelmente de sua renda. Na verdade, parece que
foi um chantagista que se especializara em ter encontros homossexuais com amigos ricos, extorquindo dinheiro deles para vender seu silncio. A guerra interrompeu
temporariamente suas atividades e ele se alistou no exrcito alemo. Foi desligado depois de apenas dois anos, e em 1921 tinha-se estabelecido em Munique, onde se
dedicava a diversos projetos comerciais e parecia ter uma soma considervel de dlares em seu nome. Como Putzi, tambm se unira ao movimento depois de escutar Hitler
falar.
Putzi antipatizou imediatamente com essa "figura espalhafatosa", que ele considerava "um caso patolgico de megalmano, impostor, escroque, ou at mesmo um espio".
Mais tarde, quando tinha se insinuado o suficiente no partido, indagou sobre ele e foi tranqilizado ao saber que Amann partilhava suas suspeitas. "Ele tenta dar
a impresso de um lorde com acesso a dinheiro no exterior", disse Amann. "Temos gente de todo tipo aqui e ele pode vir a ser til, mas estamos de olho nele."
Logo depois de sua iniciao secreta, Putzi teve a chance do encontro mais ntimo com Hitler, que ele tanto desejava. Ele e Helene foram, com amigos, escut-lo no
Zirkus Krone. Depois do discurso, Putzi abordou Hitler e apresentou a sua mulher. Hitler ficou encantado com esse germano-americano e aceitou de pronto o convite
para ir  sua casa. No demorou e Hitler passava pelo pequeno apartamento na Gentzstrasse quase diariamente, para almoar ou tomar um caf - que tomava com um pedao
de chocolate dissolvido. Apelidou sua casa de Caf Gentz e, s vezes, levava Hermann Gring, um antigo membro do movimento com quem Putzi simpatizou de imediato,
e a sua aristocrtica esposa sueca, Karin.
As conversas eram sobre vrios assuntos: grande parte do tempo, inevitavelmente, giravam sobre a situao poltica e como melhor explor-la. Putzi partilhava com 
Hitler seu conhecimento do mundo fora da Alemanha, especialmente dos
Estados Unidos. Alegou mais tarde que o brado Sieg Heil - e o acompanhamento do movimento do brao -, que se tornou uma caracterstica dos comcios nazistas, era
uma cpia direta da tcnica usada pelos animadores de torcida norte-americanos e que fora ele que o tinha ensinado a Hitler. Tambm foi por iniciativa de Putzi que
os nazistas comearam a usar o estilo de msica das universidades americanas nos comcios para excitar a multido, enfatizando o contraste com as prelees polticas
montonas dos outros partidos.
Putzi tambm incitou Hitler a ler a bblia luterana, que considerava que "contm um perfeito arsenal de passagens vigorosas, muito teis no combate aos bolcheviques
ateus, e duplamente conveniente para a Baviera, terra
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do Festival da Paixo de Oberammergau". Depois ele reconheceria um nmero cada vez maior de frases bblicas introduzindo-se furtivamente nos discursos de Hitler: 
a descrio de si mesmo como um "tocador de tambor" marchando  frente de um grande movimento de libertao, por exemplo, parecia refletir uma tendncia a identificar-se 
com Joo Batista. Porm era freqente a conversa na casa de Putzi voltar-se para as experincias de Hitler em tempo de guerra, e ele descreveria detalhadamente as 
batalhas do Somme ou Aisne, usando a habilidade da mmica para imitar os sons diferentes das armas portteis, bombas e artilharia inglesas, francesas e alemes.
Putzi no temia expor suas opinies durante essas conversas, nem mesmo em termos pessoais. No gostava do bigodinho de Hitler - apelidado de Rotzbremse, ou trava-catarro, 
no dialeto bvaro - e durante uma visita insistiu em que o deixasse crescer, de modo que se estendesse sobre a boca toda.
- Veja os retratos de Holbein e Van Dick. Os velhos mestres nunca imaginaram uma moda to feia - disse Putzi.
- No se preocupe com o meu bigode - replicou Hitler. - Se no  moda agora, ser mais tarde, porque eu o uso.
Hitler tambm estabeleceu rapidamente uma relao com o menino Egon e foi seu padrinho. Em uma de suas primeiras visitas, chegou quando o menino estava chorando 
por ter batido o joelho em uma cadeira. Putzi bateu na cadeira, que tinha os braos na forma de cabeas de leo, como se a castigasse, e Hitler o acompanhou imediatamente. 
Depois disso, sempre que Hitler chegava, ele batia no leo e perguntava a Egon se estava se comportando bem. O menino afeioou-se ao homem, que logo passou a chamar 
de tio Dolf. Anos depois, Egon lembrou-se de como Hitler ficava de quatro e brincava de trem com ele, imitando tudo com perfeio, da lufada de vapor da locomotiva 
ao rudo dos apitos dos sinaleiros. "Era muito bom em entreter", disse ele. "Tinha um talento histrinico fantstico."
Hitler gostava desses momentos de vida familiar, j que no tinha sua prpria famlia. Seu pai, um homem agressivo e violento, que batia regularmente nos filhos, 
morrera quando ele estava com 14 anos, e perdeu a me logo aps completar 20 anos - que foi, disse ele a Putzi durante uma de suas conversas nos primeiros meses 
em que se conheceram, a "maior perda
que tinha sofrido". Os Hanfstaengl logo se tornaram uma espcie de famlia substituta para o futuro Fhrer.
Quando a camaradagem se desenvolveu, Putzi e Hitler saram, um dia, naquela primavera para assistir a um filme sobre a vida de Frederico, o Grande. Hitler gostou
especialmente da cena em que o rei prussiano ordenou que seu filho fosse executado por alta traio depois de fugir para a Inglaterra.
-  grandioso pensar que o antigo rei tenha mandado decapitar o prprio filho para impor a disciplina - disse ele a Putzi. -  assim que toda a juventude alem ter
de ser educada um dia.
- Nem todas as mes alemes concordaro com isso - replicou Putzi, enquanto Hitler fazia um gesto de desdm.
Nessa mesma noite, Hitler falou de novo no Zirkus Krone. Inspirado pelo exemplo de Frederico, quando o discurso se encerrava, ele gritou:
- Jovens alemes, a vitria depende de vocs! Tm de ser duros. Tm de aceitar uma disciplina austera para se tornarem supremos.
A multido saudou-o em frenesi, reforando o lugar do rei prussiano como seu heri.
Putzi retribuiu as visitas de Hitler, passando em seu modesto apartamento na Thierschstrasse. Quase sempre, Hitler estava sentado  sua mesa, trabalhando um discurso, 
usando uma suter preta simples e chinelos cinza de sola grossa. Podia levar seis horas para compor um discurso, esboando um plano em mais ou menos 12 grandes folhas 
de papel. Invariavelmente, trabalharia sozinho. Mas uma hora antes de aparecer, quando ficava andando de l para c, ensaiando mentalmente as vrias fases de seu 
argumento, choveriam ligaes de seus auxiliares mais prximos, descrevendo o humor nas ruas e como o salo estava enchendo rapidamente.
Dois anos depois, Hitler diria em uma carta a Alfred Rosenberg como tinha conhecido "um homem cujo fanatismo se dividia entre o amor pelo movimento e o dio por 
seu inimigos". Putzi, disse ele, "tornou-se um amigo pessoal". Mas como  possvel explicar plenamente a atrao entre os dois?
Para Putzi, o apelo principal foi sem dvida a sua convico, mesmo no estgio inicial da carreira poltica de Hitler, de que "o talento brilhante desse homem o 
levar ao topo". Com seu discurso franco e habilidade de tocar direto as necessidades do povo, Hitler poderia ser outro Theodore
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Roosevelt, pensava Putzi. Se Hitler subisse, ele queria subir junto. Mas tambm queria desempenhar um papel na configurao do partido. Para isso passou horas pesquisando
livros de histria, buscando as melhores analogias com lderes do passado, para conduzir Hitler no que ele considerava um caminho mais sensato. "Nessa poca, o meu 
nico pensamento eraonde posso encontrar material, modelos, sugestes e idias para Hitleridias que o ajudariam a ampliar seu apelo emocional", escreveu Putzi.
A atrao, para Putzi, no era exercida somente por sua ambio. Embora alarmado por grande parte do que Hitler dizia, via, em algumas de suas polticas, um remdio 
evidente para as doenas de seu pas. Tambm deve ter havido uma razo psicolgica mais sutil para ter-se aliado a Hitler: era difcil para Putzi se livrar da culpa 
que sentia por ter ficado fora da guerra em Nova York, portanto no pde evitar se deixar impressionar por um homem de ao que, alm de ter servido o seu pas, 
tinha sido condecorado por isso. Talvez, em alguns aspectos, Hitler lhe lembrasse Egon, seu irmo mais velho morto em batalha.
Todavia, formavam uma dupla estranha, o antigo cabo austraco em seu traje de sarja azul, justo, e o aristocrtico bvaro-americano. Hitler era reverente com Putzi 
e, ao conversarem, sempre empregava uma forma de tratamento que esse dizia ser "ainda imprescindvel na Alemanha, entre pessoas de classe social inferior ao se dirigirem 
queles de educao, ttulo ou nvel acadmico superior".
Em suas memrias, escritas depois da Segunda Guerra Mundial, Putzi repudiou as sugestes de que "refinou" Hitler ou lhe ensinou boas maneiras  mesa. No entanto, 
admite ter ficado constantemente perplexo com seus gostos estranhos, em especial por doces, que se manifestava por adorar os bolos austracos, altos e com creme. 
Em certa ocasio, viu com horror como Hitler, achando estar sozinho, despejou uma colher de sopa cheia de acar no vinho que Putzi acabara de lhe servir-o melhor 
Gewrztraminer da Prince Metternich.
Se Hitler era um diamante bruto, os outros membros de seu squito, no comeo, eram pedras ainda mais inferiores. Uma das figuras mais poderosas era Alfred Rosenberg,
que Putzi tinha conhecido quando acompanhava Truman Smith ao embarcar no trem. Filho de um sapateiro, nasceu
em 1893 em Tallinn, na Estnia, que ento fazia parte do imprio russo.
Acreditando-se um terico poltico, tornara-se antissemita e
antibolchevique, em conseqncia da revoluo russa, que testemunhou quando estudava arquitetura em Moscou. Em 1919, tinha-se instalado em Munique, putzi antipatizou 
de imediato
com ele. Parte disso foi pessoal: ficou pasmo com sua preferncia por roupas espalhafatosas e dizia que ele "tinha o gosto de um asno de um vendedor de frutas e
verduras". Dizia que Rosenberg "tinha uma teoria sobre ser desperdcio de dinheiro lavar camisas e as jogava fora quando se tornavam insustentveis, mesmo para seus
padres." Havia tambm algo dbio em relao  sua vida sexual, "um reflexo, talvez, da etnia trtara nele". Embora s recentemente casado, corriam "inmeras histrias
sobre a sua vida amorosa de mau gosto, que envolviam geralmente relaes mltiplas com meia dzia de homens e mulheres ao mesmo tempo em algum apartamento miservel
de uma rua afastada".
Putzi ficou igualmente espantado com o que considerava uma influncia perniciosa que Rosenberg exercia sobre a viso de mundo nada sofisticada de Hitler. De fato,
at a entrada em cena, vrios anos depois, do ainda mais poderoso Josef Goebbels, o futuro chefe da Propaganda, Putzi considerou Rosenberg "o principal antagonista
em minhas tentativas de fazer Hitler ver a razo". O principal problema, segundo Putzi, era que as idias e a estratgia militar de Hijjer estavam arraigadas no
passado, nas idias de Clausewitz e na obsesso deste com o equilbrio de potncias no continente europeu. Para desnimo de Putzi, Hitler no percebia a importncia
dos Estados Unidos e a necessidade de travar amizade com esse pas. A principal lio da Primeira Guerra Mundial tinha sido a de que qualquer conflito futuro seria 
necessariamente ganho pelo lado a que os Estados Unidos se unisse. Hitler, quando mostrava algum interesse pelos Estados Unidos, era somente por suas realizaes 
tecnolgicas, e no pela importncia geopoltica. A nica personalidade poltica a quem dedicava algum tempo era Henry Ford, e apenas porque a sua reputao de antissemita 
fazia com que Hitler o visse como uma possvel fonte de financiamento. Putzi era tambm puro desalento ao perceber que Hitler tinha fascinao Pelo Ku Klux Klan, 
considerando-o, erroneamente, um movimento poltico poderoso, com o qual poderia fazer uma aliana.
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Embora Rosenberg permanecesse a nmesis de Putzi, os outros que cercaram Hitler durante aqueles primeiros anos no causavam melhor impresso: Anton Drexler, um ferreiro 
e o fundador original do partido, que, a partir de ento, tinha se reduzido a pouco mais que presidente honorrio; Weber, o negociante de cavalos corpulento que 
"gostava de agredir violentamente comunistas"; e o misterioso tenente Klintzsch, um lder raivoso da cavalaria que se envolvera no golpe de Estado malogrado em Berlim, 
em 1920. Um dos poucos intelectuais e, portanto, uma das figuras que causavam impresso aos olhos de Putzi era Dietrich Eckart, poeta e tradutor para o alemo de 
Peer Gynt. Graas aos direitos com seus livros, Eckart contribuiu de maneira substancial para o fundo do partido. Tambm foi Eckart quem primeiro assumiu ser tutor 
de Hitler, mas, como Putzi notou, comeava a se arrepender.
Se, por um lado,  difcil entender como Putzi se sentiu atrado por Hitler, por outro, est evidente o que o ex-cabo viu nele. Hitler talvez sofresse de um complexo 
de inferioridade, mas estava ciente das vantagens de ter acesso  alta sociedade. Como declarou Ldecke: "A casa confortvel e culta de Putzi foi, incontestavelmente, 
a primeira a abrir as portas a Hitler." Putzi logo se tornou, mais do que tudo, um "admirador [de Hitler] (...) uma espcie de secretrio social, diligente em apresent-lo 
a anfitris."
Putzi esperava que com o contato com personalidades ilustres parte de sua erudio, cultura e maneiras refinadas o contaminassem. E assim, graas sobretudo s suas 
apresentaes, Hitler comeou a misturar-se com Hugo Bruckmann, um editor antissemita proeminente de Munique, e sua mulher, Elsa, e com os Bechstein, os construtores 
de piano. Eles, por sua vez, o convidaram para a sua casa de campo perto de Berchtesgaden e o apresentaram aos Wagner, em Bayreuth. Hitler ficou extasiado na sua 
primeira visita, naquele outubro,  Haus Wahnfried, o santurio de seu heri, Richard Wagner. O filho de Wagner, Siegfried, achou Hitler uma fraude; Winifred, sua 
esposa, nascida no Pas de Gales, achou que ele "estava destinado a ser o salvador da Alemanha".
A introduo de Hitler na sociedade burguesa foi constrangedora: fazia um papel excntrico nos sales dos ricos, quando aparecia usando seu chapu e capa de gngster, 
segurando um chicote. Putzi divertiu-se tanto quanto
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seus anfitries burgueses com a reao de Hitler ao deparar-se com a decorao da classe abastada. Em certa ocasio, Putzi e Helene ouviram, mal conseguindo reprimir
o riso, Hitler, depois que retornou do jantar com os Bechstein, em sua sute privada em um luxuoso hotel de Munique, mostrarse entusiasmado com a gua quente no 
banheiro deles. Outra noite, na casa dos Bruckmann, Hitler viu-se diante, pela primeira vez, de uma alcachofra.
- Mas, senhora - disse ele com a voz calma  sua anfitri imponente -, tem de me dizer como comer esta coisa. Nunca a tinha visto antes.
Mas, longe de desfavorec-lo, a timidez e a ingenuidade de Hitler deleitavam seus anfitries, especialmente as mulheres mais velhas como Frau Bechstein e Frau Bruckmann, 
que o tratavam quase como um filho adotivo. Bechstein pensava, inclusive, em uni-lo a sua filha, Lotte. Aparentemente com essa inteno, ela comeou a trabalhar 
a sua maneira de vestir-se, convencendo-o a usar roupas formais  noite e botas engraxadas, em vez de seu terno azul barato. At mesmo emprestou ao partido suas 
jias para serem usadas como cauo de um emprstimo de 60.000 francos suos de um comerciante de caf de Berlim.
E havia o piano de Putzi. Certo dia, Putzi passava pela casa de Hitler por volta do meio-dia e vendo um velho instrumento no corredor, do lado de fora do apartamento 
de Hitler, sentou-se e iniciou,  toa, um preldio de Bach. Hitler escutou-o sem demonstrar muita ateno, depois perguntou se ele conhecia alguma coisa de Wagner.
Putzi imediatamente ofereceu-lhe os acordes de Die Meistersinger von Nrnberg. Hitler ficou de l para c, em um estado de excitao, marcando o ritmo com as mos. 
Quando Putzi acabou, Hitler ficou paralisado, olhando estupefato o espao vazio.
- Devia tocar para mim, muitas vezes - disse ele. - No h nada melhor para me acalmar antes de enfrentar o pblico.
E, com isso, o papel de Putzi ficou definido como o responsvel pelo bom humor de Hitler. Tocava para ele quase sempre que o visitava, muitas vezes por duas horas 
seguidas. Hitler gritava, literalmente, com deleite enquanto Putzi tocava com "fioritura e inspirao romntica lisztiana". Seu repertrio era vasto, abarcando marchas 
de futebol americano e msicas da universidade, assim como clssicos. Mas o seu maior sucesso foi com
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Wagner, especialmente o preldio de Meistersinger ou o "Liebestod" de Tristo e Isolda. Putzi tocava muito bem Wagner, e Hitler, um amante da msica, colocava Wagner
entre os semideuses.
"Pronto! Devo ter tocado isso [Tristan und Isolde] centenas de vezes, e ele no se cansava", lembrou Putzi. "Fazia-lhe bem fisicamente ... Dava risinhos de prazer." 
A msica propiciava a Hitler o "relaxamento" que ele buscava, e ficou obcecado - a ponto de logo passar a ligar para Putzi e exigir que viesse  sua casa tocar. 
Para Putzi era um incmodo os "pedidos arrogantes" que exigiam seu tempo, mas obedientemente partia para a Thierschstrasse.
Querendo reforar seu papel de msico de Hitler, Putzi publicou um "songbook de Hitler", em 1924. Apesar de sua viso, as letras das msicas, que tinham ttulos 
como Hitler-Lied [Cano de Hitler], Deutsche Voran [Primeiro os Alemes] eDieHitler-Medizin [Medicina de Hitler], eram pura propaganda vlkisch, alertando contra 
uma conspirao judia e incitando  "ressurreio" do Reich alemo sob o smbolo da sustica dos nazistas. Mas Putzi sabia compor uma melodia cativante e as canes 
sempre "pegavam" nos comcios do partido.
Outro lado atraente de Putzi para Hitler eram, sem dvida, as duas mulheres em sua vida - sua irm, Erna, e sua mulher, Helene. Na primavera de 1923, o MnchenerNeuesteNachrichten,
























 o jornal mais lido em Munique, publicou uma matria dizendo que corriam rumores de que Hitler estaria noivo de Erna. Era uma inveno, mas Hitler sentiu-se claramente 
lisonjeado. Quando Putzi lhe perguntou o que diria aos jornalistas que checavam a matria, ele respondeu: "Autorizo-o a dizer  imprensa que nunca ficarei noivo 
de nenhuma mulher, nem me casarei. A nica noiva verdadeira para mim  e sempre ser o povo alemo." O paralelo com a descrio na literatura crist da Igreja da 
verdadeira noiva de Cristo foi evidente demais: era, segundo Putzi, a confirmao do que mais tarde se tornaria o "complexo de messias" de Hitler.
No obstante, Hitler continuou fascinado por Helene, que possua as. virtudes gmeas em seus olhos de ser glamourosa e vir de boa famlia. Tampouco parece ter feito
qualquer tentativa de ocultar sua atrao - o que aborrecia grande parte do partido. No que foi claramente uma referncia
a Helene, Gottfried Feder, personalidade importante no movimento, redigiu uma circular queixando-se de que Hitler "punha a companhia de belas mulheres acima de seu
dever como lder do partido". Quase duas dcadas depois, durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler falou a uma platia em uma festa a que comparecera no Bayerische
Hof Hotel durante aquele tempo: estava cheio de mulheres, mas ento "uma entrou [que era] to bela que, do seu lado, todos desapareciam ... era Frau Hanfstaengl",
disse ele. Putzi parece que no sentia cimes - percebia que no passava de uma paixonite de Hitler. A atrao nunca era fsica, mas demonstrada com "flores, beijos
na mo e um olhar de adorao".
Helene, por seu turno, no pensava muito em Hitler no comeo. Na verdade, sua primeira impresso sobre ele foi a de "um homem jovem, magro e tmido com uma expresso 
distante nos olhos azuis". Quanto  sua aparncia, ele era "realmente pattico". Mas parece que desenvolveu, ao longo dos anos, um fascnio por ele: dcadas depois 
recordou a "qualidade vibrante e expressiva" da voz de Hitler. O "imenso poder" de sua voz tambm tinha atrado seu marido, que ficou profundamente comovido com 
seus "efeitos sonoros nicos". Mas ela parece no ter tido nenhuma iluso quanto a qualquer tipo de relacionamento sexual. Quando Putzi falou com ela sobre os boatos 
de que Hitler estava tendo um caso com Jenny Haugg, a irm de seu motorista, Helene foi desdenhosa. "Putzi", replicou ela, "j disse, ele  neutro."
To importante para o futuro do movimento nazista quanto a sua relao com Hitler foi a sua contribuio financeira. Seu patrocnio mais significativo relacionava-se 
ao Vlkischer Beobachter, o modesto semanrio de quatro pginas do partido. Hitler sabia que deveria melhorar o jornal se iria construir o seu nome como orador, 
mas faltava-lhe o dinheiro para isso. Por sorte, Putzi acabara de receber mil e quinhentos dlares, uma das parcelas por ter cedido sua parte da Academy Art Shop, 
em Nova York, a Friedrich Denks. Mil desses dlares, convertidos aos marcos rapidamente desvalorizados, seriam o bastante para comprar duas mquinas de
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impresso rotativa americanas necessrias para rodar o Beobachter diariamente, como os jornais a que Putzi estava habituado nos Estados Unidos. Originalmente, tinha 
destinado
esse dinheiro  compra de uma casa em Munique, mas em maro de 1923 concordou em d-lo ao partido como um emprstimo sem juros, a ser pago em dois meses. Helene, 
que queria desesperadamente sair de seu apartamento apertado, se ops, alertando o marido quanto ao risco de nunca mais ver esse dinheiro. O entusiasmo de Putzi 
pelo movimento era tal que ela no conseguiu convenc-lo, e Helene deixou-o fazer como queria.
Putzi ajudou a configurar o jornal, contratando um cartunista da Simplicissimus, uma revista satrica de esquerda, para desenhar a cabea. Tambm criou o slogan: 
Arbeit und Brot, "trabalho e po". Subjacente ao seu envolvimento, estava a esperana de que o espao extra disponvel ajudaria a transformar o Beobachter de um 
panfleto estridente em um jornal mais equilibrado, mas ele iria se decepcionar.
A primeira edio em formato grande foi publicada em 29 de agosto de 1923 - dando um impulso significativo  propaganda do movimento de Hitler. Declarou o Times 
de Londres: "Em um momento em que vrios jornais na Alemanha foram obrigados a suspender sua publicao, e outros, devido ao excessivo custo de produo, s conseguem 
prosseguir com muita dificuldade, o jornal de Herr Hitler, o Vlkischer Beobachter, teve seu tamanho duplicado, e, salvo uma nica exceo,  o maior jornal dirio 
publicado na Baviera".
Dietrich Eckart, cuja sade estava cada vez mais precria, foi obrigado a deixar o cargo de editor. Para horror de Putzi, Alfred Rosenberg foi designado para o seu 
lugar, destruindo as suas esperanas de que a publicao assumisse uma linha editorial mais moderada e ponderada. Os aspectos financeiros do envolvimento de Putzi 
deixaram de ser satisfatrios: quando venceu o prazo para o pagamento da dvida, em maio de 1923, Max Amann disse que no tinha como pag-la e pediu uma extenso 
do prazo para janeiro seguinte. Mas logo ficou claro que o que Putzi pretendia ser um emprstimo tinha sido considerado pelo partido como uma doao. Quando insistiu 
em ter seu dinheiro de volta, foi rudemente repelido. Foi ainda mais irritante, porque ele e sua mulher tinham, nesse meio tempo,
encontrado a casa ideal. Localizada na Pienzenauerstrasse 52, no rico distrito de Herzogpark, subrbio de Munique, estava sendo vendida pela duquesa Ruth Vallombrosa,
ex-mulher de Walter Goldbeck, um artista norte-americano de St. Louis que havia construdo a casa com dlares americanos durante a grande inflao. No fim, Putzi
parcelou a dvida com Weber, com desconto de 25 por cento, e compraram a casa. Chamaram-na de Villa
Tiefland.
Sua casa nova era um grande passo  frente do apartamento na Gentzstrasse. Putzi, finalmente, teve a sensao de que estava vivendo em um lugar apropriado ao seu 
status. Grande e com um belo jardim, estava cheia de mveis antigos, quadros e desenhos, e milhares de livros. Uma porta de correr com grandes painis de vidro separavam 
a sala de jantar da sala do caf da manh, que havia sido decorada segundo as salas de camponeses bvaros nos Altos Alpes - mas sem o forro de madeira nas paredes. 
A porta havia sido pintada pelo prprio Goldbeck, com figuras da Madona, santos e anjos.
A maior parte dos tesouros da casa estava na biblioteca, uma sala imensa que tinha sido o estdio de Goldbeck. Ali estavam as antigidades mais valorizadas pela 
famlia: um armrio baixo e largo, conhecido como Ulmer Schrank, feito de carvalho e nogueira, incrustado de outras madeiras de lei, remontando  poca de Lutero. 
Alm disso, sobre uma mesa, estava um pequeno armrio chins trazido de Canto pelo pai de Putzi, Edgar, em 1865. Do lado, havia uma fotografia sua, desbotada, cercado 
de uma dzia de trabalhadores chineses, tirada durante os sete anos que passou l, trabalhando para uma empresa de ch inglesa. Tambm havia um piano de cauda Steinway 
e, sobre ele, um busto em terracota de Benjamin Franklin, obra de Antoine Houdon, o escultor francs. A sala era dominada pelas estantes: havia uma estante s para 
literatura musical, uma coleo completa dos cartuns da Punch, um grande nmero de obras histricas e uma seo inteira sobre o rei predileto de Putzi, Ludwig II. 
A formao em publicao de arte dos Hanfstaengl implicava ter tambm um grande nmero de guas-fortes, xilogravuras e outros quadros. Para concluir, na sala havia 
um relgio do Imprio Francs sobre a lareira.
Mais tarde, Egon recordou como a curiosa mistura de fragmentos da China, Itlia, Estados Unidos, Frana e Inglaterra compunha um todo
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harmnico. "O fato de o equilbrio dominar, de tudo viver e respirar, de nunca se sentir a falta de nada ou a superabundncia de alguma coisa, era quase exclusivamente
devido a papai", escreveu ele. "Ele tinha modelado esse pequeno mundo, e cuidou para que estivesse sempre em movimento: quando as necessidades estticas mudavam,
a casa mudava... Nunca era a mesma por muito tempo."
Os problemas que Putzi enfrentou para pagar sua dvida talvez tenha abalado seu entusiasmo pelo movimento, mas no o eliminou completamente. Foi, aos poucos, sendo 
aceito no crculo ntimo de Hitler. Logo estava comparecendo ao Stammtisch da segunda  noite, no Caf Neumaier, uma cafeteria perto do Viktualienmarkt de Munique, 
na esquina da Petersplatz, onde Hitler cortejava seus partidrios mais prximos. O aristocrtico Putzi destacava-se entre os casais predominantemente de meia-idade 
que escutariam Hitler testar suas idias enquanto comiam o jantar frugal.
Nesse meio tempo, o movimento estava em permanente carncia de dinheiro - e a inflao galopante assegurava que gastariam rapidamente o que quer que recebessem. 
Hitler estava sempre na busca de benfeitores ricos e, com freqncia, levava Putzi junto para levantar fundos. Como este recordou: "Hitler parecia pensar que eu 
conferia um ar de respeitabilidade s sua expedies de mendicncia e fizemos vrias excurses por Munique e arredores, visitando cidados importantes."
Uma das excurses mais acidentadas foi em abril de 1923, quando partiram para Berlim no velho Selve de Hitler, com seu chofer, Emil Maurice, ao volante. Ao dobrarem 
uma esquina em Delitzsch, no noroeste da Saxnia, uma fortaleza comunista, deram com um bloqueio na estrada guardado por membros armados da polcia comunista - inimigos 
jurados de Hitler e de seu partido. Segundo Putzi, foi a sua ao rpida que os salvou: saindo do carro, mostrou seu passaporte suo, o que tinha usado para retornar 
dos Estados Unidos.
- Hanfstaengl... Ento, Deutsch Amerikaner... - disse o policial enquanto examinava o documento.
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- J, meu amigo - replicou Putzi, e, forando seu sotaque germanoamericano mais atroz, apresentou-se como um fabricante de papel de Milwaukee indo para Leipzig a
negcios. - E este - acrescentou Putzi, apontando o polegar para Hitler -  meu empregado, Johann. Contratei o chofer e ele em Hamburgo.
Putzi suspendeu a respirao quando o policial relanceou os olhos para Hitler. Porm, apesar de sua descrio ser amplamente divulgada, o policial no o reconheceu
imediatamente. Para encerrar a questo, Putzi ofereceu um charuto ao policial, que fez sinal para que prosseguissem. Hitler ficou grato a seu amigo e mencionou o
incidente vrios anos depois. Putzi, no obstante, acreditava que nunca o perdoou por t-lo chamado de "meu empregado".
A visita a Berlim em si no foi muito produtiva - mas foi rica comicamente. Putzi estava preocupado em ser visto com Hitler e relutou em passar a noite no mesmo 
lugar que ele. Portanto, enquanto Hitler, Maurice e Fritz Laubck, um partidrio de 18 anos que se unira a eles, ficaram em acomodaes providenciadas por um admirador 
local, Putzi foi passar a noite em um albergue evanglico atrs do teatro do Estado em Under den Linden, uma das principais avenidas de Berlim.
Hitler foi to discreto quanto Putzi, e no dia seguinte saram para suas visitas em um carro fechado. Putzi, enrascado como um gafanhoto na parte traseira em virtude 
de sua aiura e corpulncia, nunca soube realmente por que Hitler o queria ali, mas presumiu que fosse provavelmente s para manter seu nimo elevado. A angariao 
foi ruim, o que os deixou com muito tempo livre, parte do qual passaram na Galeria Nacional. Putzi ficou assombrado com a ignorncia de Hitler em relao  arte 
e com a sua insistncia em julgar as obras de arte por um prisma ideolgico. Outra percepo do carter de Hitler deu-se nessa mesma tarde, quando Putzi sugeriu 
matar o tempo com uma visita ao parque de diverses. Hitler ficou fascinado com os grupos de mulheres quase nuas, pugilistas, que se apresentavam, e insistiu em 
ficar at o fim.
Uma noite, Hitler levou Putzi para jantar na residncia dos Bechstein, que tinham uma casa grande tambm em Berlim. Conversaram, inevitavelmente, sobre poltica, 
Partido Nacional-Socialista e o seu futuro, mas sempre que a questo de dinheiro vinha  tona, o anfitrio mudava de assunto. Ao
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ver os imensos diamantes nos dedos de Frau Bechstein, Putzi deixou, temporariamente, suas boas maneiras de lado e props que ela poderia manter o partido durante
meses se os empenhasse. S depois ele soube que ela tinha feito isso mesmo com outras jias. Nesse meio tempo, no entanto, tudo que ela lhes deu foi um chapu de
feltro amarelo acinzentado, muito caro, para Hitler substituir o chapu preto de abas largas, tipo gngster, que usava.
A crescente influncia de Putzi sobre Hitler no passaria despercebida. "Em 1923, era sabido que Hitler no escutava ningum mais prontamente do que escutava E. 
Hanfstaengl, seu ministro das Relaes Exteriores fixo na poca", afirmou o MnchenerPost em um artigo de 1930, o qual lhe dava crdito por "desenvolver mtodos 
norte-americanos na propaganda e na imprensa". Foi Putzi, disse o jornal, quem "deu mpeto para dez reunies pblicas em um dia" e apresentou a idia de panfletos.
Mas alguns membros do partido eram hostis  intimidade de Putzi e Hitler. Alguns consideravam as maneiras aristocratas inadequadas em um partido que estava almejando 
o apoio da classe trabalhadora. Outros achavam o seu entusiasmo por tudo o que era norte-americano no condizente com o feroz nacionalismo dos nazistas.
O conde Von Treuberg, um antigo partidrio aristocrata, fez objeo aos maneirismos estrangeiros e ao comportamento extravagante de Putzi, instando com Hitler para 
que rompesse por completo com ele. "Resumindo, Hanfstaengl  (...) um completo Hanswurst [um palhao]", escreveu ele a Hitler nesse julho. "De que outra maneira 
descrever um homem que, tendo nascido alemo,  absolutamente incapaz de conduzir uma conversa mesmo uma conversa sria - sem estrag-la com expresses em ingls, 
na gria norte-americana?" O conde tambm estava aborrecido com o fato de Putzi ser o nico que aparecia nas reunies polticas vestindo smoking, "com total falta 
de considerao pela boa simplicidade alem". Ainda pior, quando havia msica, subia ao palco como um empresrio teatral ou um "comediante louco de cabar" e liderava 
a cantoria. Friedrich Plmer, outro antigo membro do partido, tambm estava insatisfeito com a maneira como Putzi usava a sua influncia "para americanizar a operao 
toda, sem a menor necessidade" - at o formato do Beobachter. Hitler, no entanto, no dava ateno a tais rumores. Putzi ainda lhe era extremamente til.
8 DE NOVEMBRO DE 1923 estava destinado a ser lembrado como um dos dias mais significativos na histria nazista, mas Putzi no deixou que o prospecto dos eventos
dramticos por acontecer estragassem seu apetite. Tinha marcado um almoo com Larry Rue, um jornalista norte-americano que escrevia para o Chicago Tribune. O primeiro
prato mal tinha chegado quando Rue comeou a gozar Putzi por causa de Hitler ter-se jactado de que em breve daria um golpe de Estado com a ajuda da Sturm Abteilung 
(S). Criada, em 1921, e conhecida como os camisas-marrons, a S era um peloto de cerca de oitocentos jovens que, como Rue notou com escrnio, "usavam camisas marrons,
marchavam em formao militar e armavam-se com cabos de vassouras".
- Isso mesmo - replicou Putzi (sobre a bazfia de Hitler), enquanto comiam caviar, faiso, framboesas e creme, conhaque e caf, refeio que Rue, ou mais provavelmente
seu jornal, estava pagando.
- Quando? - perguntou Rue.
- Isso  segredo - respondeu Putzi. - Mas ser sensato se ficar por
aqui. No vai se decepcionar.
Rue disse que iria naquela noite  Brgerbru Keller, uma cervejaria nos arredores de Munique, ouvir um discurso de Gustav Ritter von Kahr, o lder bvaro. Convidou
Putzi para ir com ele.
- No posso ir com voc, mas talvez eu esteja l - foi a sua resposta
enigmtica.
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Putzi tinha pressentido o que aconteceria algumas horas antes, quando foi ao pequeno escritrio de muro caiado de Rosenberg, para discutir a prxima edio do Beobachter. 
Esses eram tempos turbulentos; a situao econmica do pas tinha-se deteriorado ainda mais nos dois anos desde o retorno de Putzi dos Estados Unidos. A Alemanha 
estava falida e dominada pela hiperinflao: em setembro de 1923, o preo de um pedao de po tinha ultrapassado um milho de marcos; um ms depois, atingiu 58 milhes. 
A moeda alem, observou o Times de Londres, tinha "sobrepujado o rublo na corrida da falta de valor", extinguindo as economias de uma vida inteira em algumas horas. 
A classe mdia foi especialmente atingida. O Observer (Londres) falou do crescente nmero de suicdios e o "nmero sem precedentes de mulheres internadas em hospcios, 
delirando, desesperadas ou apticas, cobrindo folhas de papel com zeros interminveis".
A revoluo estava no ar. O descontentamento da massa levou a greves e  radicalizao da poltica, que favorecia tanto a extrema direita quanto a extrema esquerda. 
No ms anterior, os comunistas em Hamburgo encenaram uma sublevao, mas foram esmagados. No oeste, houve convocaes para a proclamao de uma repblica Rhineland. 
Outras insurreies tambm foram reprimidas. Munique tambm tinha, durante semanas, fervido de boatos de conspiraes e conspiraes frustradas. The Times alertou, 
em 11 de setembro, que uma tentativa armada da Baviera se separar no podia ser descartada. Apontava trs lderes possveis de uma revolta desse tipo: o Dr. Von 
Kahr, o Dr. Heinrich Held, lder do Partido Catlico do Povo Bvaro (BVP), e Herr Adolf Hitler. Von Kahr, sugeria, era o mais provvel.
Von Kahr, que havia sido, brevemente, o chefe de governo de direita na Baviera, em 1920, no precisou se rebaixar a essa ao. Em 26 de setembro, foi nomeado state 
commissioner com poderes ditatoriais. Um monarquista fervoroso e amigo ntimo de Rupprecht, o ex-prncipe herdeiro bvaro, Von Kahr era uma figura divisora. Era 
odiado no somente pelos comunistas, como tambm pelos socialistas e os democratas republicanos. Logo acrescentou Hitler  lista: um dos primeiros atos no dia seguinte
foi proibir todas as reunies do Partido Nazista, inclusive 14 programadas para a mesma noite. Hitler no tentou desafiar a proibio, mas ficou furioso com os atos
de Von Kahr e foi pressionado por seus soldados violentos a agir. "Minha
organizao e eu prosseguiremos nosso caminho", declarou Hitler alguns dias depois em uma de suas primeiras entrevistas a um jornal estrangeiro. "O Dr. Von Kahr
sabe onde nos encontrar."
Quando Putzi e Alfred Rosenberg conversavam naquela manh, no escritrio do Beobachter, Hitler entrou disparado, a capa bem fechada e o chicote na mo. Por seu ar
de urgncia, estava claro que tinha decidido que estava na hora de tomar a iniciativa.
"Jurem que no diro isto a nenhuma alma viva", disse-lhes. "Chegou a hora. Agiremos hoje  noite. Voc, camarada Rosenberg, e voc, Herr Hanfstaengl, faro parte
da minha comitiva. O encontro ser em frente  Brgerbru Keller s 19 horas. Levem suas pistolas."
Apesar de vrios outros terem sido avisados, Anton Drexler, o fundador do partido e seu presidente honorrio, foi deixado de fora. Ter sido um dos que haviam sido
informados do segredo demonstra a intimidade de Putzi com Hitler - e a prova da extenso de seu fascnio pelo lder do Partido Nazista foi o fato de estar disposto
a concordar com essa maquinao estouvada e perigosa.
O primeiro pensamento de Putzi foi para Helene, que acabara de ficar grvida pela segunda vez, e para Egon, agora com dois anos e meio. Sem dar maiores detalhes
 sua mulher, disse-lhe que fizesse as malas e fosse, na mesma tarde, para a casa que a famlia possua em Uffing, sul de Munique, a uma hora e meia de trem. Alm
de Rue, tambm encorajou H. R. Knickerbocker, outro notrio jornalista norte-americano, a ir  reunio na Brgerbru Keller, mas no contou por qu.
Putzi chegou, como instrudo, na cervejaria s 19 horas e encontrou o edifcio cercado pela polcia. Recusaram-se a permitir a entrada dele e do pequeno grupo de
jornalistas estrangeiros que o seguiam. E ali ficaram por mais ou menos meia hora, at um Mercedes-Benz vermelho aparecer, e dele desembarcar Hitler, Amann, Rosenberg
e Ulrich Graf, o guarda-costas de Hitler. Algumas palavras de Hitler e todos entraram.
A cervejaria estava com quase trs mil pessoas. Von Kahr, um homem baixo e gordo, estava discursando, o que tinha sido programado para coincidir com o quinquagsimo
aniversrio da revoluo de novembro de 1918, que tirou o kaiser do poder - ou, como Von Kahr falou: "a noite em que
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a Internacional Vermelha conquistou a Alemanha". Foi, segundo um relato contemporneo, "uma apoteose muito longa e emocional das virtudes da classe mdia e um manifesto
contra o esprito do socialismo internacional". Hitler e alguns camaradas ficaram em p do lado de uma pilastra, a cerca de 18 metros da plataforma, e tentaram passar 
despercebidos. Entediado com as palavras de Kahr, Putzi comprou uma jarra de trs litros de cerveja. Ele e Hitler tomaram bons tragos.
Por volta das 21 horas, houve uma comoo repentina na entrada: Gring irrompeu  frente de 25 membros da S muito bem armados. O encontro tornou-se um caos. Enquanto 
as pessoas subiam em seus assentos para ver melhor, Hitler emergiu do lado da pilastra e abriu caminho em direo ao palco, acompanhado de dois guarda-costas armados. 
Cadeiras foram derrubadas e copos de cerveja lanados no ar. Sem conseguir se fazer ouvir acima do barulho, Hitler pegou sua pistola e deu um nico tiro para o alto.
- A revoluo nacional comeou - gritou para a audincia estupefata. - O salo est cercado por seiscentos homens armados. Ningum pode deixar o local. A menos que 
o silncio seja restabelecido imediatamente, tenho uma metralhadora posicionada na galeria. O governo bvaro e o governo nacional foram derrubados, e um governo 
nacional provisrio est sendo formado. Os quartis da Reichswehr e da polcia foram ocupados; a Reichswehr e a polcia j esto sob a bandeira da sustica.
Com isso, Hitler ordenou a Von Kahr, Otto von Lossow e Hans Ritter von Seisser que o acompanhassem  sala ao lado. Ele tinha tudo preparado: no novo governo revolucionrio, 
ele seria o chanceler, Von Kahr, o presidente da Baviera, Lossow, o ministro da Reichswehr, e Seisser, o ministro da polcia. Os trs foram pegos de surpresa com 
a proposta de Hitler e relutaram em concordar com ele. Von Kahr, em especial, reagiu com frieza. Quando Hitler ameaou mat-los - e depois cometer suicdio -, caso 
se recusassem, Von Kahr respondeu calmamente: "Herr Hitler, pode me matar, pode se matar. Se eu morro ou no, no tem importncia para mim."
Mas Hitler no desistiria to facilmente. Enquanto os membros cativos de seu suposto futuro governo esperavam numa sala lateral, ele voltou ao salo e dirigiu-se 
 multido fazendo um apelo apaixonado para que o
apoiassem em sua tentativa corajosa de encontrar "uma soluo para a
questo alem."
- Amanh de manh ou encontraremos uma Alemanha com um governo nacionalista alemo, ou ns mesmos mortos - proclamou. A multido foi dominada pelo poder de sua oratria.
Sem dvida, tambm ajudou ele dar a impresso de que Von Kahr e os outros tinham aceitado
apoi-lo.
Ao trio infeliz, nesse meio tempo, tinha-se juntado Ludendorff, o heri da Primeira Guerra Mundial. No participara da conspirao, mas um carro tinha ido busc-lo 
e ele apareceu pontualmente no Brgerbru Keller, notvel em sua farda do exrcito imperial. Foi saudado com animao ao chegar, mas suas feies permaneceram rgidas, 
sua cabea no girou nem s uma vez sobre seu pescoo de touro. Hitler o havia indicado para ser o responsvel pelo exrcito nacional. Ludendorff sentiu-se ofendido 
por no ter-lhe sido oferecido um papel mais importante, mas ainda assim apoiou Hitler, lanando-se imediatamente em um discurso de improviso, no qual incitava os 
outros a seguirem o seu exemplo. Quando Hitler lhes assegurou que a multido o apoiava, at mesmo Von Kahr, com relutncia, teve de ceder. No salo principal, nesse 
meio tempo, Putzi tinha subido numa cadeira e estava dando uma entrevista coletiva a Rue, Knickerbocker e um punhado de outros jornalistas estrangeiros que tinham 
aparecido. Com eles  sua volta, anunciou que um novo governo tinha sido formado, governo que restauraria a ordem e a disciplina na Alemanha.
Entre os reprteres estava Rue, que, sem dvida, reconhecia a ironia de ser capturado pelos mesmos jovens os quais criticara alguns dias antes, por t-los visto 
treinando com cabos de vassouras. Dessa vez, no entanto, tinham metralhadoras. O prazo de Rue estava se esgotando, portanto Putzi conseguiu achar um telefone nos 
fundos do salo para que ele transmitisse sua matria para seu colega John Clayton, que estava esperando no escritrio de Berlim do Chicago Tribune. Em sua matria, 
que foi publicada no jornal como "o primeiro relato de uma testemunha ocular da revolta de pera-bufa na Baviera", Rue descrevia os gritos histricos e a confuso 
do encontro. Hitler, escreveu ele, "parecia pronto para atirar em qualquer um que se opusesse a ele".
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Depois de mais ou menos meia hora, Hitler e seus partidrios, ainda relutantes, retornaram ao salo. Putzi achou graa ao ver que ele tirara a capa e expunha o fraque
e o colete. Hitler no podia parecer menos um revolucionrio profissional, mas antes, lembrou a Putzi, "um coletor de impostos com a sua melhor roupa". Hitler estava
determinado a no perder mais tempo, de modo que fez apenas um breve comunicado de que o novo governo nacional tinha sido formado. Os cinco, ento, fizeram um juramento
solene e conduziram a multido  interpretao mais impressionante que Putzi j escutara de "Deutschland ber Alies".
O encontro foi encerrado por volta das 10h30 da noite, e conspiradores e refns tomaram cada qual seu caminho. "Melhores tempos esto chegando", disse Hitler a Ernst 
Rohm, o lder da S, ao abra-lo. "Todos trabalharemos dia e noite na grande tarefa de resgatar a Alemanha da vergonha e do sofrimento." Depois, publicou uma proclamao 
ao povo alemo e dois decretos estabelecendo um tribunal especial para julgar crimes polticos. A revoluo tinha comeado-mas j comeava a se fragmentar. Hitler 
tinha cometido o erro de deixar Von Kahr e os outros partirem desacompanhados. Foi, segundo Putzi, um erro que demonstrou que Hitler era um amador quando se tratava 
de tramar uma revoluo. Mesmo a leitura mais superficial dos livros de histria sugeriam que, se voc est tentando derrubar um governo, tem de controlar os movimentos 
daqueles que voc expulsou. Putzi tinha proposto requisitar o hotel para fins militares e mant-los l a noite toda, para ficar de olho neles, mas Hitler no achou 
necessrio. Quando Von Kahr se viu fora do controle de Hitler, publicou um manifesto revogando a declarao que tinha feito no Brgerbru Keller, com base em que 
havia sido extrada sob a mira de uma arma. Depois de uma reunio amarga com seus oficiais, Lossow seguiu seu exemplo. Nenhum deles comunicou a Hitler a sua mudana 
de idia, mas quando bateu meianoite, e ele ainda no tivera notcias de nenhum deles, deu-se conta de que havia algo errado. Ligaes ao escritrio do governo bvaro, 
onde os nazistas, erroneamente, acharam que Von Kahr tinha buscado refgio, no revelaram nada. Os partidrios de Hitler, nesse meio tempo, estavam ocupados acertando 
velhas contas: o destacamento de um carro blindado e uma metralhadora foram despachados para o escritrio do MnchenerPost,
o jornal socialista, onde estilhaaram janelas, viraram mesas e cadeiras, e roubaram todas as mquinas de escrever. Cangues perambularam pelas ruas e invadiram os
restaurantes mais caros em busca de judeus e agiotas. Hitler, que passara a noite na cervejaria, foi ficando cada vez mais desesperanado e prestes a desistir, mas 
Julius Streicher, um de seus partidrios mais radicais e antissemitas, persuadiu-o a ficar firme. Decidiu-se ordenar uma manifestao na manh seguinte. Putzi foi 
mandado para as ruas, para avaliar o humor das pessoas, mas logo se entediou e, calmamente, foi
para casa dormir.
Na manh seguinte, um correspondente de The Times, de Londres, percorreu as ruas de Munique com um dos membros da equipe de Hitler, em um carro requisitado, e encontrou 
a cidade cheia de seus homens, afixando editais. As pontes estavam todas pesadamente guardadas e a cidade parecia  merc de suas foras. Alguns dos cartazes anunciavam 
a formao de tribunais militares para julgar saques e outros crimes. Aqueles julgados culpados enfrentavam uma execuo sumria.
A atmosfera na cervejaria lembrou ao reprter os primeiros dias da Primeira Guerra Mundial: fardas, raes e equipamento estavam sendo distribudos; pequenos pelotes 
eram treinados em diversos quintais. E filas de caminhes, cheios de soldados, munio e suprimentos, partiam vez ou outra. O maior entusiasmo e otimismo prevaleciam. 
Hitler estava fechado em uma sala pequena, escassamente mobiliada, no andar de cima, com Ludendorff e meia dzia de oficiais. Um
homenzinho usando uma velha capa de chuva, com um revlver na cintura, o pretenso governante da Baviera estava com a barba por fazer, o cabelo desgrenhado e to 
rouco
que mal conseguia falar.
Ludendorff, ansioso e preocupado, estava farto de esperar. "Vamos fazer a marcha", declarou, e, por volta do meio-dia,
milhares de homens alinharam-se atrs dos dirigentes nazistas. Ele e Hitler juntaram-se a eles. Marcharam por Munique. Entretanto, o equilbrio de poder tinha-se 
alterado dramaticamente contra eles. Depois
do breve momento de fraqueza na noite anterior, Von Kahr e Lossow tinham retornado o controle. Quase ao mesmo tempo, os reforos da Reichswehr chegaram dos diversos
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de treinamento perifricos, enquanto um destacamento com um carro blindado e metralhadoras se posicionavam na Odeonsplatz.
Os partidrios de Hitler, muitos deles ignorando o que estava acontecendo, passaram marchando pela pera Nacional, e entraram nas ruas estreitas que levavam  praa, 
onde receberam ordens de parar. Obedeceram, mas houve um disparo, no se sabe de onde. Foi seguido por uma troca de tiros que durou somente um minuto. Max Erwin 
von ScheubnerRichter, um engenheiro e um dos primeiros a aderirem  causa, caiu, fatalmente ferido. Ao cair, derrubou Hitler junto, deslocando seu ombro.
Ao fim, mais 13 dos que marchavam e trs policiais caram, mortos ou agonizantes. Vrios outros, inclusive Gring, foram feridos. Ludendorff, que, segundo uma das 
testemunhas, tinha-se jogado sobre o pavimento de pedras, esperou ser detido pelo oficial comandante. Drexler, Wilhelm Brckner e vrios outros seguiram o seu exemplo. 
Rohm, que, com seus homens, tinha tomado o quartel do exrcito durante a noite, capitulou depois de trocar tiros.
Hitler aproveitou-se da confuso para fugir do caos e sair de Munique. Mas, com o ombro deslocado, a dor estava se tornando insuportvel e seu carro estava ficando 
sem gasolina. Sem saber onde se refugiar lembrou-se, de repente, de que Putzi tinha uma casa de campo em Uffing, e foi para l.
Nessa noite, Helene, que tinha chegado a Uffing um dia antes, com Egon e a criada, surpreendeu-se com a batida na porta. L fora estavam Hitler, o Dr. Walter Schultze, 
mdico de um dos batalhes da S, e mais dois ou trs outros.
Hitler estava sofrendo muito com a dor no ombro. Helene, desconhecendo os eventos dramticos das ltimas vinte e quatro horas, abriu a porta e ofereceu-lhe um pequeno 
quarto no sto, onde seu marido guardava livros. O mdico achou que o ombro tinha simplesmente se deslocado e tentou, em vo, recoloc-lo no lugar, provocando um 
grito de dor de Hitler. Exames mais minuciosos revelaram que ele havia fraturado a clavcula. A fala de Hitler era desconexa, mas Helene conseguiu, por fim, entender. 
Ele lhe garantia que um carro iria busc-lo em poucas horas.
Putzi no estava junto. Tinha retornado  Brgerbru Keller s 8 horas da manh, deparando-se com centenas de homens da S ainda por ali;
muitos no comiam desde a noite anterior e, apesar do frio e de nevadas ocasionais, muitos usavam apenas camisas finas. Putzi passou a manh indo da cervejaria ao
centro de Munique, de modo que pudesse relatar a Hitler o que estava acontecendo na cidade. Alm disso, fazia declaraes resumidas aos jornalistas estrangeiros 
acampados nos escritrios do Beobachter, vidos por informao. Na Briennerstrasse, que saa da Odeonsplatz, perto de onde a batalha tinha acontecido, viu uma multido 
vindo em sua direo. Com certo exagero, contaram-lhe o que tinha acontecido. Quando Putzi corria de volta para casa, viu Hermann Esser, Max Amann, Dietrich Eckart 
e Heinrich Hoffman, amigo de Hitler e fotgrafo oficial, passarem em um carro aberto. Estavam indo para a casa de Hoffmann discutir o que fazer agora. Decidiu-se 
que todos fugiriam para a fronteira austraca e se
reuniriam ali.
Putzi tinha um problema. Como mais um sinal de como o golpe tinha sido mal organizado, ele nem mesmo tinha passaporte. Felizmente, o almirante Von Hintze, um dos 
conspiradores, tinha alguns de reserva e estava disposto a ajud-lo. Nessa noite, Putzi chegou a Rosenheim, no lado alemo da fronteira. Atravessou-a e, na noite 
seguinte, chegou  cidade austraca de Kufstein, onde encontrou um pequeno grupo de ferrovirios pr-nazismo. A famlia de um deles tinha uma loja de flores. Enquanto 
Hitler dormia no sto em Uffing, Putzi passava a sua primeira noite no exlio, em um piso de ladrilhos, debaixo de uma ribanceira de crisntemos.

CHOVIA MUITO NA NOITE de 11 de novembro de 1923. Ensopado e de mau humor, o sargento da polcia Georg Schmiedel encerrou sua ronda em Uffing. Tudo estava calmo s
9 horas da noite, quando retornou a sua pequena casa na aldeia e sentou-se para beber o ch que sua mulher tinhalhe preparado. De repente, a campainha da porta tocou
com estridncia. Seu superior imediato, Kommissar Mehringer, esperava  porta.
- Schmiedel - perguntou Mehringer -, conhece um tal de Adolf Hitler? Ele pode estar aqui?
Schmiedel, homem de 46 anos, 1,82 metro, o cabelo com corte militar, e bigode, fez uma pausa antes de responder devagar.
- Ele vinha com freqncia  casa dos Hanfstaengl, Herr Kommissar
- disse ele. - Poderamos ver se est l. Mas por que quer saber? - Cansado, pegou o revlver e a espada que acabara de tirar. Mehring mandou que se apressasse.
- No soube nada do golpe de Estado em Munique? - perguntou. Schmiedel sacudiu a cabea. Tinha ouvido Hitler falar algumas vezes e
cansara de v-lo entrando e saindo da casa dos Hanfstaengl, mas o golpe era novidade para ele.
Ao sarem para a chuva torrencial, Schmiedel achou que tinha entrado num estdio de filmagens. Havia dois caminhes l fora, cada um com trinta policiais de Munique.
Mais dois oficiais estavam em um carro particular. Schmiedel e Mehringer entraram no carro. Foram primeiro a uma casa que pertencia  me de Putzi. Passaram mais
ou menos uma hora
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remexendo, com as baionetas, o feno no celeiro e chegaram a pegar um homem que encontraram escondido l, mas, ao iluminarem seu rosto
com uma lanterna, descobriram que era apenas o administrador da fazenda. Portanto, voltaram  casa de Putzi, no vilarejo. Enquanto trinta homens cercavam o prdio, 
Schmiedel, os dois oficiais
e o comissrio tocaram a campainha. A criada atendeu e Schmiedel perguntou se poderia falar com Hitler.
Quando Helene se dirigia ao quarto de Hitler, ele vinha em sua direo com um revlver na mo. Encontraram-se na sala de estar. Ele estava com febre e ainda sentindo 
muita dor, e parecia disposto a disparar a arma contra si mesmo.
-  o fim - gritou. - Nunca serei preso por esses porcos! Prefiro morrer.
Helene no aceitou isso: aproximou-se calmamente de Hitler e tirou-lhe a arma. Ele no resistiu, nem mesmo falou nada.
- O que acha que est fazendo? - perguntou ela. - Fez com que toda aquela gente se interessasse por suas idias para salvar o pas, e agora quer simplesmente tirar
a prpria vida e abandon-los? Aquelas pessoas esto torcendo para voc prosseguir.
Em seguida, enquanto a polcia esperava do lado de fora, ela pegou um caderno de notas.
- Oua bem - continuou ela. - Todos os seus trabalhadores dependem de voc. Tm de saber o que fazer. Voc vai ficar preso durante algum tempo, no h dvida disso.
Diga-me o que quer que cada um deles faa e eu anotarei.
Hitler acalmou-se e comeou a ditar. Citou o nome do pequeno grupo de seus partidrios e as tarefas designadas a cada um deles. Quando acabou, ela escondeu o caderno
numa gaveta e prometeu lev-lo ao seu advogado em Munique.
Se Hitler realmente apertaria o gatilho, no se pode saber. Quando lhe perguntaram sobre o incidente, anos depois, negou que Helene tivesse impedido o seu suicdio,
mas acrescentou: "Naturalmente, eu estava muito deprimido e a presena de uma mulher pode ter impedido que eu pensasse em dar fim  minha vida."

Qualquer que seja a verdade sobre o estado de esprito de Hitler naquele momento, Helene mandou, alguns minutos depois, a criada abrir a porta.
Herr Hitler est aqui e pede que no faam escndalo - disse ela
ao kommissar. - Est  sua total disposio.
Ao ouvirem isso, os quatro policiais entraram. Hitler estava em p, no meio da sala, o brao machucado na tipoia. Usava um pijama de Putzi e
um roupo azul atoalhado.
Schmiedel foi para o lado direito de Hitler. Um dos oficiais ficou  sua esquerda e lhe disse que estava preso. Por um momento, Hitler
empalideceu, depois disse:
- Bitte, meine Herren.
Dirigiu-se  porta. Entrou no carro e foi levado a Munique. Dois dias depois, uma matria no New York Times comentou o fato curioso de Hitler, "lder dos fascistas
na Baviera", ter sido preso na vila de um ex-comerciante de arte de Nova York. Putzi, relatava o jornal, era "reputado em Berlim como um dos financiadores de Hitler".
Francis Rogers, secretrio do Harvard Club, descreveu no artigo como Putzi tinha acusado abertamente os aliados e renunciado  sua posio de membro em maro de
1916 em protesto contra o sentimento antigermnico que imperava ali. Friedrich Denks alegou no ter tido notcias dele no ano anterior.
Putzi continuava na ustria. Mas atravessou furtivamente a fronteira para visitar Hitler em Munique, enquanto este aguardava o julgamento, nas celas do tribunal
na Blutenburgstrasse. Para a alegria de Hitler, Putzi at mesmo levou Egon, ento com trs anos. O menino, mais tarde, lembrou-se de uma sala iluminada, bem mobiliada,
quase alegre. As grades nas janelas eram as nicas coisas que sugeriam uma priso. Disse ter ficado impressionado com a qualidade profunda, sonora da voz de Hitler.
Outra recordao agradvel foram os biscoitos que Hitler lhe ofereceu, em uma lata dentro de seu armrio. Um psiclogo da priso que visitou Hitler logo depois de
sua deteno achou-o profundamente deprimido. Putzi, ao contrrio, no detectou nenhum sinal do desespero anterior que quase o teria levado ao suicdio. De fato,
Hitler parecia ansioso pela chance de constranger as autoridades bvaras no tribunal revelando a extenso de seu vnculo com a extrema direita.
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- O que, diabos, podem fazer comigo? - perguntou ele. - Tudo o que tenho de fazer  contar algumas coisas do que sei sobre Von Lossow e tudo isso desmorona. Os que
esto a par sabem disso.
O julgamento de Hitler e de outros lderes do golpe de Estado teve incio em 26 de fevereiro de 1924 e prosseguiu por um ms. Hitler transformou o processo em um 
comcio poltico, falando, em certa ocasio, por quatro horas, e interrogando as testemunhas de acusao minuciosamente. Nisso, foi ajudado pelo presidente da corte, 
o juiz Georg Neithardt, que no fazia segredo de sua simpatia pelos conspiradores nazistas. Ludendorff foi absolvido. Os outros todos foram julgados culpados, embora 
Hitler tenha recebido a pena de somente cinco anos na priso, com a perspectiva de condicional depois de seis meses. Foi uma pena extraordinariamente leve, considerando-se 
que os golpistas tinham conspirado para derrubar o Estado e matado quatro policiais. A corte tambm abriu mo da clusula na lei que dispunha que Hitler deveria 
ser deportado para a sua ustria nativa. Foi enviado para cumprir a sua pena no presdio de Landsberg, a
56 quilmetros a oeste de Munique.
A priso de Hitler foi depois descrita pelos nazistas como uma forma de martrio. Na realidade, praticamente no passou privao enquanto esteve l. "Landsberg", 
comentou The Times, de Londres, "no  de jeito nenhum um local de confinamento desagradvel. Os prisioneiros so geralmente transgressores polticos e usufruem 
de considervel liberdade pessoal, de livros, comida especial e oportunidades para se exercitar e praticar esportes, sendo praticamente a nica restrio a proibio 
de sarem dos limites da fortaleza." Vrios simpatizantes entre o pessoal do presdio cuidavam para que Hitler tivesse ainda mais conforto do que a maioria. Ele 
foi colocado na cela nmero 7, um espao grande e mobiliado que at ento tinha sido ocupada pelo conde Arco-Valley, um nobre de direita que, em fevereiro de 1919, 
assassinara Kurt Eisner, um ex-crtico de teatro que liderou um breve governo de esquerda na Baviera. A cela oferecia uma vista esplndida da regio rural bvara. 
Hitler, como prisioneiro, desfrutou de vrios outros privilgios: quando comia na grande sala comum, sentava-se na cabeceira de uma mesa especial com seus seguidores, 
sob a bandeira da sustica. Internos recebiam ordens de limpar e arrumar sua cela.
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Ele tambm foi dispensado do trabalho e da ginstica, e as normas do horrio de visitas foram transgredidas para que pessoas pudessem ir v-lo durante at seis horas
por dia.
Um dos privilgios mais valiosos foi o direito de receber pacotes com alimentos. Chegavam em imensa quantidade do outro lado do pas, inclusive de admiradores ricos,
como Frau Bruckmann, e dos Wagner, que tinham iniciado o Festival Bayreuth em 1924, onde fizeram uma arrecadao para os "prisioneiros polticos" de Landsberg. A 
quantidade de alimento era muito maior do que Hitler teria capacidade de consumir e ele fez questo de que fosse distribuda pelos guardas e companheiros prisioneiros, 
o que fortaleceu ainda mais a sua posio. Putzi ficou impressionado durante uma de suas visitas com a quantidade de flores, frutas, garrafas de vinho, que faziam 
o lugar parecer mais uma delicatissen do que uma cela de priso. Lembrou-lhe "uma expedio fantasticamente bem equipada ao polo Sul". Tambm ficou impressionado 
com a maneira como os carcereiros anunciavam a chegada deles, com um grito animado de "Hei/ Hitler". Em uma dessas visitas, Putzi levou um exemplar da edio de 
1 de abril da revista satrica liberal Simplicissimus, que publicara uma imagem fantstica de Hitler montado a cavalo atravessando o Porto de Brandemburgo acompanhado 
por partidrios acenando bandeiras.  claro que a inteno era uma stira mordaz, no Dia da Mentira, do golpe fracassado. Mas para Putzi era uma viso do que um 
dia poderia tornar-se realidade. A caricatura tornou-se "um estmulo interior secreto para todos ns concretizarmos o que ento, em abril de 1924, parecia impossvel".
Em julho, Hitler comeou a trabalhar o seu primeiro volume de Mein Kampf [Minha Luta]. Intitulado DieAbrechnung [Ajuste de contas], expe seu credo pernicioso. Conclui 
o livro em exatamente trs meses e meio. Muitos daqueles que conseguiram ler o trabalho at o fim escarneceram de seu estilo, que foi descrito de maneiras diferentes 
como bombstico, repetitivo e sinuoso. Sua primeira edio estava cheia de erros gramaticais e estilsticos - reflexo da educao deficiente de Hitler. No obstante, 
mostrava seu estilo demaggico de grande efeito, que conseguia atrair diversos elementos insatisfeitos na Alemanha; havia algo ali para os antissemitas, ultranacionalistas, 
antimarxistas, e todos os outros grupos que
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reuniam os partidrios potenciais de Hitler. Tambm continha uma filosofia poltica que, em retrospecto, revelou-se uma descrio excessivamente acurada do que ele
faria se chegasse ao poder - da identificao dos arianos como a raa "genial" e a condenao do judeu como "parasita"  declarao da necessidade de os alemes
buscarem Lebensraum [espao vital] no Leste  custa dos eslavos e dos odiados bolcheviques.
No vero, Putzi recebeu o pedido da secretria de sua turma de Harvard para que escrevesse algo para o lbum anual da turma. "Continuo a acreditar em Hitler e no
futuro de sua plataforma", escreveu ele. "Acredito que ele e sua plataforma salvaro a Alemanha." No pde deixar de ficar impressionado com seu prprio poder de 
profecia ao retornar a Harvard, para a sua vigsima quinta reunio, quase uma dcada depois, numa poca em que Hitler estava quase no auge de sua fora, e reler 
o que tinha escrito.
O tempo de Hitler no que ele chamava de sua "universidade paga pelo Estado" estava chegando rapidamente ao fim. Um relatrio formulado a pedido do promotor pblico 
pelo diretor do presdio, em setembro de 1924, elogiava-o como um homem de ordem e disciplina, tornando o livramento condicional quase uma certeza. E assim, apesar 
da tentativa, de certa maneira sem entusiasmo, do escritrio do comissrio da polcia de Munique de fazer com que fosse deportado, Hitler foi libertado em 20 de 
dezembro. Somente um pequeno grupo de amigos o esperava num carro estacionado ao porto do presdio. Um de seus primeiros atos foi contatar Putzi, que o convidou 
a passar Heilige Abend - a Noite de Natal - em sua nova casa, que Hitler ainda no conhecia. A noite de Natal  o ponto alto dos festejos alemes, e o convite de 
Putzi para que Hitler a partilhasse com sua famlia ilustrou a intimidade da relao entre eles.
Vendo a poltrona com as cabeas de leo esculpidas nos braos, sorriu, e gozou de como Egon tinha sido malvado na outra vez. Naturalmente, o menino tinha-se esquecido 
da piada e Hitler lembrou-o da cena no apartamento na Gentzstrasse, quando, depois de Egon bater o joelho na perna da poltrona, ele a castigou. Tambm mostrou ao 
menino como marchar com a sua espada de brinquedo.
Mais tarde, enquanto Hitler, Helene, Egon, a cozinheira e a criada escutavam, Putzi tocou no Steinway Stile Nacht! Heilige Nachtl. Todos cantaram, menos Hitler. 
Putzi prosseguiu com vrias outras peas, inclusive algumas de suas marchas patriticas, uma das quais era em honra de Albert Leo Schlageter, um alemo executado, 
por sabotagem, pelas foras de ocupao francesas no Ruhr.
Apesar da atmosfera festiva dessa noite, o humor de Hier era sombrio e ele parecia cansado e abatido. As condies em Landsberg talvez no tivessem sido rduas, 
mas o encarceramento deixara-o confuso, desorientado. Para Putzi, ele parecia genuinamente no saber o que fazer a seguir.
- E agora, Hanfstaengl? - perguntou Hitler.
- Voc vai seguir em frente. Seu partido ainda vive - replicou Putzi. Nesse ponto, deu a Hitler, como um talism, um autgrafo de Frederico, o Grande, que ele sabia 
ser um de seus grandes heris. - Certa vez ele sentou-se do lado de um tambor quebrado. Chegou ao fundo do desespero aps sua derrota no campo de batalha - disse 
Putzi a Hitler. - Mas, hoje, os alemes reverenciam sua memria e seus feitos.
Ento Hitler pediu a Putzi que tocasse para ele. Queria escutar a ltima parte do terceiro ato de Tristo e
Isolda. Putzi obedeceu. Mais tarde, recordou que tocou "como nunca tinha tocado antes". Hitler agradeceu e despediu-se de todos.
A neve caa e o pequeno Egon estava alegre com a perspectiva de um Natal branco. Tambm estava excitado com a idia de rever seu tio Dolf. Hitler chegou  casa de 
Putzi s 5 horas da tarde e, depois de bater a neve da bota, entrou na sala onde os outros estavam esperando. Quando viu Egon, dirigiu-se imediatamente a ele, levantou-o 
e disse-lhe como tinha crescido.
O Partido Nazista tinha-se enfraquecido durante o tempo de Hitler na priso. Rosenberg tinha ficado como responsvel, mas no era um lder carismtico, e o partido 
comeou a degenerar-se em faces rivais. Hitler no parecia preocupado. Na verdade, provavelmente gostou daquela confuso.
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Quanto pior o estado do partido enquanto ele estava fora, mais a sua liderana, quando libertado, se fortaleceria. Quando aconteceu a segunda votao do ano do Reichstag,
em 7 de dezembro de 1924, o movimento vlkisch todo obteve somente trs por cento dos votos - resultado muito inferior  votao anterior, em maio. Os diversos partidos 
radicais de direita - o nazista entre eles - pareciam em declnio terminal. De fato, essa foi uma das razes de as autoridades terem sido preparadas para libertar 
Hitler.
O fracasso do golpe de Estado no foi o nico culpado. A situao no pas tornara-se muito menos favorvel  propaganda provocadora de Hitler. A hiperinflao, que 
havia arruinado muitos na classe mdia, em 1923, fora eliminada graas, em parte,  reforma da moeda. O desemprego, causa de mais misria, estava regredindo. O capital 
norte-americano comeava a circular em grande quantidade. O Dawes Plan, de 1924, oferecia uma estrutura para o reembolso das indenizaes macias impostas  Alemanha 
como "castigo" pela Primeira Guerra Mundial. Tambm os franceses mostraram estar dispostos a evacuar o Ruhr, que tinham ocupado, ostensivamente, em janeiro de 1923, 
porque a Alemanha estava por trs de suas remessas de carvo. Um to necessrio ar de normalidade e estabilidade estava retornando  Alemanha. A Repblica de Weimar, 
bastante desprezada ao nascer, estava finalmente adquirindo um certo grau de respeitabilidade. Putzi permaneceu em contato com Hitler nos meses seguintes  sua libertao, 
continuando a receb-lo em sua nova casa. Em certa ocasio, Hitler apareceu com as provas de Mein Kampf, precisando de ajuda para corrigir. Putzi aceitou ajud-lo, 
mas ficou espantado com o que leu, se bem que mais com os erros estilsticos do que com suas premissas polticas. Independentemente das deficincias, Putzi estava 
convencido de que o livro seria um sucesso comercial e tentou persuadir seu irmo, Edgar, a que a editora da famlia deveria comprar seus direitos. Edgar, um socialdemocrata 
convicto e extremamente conservador em matria de negcios, ps objees. Apesar de a firma ter publicado vrias obras polticas, Edgar considerava Hitler um charlato 
perigoso e, como muitos outros alemes, no queria nada com ele.
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Hitler, nesse meio-tempo, continuava a ter uma queda por Helene como demonstrou certa noite quando a encontrou sentada sozinha em um
sof na residncia de Putzi em Villa Tiefland. Putzi tinha sado para chamar um txi, e, aproveitando-se de sua ausncia, Hitler, de repente, caiu de joelhos e afundou
a cabea no colo de Helene, declarando-se seu escravo.
- Se eu pudesse ter algum como voc para cuidar de mim - declarou ele.
Helene repreendeu-o, perguntando por que ele simplesmente no procurava uma esposa.
- Eu nunca me casarei, porque a minha vida  dedicada ao meu pas
- replicou Hitler.
Convencida de que tudo no passava de uma cena, Helene disse-lhe
que se recompusesse.
- Oua, isso no est certo, Herr Hitler - falou com firmeza. Punido convenientemente, Hitler levantou-se, e j estava de p quando Putzi retornou  sala.
Depois que ele saiu, Helene, constrangida, descreveu a Putzi o que tinha acontecido.
- No leve isso muito a srio - disse ele.
No era a primeira vez que Hitler tinha agido assim com uma mulher.
Refletindo sobre o incidente mais de quatro dcadas depois, Helene teve dvidas quanto  seriedade da investida de Hitler. A atitude dele lhe parecia quase infantil. 
Ou isso, ou a coisa toda tinha sido fingida. Mas h poucas dvidas de que Hitler sentiu-se cativado pela loura majestosa. Com 1,75 metro, era dois centmetros e 
meio mais alta do que ele. "At onde ele era capaz de se apaixonar por algum, suponho que fui uma daquelas por quem se enamorou", admitiu Helene. Ele no foi retribudo: 
muitas mulheres ficavam fascinadas por seus olhos azuis penetrantes ou se sentiam atradas por seu cavalheirismo caracteristicamente austraco, mas ele no fazia 
o
gnero de Helene.
Sem se deixar intimidar por essas demonstraes constrangedoras, Helene e Putzi continuaram suas tentativas rateis de "refinar" Hitler. Determinados a ampliar seus 
horizontes, Putzi tentou em vo persuadi-lo a viajar - para os Estados Unidos, o que seria o ideal, ou simplesmente pela Europa. Certa noite, insistiu em que aprendesse 
ingls para poder compreender melhor os Estados Unidos ou a Inglaterra.
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- Completamente desnecessrio - retorquiu Hitler asperamente -, conheo os ingleses, norte-americanos, franceses e russos. Eu os vi, todos eles, como prisioneiros.
Eu os compreendo perfeitamente.
E, com isso, iniciou um monlogo horripilante sobre como o futuro do mundo seria decidido nos campos de batalha da Frana. Putzi arrependeu-se de ter iniciado a 
conversa.
Ainda mais estranha foi a tentativa de Putzi e Helene de encoraj-lo a ter aulas de dana e comportamento social. Embora o charleston estivesse na moda, Putzi achou 
que a valsa surtiria um efeito mais tranquilizador em seu carter. No  preciso dizer que Hitler rejeitou a idia como indigna de um estadista. Putzi argumentou 
em vo que Napoleo, George Washington e Frederico, o Grande no tinham sido avessos a um volteio rpido pelo salo de baile.
- No, no quero fazer isso - retorquiu Hitler. -  uma perda de tempo idiota e essas valsas vienenses so muito efeminadas para um homem dan-las. Essa moda no 
deixa de ser um fator no declnio do imprio austraco.  isso que odeio em Viena.
Putzi, no entanto, estava comeando a distanciar-se de Hitler, e foi mais do que a sua simples relutncia de ir para uma pista de dana. Para sua tristeza, Hitler 
estava retrocedendo s suas antigas maneiras e cercando-se de seus antigos camaradas. Rosenberg, anteriormente demitido por incompetncia do seu cargo de editor 
do Beobachter, foi reintegrado quando o jornal voltou a ser publicado, diariamente, em 1 de abril.
Putzi tambm comeou a ressentir-se da influncia perniciosa de Rudolf Hess, que se tornara muito ntimo de Hitler durante o tempo juntos em Landsberg. Hess era 
notoriamente um dos poucos que se dirigiam a Hitler com o tratamento familiar "du". Foi durante o perodo de isolamento forado e privao sexual que a afinidade 
entre os dois homens transformou-se no que, na mente de Putzi, "possivelmente chegou s raias do sexual". Essa impresso se reforaria uma dcada depois, quando 
Putzi soube que o apelido de Hess entre os membros homossexuais do partido era Fraulein Anna, e que era notrio por comparecer aos bailes vestido em roupas de mulher. 
Putzi tambm ficou impressionado com o fato de que Hitler ficara chateado por deixar Hess, quando foi libertado logo antes do
Natal de 1924. "Se pelo menos eu pudesse tir-lo de Landsberg" costumava dizer a Putzi, referindo-se a ele pelo diminutivo afetuoso "Hesserl". "No me esqueo de 
como seus olhos se encheram de lgrimas quando parti da
fortaleza. Coitado."
Depois de, finalmente, ser libertado em 1926, Hess comeou a construir um culto de personalidade em volta de Hitler, a quem se referia, cada vez mais, como der Chefon
der Fhrer-aparentemente inspirado pelo Il Duce usado pelos partidrios de Mussolini. Putzi comentou mais tarde que tambm foi por volta dessa poca que a saudao
"Hei/ Hitler" comeou a ser usada pelo pequeno grupo de seus partidrios. Putzi recusou-se a compactuar com o que considerava um absurdo.
Nos anos que se seguiram, Hitler tentou reconstruir o partido, que, em
1925, ainda era menor do que tinha sido na poca do golpe, e afirmar a sua liderana de todo o movimento vlkisch. Entretanto, foi se tornando uma figura distante, 
passando cada vez mais tempo nas montanhas acima de Berchtesgaden, perto da fronteira austraca, onde alugou, e depois comprou, uma casa, Haus Wachenfeld, que mais 
tarde expandiu-se, transformando-se no complexo conhecido como Berghof. Foi um perodo difcil para os nazistas. A economia continuou a melhorar, reduzindo os descontentes
que alimentavam o partido. Tanto a produo industrial quanto os salrios reais passaram
para os nveis do perodo pr-guerra. Surgiram os primeiros sinais de uma
sociedade de consumo moderna, com crescentes propriedades de rdios, telefones e automveis. Msica, arte e arquitetura floresciam. Hitler tambm continuou a ser
vtima da proibio de manifestar-se imposta na Baviera, Prssia e outros estados alemes.
Na eleio presidencial de 1925, induzida pela morte de Friedrich Elbert, o primeiro chefe de Estado da Repblica de Weimar, Hitler apoiou Ludendorff. Ele obteve
apenas 1, 1 por cento dos votos. O marechal de campo Hindenburg, outro heri de guerra, acabou vencendo no desempate. No foi o golpe que se imaginou. A humilhao
de Ludendorff eliminou-o como rival de Hitler na liderana do movimento vlkisch. Hindenburg, apesar de inicialmente visto com desconfiana por Hitler, acabaria
no tendo outra alternativa seno aceit-lo.
A extrema direita, no obstante, continuou a desfrutar somente do apoio marginal - como foi demonstrado, com um efeito dramtico, pelas eleies do Reichstag, em
20 de maio de 1928, disputadas por no menos de 32 partidos. Os principais vencedores foram os dois partidos de esquerda, o social-democrata e o comunista. O Nationalsozialistische
























 Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP), pela primeira vez fazendo campanha sob o seu prprio nome, obteve apenas 2,6 por cento dos votos, recebendo 12 cadeiras de 491. 
Hitler - que havia renunciado  sua cidadania austraca, mas que ainda no tinha recebido permisso de tornar-se alemo - no estava entre os eleitos. Apesar do 
discurso aguerrido de Goebbels e dos outros eleitos para o parlamento, o movimento parecia irrelevante.
Nesse meio-tempo, Putzi afastava-se no somente de Hitler, mas da poltica de modo geral. Apesar da hostilidade de seu irmo, ele continuava envolvido com os negcios 
da famlia. Em 1928, numa demonstrao de sua capacidade como negociador, obteve permisso do governo francs para reproduzir todos os quadros no Louvre e no Muse 
du Luxembourg. No entanto, seu corao estava no mundo acadmico e na escrita. Toda manh saa de casa, atravessando o jardim ingls de Munique, a caminho da biblioteca 
na Ludwigstrasse, em uma imensa e velha bicicleta Swift de fabricao inglesa, adquirida por seu pai na Guerra dos Beres. A gigantesca bicicleta permitia que pedalasse 
sem bater o queixo nos joelhos. Ainda assim, era uma figura excntrica pedalando pela cidade. Anos depois, quando se mudara para Berlim, continuou a usar a bicicleta. 
Numa poca em que outros nazistas eminentes andavam em seus grandes e espalhafatosos Mercedes-Benz, Putzi orgulhava-se de no possuir carro. Preferia gastar seu 
dinheiro com pianos, livros e barcos a vela.
A msica tambm continuou a ser uma paixo dominante: quatro horas dirias eram dedicadas  prtica do piano, com certeza mais do que em qualquer outra fase de sua 
vida. Iniciando soberbamente com Bach, para se aquecer, prosseguia com alguns dos estudos e preldios mais difceis de Chopin, seu preferido. Tinha um gosto ecltico: 
Gabriel Faur, Richard Strauss e Rossini eram quase sempre combinados com um hino de futebol de Harvard ou o "Londonderry Air". Putzi tambm era um freqentador 
assduo de concertos, muitas vezes levando Egon consigo.
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Em fevereiro de 1928, Putzi obteve o doutorado na Universidade de Munique, com a sua tese: "Pases Baixos Bvaros e Austracos no Sculo XVIII" - Estava habilitado
a ser tratado por Herr Doktor, algo nada desprezvel numa Alemanha que prezava os ttulos. Decidiu transformar o trabalho em livro. Foi publicado em setembro de
1930 por Sudost-Verlag Adolf Dresler, em Munique, com o ttulo Amerika una Europa von Marlborough bis Mirabeau [Estados Unidos e Europa de Marlborough a Mirabeau]. 
Contendo 491 pginas, dezenas delas com detalhados rodaps, era um trabalho acadmico srio. Putzi enviou uma prova a Oswald Spengler, o historiador, que conhecera 
recentemente em Munique. Spengler respondeu elogiando-a, descrevendo-a como "o primeiro exemplo, em duas dcadas, de pensamento histrico original". Putzi ficou 
feliz: parecia possvel fazer nome
como historiador.
Mas tambm aconteceu uma tragdia: suas realizaes acadmicas foram ofuscadas pela enfermidade contnua de sua filha Hertha, nascida em
1924. Ela sofria da doena de Hirschsprung, um distrbio crnico do clon, e logo entrou num declnio longo e sofrido. Em julho de 1929, quando Putzi retornou  
casa depois de uma viagem de negcios a Paris, soube que ela tinha morrido. Apesar de ter cinco anos de idade, pesava apenas dez quilos e meio. No passava de uma 
superstio, mas Putzi arrependia-se de no ter seguido a tradio da famlia, iniciada por seus avs, e ter-lhe dado um nome comeado pela letra "E". Comps um 
hino fnebre em sua memria.
Putzi continuava a ver Hitler, que ainda ia ocasionalmente  Vila Tiefland, se bem que com muito menos freqncia do que antes. Outros visitantes eram Hermann Esser, 
que Putzi ajudava em seus discursos, e Gring, que iniciou um relacionamento especial com Egon e, s vezes, ficava na casa. A mulher de Gring, Karin, tambm logo 
se tornou amiga de Helene.
Joseph Goebbels, que estava crescendo nas fileiras nazistas, tambm comeou a passar por l. Uma noite, em novembro, ele e Gring foram para a casa de Putzi depois 
dos trs terem assistido juntos a uma comdia. Enquanto Gring roncava no sof, Goebbels e Putzi sentaram-se do lado da lareira e conversaram sobre poltica. Goebbels 
achou Putzi inteligente e perspicaz, mas se surpreendeu com a maneira como ele criticou Hitler
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e Rosenberg. "Mas, fora isso, um homem instrudo com quem vale a pena se relacionar", registrou em seu dirio.
s vezes, a vasta biblioteca de Putzi era usada para reunies da liderana do partido: alm do prprio Hitler, Hess, Goebbels, Rohm e, ocasionalmente, Heinrich Himmler
estavam presentes. Sentavam-se discutindo por horas seguidas a estratgia da eleio. Egon, que tinha permisso para assistir de uma cadeira em um canto, ficava
impressionado em ouvir como princpios sacrossantos, como antissemitismo e anticomunismo, eram discutidos friamente na expectativa de sua eficincia poltica em
vez de sua pureza ideolgica. De fato, a discusso parecia inspirada por uma rivalidade entre aqueles presentes para impressionar Hitler, que ouvia todos os argumentos
antes de anunciar a sua deciso em relao a um assunto particular. Putzi era um dos poucos que discordava abertamente de Hitler muitas vezes provocando-lhe acessos
de fria.
Ocasionalmente, Hitler permanecia na casa depois que os outros saam, dando a Putzi a oportunidade de falar de seu assunto preferido - os perigos colocados por Rosenberg.
Putzi tentava dizer a Hitler como o bltico conhecia pouco a Rssia e como polticas m orientadas mergulhariam, necessariamente, o pas na guerra. Hitler o escutava,
mas nunca se deixava influenciar.
A sorte dos nazistas foi transformada pelos eventos na Wall Street. O colapso do preo das aes em 24 de outubro de 1929-a Sexta-Feira Negra
- e a depresso que se seguiu tiveram um impacto desastroso na Alemanha. Os emprstimos estrangeiros - muitos deles a curto prazo - que tinham ajudado a recuperao
da economia do pas desde meados da dcada de 1920 foram rapidamente suspensos. A exportao caiu e os preos do mercado mundial de produtos agrcolas caram vertiginosamente.
O preo das aes na Bolsa acompanharam a queda de sua contraparte americana e empresas comearam a demitir trabalhadores. O desemprego comeou a crescer e, em setembro
de 1930, havia atingido trs milhes.
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A crise na Alemanha foi mais do que apenas econmica. Ao contrrio dos Estados Unidos ou da Gr-Bretanha, logo assumiu um carter poltico que ameaou a prpria
existncia da Repblica de Weimar, cuja legitimidade muitos se recusavam a reconhecer. A grande coalizo sob a liderana do chanceler Hermann Mller, um social-democrata,
j estava sofrendo presso. Em maro de 1930, dividiu-se em uma disputa relativamente insignificante de planos para aumentar a contribuio dos empregados ao seguro-desemprego.
Mller foi substitudo por Heinrich Brning, do Partido Zentrum, que rejeitou o acordo para dissolver o Reichstag. Nova eleio foi programada para setembro. Os
nazistas no poderiam viver circunstncias mais propcias.
Apesar da distncia de Hitler, a organizao do partido continuara a crescer durante meados da dcada de 1920, atraindo o apoio daqueles que no se tinham beneficiado
com os Anos Dourados da Weimar. Embora obtivessem somente um sucesso limitado ao tentarem afastar os trabalhadores dos comunistas e social-democratas, os nazistas
passaram a visar, cada vez mais, aos pequenos lojistas e agricultores. O nmero de ativistas fanticos tambm crescia acentuadamente. Em outubro de 1928, apesar
da desastrosa atuao do partido nas urnas, seus membros j somavam 100 mil o dobro da quantidade na vspera do golpe, cinco anos antes. No comeo de 1927, primeiro
a Saxnia e depois a Baviera suspenderam a proibio de Hitler discursar. A Prssia, o maior estado, finalmente seguiu o exemplo no outono de 1928. O partido tambm
estava forjando uma imagem jovem e dinmica para si mesmo: Baldur von Schirach, que assumiria a liderana da Juventude de Hitler em 1931, formou membros entre os
estudantes e outros jovens. Muito mais coeso do que antes, o partido era um culto da personalidade centrado em Hitler, que era agora, mais do que nunca, seu lder
inconteste. Alguns de seus rivais menores na direita tinham desaparecido ou foram absorvidos em suas fileiras.
Em 1929, os nazistas usufruram um impulso substancial com a aliana com Alfred Hugenberg, um industrial rico e magnata do jornal. O fator catalisador foi a unio
de diferentes grupos da direita radical em oposio ao Plano Young, uma srie de acordos para tratar das questes da indenizao, redigidos por um comit liderado
por um banqueiro norte-americano,
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Owen D. Young. Embora o plano significasse uma melhoria para a Alemanha, a oposio a ele tornou-se um ato de f na direita nacionalista, e Hugenberg e seus aliados
lanaram uma campanha para forar um plebiscito popular contrrio a ele. No processo, Hitler pde usar os jornais de Hugenberg para atingir uma audincia nacional,
visando  classe mdia baixa e os recm-desempregados com a promessa de tornar a Alemanha grande de novo. A conexo com Hugenberg tambm abriu a porta a Putzi para 
atrair outros industriais simpatizantes, a fim de consolidar seu partido como um bastio contra o comunismo. Muitos achavam, ingenuamente, que estavam manipulando 
Hitler para os seus prprios propsitos.
A campanha contra o Plano Young acabou numa derrota humilhante: o plebiscito, que aconteceu em 22 de dezembro, obteve somente 14 por cento dos votos. Hitler rompeu 
com Hugenberg e seus aliados conservadores, culpando-os pela derrota. No obstante, a campanha surtiu o efeito desejado. Para Hitler, qualquer publicidade era boa 
publicidade.
O dinheiro investido no partido contribuiu para o sucesso nas urnas em diversas votaes locais e estaduais durante 1929, com os nazistas conseguindo, regularmente, 
quatro ou cinco por cento. Embora baixo, era quase o dobro do conquistado pelo partido na eleio geral de maio de
1928. Em outubro, mesmo antes de a Sexta-Feira Negra inflar as fileiras dos descontentes, os nazistas obtiveram sete por cento nas eleies estaduais em Baden; nas 
eleies da cidade de Lbeck, duas semanas depois, passaram a oito por cento. Depois, em dezembro, na Turngia, obtiveram 11,3 por cento, e Wilhelm Frick foi indicado 
para ministro do Interior, tornando-se o primeiro nazista a servir em um governo de provncia.
A eleio geral de 1930 seria o primeiro teste de verdade para Goebbels, recentemente designado como chefe de Propaganda do Reich. Dois a trs mil graduados das 
escolas do Partido Nazista foram despachados pelo pas para agitar. Nos dois ltimos dias da campanha, os nazistas fizeram duas dzias de manifestaes s em Berlim. 
A energia e o entusiasmo faziam um dramtico contraste com os partidos estabelecidos, muitos dos quais pareciam simplesmente simular uma campanha eleitoral. Hitler 
comeou sua campanha com uma grande reunio pblica em Weimar antes de sair pelo pas. Os nazistas nem tinham um programa definido e nem como
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oferecer uma soluo para a depresso. Mas Hitler sabia a quem culpar pelo infortnio da Alemanha: os marxistas, os judeus, os aliados e os polticos corruptos e
incompetentes da Repblica de Weimar. Tambm tinha talento para apresentar seus argumentos na forma de poderosos slogans polticos. Em uma carta a um partidrio,
em 2 de fevereiro daquele ano, predisse "com uma certeza quase clarividente" que o seu movimento seria vitorioso "no mximo em dois anos e meio, trs anos".

8
O RESULTADO DA ELEIO de 14 de setembro de 1930 revelou-se uma surpresa poltica. Os nazistas obtiveram 6,5 milhes de votos e 107 (de 577) cadeiras no Reichstag.
Dois anos antes tinham conquistado somente 800 mil votos e meros doze mandatos. Putzi ficou perplexo, pois esperava que o partido conseguisse quarenta cadeiras no
mximo. Tambm estava chateado consigo mesmo por perder uma oportunidade preciosa. Durante os meses precedentes, tinha-se afastado de Hitler e de seu crculo ntimo,
dedicando mais tempo a seu trabalho acadmico. No tempo de preparao para a eleio, Gring tinha insistido em que retornasse ao rebanho, acenando-lhe com um lugar
proeminente na lista do Partido Nazista, o que garantiria a Putzi uma cadeira no Reichstag. Putzi no lhe dera ouvidos, e agora era tarde demais.
Mais ou menos um dia depois, o telefone tocou em sua casa na Pienzenauerstrasse. Era Rudolf Hess.
- Herr Hanfstaengl, o Fhrer est muito ansioso por falar com o senhor - disse Hess. - Quando podemos visit-lo?
Putzi ficou surpreso e tambm impressionado com o tom corts de Hess. O que tenho a perder?, pensou.
- Sim,  claro, quando quiserem - replicou.
Meia hora depois, os dois apareceram na biblioteca de Putzi. Foi Hitler quem mais falou, enquanto Hess prestava seu apoio em silncio. Putzi imediatamente ps-se
a parabeniz-lo pelo triunfo, mas Hitler interrompeu-o.
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- Agora estamos a caminho! - exclamou, andando de l para c com passos largos. - Hanfstaengl, quero que assuma o departamento de imprensa estrangeira. Voc conhece
a Inglaterra e os Estados Unidos. Observe o que falam de ns. Alm disso, certifique-se de que estejam a par do que estamos fazendo. Talvez despertem para a importncia
do que estamos tentando realizar.
Putzi sentiu-se lisonjeado por Hitler continuar a consider-lo o nico membro de seu crculo com experincia, sofisticao e idiomas necessrios para cuidar de sua
imagem aos olhos do mundo. Mas no sem apreenses. Seu arqui-inimigo Rosenberg tinha sido levado junto para o Reichstag, agarrado na barra da cala de Hitler, o
que poderia ajud-lo a espalhar suas idias equivocadas e perigosas. Hitler, entretanto, revelou-se persuasivo e tentou amenizar as preocupaes de Putzi prometendo
que Rosenberg e o Beobachter exerceriam muito menos influncia quando os nazistas chegassem ao poder. Putzi acabou aceitando, mas deixou claro que aceitava o cargo
em termos experimentais e sem salrio, e que continuaria a desenvolver seus outros interesses.
Hitler foi prdigo em agradecimentos.
- Hanfstaengl, voc far parte de meu crculo mais ntimo - disse ele. Putzi no pde deixar de pensar na definio de Theodore Roosevelt,
muitos anos atrs, de que a poltica era a escolha do mal menor. Esse conselho foi, em parte, a razo por ter, originalmente, escolhido apoiar Hitler. Como antes,
esperou usar sua proximidade com Hitler para influenci-lo e influenciar seus programas. Mas ele, como Putzi descobriria, no era do tipo que se deixava guiar no
trabalho sistemtico, regular.
Um alerta do desafio que Putzi enfrentaria foi dado no dia seguinte  vitria, quando a turba nazista quebrou janelas em Unter den Linden, uma das principais avenidas
de Berlim.
- Isso no convm-disse ele a Hitler. - O mundo agora espera que voc assuma este imprio. Somos o segundo maior partido no Reichstag, e nossos partidrios quebram
janelas. Tudo isso repercute muito mal na imprensa internacional.
Para assombro de Putzi, Hitler simplesmente sacudiu a cabea e negou que isso tivesse acontecido.
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As providncias prticas para o trabalho de Putzi foram vagas e caticas. Nenhuma meno foi feita sobre onde ficaria seu escritrio ou quem trabalharia com ele. 
A situao melhorou em janeiro de 1931, quando o partido inaugurou a sua nova sede no Palais Barlow, na Brienner Strasse, em Munique. O edifcio, que tinha pertencido 
a uma viva rica anglogermnica, foi transformado em uma vitrine de ostentao pseudoclssica e decorado com bandeiras nazistas, guias marrons e outros emblemas 
do gnero. Passou a ser chamado de Braun Haus [Casa Marrom]. Putzi recebeu uma pequena sala no terceiro andar. Na sala ao lado, ficava Heinrich Himmler, que havia 
sido incumbido de montar uma equipe de guardacostas para proteger Hitler, o que mais tarde se tornaria a SS.
Putzi assumiu seu cargo com prazer e rapidamente virou-o a seu favor. Seu papel de porteiro de Hitler deixava-o em uma posio poderosa - e potencialmente lucrativa 
- perante o nmero cada vez maior de pessoas vidas por agradarem ao lder nazista. Mas tambm era profundamente frustrante. Era comum Hitler trabalhar vinte ou 
mais horas por dia, durante semanas seguintes, mas ele era desorganizado e indisciplinado e, notoriamente, nada pontual. Depois de ficar acordado at tarde da noite, 
muitas vezes s aparecia na Braun Haus s 11 horas ou meio-dia, faltando, regularmente, a encontros com jornalistas providenciados por Putzi. Por exemplo, se o almoo 
estivesse marcado para uma hora, Hitler se atrasaria invariavelmente uma, duas horas, levando seu chef, gordo e arguto, Artur Kannenberg, ao desespero. Se Putzi 
realmente quisesse v-lo, teria de ir em seu encalo no Caf Heck, onde costumava reunir seu squito em um Stammtisch de seus partidrios diariamente s 4 horas 
da tarde.
A relao pessoal de Putzi com Hitler recuperou parte de sua intimidade anterior com a morte da querida sobrinha do lder nazista, Geli Raubal, o que o levou a buscar, 
de novo, a companhia de seus antigos amigos. Geli, uma loura alta e atraente, com 20 e poucos anos, tinha ido com a sua me, Angela, meia-irm de Hitler, morar com 
ele em uma apartamento luxuoso, de nove cmodos, na Prinzregentplatz, em Munique. Hitler tinha-se mudado para l em 1929 graas ao dinheiro investido no partido 
por Hugenberg e outros industriais. Objeto de uma longa paixonite de Hitler, Geli comeou a aparecer com ele em pblico usando vestidos e peles
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caras - provocando comentrios irados das pessoas comuns do partido, a quem haviam ensinado que a mulher nazista ideal deveria vestir-se com simplicidade. Para Putzi
estava claro que os dois mantinham algum tipo de relao, mas parecia um caso unilateral. Apesar de Hitler manifestar "um olhar apalermado", Geli no demonstrava
nenhuma afeio por ele. Quando Putzi e Helene jantaram com eles, certa vez, ele percebeu a inquietao da garota quando Hitler enfatizou uma opinio batendo o chicote 
que, invariavelmente, carregava consigo.
Helene, que antes tivera aula de canto com a mesma professora de Geli, percebeu a mesma inquietao nas ocasies em que as duas caminharam juntas pelo Jardim Ingls.
Geli disse-lhe que se sentia oprimida e queixou-se de que Hitler a impedia de levar a vida que queria. "Sempre tive a impresso de que ele [Hitler] tentava dirigir
sua vida e tiraniz-la", recordou Helene. "Ela no tinha  sua volta as pessoas de quem gostava."
Na noite de 18 de setembro de 1931, enquanto Hitler estava fora de Munique, Geli trancou-se em seu quarto e deu um tiro no prprio peito. Seu corpo foi encontrado
na manh seguinte. Embora estivesse claro que ela sofrera uma crise emocional, a razo do suicdio no ficou clara. Somente cerca de seis meses depois, Putzi ouviu
uma explicao intrigante de Bridget Hitler, uma irlandesa que se casara com o meio-irmo de Hitler, Alois. Alegava que Geli matara-se depois de ter engravidado
de um jovem professor de arte judeu que ela tinha conhecido na cidade austraca de Linz.
Os nazistas tentaram abafar o romance, mas Putzi estava convencido de que a morte da mulher que Hitler tinha realmente amado surtira um efeito dramtico em seu carter.
"A relao, independente da forma que assumiu na intimidade, havia lhe fornecido, pela primeira e nica vez na vida, um escape para a sua energia nervosa, que em
breve teria a sua expresso final na crueldade e selvageria", afirmou ele. A relao posterior de Hitler com Eva Braun se revelaria um substituto insatisfatrio.
Com a morte de Geli, "o caminho estava livre para a transformao definitiva de Hitler em um demnio", acreditava Putzi. Tambm teve o efeito de fazer reviver sua 
"paixonite" por Helene.
Nesse meio-tempo, Putzi passava cada vez mais tempo na Braun Haus e, no fim de 1931, comeou a exercer sua funo em tempo integral, com
um salrio. A explicao para isso est na situao insegura de suas finanas. Precisava manter a sua grande casa e todos os outros luxos da vida burguesa, mas a
depresso tinha reduzido drasticamente sua receita da firma da famlia. Teria preferido trabalhar l, em tempo integral, como diretor, mas quando props isso a Edgar, 
seu irmo repudiou de imediato a sugesto. "At onde me diz respeito, voc e a sua famlia podem se afogar no lago", disse ele durante um encontro, especialmente 
amargo, que deixou Putzi confuso e ofendido.
No dia seguinte, Putzi procurou Hitler em um hotel em Munique e convenceu-o de que precisava ser chefe do departamento de imprensa estrangeira em horrio integral. 
No foi nada agradvel, disse Putzi a seu filho, ter de pedir a ele esse favor. "Se Ettl (apelido de Edgar) tivesse permitido que eu trabalhasse na firma, jamais 
teria me ocorrido a idia de oferecer meus servios dessa maneira ao partido."
Tambm foi nessa poca que Putzi uniu-se ao Partido Nazista. Embora tivesse se passado quase uma dcada desde que conhecera Hitler e comeara a lhe dar dinheiro 
e conselhos, tinha at ento se esquivado de tornar-se um membro. Em 1 de novembro, retificou a omisso e tornou-se o membro n 668.027. Nessa poca, quem se inscreveu 
tambm no partido foi Hanns Heinz Ewers, escritor epicurista, amigo de Putzi do tempo em Nova York, com quem mantivera contato aps seu retorno  Alemanha.
Como Putzi, Ewers tinha sido atrado ao movimento depois de escutar Hitler falar. No entanto, no ficou claro de imediato se seria aceito; a natureza escandalosa 
de seus livros fez com que nazistas de mentalidade mais conservadora questionassem se ele era o tipo de pessoa a quem o movimento deveria ser associado. Entretanto, 
Putzi falou com Hitler a seu favor. A causa do escritor tambm foi beneficiada por seus planos de escrever um livro sobre Horst Wessel, um jovem agitador da S, 
que se transformara em mrtir nazista ao ser morto em janeiro do ano anterior. Hitler presidiu a cerimnia em que Putzi e Ewers foram admitidos. Rudolf Hess e Ernst 
Rohm tambm estavam presentes.
Nessa poca, Hitler tambm estava considerando dar um passo simblico importante. Apesar de seu sucesso poltico, continuava a ser um cidado austraco, portanto 
no estava qualificado para ocupar um cargo

pblico na Alemanha. Uma das maneiras sugeridas para superar o problema foi ele se tornar catedrtico de poltica na Universidade de Cincias Aplicadas de Brunswick, 
o que implicaria a cidadania. Putzi achou a idia muito engraada. Hitler sempre desprezara a educao escolar, tendo abandonado os estudos muito cedo, e era de 
tal modo mordaz com o que chamava de "tipo professoral", que Putzi no conseguiu evitar mexer com ele.
- Ento, afinal vai se tornar um professor - brincou. Era muito para Hitler agentar. Alm de tambm ser arriscado, pois a sua nomeao poderia provocar um protesto 
dos estudantes. No fim, escolheu obter a cidadania em fevereiro de 1932, tornando-se um Oberregierungsrat - membro do governo local - em Brunswick.
No exterior, o interesse pelo progresso poltico de Hitler crescia dramaticamente. A pergunta que a maioria dos estrangeiros fazia era simples: Hitler significava 
guerra? Havia dias em que Putzi recebia mais de cem telefonemas de jornalistas que queriam que interpretasse e explicasse os discursos do lder nazista. Outras vezes, 
se Hitler no estivesse cansado demais, Putzi programava entrevistas, especialmente com norte-americanos e britnicos. Os correspondentes norte-americanos que cobriam 
a Alemanha formavam um grupo que causava impresso, e resolveram impor a si mesmos a tarefa de instruir sua terra isolacionista a respeito do mundo exterior. Articulados 
e inteligentes, a maior parte falava bem o alemo, conhecia bem o pas e tinha fontes pelo menos to boas quanto as dos diplomatas com quem se misturaram. Muitos 
haviam estado em Berlim por vrios anos e, portanto, estavam preparados para descrever a tomada do poder pelos nazistas, alm das personalidades e eventos que impulsionariam 
a Europa e o mundo inexoravelmente para a guerra. A dcada de 1930, escreveu John Gunther, reprter do Chicago Daily News, correspondente em vrios pases europeus, 
"foi a poca efervescente, fulgurante da correspondncia estrangeira americana na Europa (...) A maioria de ns viajava regularmente, se reunia constantemente, trocava 
informaes, farreava, lavava a roupa um do outro, e, mesmo em momentos de competio acirrada, ramos amigos dedicados".
Apesar de - ou justamente por - suas maneiras excntricas, Putzi causou boa impresso nos correspondentes de lngua inglesa. s vezes, seu ingls fluente e sua experincia
da vida americana faziam com que quase parecesse um deles. Eles, por sua vez, gostavam de Putzi no somente por ser um companheiro afvel, mas tambm por lhes fornecer 
de antemo informaes sobre os planos dos nazistas. Edgar Mowrer, um correspondente de Berlim para o Chicago Daily News, no era o nico a achar Putzi um enigma 
- e a perguntar-se o que ele estava fazendo no meio dos nazistas. "Grande, moreno, e com a sorte de ter uma me refinada da Nova Inglaterra, submetido  sociedade 
americana quando muito novo, deveria ter sido  prova de nazismo", escreveu ele. No era. Embora, aparentemente, no desse muita importncia  ideologia nazista, 
Putzi "fez um bom trabalho depreciando os aspectos repulsivos do nazismo para os correspondentes estrangeiros".
Os contatos de Putzi na mdia eram de fato impressionantes. Especialmente til foi a amizade com William Randolph Hearst, o magnata dos jornais. Hearst, em quem 
se baseou Cidado Kane, de Orson Welles, tinha conhecido a me de Putzi e feito negcios com seu pai. Tambm desenvolvera o hbito de encorajar lderes estrangeiros 
a escreverem para as suas publicaes. Os artigos eram publicados principalmente aos domingos na seo "March of Events" de seus vrios jornais. Mussolini - e Margherita 
Sarfatti, sua amante e ghost-writer-assinou um acordo exclusivo em abril de 1930, para fornecer 12 artigos a 1.500 dlares cada um. O presidente da Argentina, general 
Jos FlixUriburu, e o lder mexicano Emlio Portes Gil, tambm escreviam para ele.
O surto dramtico de apoio aos nazistas na eleio de 1930 convenceu Hearst de que Hitler era o homem do futuro, de modo que tambm o ps na lista. O primeiro artigo 
de Hitler foi publicado em 28 de setembro, duas semanas depois da votao. Publicado nos jornais de Hearst durante toda a semana precedente, intitulava-se: "Por 
Adolf Hitler: Ele aponta o problema da Alemanha e o que prope para remedi-lo". Do lado estava uma fotografia de Hitler de corpo inteiro, com o palet de couro. 
Putzi tinha providenciado tudo e sentiu-se gratificado quando Hitler lhe deu 30 por cento do que ganhou. Hitler continuou a escrever para Hearst durante os
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meses seguintes, mas revelou-se um colaborador no confivel. Apesar de as idias provocadoras do lder nazista darem uma matria excelente, ele era terrvel em
relao aos prazos e muitas vezes no mantinha a exclusividade prometida - freqentemente anunciando programas abertamente, em vez de por meio das colunas dos jornais 
de Hearst. No entanto, graas a Putzi, o magnata dos jornais manteve os canais abertos para ele.
Entre aqueles desejosos de entrevistar Hitler estava a antiga amante de Putzi, Djuna Barnes. Agora, uma jornalista e escritora proeminente, visitou Munique em outubro 
de 1931 com seu mais recente companheiro, Charles Henri Ford. Ela e Putzi mantinham contato, apesar da ruptura amarga quinze anos antes, em Nova York. Durante a 
sua estada, Barnes foi  casa de Putzi em vrias ocasies, tomando ch, uma vez, com o historiador Oswald Spengler. Putzi apresentou seus convidados aos Wittelsbach, 
a famlia real bvara, e levou-os para verem o castelo do rei Ludwig II. Naturalmente, tambm tocou piano para eles. Barnes, nesse meio tempo, tentava conseguir 
a entrevista com Hitler e a sugeriu  Hearsfs InternationalCosmopolitan. A revista respondeu por volta do Natal, mostrando interesse, mas ento Putzi lhe disse que 
Hitler queria dois dlares por cada palavra impressa - uma soma absurda, embora no tenha ficado claro quanto do total ficaria com o prprio Putzi. Ela foi obrigada 
a recusar.
Muitos outros jornais, entretanto, estavam dispostos a pagar a Hitler, quase sempre de dois a trs mil dlares por artigo, oferecendo-lhe, desse modo, uma fonte 
de renda significativa e, efetivamente, financiando a sua campanha poltica. Hitler precisava muito do dinheiro. Quando ia para o Kaiserhof Hotel, levava tantos 
assistentes que, muitas vezes, precisava ocupar um andar inteiro. Acrescentando o preo das refeies, a conta de uma semana de hospedagem podia chegar a dez mil 
reichsmarks.
Embora Hitler passasse a depender dessa renda, essas negociaes monetrias eram, freqentemente, motivo de discusso com Putzi. Hitler, mais tarde, queixou-se de 
que o seu chefe de imprensa estrangeira era to obcecado por receber comisses, que tratava os artigos do lder nazista como puramente uma especulao rendosa e 
no um frum para idias polticas. Em certa ocasio, quando Hitler lhe pediu que colocasse, o mais rpido possvel, na imprensa internacional, um artigo importante 
naquele
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momento, Putzi perdeu um tempo precioso tentando vend-lo mais caro. Acabou conseguindo vend-lo a um correspondente estrangeiro por mil libras, mas Hitler ficou
furioso com o atraso e recusou-se a fazer o ajuste.
- Hanfstaengl, deixe de ser to ambicioso - disse-lhe. - Se o importante  que o artigo seja lido pelo mundo todo, as consideraes financeiras deixam de ter qualquer 
peso.
Putzi foi deixado se perguntando como ia se virar sem as mil libras que
tinha contado receber.
Foi um convite que nenhum jornalista recusaria. Em dezembro de 1931, Louis P. Lochner, o chefe baixo e calvo do escritrio da Associated Press, em Berlim, recebeu 
um convite para encontrar-se com Hitler no Kaiserhof Hotel. O convite estava redigido de um modo que o fez pensar que estaria a ss com o lder nazista, da a sua 
surpresa ao chegar e encontrar a sala cheia, com 25 a trinta correspondentes estrangeiros, de pelo menos uma dzia de pases. Putzi estava demonstrando que j conhecia 
o ofcio: nenhum jornalista recusa a oferta de uma notcia exclusiva.
Quando a entrevista coletiva comeou, ficou claro para Lochner que Putzi tinha treinado, cuidadosamente, Hitler para as perguntas urgentes sobre a poltica externa. 
Antes que qualquer um deles tivesse tempo de fazer uma pergunta, Putzi fez uma pergunta sua. "Algumas horas depois", recordou Lochner, "a imprensa internacional 
estava repleta de citaes diretas, mordazes, incisivas do homem que at ento tinha sido considerado um louco furioso politicamente."
Graas  manipulao hbil de Putzi do encontro, Hitler agora era capaz de dominar a ateno tanto dos governos estrangeiros quanto dos leitores dos jornais. Entre 
aqueles ansiosos por encontr-lo face a face, estava Dorothy Thompson, a jornalista mulher do escritor Sinclair Lewis e uma das reprteres americanas mais conhecidas 
na poca. Thompson tinha tentado entrevistar Hitler em 1923, depois do golpe, quando ele estava na casa de Putzi, em Uffing, mas tinha chegado logo depois que a 
polcia o levara preso. Espantada com o sucesso de Hitler nas eleies, e de volta 
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Europa com uma incumbncia dada pela Hearsfs International-Cosmopolitan, ela decidiu tentar de novo. Putzi ficou feliz em ceder.
Estava claro para os dois lados que a entrevista era importante. Thompson estava para tornar-se uma personalidade altamente influente nos Estados Unidos e, como 
ela percebeu, os nazistas estavam, de repente, interessados em causar uma boa impresso no exterior. Hitler com sobrecasaca e cartola revelava-se "um almofadinha", 
escreveu ela. "Associa-se com industriais. Toma ch com princesas (...) controla a propaganda e os fundos da organizao estimados em $8.000 por dia." Mas Thompson 
ficou surpresa com a confuso dos preparativos para o encontro, o que "de certa maneira no era o que se esperaria de um homem para quem a Eficincia  tudo". Ela 
tambm foi sarcstica em relao ao que viu como o lado homoertico do movimento - ou os "garotos sodomitas de cabelo ondulado", como mais tarde os chamou, as "mediocridades 
de faces rosadas", que tornaram as virtudes da fraternidade um fetiche e "falavam da funo da mulher em gerar filhos homens para o Estado".
Apesar de ter sido Putzi a conseguir a entrevista, Thompson no teve palavras mais gentis para ele, desprezando-o como "um palhao imenso, irritante, incoerente
(...). Irrequieto. Engraado. O chefe do departamento de imprensa estrangeira mais esquisito que se pode imaginar para um ditador". No entanto, suas palavras mais 
rudes foram reservadas para Hitler. Sua primeira impresso ao v-lo passar apressado pelo saguo do hotel, acompanhado de um guarda-costas que mais parecia Al Capone, 
foi a de "um homem que possui um exrcito. Um homem que aterroriza a rua". Na verdade, ela estava to nervosa que at pensou em aspirar alguns sais. A entrevista 
foi, de certa forma, uma decepo. Thompson achou Hitler tmido, quase embaraado, e incapaz de uma conversa normal. Comportou-se como se falasse  massa, deixando 
seu interlocutor desesperado, lutando para fazer as perguntas que queria.
"Em cada pergunta, ele busca um tema que o inflame", queixou-se. "Ento, seus olhos focam um ponto distante na sala. Um tom histrico insinua-se por sua voz, que 
s vezes eleva-se como um grito. Ele d a impresso de um homem em transe. Bate na mesa."
A entrevista, publicada na edio de abril de 1932 da Hearst's International-Cosmopolitan, foi sarcstica:
Quando, finalmente, entrei no salo de Adolf Hitler, no Kaiserhof Hotel, estava convencida de que conheceria o futuro ditador da Alemanha. Em menos de 50 segundos,
tive certeza de que no. S precisei desse tempo para avaliar a insignificncia incrvel desse homem que instigou o interesse do mundo. Ele  informe, quase sem 
rosto, um homem cuja fisionomia  uma caricatura, um homem cuja constituio parece cartilaginosa, sem ossos. Ele  inconseqente e volvel, instvel, inseguro. 
 o prottipo do Little Man (...) Ao olhar para Hitler, vi todo um panorama de rostos alemes: homens que esse homem pensa que vai governar. E pensei: O Sr. Hitler 
pode conseguir, nas prximas eleies, os 15 milhes de votos que espera. Mas 15 milhes de alemes PODEM se enganar.
Thompson nunca se libertou da danao das poucas frases demissrias da entrevista, que seriam a base de um livro, I Saw Hitler, publicado em 1932. Seus colegas reprteres 
norte-americanos foram particularmente crticos: para William L. Shirer, foi "um julgamento que causou surpresa vindo de uma correspondente em Berlim to perspicaz 
e veterana". John Gunther, do Chicago Daily News, foi ainda mais rspido, julgando o artigo "sua gafe
cmica, horrvel".
Para Putzi, entretanto, as coisas tinham mudado dramaticamente na poca em que o artigo de Thompson foi publicado. Esse seria o ano das eleies na Alemanha. Alm 
da eleio presidencial, causada pelo fim do mandato de sete anos de Hindenburg, haveria vrias votaes estaduais e regionais em 1932. Haveria tambm duas eleies 
para o Reichstag - sinal da instabilidade poltica crescente que logo poria um ponto final na democracia na Alemanha. A ascenso dos nazistas, na direita, e a constante 
demonstrao de fora dos comunistas, na esquerda, combinadas com a incompetncia dos partidos de centro para pr de lado suas diferenas, estavam tornando impossvel 
a formao de um governo democrtico duradouro. A situao agravou-se ao longo do ano. Num contexto em que a
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crise econmica cada vez mais profunda elevava a taxa de desemprego a quase 30 por cento, o caminho estava aberto para Hitler dar  Repblica de Weimar o golpe de
misericrdia.
A primeira eleio de 1932 foi a presidencial, marcada para 13 de maro. Hitler comeou sua campanha com a energia de sempre, embarcando em um tour exaustivo para 
levar sua mensagem a todo o pas. Sua equipe variava a cada viagem, mas geralmente inclua seu ajudante, Wilhelm Brckner, um ex-capito do exrcito musculoso; Julius 
Schaub, outro exsoldado com uma perna de pau, que ele usava como seu secretrio e facttum; Sepp Dietrich, seu guarda-costas que se tornou, mais tarde, general da 
SS; e Heinrich Hoffmann, que estava estabelecendo um monoplio lucrativo das fotografias de Hitler. Putzi era um acessrio permanente, embora achasse o processo 
do tour maante e catico.
Nos primeiros estgios, o grupo viajava em um grande comboio de carros. Ao seu encontro, nas cercanias da cidade, iria um guia, que os levaria pelas ruas secundrias 
at um salo de reunio onde Hitler iria proferir um discurso incendirio. Era uma experincia perigosa; seu comboio sendo freqentemente atacado por simpatizantes 
comunistas locais. Virar numa direo errada poderia facilmente lev-los a uma rua coberta de bandeiras vermelhas, e Hitler e seus partidrios teriam de abrir literalmente 
 fora o caminho. Na cidade bvara de Nuremberg, por exemplo, uma bomba foi lanada num dos carros; em Bamberg, pra-brisas foram estilhaados com balas. Hitler 
gostava de ter um mapa das ruas em mos, para o caso de ser necessrio modificar uma rota. Em uma ocasio, em Brunswick, Emil Maurice deixou de levar um mapa e foi 
severamente repreendido por Hitler. Putzi divertiu-se quando ele no se alterou.
- Herr Hitler, por que ficou to irritado? - disse-lhe seu chofer. Lembre-se de Cristvo Colombo.
- Como assim? - retorquiu Hitler.
- Bem, Colombo no tinha mapa, mas isso no o impediu de descobrir a Amrica.
Comunistas e outros adversrios no foram o nico problema que a comitiva teve de enfrentar nos primeiros tours. Hitler passava um tempo considervel atrs de portas
fechadas, tentando resolver disputas dentro
das organizaes dos partidos locais, que, refletindo a origem do nazismo, eram muitas vezes uma mistura constrangedora de nacionalistas e socialistas. Hitler tinha
pouco tempo para a maior parte deles. "Sei por que esses Gauleiters esto sempre me atormentando para falar em favor deles", disse ele a Putzi. "Reservam o maior
salo da cidade, que nunca conseguiriam encher sozinhos. Eu o loto e eles embolsam a receita. No sabem mais o que fazer para obter dinheiro e eu tenho de correr
a Alemanha feito um manaco para cuidar que no entrem em falncia."
A experincia era semelhante a acompanhar um msico em turn. Hitler chegava a uma cidade, fazia a sua apresentao, arrumava as malas e partia para o local seguinte.
Putzi frustrou-se com a falta de oportunidade para um aprendizado intelectual. Se, no caminho, surgia a oportunidade de conhecer algum importante, que fosse til
ao movimento, Hitler encontrava-se com ele sozinho. J no acreditava em se reunir com seus auxiliares e elaborar uma estratgia de campanha; preferia falar com
cada um sucessivamente, e depois tomar a sua deciso.
O tempo todo, como Putzi notou, a mente de Hitler concentrava-se em uma nica meta: conquistar o poder unilateral. Ao contrrio de outros polticos atuando nos confusos
ltimos dias da Repblica de Weimar, ele perdia pouco tempo tentando articular alianas tticas ou coalizes com outros partidos. J tinha
plena conscincia da fora de sua oratria e estava convencido de que, contanto que proferisse discursos suficientes, acabaria sendo levado ao poder pela massa.
Putzi, nesse meio-tempo, viu-se arrastado para o papel familiar de menestrel da corte. Com freqncia, quase  meia-noite, cansado depois de um dia de discursos
e reunies com Gauleiters locais, Hitler pedia-lhe, de repente, que tocasse alguma coisa no piano. Putzi nunca tinha tempo de praticar, nessa poca, mas tocava com
habilidade por uma hora ou mais, talvez iniciando com um pouco de Bach ou Chopin, ou algumas de suas marchas, mas sempre finalizando com Tristo e Isolda e Mestres-Cantores.
Putzi tentou apresentar a Hitler obras mais modernas, como o Segundo Concerto para Piano de Rachmaninoff, mas era ousado demais para o homem forte nazista. Porm
Hitler desenvolveu uma paixo inesperada pela obra de Irving Berlin e fez Putzi tocar repetidamente seu arranjo para
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uma cano de ninar russa. Putzi no teve coragem de lhe dizer que Berlin era judeu. Enquanto tocava, Hitler ficava sentado, meio sonolento, murmurando de prazer,
e sua comitiva no se atrevia a interromper. Tais interldios ofereciam apenas uma breve trgua para os rigores da campanha.
Apesar do imenso empenho de Hitler, o resultado nas urnas da votao de 13 de maro para presidente foi decepcionante. Ele obteve somente
30,1 por cento, e Hindenburg, 49,6 por cento. Ernst Thlmann, o candidato comunista, foi o terceiro com 13,2 por cento. Apesar de ter ficado num distante segundo 
lugar, Hitler tinha impedido, por pouco, que o presidente j velho conquistasse a maioria absoluta, provocando um segundo turno. A votao seguinte foi marcada para 
10 de abril.
Determinado a preencher a enorme lacuna que o separava de Hindenburg, Hitler decidiu mudar de ttica. At ento, tinha viajado de carro e trem, o que significava 
que s podia falar em duas reunies no mximo por noite. Embora excessivamente cauteloso com viagens areas, resolveu passar a fazer campanha por avio. Hans Baur, 
que voava para a Lufthansa, a companhia area alem, foi-lhe recomendado como piloto de primeira classe e chamado ao escritrio do lder nazista na Braun Haus. Baur 
ficou feliz em assumir o desafio: o primeiro Deutschlandflug [vo alemo] foi programado para 3 de abril, dia em que a campanha foi retomada depois da trgua declarada 
para o recesso da Pscoa. Para horror de Putzi, foi requisitado a voar com a comitiva. Gostava ainda menos de avies do que de carros. O itinerrio do primeiro dia 
foi o exemplo do horrio apertado que adotariam durante a semana inteira. Voaram primeiro de Munique para Dresden, onde Hitler falou por meia hora, depois para Leipzig, 
onde fez um comcio no famoso Exhibition Hall. Quarenta e cinco minutos depois estavam de novo no ar, dessa vez rumo a Chemnitz. O ltimo trecho do percurso levou-os 
a Plauen, onde Baur conduziu com sucesso uma aterrissagem no escuro. No fim do dia, Hitler pegou um dos maiores dos muitos buqus de flores que tinha recebido e 
deu-o ao piloto. Antes Hitler sofria de enjos no ar. Dessa vez, por sugesto de Baur, sentou-se na frente e sentiu-se perfeitamente bem.
- Baur, voc fez um bom trabalho - disse ele. -A partir de agora, sou um entusiasta da viagem area.
Com a insistncia de Putzi, era reservado um lugar no avio para um jornalista, quase sempre estrangeiro, uma idia tirada das campanhas de Franklin D. Roosevelt.
Ostensivamente, tratava-se de divulgar o movimento. Alguns dos reprteres convidados desconfiavam que a sua presena era tambm para oferecer uma companhia um pouco 
mais erudita para Putzi. O primeiro desses passageiros foi Denis Sefton"Tom" Delmer, que escrevia para o Daily Express, um influente tabloide britnico com uma circulao 
de dois milhes de exemplares. Delmer, que falava fluentemente o alemo e um dos reprteres jovens mais brilhantes de sua gerao, tinha cortejado, assiduamente, 
Putzi chegando a alugar um piano de cauda Bechstein para o seu apartamento, para encoraj-lo a visit-lo. Esse vo foi a sua recompensa.
Putzi e Delmer foram os primeiros a chegarem ao Aeroporto Tempelhof, em 5 de abril. Fazia uma manh cinzenta e de garoa quando a comitiva de Hitler reuniu-se no
macadame do lado do trimotor fretado JU 52 Lufthansa D 2001. Heinrich Hoffmann, o fotgrafo oficial beberro, estava l. No macadame tambm estava o prncipe August
Wilhelm, que Delmer achou engraado, "se espreguiando, com os joelhos juntos e seu queixo pequeno, fazendo piadas e sendo afvel com todos". Ento, Goebbels apareceu
em um Mercedes conversvel, bege e marrom, novinho, que ele acabara de receber naquela manh'. Com ele, estava a sua glamourosa nova esposa, Magda, parecendo "atraentemente 
nada proletria e nada nazista em seu casaco preto de pelica e uma boina tambm de pelica, colocada de lado sobre seu cabelo cor de trigo". Alguns minutos depois, 
dois Mercedes seda pretos estacionaram, desembarcando Hitler e seus guarda-costas SS. Magda Goebbels correu para Hitler, pegou-o pela mo e levou-o at
seu carro novo.
- Mein Fhrer - falou ela. - Tem de experiment-lo.  um sonho.
E, assim, Hitler, o grande expert em automveis, foi conduzido pelo motorista dos Goebbels em algumas voltas pela pista. Retornou, convenientemente impressionado, 
proclamando-o o "carro mais encantador". E sorrindo e acenando para eles, Hitler subiu no avio. Delmer, Putzi e os outros o seguiram.
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Na frente, perto da porta, sentaram-se Sepp Dietrich, chefe dos guarda-costas, e quatro ou cinco de seus homens. Eram homens dures, sem dvida, mas alguns, aos
olhos de Delmer, pareceram excessiva e estranhamente delicados e efeminados para serem guarda-costas. Ficou ainda mais surpreso quando tiraram fotos de suas carteiras 
e comearam a passar em volta com exclamaes do tipo "Ele no  uma graa?" Delmer viu nisso a influncia de Ernst Rohm, o extravagante lder da S, cuja homossexualidade 
no era segredo.
Alm de Hitler e Goebbels, estavam no avio Brckner, Schaub e Willi Krause, reprter do jornal de Goebbels, DerAngriff. No extremo da cabine, sentou-se o prncipe, 
que levara uma grande caixa de chocolates, que passou em volta. Apesar de seu lendrio gosto por doces, Hitler foi o nico passageiro a recusar. Em frente ao prncipe, 
estava o secretrio de Goebbels, o barbado Karl Hanke. Putzi sentou-se atrs. Embora obrigado por sua funo a acompanh-los, achou aquilo tudo extremamente desconfortvel, 
espremendo seu corpanzil com dificuldade na cabine apinhada. Assim como Hitler, ele tinha tendncia a nuseas no ar, e passava nas mos e rosto Iavanda da Yardley, 
na tentativa de superar o mau cheiro do combustvel e de borracha quente. Sempre que Delmer olhava, via Putzi esfregando uma mo na outra e as levando ao nariz.
Isso foi demais para Hitler.
- Essa coisa, Hanfstaengl, cheira pior que sala de cafeto - disse ele.
- Jogue isso fora.
A partir da, Putzi teve de fazer uso de sais - apesar de seus camaradas no dispensarem darem uma cheirada ou outra, furtivamente. Teria sido, notou ele com ironia, 
"muito no nacional-socialista" sentir enjo no ar.
Apesar das possibilidades de conversa oferecidas pela presena de um jornalista como Delmer, Putzi achou tudo deprimente. Cansou-se rapidamente de seus companheiros 
de viagem - "um bando estpido, rude, que no sabia se expressar". Tambm o aborreceu o fato de viajarem a tantas cidades e nunca terem tempo para visitar os museus
locais ou qualquer outro edifcio de importncia histrica. s vezes, durante a interminvel viagem, olhava, para se inspirar, dois cartes postais que ilustravam
o estdio de Goethe em Weimar, que guardava em seu bolso.
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Hitler, nesse meio-tempo, estava sentado na posio que se tornaria a sua habitual: na poltrona do mecnico, perto do piloto. E ali permanecia durante todo o vo,
cochilando - ou fingindo cochilar -, olhando pela janela ou consultando o mapa. Colocava chumaos de algodo nos ouvidos. Segundo Delmer, todos - exceto ele prprio,
Putzi e os guarda-costas ficavam tentando chamar a ateno de Hitler, mostrando-lhe algum
artigo de jornal ou fazendo algum comentrio que demonstrasse seu zelo pela causa nacional-socialista. Hitler no se deixava impressionar: raramente falava, recolhendo-se
atrs de um jornal ou algum outro documento sempre que um membro do partido tentava iniciar conversa com ele.
Delmer ficou surpreso com a aparncia cansada e quieta de Hitler e achou difcil conciliar o homem com que se deparava no avio com a personalidade agitadora e demagoga
que acabara de ver no macadame. Hitler lembrava-lhe "um vendedor cansado e fracassado viajando com suas amostras para um cliente que no tinha a menor vontade de
v-lo e a quem ele no tinha a menor vontade de ver". Seria esse o verdadeiro Hitler, perguntou-se Delmer, e o outro, mais familiar, meramente o produto de "um esforo
imenso da vontade e da imaginao"?
O Hitler familiar voltou a mostrar-se quando aterrissaram em sua primeira escala, Stolpe, no leste da Alemanha. A campanha era um negcio febril. Ao desembarcar,
o grupo foi conduzido de carro a uma fbrica desativada, onde uma multido aguardava havia vrias horas. Diante da insistncia de Putzi, Delmer pulou para fora
do carro e correu atrs de Hitler para garantir um bom lugar no espao lotado. Abriram caminho com dificuldade por uma multido de fs reverentes, com os braos
levantados, gritando vivas. Como um jogador de futebol americano, Putzi usou seu corpanzil para meter-se entre os fs e Hitler. Depois, quando seu discurso acabou,
Hitler saiu abruptamente, e o mesmo processo exasperado se repetiu para Putzi, Delmer e o resto da comitiva, a caminho de volta ao campo de aviao, para embarcarem
no avio antes de decolar mais uma vez. E assim prosseguiram pelos dias seguintes, enquanto seu circo voador percorria a Alemanha.
A nova tcnica de propaganda eleitoral de Hitler revelou-se valiosa no segundo turno da votao presidencial: embora Hindenburg sasse
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vitorioso com 53 por cento dos votos, Hitler tinha aumentado a sua parcela para 37 por cento - obtendo treze milhes de votos, dois milhes a mais do que no primeiro
turno. O candidato comunista, Thlmann, obteve somente cerca de dez por cento.
De uma seita pequena, obscura e moralmente inaceitvel, os nazistas, em 1932, tinham assegurado a sua posio como um partido de massa que podia contar com o apoio
de um tero da populao. Houve pouco tempo para celebrar: as eleies estaduais foram marcadas para a Prssia, a Baviera e vrios outros estados, em 24 de abril,
e Hitler teve de voar novamente. Depois de alguns dias, os nazistas fretaram um segundo avio para Sepp, Dietrich e um ou dois jornalistas. Iriam na frente, para
reportar a situao a Hitler quando chegasse, antes de decolar para o destino seguinte.
Um dia, em abril, quando o avio de Hitler aterrissou de volta a Munique, no Aeroporto Oberwiesenfeld, Putzi encontrou uma mensagem para ele de Randolph Churchill,
filho do futuro primeiro-ministro britnico Winston Churchill, que estava fora do governo e era um membro backbench no Parlamento (isto , no ocupava uma posio
oficial). Putzi tinha, de certa forma, estabelecido uma relao com Randolph, que estava trabalhando como jornalista e o convidara a viajar com Hitler algumas vezes.
- Meus pais esto aqui e seria um grande prazer se voc e seu chefe pudessem jantar conosco no Hotel Continental-disse Randolph Churchill.
-  claro, seria adorvel - replicou Putzi. - Farei o possvel, mas, como sabe, Hitler anda muito ocupado.
Hitler j tinha ido para a cidade, de modo que Putzi pegou um txi e rumou s pressas para a Braun Haus. Depois de deixar a mala em sua sala minscula, foi em busca
de Hitler. Encontrou-o sentado em sua sala, muito maior, lendo uma pilha de jornais.
- Aconteceu algo muito importante-disse Putzi.-Winston Churchill est aqui. Voc sabe, o pai do rapaz que viajou conosco. Ele falou muito de voc a seu pai.
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Seria tudo descontrado, garantiu a Hitler: Winston Churchill tinha trazido a famlia, portanto no teriam de prender-se a discusses polticas, poderiam falar de
Albrecht Drer, Richard Wagner, ou qualquer outro membro do Valhalla alemo. O velho Churchill era tambm um bom cantor, poderia cantar algumas canes escocesas
e Putzi o acompanharia ao piano.
Hitler insistiu em que estava ocupado.
- Tenho muito o que fazer - disse ele.
Putzi no desistiria to facilmente. Winston Churchill era o homem do futuro, insistiu ele, e essa era a chance do sculo, o primeiro passo em direo a uma futura
aliana anglo-alem, com que Bismark tinha sonhado.
- Imploro - prosseguiu. -V para casa, barbeie-se, vista uma bela camisa e me acompanhe nesta noite. Vamos nos divertir. Ele  um verdadeiro cavalheiro ingls. E
a sua mulher  encantadora. Eles realmente esto loucos para conhec-lo.
Mas Hitler no parava de insistir em que estava ocupado. E quem era Churchill, afinal? No passava de um backbencher, sem nenhum cargo oficial, sem nenhum poder
poltico real.
Desesperado por impedir que Hitler perdesse a oportunidade, Putzi props um acordo: podia simplesmente passar por l no fim da refeio, quando estivessem tomando
caf. Mas Hitler no cedeu. Putzi atribuiu a recusa a seu complexo de inferioridade. O lder nazista estava  vontade quando manipulava a massa, mas podia sentir-se
bastante incomodado em encontros cara a cara com uma pessoa, especialmente com um poltico hbil como Winston Churchill.
Putzi foi, assim mesmo, ao Hotel Continental, desculpando-se por Hitler, dizendo que talvez se juntasse a eles mais tarde. Aparentemente, na expectativa da audincia
com Hitler, os Churchill tinham reservado uma sala privada. Alm de Winston, sua mulher e Randolph, havia uma meia dzia de pessoas sentadas  mesa comprida. A conversa
rapidamente desviou-se para a poltica. Putzi definiu em linhas gerais a opinio dos nazistas, deixando claro que viam a Rssia bolchevique como o principal perigo
para a Alemanha. Churchill escutou Putzi, mas pressionou-o em relao ao antissemitismo de Hitler. Putzi tentou fazer um relato mais ameno possvel, mas ainda assim
era demais para Churchill.
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- Diga ao seu chefe que o antissemitismo  bom de largada, mas ruim de perseverana - disse ele a Putzi.
No obstante, a atmosfera permaneceu cordial, enquanto o caf e o conhaque eram servidos com charutos. Por volta das 2 horas da manh, para deleite de Putzi, Churchill
empurrou sua cadeira para perto e, por trs de seu copo de conhaque, perguntou-lhe, em um tom quase conspiratrio, o que Hitler achava de uma possvel aliana entre
a Gr-Bretanha e a Alemanha. Putzi vibrou s em pensar na possibilidade. Tal aliana, alm de dar prestgio a Hitler no exterior, tambm, ele esperava, o refrearia
e impediria a realizao de algumas de suas idias mais bizarras e perigosas.
- O que acha da Itlia? - perguntou Putzi.
- No, no, isso tornaria o clube grande demais-retorquiu Churchill. O jantar correspondia s expectativas de Putzi, mas Hitler,  claro, no
estava l para partilh-lo. Alegando precisar ligar para sua mulher, Putzi escapou para uma cabine de telefone e ligou para a Braun Haus. Hitler no estava. Tampouco,
segundo a governanta Anny Winter, estava em casa. Frustrado, Putzi virou-se para retornar ao grupo. Assim que saiu da cabine, viu Hitler na escada, alguns degraus
acima dele. Usando um chapu verde e uma capa branca suja, despedia-se de um amigo holands de Gring, que tinha ajudado a financiar o partido nazista.
- Herr Hitler, o que est fazendo aqui? - perguntou. - No sabe que os Churchill esto no restaurante? Poderiam v-lo. Certamente sabero, pelos criados do hotel,
que esteve aqui. Eles o esto esperando para o caf e acharo isso um insulto deliberado.
Hitler recomeou a desculpar-se e disse que estava com a barba por fazer e que precisaria passar em casa para barbear-se. Putzi disse que fingiria ter-lhe telefonado
e que teria dito que chegaria em mais ou menos uma hora.
- Vou tocar piano e mant-los aqui at o caf da manh, se necessrio - disse ele.
Apesar da relutncia de Hitler, Putzi ainda no tinha perdido todas as esperanas e voltou para o salo. Sentando-se ao piano, comeou a tocar Londonderry Air e
uma seleo de msicas escocesas, assim como tambm um de seus hinos de futebol. O conhaque soltou a lngua de Churchill, que logo estava cantando junto. Putzi tambm
exibiu o seu melhor falsete.
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Para decepo de Churchill e fria de Putzi, Hitler no apareceu. Quando Putzi chegou em casa, j de manh bem cedo, encontrou um bilhete dizendo que deveria partir
para Nuremberg s 7 horas, para um encontro importante com Julius Streicher, editor do Der Strmer, um jornal ferozmente antissemita.
O carro, com Maurice na direo, estava l fora s 7 em ponto. Hitler estava sentado no banco do carona, mas Putzi no deixaria passar a sua
falta ao jantar.
- Deveria ter ido - disse ele, inclinando-se . frente. - Entre outras coisas, Churchill esboou a idia de uma aliana e pediu que pensasse a respeito. Tambm lhe
desejou sucesso nas eleies.
Se Hitler chegou a se arrepender, no demonstrou.
- De qualquer modo, que importncia tem Churchill? - perguntou.
- Ele est na oposio e ningum lhe presta ateno.
- As pessoas dizem o mesmo de voc - replicou Putzi.
Mas esse foi o fim da discusso. Os Churchill ficaram em Munique por mais dois dias, mas Hitler no fez nenhuma meno de contat-los. Putzi gostava de pensar que,
se o encontro tivesse acontecido, teria mudado o rumo da histria. No mnimo, acreditava, tal confronto teria sido o "deleite dos historiadores".
A campanha intensa de Hitler foi bem-sucedida nas eleies estaduais de
24 de abril de 1932. Com 36,3 por cento dos votos, os nazistas emergiram facilmente como o maior partido da Prssia, o maior estado, aumentando seu nmero de cadeiras
em seu Landtag de somente seis, em 1928, para um esmagador 162. Na Baviera, obtiveram 32,5 por cento, o que os colocou no 0,1 por cento do BVP governante, e em Anhalt,
a leste, alcanaram 40,9 por cento.
Ento, em 31 de julho, aconteceu a primeira das duas eleies anuais para o Reichstag-e mais uma chance para os nazistas. A Alemanha tinha sido governada no mbito
federal desde 1930 por uma coalizo chefiada pelo chanceler Heinrich Brning, membro do Partido Catlico Zentrum.
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Brning no tinha conseguido garantir uma maioria parlamentar estvel para o programa de austeridade que queria impor e, suspendendo as normas democrticas normais,
tinha sido autorizado pelo presidente Von Hindenburg a governar por decreto. No fim de maio de 1932, entretanto, o presidente comeou a achar Brning insuficientemente
malevel e o substituiu por Franz von Papen, mais conservador, um ex-diplomata cordial. Mas Papen tambm gozava de pouco apoio no Reichstag e pediu ao presidente
que usasse seu poder para dissolv-lo. Hindenburg acatou o pedido de Papen.
No entanto, longe de resolver os problemas polticos crescentes da Alemanha, a eleio de julho agravou a situao. Os nazistas conquistaram  230 das 608 cadeiras,
tornando-se, com larga margem, o partido mais forte no Reichstag. Embora Hitler no tivesse obtido a maioria absoluta que esperava, continuava a haver a possibilidade
de ser nomeado chanceler. Entretanto, Hindenburg desconfiava profundamente de suas intenes e recusou-se a convoc-lo. O presidente disse a Papen que estava preparado
para ver "o cabo da Bomia" no governo, mas que no apoiaria a idia de ele tornar-se chanceler. Hitler, no entanto, no sossegaria com nada inferior ao cargo mais
elevado. A idia, como disse Goebbels, de o Fhrer tornarse vice-chanceler em um gabinete dominado pelos partidos burgueses era "absurda demais para ser levada a
srio".
O resultado foi afundar o sistema poltico em uma nova crise. Apesar de Papen permanecer chanceler, os nazistas e seus principais inimigos, os comunistas, usufruam
juntos uma maioria de oposio no Reichstag. Pareceu a Papen e seus conselheiros que a nica soluo seria dissolver a cmara de novo, adiar as eleies indefinidamente
e garantir ao governo poderes especiais, extensivos. Mais uma vez Hindenburg concordou de pronto. A conseqncia seria um Estado autoritrio, mas pelo menos no
seria dominado pelos nazistas.
Ainda assim, Papen ficou apavorado. Quando o Reichstag se reuniu em
12 de setembro, os nazistas e vrios outros partidos apoiaram um voto de desconfiana proposto pelos comunistas. Com Hermann Gring, recentemente eleito presidente
da cmara, presidindo, o governo sofreu uma votao humilhante de 512-42, antes mesmo de Papen poder proferir a
notificao da dissoluo. Quando o seu gabinete se reuniu, dois dias depois, ficou decidido que no era hora de mexer na Constituio. E assim, as novas eleies
para o Reichstag foram marcadas para 6 de novembro.
Hitler embarcou com entusiasmo em sua quinta e ltima campanha do ano, novamente fazendo viagens areas para retransmitir sua mensagem  nao. Sua oratria mais
irascvel foi dirigida contra Papen e o pequeno crculo de "reacionrios" que o tinham mantido no poder - um ultraje, aos olhos de Hitler, j que a votao de setembro
do Reichstag demonstrara que o governo de Papen recebia somente um apoio popular mnimo. Os eleitores estavam cansados afinal de contas dessas eleies todas, e
o cofre dos nazistas estava se exaurindo com as vrias outras campanhas no ano, mas Hitler prosseguiu com seu programa exaustivo de comcios e discursos. Putzi,
mais uma vez, estava do seu lado.
Nos ltimos dias da campanha, Putzi teve outro encontro inesperado. Estava no Hotel Kaiserhof, em Berlim, com Hitler e outros membros da comitiva, quando recebeu
a mensagem de que um norte-americano chamado John Franklin Carter queria v-lo. O nome no significava nada para ele, mas ficou intrigado e concordou em v-lo.
 Carter, um jornalista jovem, bem apessoado, na faixa dos 30 anos, disse
que trazia os cumprimentos de um ex-colega e aluno de Harvard, Franklin Delano Roosevelt, que estava nos estgios finais de sua disputa com Herbert Hoover pela Casa
Branca. Roosevelt no se esquecera de Putzi e guardava boas recordaes dos concertos de piano, de manh cedo, que ele costumava oferecer no Harvard Club, em Nova
York. Em seguida, Carter prosseguiu com um pedido estranho: disse que Roosevelt sabia que Hitler seria o homem do futuro na poltica alem, mas esperava que, como
seu consultor de assuntos externos, Putzi faria o possvel para impedir quaisquer
atos temerrios e fanticos.
- Pense em seu piano e use o pedal com prudncia, se o som for estrondoso demais - disse Carter. - Se a situao comear a ficar embaraosa, por favor, entre em
contato com o nosso embaixador, imediatamente.
Mas, apesar de toda a preocupao de Roosevelt, parecia que os nazistas j tinham atingido o seu pice. Nos dias anteriores  eleio de 6 de novembro, estavam perdendo
apoio e at mesmo Hitler comeava a ter
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problemas em atrair multido suficiente para encher os sales. A liderana comeou, privadamente, a aceitar o fato - se bem que a mquina da propaganda continuava
a todo vapor.
Quando os votos foram contados, depois da votao de 6 de novembro, o resultado confirmou que a aparentemente inexorvel ascenso nazista tinha sido interrompida.
Obtiveram dois milhes de votos a menos do que em julho, baixando sua parte nas urnas de 37,4 para 33,1 por cento, e o nmero de cadeiras nazistas no Reichstag,
de 230 para 196. Muitos alemes, portanto, tinham-se cansado da propaganda estridente de Hitler, voltando-se para os partidos "burgueses" tradicionais. Outros voltaram-se
para os comunistas, que conquistaram cem cadeiras, 11 a mais do que em julho.
O resultado tampouco ajudou o chanceler Von Papen, que tentou conservar o cargo revivendo a idia de uma ampla coalizo nacionalista com Hitler como seu parceiro
mais novo, porm o lder nazista no toleraria isso. Papen tambm estava sendo arruinado por seu ministro de Defesa, general Kurt von Schleicher, uma figura influente
com uma reputao merecida de mestre da intriga, que durante muito tempo tinha sido ntimo de Hindenburg. Incapaz de conseguir reunir apoio suficiente para um governo
estvel, Papen renunciou - e viu Schleicher ser nomeado para substitu-lo em 3 de dezembro.
Apresentando-se como um "general preocupado com o social", Schleicher comeou um esforo para formar uma coalizo com os sindicatos trabalhistas social-democratas
e iniciou conversaes secretas com Gregor Strasser, uma personalidade popular e influente da esquerda do Partido Nazista, que era um dos nicos rivais verdadeiros
de Hitler. Putzi, que observava de fora todas essas tramias, recebeu um toque de Tom Delmer, do Daily Express, sobre as intenes de Schleicher e contou a Hitler,
que ficou furioso com o que considerou uma traio de Strasser.
A estratgia de Schleicher logo esbarrou com problemas. Suas concesses aos trabalhistas no atraram os social-democratas, simplesmente provocaram o antagonismo
dos patres, enquanto os proprietrios de terras, de maneira geral, ficaram irritados com o programa de reassentamento que props. Strasser tambm refutou as investidas
do general, mas somente
depois de ele e Hitler, furiosamente, porem tudo em pratos limpos, j que o segundo nunca o perdoou a traio. A conhecida predileo do general pela intriga s
fez aumentar a desconfiana com que era visto por muitos. Papen, nesse meio-tempo, estava impaciente por se vingar de Schleicher e disposto a usar Hitler para isso.
Em uma srie de reunies, que tiveram incio em meados de dezembro, os dois resolveram suas diferenas e concordaram com liderar conjuntamente um governo de coalizo.
Confiantes no apoio de industriais como Alfried Krupp e Fritz Thyssen, abordaram o filho do presidente Von Hindenburg, Oskar, para que influenciasse o pai
a seu favor.
Schleicher estava, tardiamente, se dando conta da precariedade de sua prpria situao, e em 23 de janeiro convocou o presidente. Admitindo ter sido incapaz de assegurar
uma maioria para o seu governo, pediu poderes para dissolver o Reichstag, declarar estado de emergncia e banir tanto os nazistas quanto os comunistas. Dessa vez,
Hindenburg recusou. Houve um tumulto pblico quando as notcias das intenes de Schleicher vazaram
para a imprensa.
Os dias que se seguiram testemunharam outras conspiraes exaltadas. Enquanto Papen fazia lobby no campo nacionalista para conseguir apoio para a coalizo que tinha
proposto, Schleicher fazia uma ltima tentativa de reassumir o controle, e o idoso Hindenburg tentava evitar apoiar qualquer um dos lados. Em 28 de janeiro, o presidente
no podia mais adiar, e, no que seria uma das decises polticas mais fatdicas do sculo XX, deu seu consentimento ao plano tramado por Papen e Hitler.
Dois dias depois, Hitler foi nomeado chanceler, com Papen como seu substituto e premier da Prssia. Apenas uma dcada depois de Putzi t-lo visto pela primeira vez
em uma cervejaria de Munique, Hitler tornara-se o homem mais poderoso da Alemanha - e Putzi estava do seu lado.

PARTE 3
   A VOZ DE SEU MESTRE

A MELODIA DE JOVENS HERIS, uma das marchas de Putzi, ressoou quando as fileiras cerradas da S e SS surgiram em um desfile iluminado por tochas pela Wilhelm Strasse,
no corao de Berlim. Das sete horas da noite  meianoite, em 30 de janeiro de 1933, 25 mil seguidores de Hitler, uniformizados, marcharam atravessando o porto 
de
Brandemburgo e passando pelo Ministrio das Relaes Exteriores. As ruas eram uma massa de flmulas e tochas acesas, e o estado de esprito era de jbilo. Por detrs
de uma janela fechada, em seu palcio, o presidente Von Hindenburg, vestido com o seu casaco preto tradicional, inspecionava a cena embaixo, o rosto como uma mscara
rgida. Ereto e imvel, fez apenas uma ligeira reverncia queles que marchavam. Quarenta e cinco metros adiante, na chancelaria, estava o objeto de adulao de
tudo aquilo: Adolf Hitler. Fachos de luz sobre ele, "um halo de iluminao para o homem que a Alemanha jovem via como seu messias", como relatou um jornal. De vez
em quando, Hitler debruava-se na balaustrada, a mo direita erguida na saudao nazista.
A multido comeara a aglomerar-se cedo nessa tarde. Gring tinha aparecido primeiro, na chancelaria, para anunciar a nomeao de Hitler como chanceler. Alguns momentos
depois, Hitler foi aplaudido, quando seu carro saiu; a capota estava arriada e ele, em p. Putzi tinha perdido a maior parte das celebraes, porque ficara ocupado
com as ligaes de correspondentes estrangeiros pedindo notcias. Dezenas de antigos conhecidos tambm ligaram, alegando terem estudado com ele em garotos ou serem
amigos ntimos da famlia, para terem a sua ateno. Mas, ainda
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assim, ele conseguiu escapar e juntar-se aos espectadores que aguardavam ansiosamente no primeiro andar do Kaiserhoff que Hitler retornasse de sua audincia com
o presidente.
- Conseguimos - declarou Hitler ao sair do elevador, sendo cercado por seus partidrios. At mesmo os garons e as criadas de quarto abriram caminho para apertar 
sua mo.
Putzi declarou ter ficado "singularmente impassvel diante do clamor e da histeria" do dia. No obstante, achou engraado ver Joachim von Ribbentrop, o vendedor
de bebidas que acabara de unir-se aos nazistas, assumir seu "ar bismarckiano", e Gring por toda parte, em sua farda mais pomposa. Putzi at mesmo fez uma piada
 custa de Hitler: "Bem, Herr Reichskanzler [chanceler]", disse ele, "pelo menos no mais terei de chamlo de Herr Oberregierungsrat [conselheiro do Estado]."
O desfile iluminado com tochas nessa noite e a pompa nazista exageraram bastante o significado constitucional do que tinha acontecido. A rigor, 30 de janeiro apenas
testemunhara a substituio de uma coalizo de governo aparentemente instvel por outra - uma ocorrncia por demais freqente na Repblica de Weimar. Embora Hitler
tivesse se tornado chanceler, os nazistas ocupavam somente outros dois postos em seu gabinete: Wilhelm Frick era ministro do Interior e Gring, um dos ases da aviao
mais condecorados da Primeira Guerra Mundial, era chefe da aviao e comissrio delegado para o interior, na Prssia.
Papen, em virtude de sua relao especial com Hindenburg, supostamente continuaria a desempenhar um papel proeminente no governo. Na verdade, ele e seus partidrios
congratulavam-se por terem subordinado Hitler, transformando-o no fantoche dos industriais e latifundirios. Ministros conservadores experientes tambm permaneceriam
no controle da poltica externa, finanas, economia, mo de obra e agricultura.
Grande parte da imprensa americana e britnica partilhava da opinio de Papen - mas, em muitos casos, estavam preparados a dar ao novo chanceler o benefcio da dvida.
"Hitler no tomou o poder como Mussolini, ele o aceitou. Esta  a diferena", disse o Daily Express em um editorial com a legenda: "A hora de Hitler". "O que faremos
agora?... Charlato ou heri? Muitos chamaram Hitler dos dois. Agora os eventos decidiro qual dos
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 nomes o caracterizar na histria." Por sua vez, The Times de Londres dois i*^
tranqilo com a conservao do baro Konstantin von Neurath
ministro do Exterior e com o conde Schwerin von Krosigk, sendo o responsvel pelas Finanas.
The New York Times cometeu um engano ainda mais grave: em um ditorial nesse mesmo dia, predisse que qualquer tentativa do novo chanceler de "traduzir as palavras
arrebatadas e confusas dos discursos de sua campanha em ao poltica" fracassaria com a resistncia de seus colegas de gabinete, dos sindicatos e, acima de tudo,
do presidente Hindenburg, que poderia "desfazer Hitler com a mesma rapidez com que o fizera". Portanto "no havia nenhum fundamento para alarme imediato", prosseguia.
"Talvez vejamos o 'Hitler domesticado' de quem alguns alemes falam esperanosamente." Wall Street tambm enfrentou a situao com calma e sem hesitao: o marco
caiu cinco cents em relao ao dlar, enquanto os ttulos alemes encerraram o dia somente uma frao mais fracos.
As opinies de capitais nacionais mais prximas de Berlim no foram to otimistas. douard Daladier, lutando para formar um novo gabinete na Frana, expressou preocupao.
Os poloneses, temerosos das exigncias de Hitler de uma reviso da fronteira polonesa-alem, reagiram com uma demonstrao desafiadora de aeronaves militares sobre
Varsvia. Os jornais da Itlia de Mussolini reagiram com uma alegria previsvel.
Hitler agiu rapidamente para impor sua vontade sobre a Alemanha. Para que as mudanas constitucionais que concentrariam o poder em suas mos passassem, ele precisava
do apoio de dois teros do Reichstag - o que no momento no tinha, mesmo contando com o apoio dos nacionalistas de Papen. A nica soluo seria preparar outra eleio,
mas era Hindenburg, no Hitler, que tinha o poder para dissolver o Reichstag. Quando Schleicher fez o mesmo pedido alguns dias antes, o presidente tinha recusado,
selando o destino do general e preparando o terreno para Hitler substitu-lo. No entanto, dessa vez, Hindenburg realizou o desejo de Hitler imediatamente. As novas
eleies foram marcadas para 5 de maro e o Reichstag foi dissolvido antes de reunir-se para proclamar seu julgamento sobre o novo governo.
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Para Putzi, a alegria da vitria misturou-se com a preocupao com as intenes de Hitler. Seus receios no demoraram a ser confirmados. Os cargos na Reichskanzlei
[chancelaria] ainda no tinham sido deixados vagos pelos ministros que sairiam e Hitler continuava a reunir-se no Kaiserhof. Foi em um dos quartos do hotel que Putzi 
ouviu, casualmente, uma conversa entre Hitler e Frick. Rosenberg, que Putzi acusava de fomentar algumas das idias mais perigosas de Hitler em relao  poltica 
externa, seria empossado como ministro das Relaes Exteriores. Putzi ficou horrorizado - em parte por ter-se sentido enganado. Hitler sabia muito bem como Putzi 
detestava Rosenberg e tinha-lhe assegurado que a influncia do bltico se reduziria quando o partido assumisse o poder. Entretanto, agora estava sendo nomeado para 
um posto importante - na verdade, um posto que Putzi gostaria para si mesmo.
Putzi procurou rapidamente Von Neurath. Nomeado primeiro-ministro em junho, o aristocrata conservador tinha servido tanto sob as ordens de Papen quanto de Schleicher. 
Von Neurath ficou alarmado com a expectativa de ter um nazista to virulento como seu deputado, temendo que isso minasse sua prpria posio e vetou a nomeao. 
Rosenberg teve de contentar-se com a chefia da seo de poltica externa do Partido Nazista, mas teve o consolo de uma manso luxuosa no Tiergarten. Von Neurath 
ficou grato pelo aviso de Putzi. Tornaram-se firmes aliados, e ele levou Putzi  World Economic Conference, em Londres, naquele vero.
Putzi recebeu uma srie de funes no Verbindungsstab [Pessoal de Ligao] de Hess, diagonalmente em frente  chancelaria. Mais tarde mudou-se para um prdio na 
esquina da Wilhelm Strasse com Unter den Linden. Teve permisso para nomear o seu prprio pessoal: seu segundo, Harald Voigt, era membro do Partido Nazista, mas 
os outros no. Para sua secretria, escolheu Agnethe von Hausberger, uma quaker que havia sido criada nos Estados Unidos. Putzi tinha pouco tempo para o que chamava 
de "parvoce nazista superficial". Os que trabalhavam em seu escritrio cumprimentavam-se com "bom dia" e no "Heil Hitler", saudao nazista que se tornava rapidamente
comum na Alemanha. O escritrio acabaria sendo uma ilha civil em um mar de fardas.
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Embora o volume de trabalho de Putzi tivesse aumentado dramaticamente, a ajuda que recebia para as despesas continuou a mesma. Depois de deduzidas as dvidas, imposto
e seguro do partido, sobravam-lhe somente 850 reichmarks por ms - o que no era muito. O seu posto, tecnicamente, no era nazista: s respondia a Hitler, no recebia
ordens dos funcionrios do partido e tampouco tinha poder para d-las. Sua posio tambm no constava no Organizationsbuch [livro da Organizao] dos nazistas.
O salrio de Putzi era pago no pelo partido, mas de uma das contas especiais de Hitler. Essas distines foram mais do que um mero interesse acadmico. Foram usadas
por Putzi depois da Segunda Guerra Mundial, quando ele e outros tiveram de justificar seu trabalho para o regime. Essa era, alegou ele, prova de que no podia ser
julgado como nazista. A sua parte na firma da famlia fornecia a outra fonte de renda, mas que nunca era suficiente, o que o fazia ficar maquinando meios para ganhar
dinheiro e equilibrar o oramento. O fato de Rosenberg ganhar mais do que ele s fazia aumentar sua irritao.
As obrigaes de Putzi eram relativamente circunscritas. Sua principal responsabilidade era organizar entrevistas para Hitler, com jornalistas estrangeiros-principalmente
norte-americanos e britnicos - e personalidades proeminentes. Sua funo como chefe da seo de imprensa estrangeira tambm inclua animar os muitos jantares e
recepes diplomticas nas vrias embaixadas, o que no era nenhum sacrifcio para ele. Naturalmente socivel, gostava de freqentar festas e tinha prazer no contato
com correspondentes e diplomatas estrangeiros. Preferia passar o tempo nessa companhia sofisticada a ver-se cercado de chauffeureska, picaretas mal-educados do partido
que continuavam a cercar Hitler.
 parte o trabalho de cultivar a imprensa, Putzi ia assiduamente a Die Taverne, um restaurante na esquina da Kurfrstenstrasse que servia de ponto de encontro de
correspondentes estrangeiros, jovens nazistas e soldados da tropa de assalto. A eles se juntavam atores, danarinos, cantores e outros freqentadores da vida noturna
da Berlim de Weimar, cujas casas noturnas estavam sendo fechadas pelo novo regime em seu primeiro fervor de idealismo.
Enfumaado, exalando o aroma de vinho, cerveja e caf, Die Taverne era um lugar de teto baixo, mesas compridas e bancos de madeira, onde aqueles que diziam conhecer
os segredos do novo regime trocavam confidencias madrugada adentro. Era, em suma, uma cmara de compensao de todos os mexericos polticos da Alemanha e, como tal,
estava infestado de espies. Apesar de as indiscries serem parcialmente protegidas pela orquestra tocando o jazz mais recente dos Estados Unidos, somente um recm-chegado
desavisado se atreveria a falar em voz alta ou fazer qualquer comentrio sem antes olhar em volta para ver se algum o escutaria.
Die Taverne era mais do que um mero centro de fofocas. Deixando de lado a competio pessoal, os correspondentes estrangeiros que ali se reuniam partilhavam generosamente
da informao. Nos primeiros e terrveis dias de governo nazista, a tarefa comum de contar ao mundo o que estava realmente acontecendo na Alemanha parecia mais importante
do que quem faria a melhor matria. Como disse um observador: "Um homem sozinho v pouco; cinco, dez, vinte homens profissionalmente experientes, que conhecem o
pas, cada um em contato com dezenas de diplomatas e vrios alemes de todo tipo e classe social, podem cobrir a situao muito bem." Os nazistas ficavam furiosos
e tentavam descobrir os "informantes miserveis", mandando jornalistas alemes sondarem o que acontecia, mas era tudo em vo.
O trabalho de Putzi revelou-se frustrante. Hitler tinha sido seguido, implacavelmente, por jornalistas estrangeiros durante as recentes campanhas eleitorais e ficara
farto deles. Quando Putzi transmitiu a sugesto de um reprter francs de que os nazistas deveriam marcar a sua vitria organizando uma celebrao conjunta de reconciliao
de soldados franceses e alemes na fronteira, Hitler desprezou-a imediatamente. Putzi ficou muito decepcionado: teria sido uma oportunidade preciosa para melhorar
a reputao do novo regime com um vizinho importante. Em vez disso, a imprensa francesa insistiu em seu slogan simples, mas definitivamente correto, Hitler c'est
la guerre (literalmente, "Hitler  a guerra"). Tampouco o lder nazista entendia o fato de que Putzi no podia ficar dando ordens aos correspondentes estrangeiros
da mesma maneira como Goebbels intimidava a imprensa alem. Como tentou explicar, no havia por que ameaar
escritores crticos com expulso: a maioria poderia ganhar a vida em qualquer outro pas tanto quanto na Alemanha.
Em breve, Putzi teria o primeiro dos muitos atritos com Hitler e seu squito. Tinha ouvido comentrios de que pessoas estavam sendo torturadas na Columbia House,
um edifcio perto do Aeroporto Tempelhof, em Berlim, usado pela S como uma priso particular e centro de interrogatrios. O conde Schnborn, um dos conhecidos de
Putzi, confirmou os detalhes. Quando Putzi enfrentou Gring, esse foi evasivo e exigiu o nome de seu informante. Ingenuamente, Putzi deu o nome de Schnborn. O infeliz
aristocrata foi trancafiado na Columbia House at Putzi conseguir tir-lo de l. Putzi passou a ter cuidado em no repetir o erro.
Quando o gabinete se reuniu pela primeira vez, em 2 de fevereiro, Hitler dedicou a maior parte do tempo aos preparativos da eleio. Cada gesto ttico que fez a
partir de ento foi dirigido a 5 de maro - chamado por Goebbels de o Dia do Despertar da Nao. Hitler lanou sua campanha com um discurso no Sportpalast de Berlim.
Nas semanas que se seguiram, percorreu o pas, freqentemente por via area com Baur nos controles, para propagar sua mensagem. Graas a Goebbels, Hitler tambm
explorou uma nova ferramenta poderosa de propaganda: o rdio. A cada cidade visitada, a estao de rdio local transmitia seu discurso. Foi ajudado tambm por Hindenburg,
que aprovou vrios decretos de emergncia que lhe conferiam o poder de proibir reunies de partidos rivais e banir seus jornais e outras publicaes. Os nazistas
tambm fizeram usurpaes no aparelho administrativo: Gring instalou seus prprios homens na fora policial e transformou um departamento sem importncia do quartel-general
da polcia na famosa Genheime Staatspolizei [polcia secreta do Estado] - mais conhecida simplesmente por Gestapo.
Putzi acompanhou Hitler em muitas de suas viagens de campanha. Nos ltimos dias antes da eleio, o ritmo tornou-se frentico. Em 26 de fevereiro, depois de uma
viagem de doze horas de avio, que abrangeu trs cidades separadas por centenas de milhas de distncia, retornou a Berlim sentindo-se cansado, febril e com as glndulas
inchadas. Sempre um cavalheiro, forou-se a manter o compromisso de um jantar, nessa noite, com o prncipe Viktor zu Wied e sua mulher, em sua casa luxuosa na
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Kurfrstenstrasse. Ao sair, o prncipe lhe deu uma garrafa de aguardente e instrues para que bebesse se tivesse febre. Putzi estava cansado demais para experiment-la
nessa noite, mas na tarde seguinte vestiu duas suteres, cobriu-se com cobertores e instalou-se no quarto que Gring tinhalhe autorizado a usar temporariamente no
primeiro andar do palcio do Reichsprsident, em frente ao Reichstag. A aguardente completaria a cura. Putzi deveria ir  casa de Goebbels, onde atualmente  a TheodorHeuss-Platz,
nessa noite. Mas pediu para ser dispensado por causa da febre, embora Hitler fosse estar presente. Assim que se instalou na cama, o telefone tocou. Era um membro
da equipe de Hitler.
- O Fhrer insiste em que v  casa de Goebbels hoje  noite - disse ele. - Tocar piano para ele.
Putzi repetiu que no estava passando bem.
Ento, assim que voltou a deitar-se, o telefone tocou de novo. Dessa vez era Magda Goebbels. Putzi estava estragando a noite de todos, sem aparecer, disse ela. Mas
ele no cedeu e voltou para a cama. Dessa vez, tirou o telefone do gancho. Finalmente, descansaria um pouco.
Dormitando e despertando, de repente tomou conscincia de uma luz forte. De incio, pensou que tivesse esquecido de apagar o abajur da mesa no outro cmodo, mas
era brilhante demais e cintilava diferente da lmpada eltrica. Nesse momento, Frau Wanda, a governanta, apareceu correndo.
- Herr Doktor - gritou ela -, o Reichstag est em chamas.
Por um momento, Putzi esqueceu a febre. Pulou da cama e correu  janela. Nunca tinha gostado do edifcio do Reichstag, que achava parecido com uma gigantesca fbrica
de gs. Agora, olhando para o outro lado da praa, viu-o tomado pelas chamas.
Correu para o telefone e ligou para a casa de Goebbels, onde o jantar estava em plena atividade. A truta seria servida a todos, menos ao vegetariano Hitler, que
comeria ovos e legumes. O prprio anfitrio atendeu o telefone e Putzi pediu para falar com Hitler. Goebbels quis saber do que se tratava e Putzi acabou perdendo
a pacincia.
- Diga-lhe que o Reichstag est em chamas - replicou Putzi, irritado.
- Hanfstaengl, esta  uma de suas piadas? - retorquiu Goebbels.
No foi uma pergunta to esquisita. Para divertir Hitler, Goebbels tinha passado um trote para Putzi quatro dias antes e desconfiou que Putzi
estivesse dando o troco.
- Se  o que pensa, venha at aqui e veja por si mesmo - replicou
 Putzi e desligou.
Ligou em seguida para Tom Delmer do Daily Express. Delmer j estava a caminho do Reichstag depois de ter sido informado por um de seus contatos, um frentista que
servia, ocasionalmente, de seu informante. Como j tinha posto seu carro na garagem e no havia txis, teve de correr dois quilmetros e meio de seu escritrio at
o Reichstag. No obstante, chegou somente quarenta minutos depois de o primeiro alarme ser dado. Putzi ligou tambm para Lochner, da Associated Press.
Assim que desligou, o telefone tocou mais uma vez. Era Goebbels de novo. Convencido de que Putzi tentava lhe pregar uma pea, no tinha contado logo a Hitler, que 
estava na sala ao lado com Magda e uma estrela de cinema loura de segundo escalo que tinha sido convidada para lhe dar prazer. Porm, depois de fazer algumas ligaes, 
suspeitou que o prdio pudesse realmente ter-se incendiado.
- Acabo de falar com o Fhrer e ele quer saber o que est acontecendo - disse Goebbels. - Nada de seus absurdos.
Putzi perdeu o controle. Goebbels continuava parecendo achar que ele estava querendo vingar-se do trote de antes.
- Mandei vir ver se eu estava brincando ou no - retorquiu ele. O prdio est em chamas e o corpo de bombeiros j chegou.
Exigiu que Goebbels chamasse Hitler ao telefone. Por fim, Goebbels cedeu, mas Hitler inicialmente tambm no acreditou na sua histria.
- O que est acontecendo, Hanfstaengl? - perguntou Hitler.-Pare com isso j. Est tendo alucinaes ou bebeu usque demais? Hein? V
chamas da sua janela?
Finalmente, Hitler se convenceu, para satisfao de Putzi, que achou que j tinha feito o bastante. Em algumas horas, teria de acompanhar Hitler a Breslau e precisava 
estar curado antes disso. Embora o Reichstag ficasse a apenas alguns minutos a p, voltou para a cama.
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Se tivesse escolhido atravessar a rua, se depararia com uma cena de destruio e devastao. E tambm de uma enorme importncia histrica. Gring, pesado em seu
casaco de pele de camelo, j estava l. Quando Hitler e Goebbels chegaram logo depois em seus Mercedes-Benz pretos, descendo a 96 quilmetros por hora a Charlottenburger 
Chaussee, ele logo os conduziu em um tour pelo edifcio, passando por poas de gus, escombros chamuscados e nuvens de fumaa malcheirosas.
- No h a menor dvida de que  trabalho de comunistas, Herr Chanceler - declarou Gring, corado e excitado. - Vrios deputados comunistas estavam aqui vinte minutos 
antes de o fogo se espalhar. Conseguimos deter um dos incendirios.
- Quem  ele? - perguntou Goebbels.
- Ainda no sabemos - replicou Gring com uma expresso funestamente determinada em sua boca fina, delicada. - Mas ele vai nos dizer, pode ter certeza.
O fogo continuava a arder quando abriram uma porta amarela envernizada que levava  cmara de debate, com seus painis de carvalho. Gring pegou um pedao de pano 
encharcado de gasolina do lado de uma das cortinas chamuscadas e mostrou-o a Hitler.
- Pode ver por si mesmo, Herr Chanceler, como iniciaram o ncndio
- disse ele.
Delmer, que tinha conseguido juntar-se a eles depois de obter a aprovao de Hitler, ficou impressionado com a suposio automtica de Gnng de que mais de uma pessoa 
estava envolvida. Apesar da aparente falta de qualquer prova de conspirao, Hitler rapidamente assumiu uma teoria. Quando o grupo adiantou-se no corredor, ele ficou 
para trs e levou o jornalista para o lado.
- Deus afirma que isso foi obra de comunistas - disse ele. - Voc est testemunhando o comeo de uma grande era na histria da Alemanha, Herr Delmer. O incndio 
 o comeo. - Ento, acrescentou: - Est vendo este prdio em chamas? Se o esprito comunista dominar a Europa por mais de dois meses, ela ficar em chamas exatamente 
como ele.
Hitler repetiu sua idia a Papen, quando ele apareceu alguns momentos depois. Chegando direto do Herrenklub, onde estivera entretendo
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Hindenburg em um jantar, o vice-chanceler parecia um perfeito aristocrata, com seu terno e seu sobretudo de tweed cinza com o caimento elegante.
- Este foi um sinal divino - disse Hitler. - Se este incndio, como creio que seja,  obra de comunistas, exterminaremos essa praga assassina com um punho de ferro.
Papen pareceu apreensivo.
Hitler convidou Papen a juntar-se a ele e Gring para decidir com urgncia que medidas tomar. O vice-chanceler, que pressentia o que estava por vir, declinou do 
convite, dizendo que precisava apresentar-se a Hindenburg.
O nico evidente perpetrador foi rapidamente identificado pela polcia como Marinus van der Lubbe, um anarquista holands de esquerda. Usando somente cala e sapatos, 
apesar do tempo glido, pingava de suor e gritava "Protesto! Protesto!" Logo foi apurado que era um conhecido incendirio que j havia tentado pr fogo em vrios 
prdios tanto na Alemanha quanto em seu prprio pas, a Holanda. Confessou quase imediatamente ter acrescentado o Reichstag  sua lista. Foi envolvido em cobertores 
e levado para interrogatrio no quartel-general da polcia poltica, na Alexanderplatz. Van der Lubbe insistiu em que ele - e ele sozinho tinha incendiado o Reichstag. 
Tambm que tinha feito isso por iniciativa prpria e sem ajuda de fora. A sua meta, disse ele, era incitar os trabalhadores da Alemanha a "fazerem alguma coisa em 
relao a Hitler" antes que fosse tarde demais. Os promotores pblicos relutaram em acreditar nele. Estavam sendo consideravelmente pressionados a obedecerem  verso 
oficial de que era uma conspirao comunista. E assim, Ernst Torgler, um membro comunista do Reichstag, que havia sido a ltima pessoa a sair do prdio antes de 
o incndio ser deflagrado, foi preso. Tambm foram presos Blagoi Popoff, Wassil Taneff e Georgi Dimitroff, trs agentes blgaros do Komintern. Todos os quatro tinham 
libis.
Mas um nico homem seria fisicamente capaz de provocar um dano desse porte a um prdio to grande? Ou o fogo tinha sido deliberadamente iniciado pelos nazistas para 
desacreditar os comunistas, como logo foi defendido pelos crticos de Hitler?  uma pergunta que continua a dividir os historiadores at hoje: declaraes de testemunhas 
foram examinadas e reexaminadas, e alegaes de peritos contemporneos sugerindo que o
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incndio poderia ter sido provocado por um nico homem tm sido contestadas por anlises mais recentes.
Delmer menosprezou o que considerou tentativas grosseiras do Partido Comunista Alemo de incriminar os nazistas, especialmente por sua defesa basear-se, em grande 
parte, em documentos forjados. "Suspeito que foi realmente um nico homem que acendeu o fogo - o luntico Van der Lubbe", declarou ele em um artigo de 1939. Escrevendo 
de novo em 1961, disse no ter mais dvidas de que esse era o caso; ele tinha certeza disso.
Putzi, pessoalmente, no foi capaz de lanar muita luz  questo. Em suas memrias, escritas durante a dcada de 1950, destacou a existncia de um tnel - de cerca 
de 110 metros de comprimento - que comeava no poro do palcio onde ele estava dormindo, passando por debaixo da Friedrich-Ebert-Strasse, at o Reichstag. Escreveu 
que no tinha percebido nada, entretanto, que confirmasse a teoria de que o lder da S, Rohm, teria usado o tnel para levar um grupo de incendirios nazistas ao 
prdio do Parlamento.
Por outro lado, estava de cama com febre, o prdio era imenso, e Rohm e seu grupo poderiam com facilidade ter penetrado furtivamente no tnel, sem ningum, muito 
menos ele, notar. Putzi ficou ainda mais intrigado com a reao de Goebbels. O homem era evidentemente um mentiroso profissional. Ainda assim, a maneira desconfiada 
e irada com que reagiu quando Putzi telefonou parecia genuna, em vez de meramente uma cena. Uma possibilidade, pensou, era que Gring, com o conhecimento de Hitler, 
tivesse planejado tudo, mas deixado, de maneira deliberada, de contar a Goebbels, que ele odiava.
Qualquer que tenha sido o papel de Hitler e dos outros lderes nazistas no incndio, no h dvidas de sua determinao em us-lo para seus prprios propsitos. 
Logo depois das 23 horas, Hitler foi a uma reunio no Ministrio do Interior prussiano para discutir as implicaes de segurana para o Estado. Em seguida, foi com 
Goebbels para o escritrio de Berlim do Beobachter, onde uma nova primeira pgina seria criada para refletir o drama dos eventos da noite. Gring deu ordens imediatas 
de capturar comunistas. Em uma hora e meia, centenas de investigadores em trajes civis, acompanhados por policiais armados com pistolas automticas, deram
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incio s detenes. O incndio em si, que havia sido deflagrado por volta das
21h45 foi finalmente controlado  meia-noite e meia. Duas salas da imprensa continuavam queimando, mas no havia mais o perigo de o fogo propagarse embora o domo
do prdio tivesse desmoronado, esfacelando-se no solo. Na manh seguinte, enquanto os jornais alardeavam manchetes sobre "A Conspirao Comunista", Hitler procurou
Hindenburg e apresentou o texto de dois decretos de emergncia, prontos para serem assinados. Juntos, os decretos suspendiam indefinidamente certos direitos, tais
como liberdade de expresso, de reunio, de imprensa, assim como a privacidade postal e de comunicaes telefnicas, garantidos na Constituio de Weimar. O governo
do Reich tambm outorgava a si mesmo o poder de intervir no pas para restaurar a ordem - eliminando a autonomia dos Lnder
[estados] individuais.
Hitler tambm dirigiu-se ao gabinete. Tinha chegado a hora, disse ele, de pr as cartas na mesa com o Partido Comunista - a luta contra eles no se basearia em "consideraes
jurdicas". Nas duas semanas seguintes, s na Prssia, calculou-se que dez mil pessoas foram detidas.
Hitler continuou a fazer campanha durante os ltimos dias. Na maior parte do tempo, Putzi estava do seu lado. Sua campanha eleitoral atingiu o clmax em 4 de maro
com um comcio grandioso em Knigsberg, a capital da Prssia do Leste, que se tornaria a cidade russa de Kaniningrado depois da Segunda Guerra Mundial. Hitler encerrou
o discurso com um apelo ao povo alemo: "Ergam de novo a cabea com orgulho!" Declarou: "Agora deixaram de ser escravos, de no ter liberdade, agora so livres de
novo... com a ajuda de Deus." Quando terminou, a melodia de um hino ressoou, misturando-se com o dobre dos sinos da catedral. Todas as estaes de rdio tinham recebido
ordens de transmitir o comcio ao vivo. Colunas da S marcharam pelo pas e o chamado lume da liberdade foi aceso ao longo
das fronteiras.
O resultado foi dramtico: os nazistas aumentaram a sua parcela de votos para 43,9 por cento, assegurando-lhes 288 das 647 cadeiras no
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Reichstag. Seu sucesso no foi devido somente  represso feroz dos comunistas e outros partidos da ala esquerda, embora isso tenha incontestavelmente desempenhado
um papel considervel. Os nazistas tambm tinham um apoio popular substancial. A Alemanha era uma sociedade profundamente polarizada, e Hitler pde explorar o medo, 
em especial entre os catlicos, tanto dos socialistas quanto dos marxistas.
Goebbels falou de um "triunfo glorioso" dos nazistas, mas no foi bem assim. Apesar da histeria e da intimidao da massa, os social-democratas ainda conseguiram 
obter 18 por cento, e os comunistas, 12,3 por cento. Embora Hitler sasse da votao com a posio consideravelmente fortalecida, ainda no conquistara uma maioria 
absoluta - e permanecia dependente de seus parceiros da coalizo nacionalista, que obtiveram oito por cento cruciais.
Hitler no permitiu que a falta de maioria o refreasse excessivamente. Em uma sesso do gabinete, em 7 de maro, declarou que o resultado da eleio foi uma "revoluo". 
Nos dias seguintes, encenou um golpe de Estado virtual em cada um dos estados da Alemanha. Soldados de tropas de assalto marcharam pelas ruas e sitiaram prdios 
oficiais, obrigando governos locais e estaduais a renunciarem e substituindo-os por gabinetes "nacionalistas". Cinco dias depois, visitou Munique, onde Franz von 
Epp, o general nacionalista, tinha efetivamente tomado o poder e declarado que a "primeira parte da luta", isto , o Gleichschaltung, ou "coordenao", da vontade 
poltica do Estado com a vontade do povo, tinha sido completada. O tom do novo regime foi estabelecido em 21 de maro, quando o novo Reichstag teve a sua primeira 
sesso. Os nazistas o chamaram de Dia da Insurreio Nacional. Foi marcado com uma solenidade na Igreja Militar de Postdam, acima do tmulo de Frederico, o Grande. 
A exibio dos valores imperiais alemes tradicionais foi cuidadosamente orquestrada por Goebbels em uma demonstrao poderosa de seu domnio da propaganda. Os detalhes 
foram meticulosamente aprovados por Hitler. Todos os representantes de antes e depois da Alemanha de Weimar estavam l. Para Putzi, isso foi uma "reao" com toda 
realeza. Tambm pareceu assinalar uma virada na atitude de Hitler. Quando ele falou da "Weltanschauung herica que iluminar os ideais do futuro da Alemanha", Putzi 
achou que
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era como se ele estivesse abandonando a moral crist tradicional em favor de algo novo e mais selvagem. A influncia foi puro Nietzsche. Mas, apesar do cenrio,
parecia que Frederico, o Grande, deixara de ser o heri de Hitler. Seu lugar tinha sido tomado por Napoleo. "O senso inspirado da arte do possvel que tinha caracterizado 
o grande rei prussiano submergiu na cobia ilimitada de poder universal do corso", recordou Putzi mais tarde.
Dois dias depois, quando os deputados se reuniram para a sua primeira sesso, o palco foi armado para a passagem do Ato de Remoo da Misria do Povo e do Reich 
- conhecido como o Ato Habilitador -, que proveria a base legal da ditadura de Hitler. Com o edifcio do Reichstag em runas, os deputados reuniram-se no Teatro
Lrico Kroll. Uma gigantesca bandeira com a sustica pendia sobre o palco; unidades da SS formaram um cordo isolando o prdio; fileiras de homens da S, com suas
camisas marrons, posicionaram-se dentro do Teatro. Em duas horas e meia de discurso, Hitler exps as razes por que seu governo precisava do poder absoluto - e encerrou 
alertando aqueles que se opunham a ele dos perigos da resistncia.
Apesar de ovacionado, Hitler no podia contar, automaticamente, com a maioria de dois teros de que precisava. De incio, o Partido Catlico Zentrum hesitou, mas 
os nazistas conseguiram a sua adeso durante um recesso com promessas
vazias de garantia de liberdade civil e poltica. Todos os deputados comunistas tinham sido
encarcerados, restando apenas os social-democratas para se manifestarem contra os planos de Hitler. Seu desafio foi corajoso, mas em vo. O projeto de lei passou,
441 votos a 94; as trs leituras requeridas levaram somente alguns minutos. Quando Gring anunciou o resultado, os nazistas exultantes correram  frente e entoaram
"Horst Wessel Lied" que havia sido recentemente adotado como seu hino. Mais tarde, nessa mesma noite, o projeto de lei passou na Cmara Alta, o Reichsrat, que j
estava sob total controle nazista, por unanimidade. O Reichstag tinha de fato derrotado a si mesmo. "Um dia histrico", comentou o Vlkischer Beobachter. "O sistema
parlamentar rendeu-se  nova Alemanha (...) A grande tarefa comeou. Chegou a hora do Terceiro Reich." Quase todos os impedimentos constitucionais a Hitler foram
removidos. No entanto, seu poder ainda no era absoluto, embora os outros
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partidos polticos tivessem sido banidos, e os sindicatos, eliminados. Putzi, como muitos outros conservadores com a mesma preocupao, ficou tranqilo ao ver que
muitos dos pilares do antigo establishment, como o Reichswehr, o Ministrio das Relaes Exteriores, o funcionalismo pblico, ainda permaneciam. Assim como o presidente
Hindenburg, Putzi, ingenuamente, esperava que a "agitao" diminusse, em vez de aumentar, e tranquilizou-se com o fato de vrias das prerrogativas serem mantidas.
No entanto, no era a primeira vez que ele entendia errado as intenes de Hitler. Longe de reduzir o ritmo, Hitler impulsionava cada vez mais a revoluo, no mais
dando ouvidos aos consultores que lhe aconselhavam moderao. A coisa toda, Putzi achava, tomava ares do Grande Prmio Nacional de uma corrida de cavalos com obstculos.
No havia como ouvir o que um jquei dizia ao outro ao se aproximarem da barreira.
Nas semanas e meses que se seguiram, toda esfera de atividade poltica e social passou a ser controlada pelos nazistas na continuao do processo do Gleichschaltung. 
A violncia contra judeus e comunistas foi intensificada. Em 22 de maro, um dia antes de o parlamento reunir-se novamente, o primeiro campo de concentrao foi 
inaugurado em Dachau, fora de Munique. No foi uma instalao secreta; Himmler at mesmo convocou uma entrevista coletiva para anunciar a sua inaugurao como um 
centro de deteno de funcionrios comunistas e outros adversrios esquerdistas do regime. Os nazistas estavam construindo rapidamente seu aparelho de terror.

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O JANTAR ESTAVA MARCADO para as 20 horas de 27 de abril de 1933, no apartamento de Berlim de Louis P. Lochner. Como chefe do escritrio da Associated Press, o maior
servio telegrfico dos Estados Unidos, Lochner, nascido em Illinois, estava ansioso por estabelecer relaes ntimas com figuras influentes do novo regime. Ele
e sua esposa alem aristocrata, Hilde, tambm se atinham a uma esperana, de certa forma ingnua, de que as relaes nazistas com o resto da sociedade poderiam ser 
melhoradas se soubessem em primeira mo como as pessoas que eles difamaram eram, na verdade, cidados honestos e honrados. Por essa razo, comearam a organizar 
ocasies sociais que reunissem membros dos dois grupos.
A primeira cobaia no experimento de Lochner foi Putzi. Lochner ou Louis R, como era conhecido por seus colegas jornalistas - no estava correndo muito risco: Putzi 
era um membro atpico do regime e j tinha um crculo amplo de amigos norte-americanos, britnicos e outros no nazistas. Na lista ecltica de convidados estavam, 
entre outros, o general Wilhelm Groener, que se tornara um objeto amaldioado pelos nazistas, quando, como ministro da Defesa, ordenara a dissoluo dos camisasmarrons; 
Kurt Sobernheim, um proeminente banqueiro judeu; e Julius Curtius, ex-ministro das Relaes Exteriores e colega de gabinete de Brning. O grupo fechava com George 
Messersmith, o cnsul-geral dos EUA.
Putzi gostou dos convidados. Como homem que controlava o acesso  mdia do novo chanceler, ocupava uma posio influente e usufrua com prazer do status que isso 
lhe conferia. Jantares desse tipo eram a combinao
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perfeita de negcios e prazer. Mas havia um problema - o que vestir. A Alemanha estava se tornando rapidamente marrom, com mais de um milho de pessoas unindo-se
ao partido s nos primeiros meses de 1933 trocando suas roupas civis pelas fardas dos nazistas. Putzi, com relutncia, aceitou que seria conveniente seguir o exemplo. 
Mas, inevitavelmente, decidiu fazer isso  sua prpria maneira. Hitler o havia autorizado a usar camisas e calas da loja do partido, mas Putzi achava a farda da 
S de cor parda uma monstruosidade. Portanto, encomendou o melhor gabardine marrom-chocolate a um alfaiate de Londres e mandou que fizesse uma farda com pequenas 
e delicadas dragonas douradas. Esse jantar seria a primeira vez que a usaria.
Putzi tinha dado um giro com a farda naquela tarde, quando passara no Hotel Adlon para buscar seu velho amigo Hamilton Fish Armstrong, o editor de Foreign Affairs, 
para lev-lo a uma entrevista com Hitler. Armstrong ficou surpreso com o que viu.
- Ora, Putzi - exclamou ele -, nunca o tinha visto de farda.  magnfica.
- Sim, muito boa, no? - replicou Putzi. - No conte a ningum, mas  tecido ingls. Isso faz diferena.
Hitler, por sua vez, ficou espantado.
- Parece uma rameira turca - declarou ele.
A recepo que Putzi teve nessa noite foi ainda mais dramtica. O jantar era a rigor e os convidados foram chegando, um por um, os homens de fraque e suas mulheres 
de longos. Os Groener, Curtius e Sobernheim no costumavam misturar-se socialmente com nazistas, mas Lochner os tinha avisado de que Putzi estava na lista, e no 
pareceram preocupar-se. s 20 horas, todos, exceto Putzi, tinham chegado. Os convidados esperaram, perguntando-se o que poderia ter acontecido. Quinze minutos depois, 
exatamente quando Hilde Lochner estava prestes a dar o sinal para irem para a sala de jantar, a porta do salo foi, repentinamente, aberta. Irrompeu o que Lochner 
descreveu como uma "imensa massa humana, altssima, com botas de cano alto e farda marrom".
Frau Groener pestanejou e Frau Curtius levou um susto. Lilli Sobernheim, uma mulher baixa e rechonchuda, quase to redonda quanto alta, sussurrou:
A Gestapo - e quase desmaiou. Lochner ficou igualmente surpreso,
principalmente porque Putzi, at ento, fazia observaes sarcsticas sobre a farda oficial nazista e nunca tinha sido visto usando-a. Muito corts, Putzi dirigiu-se 
 anfitri e pediu desculpas pelo atraso.
- Meu mordomo simplesmente no conseguiu achar minha roupa a rigor. Portanto, na ltima hora, vesti a farda - disse ele.
Ningum acreditou na histria,  claro. Para Lochner, era claramente uma retaliao por ter sido convidado a uma festa com crticos ao novo regime. "Um ponto para 
Hanfstaengl", pensou. "Muito inteligente." Putzi depois confirmou que, como seu anfitrio suspeitara, a farda tinha sido encomendada especialmente para a ocasio.
Quando Lochner comeou a fazer as apresentaes, receou que Putzi cumprimentasse os convidados com a saudao nazista. No precisava terse preocupado, pois seu convidado 
estava disposto a bancar o cavalheiro, batendo os calcanhares da maneira alem tradicional, quando apresentado ao general Groener, e curvando-se, quase se dobrando 
em dois, para beijar a mo de Frau Sobernheim. Entretanto, foi Putzi que se surpreendeu ao virar-se para seu marido.
- Herr Doktor, acho que somos parentes - disse-lhe o banqueiro judeu com um brilho malicioso nos olhos. De imediato, Putzi ficou da cor de um camaro diante da sugesto 
de que pudesse ter sangue judeu, mas logo se recomps.
- Que interessante! Como assim?
Soube-se, ento, que uma prima judia de Sobernheim tinha se casado com um dos primos arianos de Putzi. Enquanto o resto do grupo continha risinhos por causa do espetculo, 
os dois se afastaram para analisar com mais detalhes a relao, aparentemente estranha.
Depois do jantar, Lochner conseguiu levar Groener e Putzi para um canto da sala reservada aos fumantes. Putzi, aparentemente, no hostilizou Groener por sua campanha 
contra a S e, mais tarde, aproximou-se de
Lochner, excitadssimo.
- Esse tal de Groener  muito diferente do que imaginei - disse ele. --  to gentil que o convidei a jantar em minha casa um dia desses.
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- Todos os meus convidados so gentis - retorquiu Lochner. - O problema de vocs, nazistas,  o forte preconceito contra todos os que no tm a mesma ascendncia
de vocs.
- Deveria haver mais noites como esta - concluiu Putzi com entusiasmo.
Nos meses que se seguiram, Putzi foi visto cada vez mais regularmente no circuito de coquetis de Berlim. Entre aqueles com quem esbarrava, estavam Martha Dodd, 
a impressionvel filha do embaixador norte-americano, William E. Dodd, que chegara com seu pai em julho de 1933. O embaixador, um sulista, no causou impresso a 
Putzi. Um professor de histria metido em livros e retrado, "movia-se com instabilidade e timidez, como se ainda estivesse em seu campus universitrio", e era "a 
ltima pessoa no mundo que poderia exercer qualquer influncia sobre o povo alemo". Os sentimentos de Putzi eram mais do que simples produto de uma antipatia pessoal. 
Apesar de sua identificao cada vez maior com a causa nazista, continuava a ter grande interesse na maneira como a sua "outra" ptria era percebida na Alemanha. 
Para ele, Dodd era o menos indicado para ser seu embaixador.
Putzi, mais tarde, argumentaria que, devido ao desprezo de Hitler por esses "tipos professorais", os norte-americanos deveriam ter mandado algum empresrio insensvel 
com a fora de Theodore Roosevelt, que no temesse uma conversa direta, de peso. Tambm achava que Dodd tinha cometido um grave erro ao escolher um antigo palcio 
na Pariser Platz, para a embaixada, e nem mesmo ter-se dado o trabalho de consertar a fachada. Esses eram os tipos de acomodaes que se esperava de um Estado de 
menos importncia, como a Iugoslvia, e no dos Estados Unidos da Amrica, argumentou Putzi. Deveriam ter alugado um prdio cinco ou seis vezes maior, e trazido 
uma frota de Cadillac e Packard, e constitudo sua equipe de "funcionrios fortes e decididos e uma poro de mulheres robustas, bonitas - preferivelmente do tipo 
da Mae West!". William C. Bullitt, um amigo prximo de Roosevelt, que tinha acabado de ser nomeado embaixador dos EUA na Unio Sovitica, concordava. A embaixada 
americana em Berlim conviria mais a um pas do tamanho e importncia de Honduras,
disse ele ao presidente. "No  um bom palco para transaes com cavalheiros que se vem como Parsifal e a jovem Siegfried."
Putzi foi especialmente sarcstico com o comportamento de Dodd durante uma reunio secreta de duas horas com Hitler. Convencido de que os nazistas no levariam Washington 
muito a srio, Putzi incitou Dodd a impressionar Hitler com a escala do poderio militar norte-americano e deixar claro para ele que Washington, inevitavelmente, 
se envolveria em algum conflito mundial futuro. Para sua grande decepo, Dodd, falando em alemo, perdeu-se em detalhes pedantes e montonos e deu a impresso "de 
estar com uma batata quente na boca". De fato, seu discurso foi to pobre que Hitler queixou-se a Putzi de que mal tinha compreendido uma palavra sequer do que o 
outro dissera, e fazendo uso de seu dom para a mmica, prosseguiu transmitindo uma impresso cruel de seu visitante norte-americano. Tais encontros s serviram para 
convencer ainda mais o lder nazista de que os "Estados Unidos no deviam ser temidos e no precisavam ser levados em conta como um inimigo srio".
A glamourosa filha loura de Dodd era outra histria, at onde dizia respeito a Putzi - e ela retribuiu seu interesse. Tinham-se conhecido logo depois da chegada 
de Martha, quando foi levada, por Quentin Reynolds, editor e correspondente do Collier's, a uma festa oferecida por um dos jornalistas britnicos. Putzi fez, a sua 
entrada dramtica e atrasada de sempre. Martha ficou fascinada, era a primeira vez que olhava o homem que lhe haviam dito ser o "artista entre os nazistas, excntrico 
e interessante, o palhao e msico pessoal do prprio Hitler".
"Ele tinha maneiras suaves, insinuantes", recordou-se ela em seu dirio, "uma bela voz que explorava com talento, s vezes sussurrando baixo e grave, no minuto seguinte 
gritando e perturbando a sala toda". Graas  sua poderosa presena fsica, energia indomvel, e a conversa incessante, era capaz de extenuar qualquer um e "gritar 
mais alto ou sussurrar mais baixo que o homem mais forte em Berlim". Ela conclui: "O sangue bvaro e norte-americano produziram esse fenmeno. Ele nunca poderia 
ter sido prussiano, e orgulhava-se disso."
Sua pontualidade era tudo menos prussiana. Como Martha logo percebeu, gostando de chamar ateno, Putzi tinha o hbito de aparecer depois
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dos outros convidados. Nesse outubro, ela ofereceu uma festa de aniversrio. Ele chegou com estardalhao depois da meia-noite, para satisfao de uma princesa que
se entediava e que s tinha permanecido na festa para conhec-lo. Encontrou-a quando ela saa e a atraiu de volta. Depois de um drinque, comeou a tocar piano com
a sua exuberncia de sempre. Foi embora logo depois, com gestos imoderados e elogios a tudo e todos na casa - inclusive a "Papa" Dodd, como se referia, de brincadeira,
ao pai de Martha.
Martha tambm era alvo de uma das maquinaes mais bizarras de Putzi. A vida sexual de Hitler-ou melhor, a aparente ausncia de-tinha sido uma das preocupaes de 
Putzi durante algum tempo. Estava convencido de que a personalidade cada vez mais violenta e ameaadora de Hitler, e suas ambies, estavam relacionadas ao desequilbrio 
em sua vida particular, e resolveu procurar uma mulher para ele. Um dia, o telefone tocou para Martha, na embaixada. Era Putzi.
- Hitler precisa de uma mulher-informou de uma maneira pomposa. - Ele deveria ter uma mulher norte-americana. Uma mulher encantadora poderia mudar o destino de toda 
a Europa. Martha, voc  essa mulher.
Martha achou de incio que tinha sido vtima de uma brincadeira grosseira de Putzi. Mas detectou uma seriedade subjacente em sua inteno e ficou de certa maneira 
excitada com a possibilidade de conhecer Hitler. Apesar de criticar o crculo do Fhrer e o sistema que ele estava criando, continuava convencida de que era "uma 
personalidade brilhante e glamourosa, que devia ter muito encanto". Martha escolheu sua roupa com cuidado. Se tinha sido designada para mudar o rumo da histria 
da Europa, anotou ironicamente depois, deveria vestir-se com recato e excitar mais a curiosidade com um vu, uma flor e um par de mos muito frias. Os homens alemes, 
tinha percebido, gostavam que suas mulheres fossem apndices atraentes, para serem vistas, no escutadas.
Putzi levou-a ao Kaiserhof, onde encontraram Jan Kiepura, um jovem cantor polons que tambm seria apresentado a Hitler naquele dia. Kiepura foi o primeiro a ser 
levado para ser apresentado, quando Hitler se sentou  mesa do lado, cercado por seu squito de guarda-costas. Os dois mantiveram uma conversa animada, aparentemente 
sobre msica. A audincia de
Martha era um caso muito mais tenso. Depois de Putzi sussurrar uma breve explicao a Hitler, ela aproximou-se e ficou de p enquanto ele se levantava e beijava
sua mo. Putzi deve ter-se esquecido de alertar Hitler de que Martha falava somente algumas poucas palavras em alemo, pois quando lhe murmurou alguma coisa ela 
no entendeu e retirou-se rapidamente. Ficaram cada um  sua mesa por algum tempo, Martha consciente dos olhares curiosos e constrangedores que Hitler, ocasionalmente, 
lhe lanava.
Quando ela e Putzi saram, ele voltou a ser o impetuoso de sempre.  Mas ela no estava interessada em sua conversa extravagante, insensata. Tentava conciliar o
papel de Hitler como um dos homens mais poderosos da Europa com o que tinha visto de perto: um homem reservado, enfadonho, e at mesmo gentil e pouco  vontade,
que parecia tmido e constrangido ao conhecer pessoas "acima de sua posio social ou riqueza". Somente os olhos ardentes, hipnticos, azul-claros davam a sensao 
de algo muito mais potente - e assustador.
Enquanto Hitler no se interessou por Martha, Putzi no ficou imune a seus encantos. Segundo seu filho, Egon, ela foi uma das vrias mulheres com quem seu pai teve 
um caso.
Mais tarde, na mesma noite, Martha ofereceu uma reunio simples para alguns amigos. Um dos convidados, Hans Thomsen, o representante do ministro das Relaes Exteriores 
na chancelaria, ficou pasmo quando a anfitri ps para tocar no fongrafo Horst Wessel Lied. Thomsen revoltou-se dizendo que um hino glorificando o mrtir  causa 
nazista no era "o tipo de msica a ser tocada em reunies mistas e de uma maneira leviana". Putzi achou a coisa toda extremamente divertida. "Sim, tem gente assim 
entre ns", disse ele a Martha. "Gente com pontos cegos e sem o menor senso de humor. Deve-se tomar cuidado para no ofender suas almas sensveis." Com certeza, 
ele prprio no era uma delas.
A atitude irnica de Putzi em relao aos nazistas tambm se manifestou diante do prncipe Louis Ferdinand da Prssia. Von Ribbentrop havia tentado atra-lo  causa 
nazista, mas ele se recusara. O prncipe, no obstante, simpatizou com Putzi. "Seu estilo de vida bomio e sua simpatia pelos Estados Unidos foram a base da nossa 
amizade", declarou mais tarde, ao comentar quando se conheceram, em 1933. "Era uma pessoa gentil, embora
muita gente o considerasse um pouquinho maluco. De qualquer maneira ele via aquele tumulto nazista todo como um teatro."
Na primavera do mesmo ano, Putzi marcou um encontro dele com Hitler. O prncipe, um jovem em viagem aos Estados Unidos, e que se empregara na fbrica Ford, em Detroit,
foi agraciado com um monlogo de quarenta minutos de Hitler, sobre como admirava o fabricante de carros norte-americano e o seu xito ao transformar o automvel
em "um instrumento para unir diferentes classes". Embora, de certa forma, perturbado com o encontro, o prncipe foi obrigado a admitir que sentiu "uma certa fora
magntica emanando dele".
Putzi tambm fazia nome l fora, especialmente na Gr-Bretanha, para onde viajava com freqncia. Uma mulher britnica alvo de seus encantos foi Diana Milford, a
filha de Lord Redesdale, e uma renomada beldade da sociedade. Diana e suas cinco irms e um irmo eram membros famosos e vistosos do establishment britnico, que
se misturavam com desembarao com alguns dos escritores, pensadores e artistas mais proeminentes do pas. Diana tambm era prxima a Winston Churchill. Casada cinco
anos antes, aos 18 anos, com Bryan Guinness, um dos rapazes mais ricos da Inglaterra, estava agora prestes a deix-lo: seu novo amor e futuro marido era Sir Oswald
Mosley, que j ganhava notoriedade como lder da British Union of Fascists.
Diana conheceu Putzi na primavera de 1933, em uma festa em Londres, oferecida por um dos primos de Guinness. Putzi tocava piano na sala de estar quando ela chegou,
mas ele imediatamente se levantou e comeou a
- deleitar os convidados com a sua descrio do novo Estado alemo e seu lder. Para ela, no havia dvida de que Hitler "era tudo no mundo para ele, como lder
e como amigo".
Tudo o que Diana sabia sobre os nazistas resumia-se ao que tinha lido nos jornais britnicos e que diziam respeito, sobretudo, ao dio que o partido tinha dos judeus.
Putzi ficou indignado quando ela lhe perguntou sobre como eram tratados.
- Oh, os judeus, os judeus, s se ouve falar nisso em Londres - gritou ele.-As pessoas aqui no fazem idia de como o problema judeu tem sido na Alemanha desde a
guerra. Por que no pensar nos 99 por cento da
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populao, nos seis milhes de desempregados? Hitler construir uma grande e prspera Alemanha para os alemes. Se os judeus no concordam com isso, podem partir.
Eles tm relaes e dinheiro no mundo inteiro. Que deixem a Alemanha para ns, alemes.
Putzi falou dessa maneira a noite toda. Diana tinha conhecido vrios comunistas de salo que "exalavam fuzilaria e carnificina", mas ele era o seu primeiro "nazista 
de salo". Ficou fascinada, especialmente quando Putzi prometeu apresent-la a Hitler, se ela fosse  Alemanha.
- Vocs todos devem ir  Alemanha - disse ele a todos os presentes.
- Vero com os prprios olhos que mentiras esto sendo ditas a nosso respeito em seus jornais.
Em setembro, Diana decidiu aceitar o convite. A virada em sua vida privada indicava que estava querendo afastar-se de Londres. Sua irm mais nova, Unity, tambm 
queria um tempo. O momento era perfeito. Quando as duas procuraram Putzi, ele lhes disse que haveria um comcio do partido na cidade bvara de Nuremberg para celebrar 
a ascenso nazista ao poder. Ofereceu-se para lev-las e insinuou que talvez cumprisse a promessa de apresent-las a Hitler.
As duas mulheres ficaram impressionadas com o que viram. As ruas da Cidade Velha, de Nuremberg, estavam apinhadas, com milhares de homens fardados. Havia bandeiras 
com a sustica em vrias janelas. O comcio, em si, foi espetacular. Albert Speer, ento um jovem arquiteto, foi incumbido de projetar o cenrio, que ele rematou 
com uma guia dourada de asas abertas a 30 metros de altura. Leni Riefenstahl, a famosa cineasta, ajudou-o com os efeitos especiais. O mais impressionante de tudo 
foi a sensao absoluta de jbilo na multido. Diana falou de uma sensao de "triunfo excitado" no ar. Quando Hitler apareceu, "foi como um choque eltrico na multido. 
Foi, escreveu ela, uma "ao de graas aos revolucionrios pelo xito de sua revoluo. Achavam que os anos negros desde a sua derrota na guerra tinham-se encerrado, 
e ansiavam por uma vida melhor". Putzi foi o anfitrio perfeito, acompanhando as irms durante os quatro dias do evento, levando-as a todos os desfiles. Ele usava 
a mesma farda marrom-escura inconfundvel com que fora  casa de Lochner, mas Diana achou engraado usar uma cala at os joelhos e botas de montaria, em
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vez da cala usada pelos outros membros da liderana nazista. Unity, em particular, queria conhecer Hitler, e perguntava a Putzi, duas, trs vezes ao dia, quando
teria sua chance.
Jputzi, finalmente, concordou em lev-las ao Hotel Deutscher Hof, onde Hitler ajou-se durante as celebraes. No caminho, entretanto, ele expressou preocupao 
em relao  maquiagem pesada das duas, que no condizia com a concepo nazista de beleza.
- No devem usar batom - disse ele -, o Fhrer no gosta. Diana, obedientemente, aceitou o leno oferecido e limpou o batom,
mas Unity recusou-o.
- Eu no conseguiria ficar sem - disse ela.
De qualquer maneira, prosseguiram at o hotel e aguardaram no saguo que membros da comitiva de Hitler as avaliassem para ver se mereciam ser apresentadas. Finalmente, 
Hess desceu e disse que Hitler estava muito ocupado para v-las. Putzi no teve dvidas de que a culpa tinha sido da maquiagem de Unity.
Para as duas mulheres, no entanto, aqueles poucos dias em Nuremberg mudariam suas vidas. Diana voltou  Gr-Bretanha convencida da necessidade de estabelecer vnculos 
entre Mosley e o lder nazista. Unity ficou to impressionada com a "nova Alemanha" que conseguiu persuadir seus pais a deix-la ir para Munique estudar alemo. 
Louca para conhecer Hitler, ia todos os dias ao restaurante Osteria Bavria, na esperana de encontr-lo ali. Almoava ou tomava caf l quase sempre sozinha, esperando 
- colocando-se em uma posio de modo que ele, inevitavelmente, tivesse de passar por ela e, s vezes, falava alto ou deixava um livro cair para chamar a sua ateno.
Por fim, compensou. Quando Unity conheceu Hitler, em 1935, escreveu uma longa carta a seu pai, que comeava dizendo: "Ontem foi o dia mais maravilhoso da minha vida." 
Sentia-se to feliz, escreveu ela, "que nem me importaria de morrer". A partir da, Unity tornou-se amiga de Hitler e freqentadora regular da Braun Haus. A relao, 
ao que parece, foi puramente platnica, embora, talvez, ela tivesse preferido que no. Segundo Putzi, Hitler a aceitava por seu "valor esnobe", mas nunca se interessou
por ela sexualmente - "ela podia muito bem ser simplesmente uma banheira
com gua transbordando".
Vrios outros britnicos notrios tambm estavam impressionados com Hitler, se bem que poucos ficassem obcecados como Unity. David Lloyd George, antigo lder do
British Liberal Party, e primeiro-ministro na Primeira Guerra Mundial, era um deles. Quando Putzi o visitou na GrBretanha, Lloyd George presenteou-o com uma foto 
sua com uma dedicatria, para que a levasse a Berlim. No verso estava escrito: "Para o chanceler Hitler, com admirao por sua coragem, determinao e liderana."
Nem todo estrangeiro sucumbia aos encantos de Putzi. Quentin Reynolds, o correspondente do Collier's, achava-o superficial e hipcrita. "Tem-se de conhecer Putzi 
para realmente no gostar dele", disse. Na verdade, a sua primeira impresso, quando ele apresentou suas credenciais no Foreign Press Department, foi a de um sujeito 
amvel. Um conversador compulsivo e divertido, com maneiras insinuantes, Putzi destoava sendo cordial com os norte-americanos - um grande contraste com a hostilidade 
da maioria de outros oficiais nazistas. Quando Reynolds perguntou, durante um de seus primeiros encontros, sobre a possibilidade de uma entrevista com Rudolf Diels,
o chefe da Gestapo, Putzi condescendeu imediatamente. No dia seguinte, procurou o norte-americano na Die Taverne para lhe dizer
que estava tudo arranjado.
Putzi tentou agradar e insinuar-se em um nvel pessoal quando a criada de Reynolds, Martha, meteu-se em apuros com os nazistas: toda manh, quando o carteiro levava
a correspondncia, batia os calcanhares e a saudava com "Hei, Hitler" - que estava se tornando rapidamente a forma habitual de cumprimento. Martha, uma jovem de
faces rosadas, respondia com igual determinao: "Grss Gott" [Que Deus esteja com voc] a saudao tradicional de sua Baviera nativa. Mas tal desafio ao novo regime
no passaria despercebido por muito tempo. Um dia, dois soldados de assalto, com suas fardas marrons, um deles fluente em ingls, bateram  porta e disseram que
tinham sido informados de que a sua criada era hostil
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ao regime e que a levariam ao quartel-general da S para ser interrogada -- Reynolds ligou imediatamente para Putzi e lhe disse o que tinha acontecido, certificando-se
de que os dois soldados o ouvissem.
Putzi no o decepcionou.
- Deixe-me falar com um desses idiotas-disse ele, e, quando o telefone foi passado ao que falava ingls, no se conteve. - No tem nada melhor a fazer do que aborrecer
uma camponesa simples, que trabalha para o representante da grande organizao Hearst? - esbravejou, esquecendo-se de que, na verdade, Reynolds trabalhava para a
Collier's. - Se tornarem a incomod-la, vou me queixar pessoalmente a Ernst Rohm e ele cuidar de vocs.
A interveno de Putzi surtiu o efeito desejado. Enxugando a testa, o homem da S desculpou-se prontamente a Reynolds pelo mal-entendido. Pouco depois, o carteiro
foi transferido.
Reynolds, entretanto, no demorou a ter de enfrentar um lado muito menos afvel de Putzi. Talvez devido ao limitado domnio do alemo e relativamente parco conhecimento
do pas por parte do jornalista, Putzi achou que conseguiria influenciar o que escrevia com muito mais facilidade do que com outros, como Lochner, que j observava
os nazistas h vrios anos. E assim, quando os dois homens se esbarraram no bar do Adlon Hotel, cerca de um ms depois de Reynolds chegar, Putzi parabenizou-o por
no ter escrito nada sobre o suposto maltrato dos judeus por parte dos nazistas, que, como ele dizia a todos que quisessem escutar, no passava de propaganda antigermnica.
Mas isso no duraria muito. Logo tornou-se claro para Reynolds que a imagem que Putzi tentava vender-lhe do regime nazista no se enquadrava com o que ele via com
seus prprios olhos.
Isso foi demonstrado dramaticamente quando Reynolds parou em Nuremberg, a caminho do Festival de Msica de Salzburg, com Martha Dodd e seu irmo Bill. Por acaso,
ele tornou-se um dos primeiros correspondentes estrangeiros a testemunhar os horrores do antissemitismo dos nazistas. Chegando ao hotel logo depois da meia-noite,
entreviram um desfile pela cidade, iluminado por tochas. Uma multido feliz e sorridente flanqueava as ruas, e as bandeiras com susticas eram visveis. No centro
da marcha, estava uma mulher, sendo praticamente arrastada por dois
soldados de 1,82 metro de altura. A face estava coberta de p branco e o cabelo tinha sido raspado. Em volta do pescoo estava pendurado um cartaz que dizia: "Quero
viver com um judeu". A mulher, chamada Anna Rath, como ficaram sabendo, tinha cometido o erro de tentar casar-se com seu noivo judeu apesar da proibio do casamento
de judeus com "arianos". A matria escrita e enviada por Reynolds foi divulgada em toda a imprensa americana - rendendo-lhe aplausos de seus chefes e descomposturas
de Putzi. Quando voltou a Berlim, encontrou uma nota ordenando-lhe que se apresentasse imediatamente em seu escritrio.
Putzi estava furioso.
- No h uma maldita palavra de verdade em sua matria! - gritou ele.-Falei com o nosso pessoal em Nuremberg e disseram que no aconteceu nada desse tipo.
Reynolds logo silenciou-o, revelando que estava acompanhado de duas outras testemunhas inatacveis, em Nuremberg, e que as duas confirmariam a sua histria.
No havia nada que Putzi pudesse fazer. Mas logo depois teve a sua vingana, se bem que de uma maneira bizarra. Os pais de Reynolds estavam visitando Berlim, e ele
lhes ofereceu um jantar prdigo ao qual Putzi foi convidado. Como sempre, logo se sentou ao piano e comeou a tocar algumas cantigas alems inofensivas. Ao ouvir
Reynolds traduzir para a sua me, Putzi virou-se para ela e anunciou que tocaria uma de suas prprias composies, cuja letra era em ingls. Ento, ps-se a entoar
para a infeliz uma cano obscena nazista na qual "judeus, catlicos e negros" eram classificados como inimigos do Terceiro Reich. Reynolds no teve dvidas de que
essa era uma maneira de Putzi revidar a sua reportagem sobre Nuremberg e teve de controlar-se para no esmurr-lo. Felizmente, Putzi foi chamado logo depois para
tocar um pouco de Liszt para Hitler, na chancelaria. Reynolds acompanhou-o  porta. Controlando-se de maneira
magistral, disse:
- Nunca mais venha  minha casa, seu calhorda.
Enquanto Reynolds precisou de um tempo para perder a iluso a respeito de Putzi, outros, como Bella Fromm, uma colunista social judia do Vossische Zeitung de Berlim,
s precisou de um instante para antipatizar
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com ele. Um "gigante de aparncia ridcula", que acompanha cada frase com gestos agressivos, "de dimenses assustadoras", e tenta esclarecer sua opinio Jogando 
"a cabea estranhamente torcida", escreveu ela depois de conhec-lo em uma festa. Putzi, amado pelos presentes tanto quanto um bobo da corte  amado, era "um fantico 
nazista", declarou ela. "Negligenciou a famlia e os negcios durante anos, para seguir seu mestre como um co fiel." Quando Putzi vangloriou-se de como tocava piano 
para Hitler tarde da noite para ajudar o Fhrer quando sofria de insnia, Fromm no conseguiu evitar responder: "E da?"
Tambm a irritava Putzi continuar a ser um apologista da poltica nazista ainda em 1933. "Todos os boatos sobre a perseguio aos judeus e o maltrato de catlicos 
so mentiras baratas e mexericos absurdos", disse Putzi, quando tomavam ch na embaixada italiana, em maro. Aconteceu algo semelhante quando se encontraram casualmente 
dois meses depois no glamouroso Rot-Weiss-Ball. Putzi ficou encantado com uma amiga judia que estava com ela.
- Voc deveria ir ao instituto antropolgico para uma consulta disse ele. -Acho um absurdo voc ser judia. Seu crnio tem a forma ariana perfeita."
Fromm teve outra experincia do antissemitismo de Putzi em maio do ano seguinte, em uma festa de despedida oferecida pelo embaixador Dodd a Messersmith, o cnsul-geral 
dos EUA.
- Toda essa excitao por causa de judeus - queixou-se Putzi. Messersmith  um deles. Roosevelt  outro. O partido os detesta.
- Dr. Hanfstaengl, j discutimos isso antes - retorquiu Fromm. No precisa fazer esse tipo de cena para mim.
Putzi moderou o tom.
- Est bem, est bem - admitiu ele. - Tenho muitos amigos nos Estados Unidos, e todos eles tambm so solidrios com os judeus. Mas como o programa do partido faz 
questo...
Ao se despedirem, Putzi ofereceu-lhe uma bala de frutas.
- Aceite uma - disse ele. - So feitas exclusivamente para o Fhrer. Antes de a pr na boca, Fromm ficou horrorizada ao constatar que era
decorada com uma sustica.
putzi no procurava dissimular o antissemitismo diante de jornalistas e outros visitantes, especialmente daqueles que tentavam conseguir uma audincia com Hitler. 
Will Moore, um norte-americano cujo irmo tinha estudado com Putzi em Harvard, achou-o um "exemplo sem escrpulos de um governo sem escrpulos" quando esbarraram 
durante uma visita a Berchtesgaden. "Ele defende o aniquilamento total dos judeus e o extermnio dos comunistas e criminosos, para no sobrecarregar o Estado com 
a sua manuteno", disse ele.
Outro que experimentou esse antissemitismo em primeira mo foi Robert Bernays, um jornalista britnico e poltico do Partido Liberal, que foi  Alemanha investigar 
a questo judaica. Ciente da grande suscetibilidade do regime a crticas, teve o cuidado de no participar de nenhuma manifestao antinazista, nem fazer qualquer 
outra coisa que pudesse coloc-lo em uma lista negra alem antes de ele chegar. Putzi parecia-lhe o melhor acesso ao Fhrer, portanto o procurou. Mas Putzi desconfiava 
de Bernays e estava convencido de que ele era judeu. De fato, como Bernays escreveu mais tarde a Tom Clarke, o editor do News Chronide, seu bisav tinha realmente 
sido um judeu alemo, mas que lutara na Batalha de Leipizig - o que poderia torn-lo um gentio honorfico. A partir de ento tinha havido "geraes de clrigos nos 
dois lados da minha famlia".
Putzi ligou para a embaixada britnica em Berlim para saber mais sobre o visitante.
- Quem  esse Sr. Bernays? - perguntou ele. -  um nome judeu.
Aqui dizemos Bernice.
- No sei como dizem na Alemanha - respondeu um secretrio, que conhecia o visitante pessoalmente. - Mas na Inglaterra, pronuncia-se como se escreve: Bernays.
E assim, Putzi concordou em v-lo. O encontro no transcorreu bem. Depois de alguns minutos de disputas, Putzi encetou um discurso longo contra os judeus, que descreveu 
como hspedes na Alemanha que tinham abusado de sua posio e deviam partir.
- A sua imprensa, suas leis, suas finanas, sua poltica so controladas pelos judeus - esbravejou, antes de lanar-se em um crescendo de insultos. - Diga isso a 
seus amigos judeus.
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- Bernays tentou em vo convencer Putzi de que no eram apenas "seus amigos judeus", mas a Cmara dos Comuns inteira estava espantada no somente com a campanha 
de Hitler contra os judeus, como tambm com seus ataques s liberdades civis e com o reflorescimento do militarismo

que tinha provocado a Primeira Guerra Mundial.
- Admira-se de que estejamos irritados e francamente alarmados? - perguntou Bernays.
Putzi no aceitou nada disso. Embora admitisse que a perseguio aos judeus tinha sido mais violenta do que o necessrio, disse ao visitante ctico que era importante
compreender que os eventos de maro de 1933 tinham sido "uma revoluo, no uma mudana de governo". O verdadeiro inimigo era o comunismo - algo que o povo da Gr-Bretanha
nunca entenderia, porque o pas no tinha sequer um nico membro comunista no Parlamento.
- Qual  a alternativa de Hitler? - perguntou. - Comunismo. Hitler, dissera ele, tinha o poder de "organizar e inspirar" semelhante ao de David Lloyd George na Gr-Bretanha,
e cooperaria com qualquer um "para resistir ao comunismo e  guerra. Putzi tambm alegou estar bastante preocupado com a fora do sentimento antialemo na Gr-Bretanha.
Para ilustrar sua posio, mostrou-lhe um exemplar de The Sphere, uma revista britnica mostrando uma efgie de Hitler no Museu de Cera Madame Tussaud, em Londres,
borrada com tinta vermelha.
-  essa a maneira de estabelecer boas relaes? - perguntou. Bernays percebeu que suas chances de conseguir uma entrevista com
Hitler diminuam a cada minuto que ele passava com Putzi, mas achou que, de qualquer maneira, no custaria pedir. Distorcendo ligeiramente a verdade, descreveu-se
como um membro "nacionalista" do Parlamento, mas quando Putzi perguntou o nome do lder do seu partido, ele se viu em apuros. Fingiu por um momento que ainda era
David Lloyd George, mas admitiu que o nome do lder era Herbert Samuel - confirmando assim a suspeita de Putzi de que tudo aquilo no passava de uma provocao judia.
Alguns dias depois, um amigo de Bernays deparou-se com Putzi e perguntou se ele estava providenciando a entrevista.
- Acha que vou conseguir uma entrevista para um judeu porco? -
perguntou Putzi.
Nesse meio-tempo, Putzi continuou a desempenhar seu outro papel importante no partido, o de pianista de Hitler, sempre pronto a ficar do seu lado quando era preciso.
"Putzi era para Hitler o que o harpista Davi era para Saul", comentou Louis P. Lochner da Associated Press. "Aliviava os freqentes acessos de depresso do Fhrer
com seu piano." Como conseqncia das horas estranhas em que Hitler se deitava, tais chamados podiam acontecer em qualquer momento. Um incidente tpico foi na noite
em que Putzi estava oferecendo uma Bierabend [festa da cerveja] em sua casa a alguns diplomatas, funcionrios do governo, atores, escritores e vrios correspondentes
estrangeiros. A uma hora da manh, quando a festa estava no auge, o telefone tocou. Era Hitler.
- O que est fazendo, Hanfstaengl? - perguntou. - Est cansado
demais para vir tocar para mim?
Putzi saiu e correu para a chancelaria. Hitler parecia abatido e cansado.
- Toque qualquer coisa - disse ele.
Putzi comeou a tocar uma seleo das favoritas, de Puccini e Verdi a Schumann, pois sabia que relaxariam Hitler. Normalmente, teria tocado Wagner tambm,  claro,
mas considerou inconveniente por causa da hora tardia. Surtiu o efeito desejado. Quando Hitler parecia relaxado a ponto de estar preparado para dormir, Putzi deixou-o
e voltou para a sua festa.
Era um motivo de eterno pasmo para Putzi por que Hitler parecia gostar tanto dele tocando. Outros que o escutaram ficaram mais impressionados com o vigor e intensidade
de sua maneira de tocar do que por sua virtuosidade. "Ele sempre deixava o piano exaurido, no s ele como tambm seus ouvintes", disse Martha Dodd sobre uma de
suas apresentaes em uma festa oferecida por ela. "E depois as salas da embaixada reverberavam com o som por dias seguidos."
No obstante, havia algo na msica e no carter de Putzi que atraa Hitler especialmente. Putzi gostava de contar a histria de como um pianista italiano virtuoso
tinha ido, certa vez, tocar para Hitler.
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- Ento, ainda gosta de ouvir Hanfstaengl tocar depois de escutar esse homem? - perguntou um amigo a Hitler, rindo.
- Prefiro ouvir Hanfstaengl tocar cem notas erradas a ouvir esse homem tocaruma nica certa - retorquiu Hitler.

11
UMA NOITE, NESSE VERO, Hitler ligou e convidou os Hanfstaengl a passarem uma semana em sua casa em Berchtesgaden. Putzi recusou, dizendo que tinha coisas demais
a fazer em Berlim, mas sugeriu que Helene e Egon fossem sem ele. Hitler concordou. Continuava enamorado de Helene e a idia de uma semana a ss com ela - ou pelo
menos sem seu marido era tentadora.
Logo depois da meia-noite, o carro de Hitler chegou para busc-los. Foram conduzidos ao apartamento luxuoso do lder nazista na Prinzregentenplatz, onde ele e alguns
de seu squito estavam aguardando. Finalmente, partiram  1h30 da manh em dois Mercedes-Benz idnticos, conversveis. Egon e Helene estavam no primeiro com Hitler.
Somente quando o dia rompeu chegaram a Haus Wachenfeld. Me e filho foram colocados juntos no quarto de hspedes no andar de cima, de onde tinham uma vista magnfica
do vale. No dia seguinte, Hitler levou-os, com prazer, a passear. At mesmo mostrou-lhes seu quarto, relativamente modesto, no primeiro andar, que, como o resto
da casa, estava mobiliado no estilo rural simples Landhaus. Alm da cama, havia apenas uma pequena escrivaninha e algumas prateleiras com livros.
Egon, que havia pouco tempo persuadira o pai a dar-lhe permisso para unir-se  Juventude Hitlerista, conviveu com Hitler nos dias seguintes. Ele e Helene comiam
com Hitler e os outros membros da comitiva, regularmente. Hitler, recordou Egon, foi muito corts - pelo menos para os padres habituais. A conversa normal no era
o seu forte. Ou escutava ou, o
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que era mais comum, pregava. Quando se sentava  mesa em Berchtesgaden, comportava-se como um anfitrio comum, embora se mostrasse relutante em falar sobre qualquer
coisa que no automveis, motores, tamanho e desempenho de diversos navios, e outros temas tcnicos do gnero.
Embora Helene e Egon fossem os nicos convidados com o privilgio de dormir na casa, durante o dia ela ficava cheia de nazistas que estavam nos hotis e Pensionem 
nos arredores. Gring era um dos visitantes mais freqentes. Ele e Hitler caminhavam por uma trilha de relva, conversando. Sentado na varanda, Egon captava fragmentos 
das conversas que propiciavam um conhecimento deprimente da natureza do governo nazista. Em uma ocasio, por exemplo, ouviu Gring vangloriando-se de como tinha 
acabado de assinar a autorizao de vinte mortes.
Uma vez, Egon aproximou-se quando Hitler estava s na varanda, olhando na direo de Salzburg. A distncia, algumas casas e o que parecia ser um castelo eram apenas 
ligeiramente visveis.
- Veja, meu menino, l  a ustria - disse Hitler, de repente.
- O senhor nasceu l, no nasceu, Herr Hitler? - disse Egon.
- Sim, nasci. Em Braunau, s margens do Inn.  realmente um belo pas.
- Por que no vamos at l de carro? Fica perto - props Egon. Hitler sorriu.
- Um dia iremos.  mesmo uma pena que no nos pertena. Mas um dia ainda far parte do Reich.
Embora Putzi se comportasse com naturalidade com diplomatas e jornalistas, suas relaes com outros membros do squito de Hitler continuavam deficientes. Ele tinha 
esperado, ingenuamente, que Hitler, chegando ao poder, se livrasse de Wilhelm Brckner, Julius Schaub, Heinrich Hoffmann, Sepp Dietrich e os outros membros da "equipe 
medonha" que ele passara a desprezar durante as vrias campanhas eleitorais. Para seu horror, continuaram a formar o crculo ntimo de Hitler mesmo depois que ele 
se mudou para a chancelaria. Considerando Hitler "deles", formaram um muro  sua volta para proteg-lo das influncias que achavam que desvirtuavam
a orientao do partido. Sua atitude fazia Putzi pensar em uma antiga comdia de Gerhard Hauptmann, chamada Schluck una Jau, passada no sculo XVII. Na histria, 
um duque esbarra com dois vagabundos bbados, enquanto est caando com alguns amigos e, como brincadeira, os leva para seu castelo e os pe em sua cama. Quando 
despertam, dizem-lhes que so o duque e seu camareiro. Para diverso de todos, eles acreditam. Para Putzi, Brckner e os outros eram os vagabundos de Hauptmann.
Putzi estava ainda mais preocupado com a crescente influncia de Goebbels, que, como ministro da Propaganda, substitua gradativamente o papel de sua nmesis desempenhado 
por Rosenberg. Putzi h muito desconfiava desse "ano debochado, invejoso, malvolo, diabolicamente talentoso", que via como o "peixe-piloto do tubaro Hitler". 
A admirao primeira de Goebbels por Putzi dera lugar h muito  desconfiana. Putzi achava que ele nunca o perdoara por uma ocasio, quando se tornara uma das poucas 
pessoas a ver seu p aleijado sem sapatos. Tambm zombava da maneira como Magda Goebbels dirigia-se ao marido, pelo apelido carinhoso de "Engelcheri" [anjinho]. 
"Magda chamava-o de 'Engelchen', mas quem surgia era o velho demnio em pessoa, p torto e tudo o mais", comentaria Putzi.
Tais comentrios retornavam, necessariamente, a Goebbels, que manifestava seu dio a Putzi
das maneiras mais mesquinhas. Em certa ocasio, Putzi e Hitler passaram pelo apartamento de Goebbels e se depararam com um piano de cauda, com que este ltimo acabara 
de ser presenteado. Hitler, de imediato, pediu a Putzi para tocar;
Goebbels, apesar de interiormente irritado, fingiu aprovar. Isso prosseguiu por meses, at um dia em que Putzi encontrou o piano propositalmente desafinado. No
tocou mais l para Hitler.
A desconfiana entre os dois s fez se intensificar quando Hitler subiu ao poder. Putzi estava convencido de que o rival queria anexar a imprensa estrangeira  sua
seo de propaganda, que se desenvolvia cada vez mais. Goebbels parece ter visto Putzi como pouco mais que um irritante insignificante e comeava a se cansar de
seu humor sarcstico e a dedicao no integral  causa. No entanto, longe de tentar apazigu-lo, Putzi envolveu-se na rota da coliso. Foi uma luta desigual. Putzi
poderia ter francamente
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apelidado seu inimigo de Gobbespierre - em uma comparao satrica com Robespierre, o lder revolucionrio francs -, mas o ministro da Propaganda foi um dos homens
mais poderosos do novo regime, e foi um grave erro ttico opor-se a ele.
Um de seus primeiros conflitos foi sobre um filme. Ewers tinha apresentado o livro sobre Horst Wessel que prometera, no fim de 1932, recebendo aplausos enfticos
da liderana nazista e, depois que Hitler subiu ao poder, resolveu transform-lo em filme. Putzi concordou em compor a msica e a atuar como assistente de produo.
A filmagem teve incio nas ruas de Berlim em 6 de julho. A nfase foi na autenticidade: grande parte dos papis foi representada pelos ex-camaradas de armas de Wessel
- alguns dos quais se empolgaram ao representar suas brigas. Uma cena mostrando uma de suas brigas com os comunistas em uma cervejaria acabou com a destruio de
23 mesas, 217 cadeiras e 173 copos de cerveja, assim como
11 dentes quebrados.
Quando o copio ficou pronto, mostraram-no a Hitler e ao fotgrafo Heinrich Hoffmann. Os dois ficaram impressionados. Da mesma maneira, um pequeno grupo, inclusive
Hjalmar Schacht, presidente do banco nacional e amigo ntimo de Putzi, foi convidado para uma exibio privada em
20 de setembro. A estreia de gala no Cinema Capitol, em Berlim, em 3 de outubro, foi descrita pela International News Service de Hearst como "a estreia mais importante
da indstria cinematogrfica alem do outono de
1933". Putzi, que j vivia alm de seu salrio oficial, ficou encantado. Considerando-se a proeminncia no panteo nazista, o filme quase certamente seria um sucesso
de bilheteria.
No entanto, no tinham contado com Goebbels, que se ressentiu dessa intromisso no territrio que considerava seu. Na verdade,  difcil pensar em uma demonstrao
melhor da deficincia do julgamento poltico de Putzi. Goebbels esperou at o filme estrear nacionalmente em 9 de outubro, aniversrio de Wessel, e ento, de sbito,
proibiu-o com base em que no fazia justia nem  figura de seu heri nem ao movimento nacionalsocialista. O filme, alegou ele, "colocava em risco os interesses
vitais do Estado e a imagem da Alemanha". A situao tornou-se mais grave com o envolvimento de Hanns Heinz Ewers, que foi uma personalidade
controversa e que provocava escndalo, apesar de professar entusiasmo pela causa nazista. Putzi agora enfrentava uma perda substancial. Apelou tanto a Goebbels quanto
a Hitler, mas de nada adiantou.
No fim, Goebbels autorizou que o filme fosse exibido - mas somente depois de sofrer 27 cortes. Em um ltimo ato indigno, insistiu em que no
levasse nem mesmo o nome de Wessel. Seu novo ttulo foi Hans Westmar.
O nico consolo de Putzi era a msica. O clmax musical do filme era Deutsches Largo, a marcha fnebre que ele tinha composto para a sua filha Hertha. Hitler ficou
to impressionado, depois de escut-la no primeiro comcio em Nuremberg, que decretou que deveria continuar a ser tocada nos anos subsequentes. Em Triunfo da Vontade,
o filme de Leni Riefenstahl para o primeiro comcio, a marcha  escutada sendo tocada por uma orquestra de metais enquanto Hitler e outros nazistas eminentes atravessam
fileiras de milhares de membros da Deutsche Arbeiterfront [Frente de Trabalho Alem], em posio de sentido, suas ps polidas
cintilando  luz do sol.
O trabalho de Putzi na imprensa no lhe serviu de consolo para o fracasso no cinema. Antes de assumir o poder, Hitler mostrava-se disposto a ceder, se bem que muitas
vezes de m vontade,  insistncia de Putzi na importncia de projetar uma
imagem positiva do movimento no exterior. A situao agora tinha mudado. Hitler estava
pressionando com a sua "revoluo", bastante desligado das preocupaes do resto do mundo. Os nazistas rapidamente transformaram grande parte da mdia domstica
em criados leais e submissos ao novo regime e esperavam que os correspondentes estrangeiros com base em Berlim tambm se sujeitassem.
Cada vez mais, as autoridades nazistas liam as matrias que os reprteres expediam a seus escritrios e devolviam as consideradas prejudiciais ao regime. Tambm
selecionavam jornalistas que consideravam especialmente hostis. Em maro, o International News Service de Hearst foi forado a retirar seu correspondente, Edward
Deuss, depois de os nazistas fazerem objees a alguns de seus artigos. Vrios meses depois, Edgar Mowrer, que havia irritado o regime com seu livro, Germany Puts
the Clock Back, e diversos artigos crticos, foi retirado da presidncia da Association of Foreign Press Correspondents.
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At certo ponto, Putzi concordou com esses atos, mas o apaziguamento nem sempre era o caso. Em maro de 1933, por exemplo, Kurt Ldecke, outro seu adversrio,
atrado de volta  Alemanha pela ascenso de Hitler ao poder, passou um cabograma, em nome de Rosenberg, ao New York EveningPost, queixando-se de vrios artigos 
que
H. R. Knickerbocker, um dos correspondentes norte-americanos residentes mais proeminentes, tinha escrito sobre as atrocidades nazistas. Ldecke alegou que eram caluniosos
e exigiu a destituio do jornalista. O jornal, no entanto, defendeu-o, e Knickerbocker recorreu a Putzi. Putzi ficou feliz em ajud-lo, alm do que dava-lhe a oportunidade 
de prejudicar, de certa forma, Ldecke e tambm Rosenberg. Depois de consultar a embaixada americana, foi direto a Goebbels, e juntos levaram a questo a Hitler. 
Knickerbocker foi autorizado a permanecer-e Ldecke foi punido com um breve perodo na cadeia.
Como chefe da seo de imprensa estrangeira dos nazistas, Putzi, incontestavelmente, partilhou de um grau de responsabilidade moral pelos crimes do regime. No h 
dvida tambm de que foi um antissemita que viu no nazismo a nica salvao para o seu pas. Ainda assim, discordava veementemente de grande parte do que estava 
sendo feito. s vezes no dizia nem fazia nada; outras vezes, manifestava-se contra os abusos. Quase sempre, no entanto, tentava, de maneira mais sutil, atenuar 
seus aspectos piores. Seus xitos eram, na melhor das hipteses, mnimos.
Um dos maiores impactos foi o julgamento de Marinus van der Lubbe, Georgi Dimitroff e outros acusados de incendiar o Reichstag. Quase imediatamente depois do incndio, 
Hitler mudou a lei tornando o incndio culposo em crime capital. Putzi acompanhou s vagamente o processo, mas ficou to surpreso como todo mundo quando, em dezembro, 
a Suprema Corte desferiu um golpe nos nazistas absolvendo todos os rus, exceto Van der Lubbe. Mas, somente quando leu o registro oficial do processo, Putzi viu 
at que ponto a escolha de testemunhas e as provas que apresentaram carregavam a marca da influncia oficial. Indiscreto como sempre, com-
partilhou suas apreenses com alguns colegas, dizendo que achava que aquilo tudo prejudicaria a reputao do Terceiro Reich no exterior.
Tambm parece que Hitler percebeu, retrospectivamente, que o julgamento do incndio do Reichstag foi um erro. "Foi a primeira e ltima tentativa de Hitler de julgamentos
monstruosos ao estilo russo", disse Putzi. Como o Fhrer queixou-se a ele, durante um almoo, os juizes no tinham entendido que em Leipizig estavam em jogo "questes
de interesse do Estado alemo, no mincias do direito romano". Hitler deixou claro que os juizes seriam no futuro guiados pelos "interesses do movimento e no por
frmulas legais abstratas". Cumpriu sua palavra. Julgamentos sumrios foram introduzidos para todos os crimes polticos, alm de alta traio, e um novo Tribunal
Popular tambm foi estabelecido, com poderes retroativos e o relaxamento da exigncia de provas. "A necessidade de evidncias factuais, em muitos casos,  devida
ao raciocnio incorreto dos juristas, e portanto deve ser eliminada", argumentou o nazista. "A culpa ou inocncia de um homem deve ser determinada pelo fato de se
ele  perigoso ou no para a existncia do Estado."
Aps sua absolvio, Dimitroff e os outros deveriam pegar o avio para a Rssia. Mas corriam rumores que Gring estava tramando mat-los antes de o avio decolar
para Moscou. O julgamento tinha recebido muita ateno da imprensa americana e inglesa, e Putzi sabia que a morte deles seria um desastre de relaes pblicas. Planejou,
secretamente, com o chefe de imprensa de Gring, Martin Sommerfeldt, um homem decente, to preocupado com a imagem do regime no exterior quanto ele. Sommerfeldt
argumentou que a nica maneira de dissuadir seu patro obstinado de fazer alguma coisa seria a imprensa estrangeira afirmar o que ele estava para fazer. Portanto,
se queriam impedi-lo de mandar matar Dimitroff, bastava publicar uma matria alertando sobre esse plano.
Putzi procurou o conselho de Louis Lochner. O jornalista estava disposto a ajudar, mas depois de discutir o assunto com o embaixador Dodd percebeu que poderia pr
em risco as relaes da Associated Press com o governo alemo, ao acusar Gring na imprensa de tramar um assassinato. Decidiram ento usar um jovem correspondente
da Reuters, o servio
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telegrfico britnico rival, que tinha acabado de chegar  cidade e poderia  ser desculpado por desconhecer as normas.
No dia seguinte, Lochner e Putzi levaram-no ao bar do Adlon Hotel, e quando Sommerfeldt passou por l, aparentemente por acaso, dirigiram a conversa para a conspirao. 
Sommerfeldt mostrou-se, convenientemente indignado diante desse insulto a seu patro, e, quando o homem da Reuters pediu que negasse, ele se sentiu feliz em consentir, 
contanto que fosse atribudo a uma "fonte confivel". Nessa noite, a matria foi publicada pela Reuters e Sommerfeldt enviou um exemplar ao seu patro. Goring ficou 
furioso, de incio, mas acalmou-se ao se ver descrito como um soldado e um cavalheiro, e divulgou, de bom grado, a negao do "rumor terrvel" que circulava. Como 
conseqncia, Dimitroff e dois de seus companheiros blgaros viajaram em segurana para a Rssia.
Os esforos de Putzi para influenciar a poltica exterior obtiveram menos xito. Ele fez uma tentativa desse tipo em outubro de 1933, em uma poca em que as tenses 
entre Hitler e Mussolini, o lder fascista italiano, cresciam. Como expoentes de filosofias semelhantes, os dois homens deveriam ser aliados naturais. Mas as relaes 
entre eles eram frias, especialmente em relao  ustria, que estava espremida incomodamente entre seus dois vizinhos maiores e vorazes. Hitler j comeava a falar 
de Anschluss
- anexando a sua terra natal ao Reich alemo - enquanto Mussolini queria mant-la independente. No que claramente ultrapassava a competncia de um porta-voz da imprensa 
estrangeira, Putzi redigiu um programa com novos itens para melhorar as relaes entre Alemanha e ustria e mandou que fosse entregue na embaixada austraca. Mas 
quando o embaixador austraco contatou Konstantin von Neurath, o ministro do Exterior, para analisar as sugestes de Putzi, ele, desconhecendo qualquer iniciativa 
desse tipo, queixou-se com Hitler, que, por sua vez, ficou furioso, e repreendeu Putzi.
Putzi no se intimidou e, no comeo do ano seguinte, armado com uma carta de recomendao de seu amigo ntimo, o embaixador Vittorio Cerruti, partiu para Roma para 
visitar Mussolini. No era somente uma questo de tentar melhorar as relaes entre os dois ditadores. Havia tambm um motivo pessoal: tentar persuadir Mussolini
a concordar em exibir seu filme,
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fjans Westmar, na Itlia. Dessa vez, no entanto, Putzi no tentou fazer nada pelas costas de Von Neurath. O ministro do Exterior achou a visita uma
idia excelente.
No foi muito difcil conseguir uma audincia com II Duce, mas a sua recepo foi fria. Mussolini no estava convencido de que Putzi o procurava realmente em nome 
de Hitler e mostrou pouco interesse em seu filme. Mas Putzi usou de todo o seu poder persuasivo e convenceu-o a uma exibio privada na Villa Torlonia. O filme surtiu 
o efeito desejado, e logo depois Mussolini concordou com um segundo encontro em seu escritrio. Dessa vez, a atmosfera foi mais afetuosa. Segundo o relato subsequente 
de Putzi, partilhou com o anfitrio da sua preocupao com os elos frgeis entre os dois pases, especialmente em relao  ustria. "As relaes entre os dois pases 
 ruim", disse-lhe Putzi. "Parece-me errado que essas dificuldades existam entre nossos Estados fascistas."
Achando Mussolini mais receptivo do que esperava, Putzi prosseguiu apresentando a sua sugesto. Por que no convidar Hitler a visitar a Itlia
- por exemplo, o Palazzo Vendramin em Veneza, onde Richard Wagner tinha morrido? Que lugar seria melhor para um encontro entre dois admiradores de Wagner? Para alegria 
de Putzi, Mussolini concordou. Tambm fez uma dedicatria a Hitler em uma foto sua.
Entretanto, a alegria de Putzi durou pouco. Hitler mostrou-se flagrantemente indiferente quando Putzi retornou  Alemanha e gabou-se de sua
diplomacia freelance.
Hitler questionou se as observaes de Mussolini de fato constituam um convite, como tal: se bem que no conseguiu deixar de se impressionar com o retrato com a
dedicatria, em uma bela moldura de prata. Putzi estava convencido de que Hitler apenas no queria lhe dar crdito por preparar o terreno para um avano to importante
na poltica externa.
Putzi tambm estava tentando influenciar a poltica interna de seu pas, que, a seu ver, tomava um rumo cada vez mais indesejvel. As atividades obscuras nos quartis
da Gestapo e nos campos de concentrao recentemente instalados o aterrorizavam especialmente. Os esforos de Putzi manifestavam-se com freqncia na forma de ajuda
a indivduos em apuros com o regime. No caso do violinista Fritz Kreisler, listado como no
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ariano e despojado de seus bens, Putzi conseguiu que o Ministrio das Relaes Exteriores liberasse sua propriedade. Alegou tambm ter conseguido a libertao de
vrias pessoas dos campos de concentrao, entre eles a esposa britnica e o filho de um membro socialista do Reichstag que tinha fugido da Alemanha. 
Putzi e outros, da ala conservadora, como Von Neurath, Schacht, Gurtner e o general Walther von Reichenau, continuaram, ingenuamente, a acreditar que Hitler ainda 
poderia ser persuadido a retomar a razo e moderar sua poltica. Do grupo, Putzi era praticamente o nico que permanecia no cargo. Como dissera a um visitante norte-americano 
naquele ano, considerava sendo o seu papel "conter e tentar educar o novo regime (...) Era descontrolado e violento, mas (...) poderia ser acalmado e tornar-se mais 
razovel".
Putzi, disse mais tarde: "Foi a experincia do poder que transformou Hitler em um sdico desregrado (...) Durante 1933, percebi que o demnio entrara nele gradativamente." 
Na verdade, o demnio o havia dominado muito antes.
Alguns contemporneos, como George Messersmith, tambm questionavam at que ponto era genuno o envolvimento de Putzi com a causa conservadora. Para o cnsul-geral 
norte-americano, ele era, pura e simplesmente, um oportunista que, apesar de sua aparncia afvel, estava quase sempre atuando para arruinar aqueles que dizia serem 
seus amigos mais ntimos. "Ele tenta o tempo todo dar a impresso a norte-americanos, correspondentes e outros estrangeiros de que  um conservador e de fato no 
concorda com muitos atos do partido, mas na verdade isso  apenas pose", escreveu Messersmith.
Qualquer que fosse a natureza verdadeira dos sentimentos de Putzi, ele no somente apoiou o regime nazista, como tambm continuou a sua campanha de tentar vend-lo 
ao resto do mundo. Em uma mensagem de anonovo aos Estados Unidos, em 31 de dezembro de 1933, Putzi comparou Hitler ao presidente Franklin D. Roosevelt, dizendo que 
os dois eram "homens que se fizeram por si mesmos". "Isto , Roosevelt fez a si mesmo subjugando uma fraqueza do corpo, Hitler subjugando a fraqueza do povo alemo."
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Embora um grande nmero de artigos na imprensa estrangeira tivessem sido dedicados a Hitler e sua poltica, o lder nazista, como pessoa, permanecia um enigma aos 
leitores estrangeiros. O primeiro aniversrio de sua ascenso ao poder estava prximo, mas as entrevistas concedidas at ento tinham sido do tipo pergunta e resposta, 
cujo contedo fora minuciosamente examinado pelo ministro da Propaganda. Ningum tinha permisso de conduzir uma entrevista pessoal, o que forneceria, de certa forma, 
uma compreenso de seu carter. Lochner sugeriu a Putzi que fosse o homem a fazer isso. Putzi logo entendeu a razo. Sabia como a mdia
americana funcionava.
O encontro foi acertado para comeo de fevereiro do ano seguinte. Lochner teria cinqenta minutos com o Fhrer. Hitler vestiu a farda marrom da tropa de assalto 
nazista, e estava sentado atrs de uma mesa no canto direito do escritrio espaoso, quando o norte-americano chegou. Ele caminhou at a metade do caminho e recebeu 
Lochner afavelmente, dirigindo-se a um sof. Ele e Putzi, a nica outra testemunha da conversa, sentaram-se nas cadeiras de espaldar reto. A entrevista, conduzida 
em alemo, foi diversificada. A certa altura, segundo Lochner, o rosto de Hitler "ensombreceu e sua voz tornou-se dura". Em outros momentos, viu-o utilizar "palavras 
exatas, incisivas" ou "fazer uma pausa para refletir, depois falando em seguida muito rpido", ou "falar com uma voz que vibrava de emoo, o queixo firme, o dedo 
indicador apontado direto para mim".
Putzi ficou impressionado com o resultado: gostava desse tipo de entrevista personalizada e estava convencido de que Hitler a aprovaria tambm. Mas foi cauteloso 
quanto a enviar uma cpia ao ministro da Propaganda, pois estava certo de que ele eliminaria quaisquer referncias pessoais. Quando Lochner deu-lhe uma traduo 
alem do artigo, Putzi decidiu esperar
o momento certo.
- Vou guardar o manuscrito at poder p-lo diretamente nas mos do Fhrer - disse ele a Lochner. - Quero ter certeza de que est de bom humor quando eu entreg-lo.
Manteve a palavra: um ms depois, a entrevista foi aprovada.
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Um dos projetos mais estranhos a que Putzi se associou nessa poca foi um livro, Hitler in derKarikatur der Welt [Hitler na caricatura do Mundol lanado em setembro
de 1933. Putzi tinha-se tornado obcecado com o que ele considerava a maneira como a imprensa estrangeira desvirtuava a
imagem de Hitler e sua poltica. As charges polticas, especialmente, provocavam ressentimentos. Com seu pequeno bigode e uma madeixa de cabelo caindo na testa, 
Hitler era um presente para cartunistas. O resultado,
bastante compreensvel, foi muitas vezes hostil. Putzi decidiu opor-se a isso, publicando uma seleo dos mais crticos desses cartuns - e ento refutando cada um
deles com uma descrio da verdade. Como inspirao, usou o dolo de Hitler, Frederico, o Grande, que deu ordens para que um panfleto que o criticava fosse exposto
de modo que o maior nmero possvel de cidados pudesse l-lo.
Na sua introduo ao livro, Putzi  prdigo em elogios a Hitler, chamando-o de "um homem puro, determinado, um homem de vontade e ao", at o flagrante contraste
entre realidade e o que foi escrito tornar-se evidente para todos. "O que significa a msica maante da imprensa mundial comparada  conseqncia quase contraponto
das aes polticas do Fhrer e a sinfonia de seus sucessos?", perguntou ele.
O livro comea com a charge "Hitler Einzug in Berlin", de 1 de abril de
1924, edio de Simplicissimus, que Putzi tinha mostrado a Hitler em Landsberg, retratando-o montado em um cavalo de batalha atravessando o Porto de Bramdemburgo. 
Segue uma seleo de outras caricaturas, muitas delas extradas da imprensa alem, mas tambm de jornais norteamericanos, britnicos e franceses. Se bem que variando 
o humor, so uma mistura familiar do bigode de Hitler e susticas. Por trs delas todas est a mensagem simples de que Hitler e os nazistas significam violncia 
e guerra.
Um cartum no Daily Express, de 4 de maro de 1933, satiriza a intimidao dos eleitores um dia antes das eleies. Nele, o infeliz eleitor deve primeiro passar por 
uma borboleta em forma de sustica, por uma fila de partidrios de Hitler com os braos estendidos, e subir uma escada entre tanques para pr seu voto em uma caixa.
A tentativa de Putzi de contestar esse fato foi fraca, para no dizer outra coisa: "O autor dessa caricatura deixa de mencionar que o voto, na Alemanha,  secreto,
o que impede
qualquer influncia no resultado", escreveu ele. Outra charge, do New York Times, de 2 de abril de 1933, mostra Hitler guiando Germnia - a figura feminina que representa
a Alemanha - por uma corda, passando por um cartaz que diz: " Idade das Trevas". Putzi responde com uma citao extrada de um artigo no Daily Mail, de julho de 
1933, de autoria do proprietrio do jornal, Lord Rothermere, louvando a boa sorte da Alemanha de ter Hitler como seu Fhrer. E assim por diante, com mais imagens 
da queimao nazista de livros e diversas representaes de Hitler, ou sentado empoleirado no alto de um capacete pontudo prussiano ou montando um cavalo no domado 
que pinoteia chamado Alemanha.
 difcil afirmar a eficcia do livro em ajudar a causa nazista. Examinando-o dcadas depois, os cartuns e caricaturas deixam uma impresso muito mais forte do que 
as refutaes, quase sempre esfarrapadas, de Putzi. No obstante, parece que vendeu bem, e em setembro do ano seguinte os mesmos editores lanaram uma continuao 
chamada Tat gegen Tinte, tambm compilada por Putzi. Era uma coleo similar de humor delicado e stira mordaz, s que dessa vez organizadas tematicamente sob legendas 
como: "Hitler der Friedensstrer" [Hitler, o Encrenqueiro], "Hitler der Terrorist" [Hitler, o Terrorista] e "Hitler ais Kunstreaktionr, Kulturunderdrcker und Rassepolitiker" 
[Hitler como reacionrio cultural, repressor da cultura e poltico racista]. Dessa vez, no entanto, Putzi ofereceu comentrios mais longos e mais tediosos, repletos 
de estatsticas sobre tudo, da produo agrcola ao crescimento do nmero de casamentos, para explicar como a crtica estava mal orientada. Para tranqilizar algum 
membro leal do partido que estivesse preocupado com que pudesse tratar-se de alguma literatura subversiva, tambm havia o aviso em letras grandes: "Dieses Buch wrde 
vom Fhrer in Kanzler durchgesehen und genehmigt" [Este livro foi lido e aprovado pelo Fhrer e Chanceler].
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EM 1934, PUTZI RECEBEU um convite para comparecer  reunio de 25 anos de sua turma de Harvard. Como precisava da autorizao de Hitler, resolveu esperar o momento 
certo para fazer o pedido. A oportunidade aconteceu numa tarde em que estava em sua sala e recebeu uma ligao de Otto Dietrich, chefe de imprensa de Hitler. Hitler
estava tomando ch no Hotel Kaiserhof e no tinha companhia. Apesar de desapontado por ser reduzido ao papel de "tapa-buraco do Reich", concordou, com relutncia,
em juntar-se ao Fhrer. O saguo do hotel j estava cheio quando chegou. Encontrou Hitler sentado em seu canto predileto no ptio de palmeiras, perto
da falsa orquestra hngara. A notcia de que o Fhrer estava no local
sempre se espalhava rpido - provavelmente, suspeitava Putzi, com a ajuda dos garons que ganhavam gorjetas ao telefonarem dando a informao. A clientela no era 
da
classe mais nobre. A maior parte dos presentes nessa tarde eram mulheres com trajes exagerados, usando peles e perfume francs em excesso, vidas por um olhar de
seu lder. Estavam longe do ideal da feminilidade alem-abstmia, sem maquiagem-pregado pelos nazistas, mas isso no impedia de Hitler olh-las com ateno, quando
passavam. Presumindo que Hitler queria descontrair, Putzi levou a conversa para a msica, assunto que sempre os unira. Enquanto falavam das valsas de Strauss e de
Wagner, Hitler, ocasionalmente, marcava o ritmo da msica com a mo. Putzi foi ficando mais ousado e perguntou-lhe se concordaria em ir a Veneza encontrar-se com
Mussolini. Hitler respondeu que estava ocupado demais para deixar Berlim. Convencido de que esse seu projeto
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no daria em nada - e que a sua presena como intermedirio no seria portanto necessria - Putzi tocou no assunto da reunio.
- Se  assim, Herr Hitler - disse ele -, no vai precisar de mim aqui. Faz alguma objeo a que eu viaje, por um breve perodo, aos Estados Unidos?
Hitler olhou para ele desconfiado.
- O que quer fazer l? Vender esse seu filme?
- No - respondeu Putzi. - Este ano  a vigsima quinta reunio da minha turma de Harvard e  mais ou menos uma questo de honra comparecer. Seria uma boa oportunidade 
para conversar com velhos amigos. Alguns agora so muito influentes. Posso at mesmo ver o presidente Roosevelt.
Revelou-se tudo muito mais fcil do que ele esperava: Hitler disse que no fazia objeo. E assim teve incio uma cadeia de eventos que quase certamente salvaram 
a vida de Putzi.
A Universidade de Harvard d uma nfase especial ao papel que representa na vida de seus ex-alunos a partir do dia da sua formatura, no somente levantando fundos,
como tambm por meio do programa de relaes entre ex-alunos que h muito era motivo de inveja de quase todas as outras universidades dos Estados Unidos. Ex-alunos
assinavam regularmente o Alumni Bulletin, freqentavam o Harvard Club, contribuam para o Fund Council, escolhiam os inspetores e compareciam s reunies da turma.
Esforos rduos eram feitos pelo secretrio para no perder o rasto dos endereos. Mesmo o pequeno nmero que parecia ter-se perdido no abandonava completamente
a universidade. De todas as reunies, a vigsima quinta era a mais importante, j que acontecia quando a maioria dos exalunos estava na faixa dos 45 a 50 anos, e
no auge de suas carreiras. A reunio de 25 anos supostamente presentearia a universidade com uma doao generosa o suficiente para cobrir a diferena entre o que
pagaram por sua educao e o que custara a Harvard oferec-la.
Hanfstaengl, entretanto, no iria meramente comparecer s celebraes. O secretrio da turma, Dr. Elliott Carr Cutler, um neurocirurgio
eminente, que seria o mestre de cerimnias, anunciou que escolhera Putzi para ser seu assistente, o que significava que teria de usar cartola, vestir um fraque e
segurar um basto. Apesar da natureza obviamente privada da visita, Putzi seria o nazista de posto mais elevado a visitar os Estados Unidos desde que o partido assumira 
o poder. Muitos dos que tinham observado com horror o desenrolar dos eventos na Alemanha ficaram
amedrontados.
A imprensa americana sentiu imediatamente que aquilo dava matria. "Qualquer ex-aluno de Harvard que retornar a Cambridge, Mass., em junho, para a cerimnia do aniversrio 
de formatura poder saber tudo o que quiser sobre Adolf Hitler atravs do Dr. Ernst Franz Sedgwick Hanfstaengl, oficial de ligao pessoal do chanceler alemo com 
a imprensa britnica e americana e um de seus amigos mais ntimos", escreveu The New York Times em 29 de maro. Putzi disse ao jornal que esperava a reunio "com 
grande expectativa". Tambm disse que poderia levar uma cpia de seu filme, Hans Westmar, que j havia exibido para Mussolini e outras pessoas eminentes em Estocolmo. 
"Esse filme pode mostrar melhor do que qualquer palavra minha o que ns, nazistas, representamos." Disse que aceitava a cota de
500 dlares, estipulada por Cutler, como contribuio para o fundo do reencontro da turma, mas que teria de colocar o equivalente em reichmarks em um banco alemo 
para o uso dos estudantes de Harvard que iam  Alemanha completar seus estudos. Putzi, comentava o jornal, baseado em uma informao de Cambridge, era "extremamente 
popular entre os membros de sua turma e Harvard no faria objeo se a turma de 1909 quisesse
assistir ao seu filme".
No dia seguinte, The Harvard Crimson publicou uma carta de Benjamin Halpern, aluno da Harvard Graduate School of Arts and Sciences. Na carta, com o cabealho "Heil 
Hitler", Halpern, que era judeu, criticava a deciso de Cutler de convidar Putzi e dizia que no compareceria  cerimnia. "Parece extraordinrio, realmente, que 
ele [Cutler] tenha a permisso de selecionar seus assistentes  vontade ou talvez entre aqueles que fazem o lance mais alto, sem nenhum controle dos setores do governo",
queixava-se Halpern. O jornal comentou que muitos outros ex-alunos judeus partilhavam da mesma preocupao. Apesar de publicar a carta, o
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Crimson no era da mesma opinio. "Fazer objeo  presena de um homem de Harvard entre outros homens de Harvard, em qualquer posio, com bases puramente polticas,
 algo bastante infantil", dizia.
Uma noite, logo aps os artigos iniciais do Crimson, quando Putzi estava praticando um estudo de Chopin, especialmente difcil, em sua casa em Munique, recebeu uma 
ligao de Cutler, alertando-o da campanha da imprensa. Putzi disse que ento seria melhor que no fosse. Cutler props um acordo - ele iria em uma funo privada 
em vez de na qualidade de seu assistente. Putzi concordou, mas, para acalmar os nimos, decidiram dar a impresso  imprensa de que ele estaria ausente.
E assim, em 5 de abril, The New York Times publicou uma matria na primeira pgina citando Cutler, que dizia que Putzi no compareceria  cerimnia. Nenhuma razo 
foi apresentada, mas o cirurgio disse que manteria sua deciso de convid-lo. "Ao escolher Hanfstaengl para a funo de assistente, pareceu-me que os ex-alunos 
de Harvard, que sempre defenderam os princpios fundamentais da universidade, o direito de liberdade de expresso e a tolerncia de todas as crenas, talvez recebessem 
apropriadamente esse graduado", disse ele. O presidente de Harvard, James Bryant Conant, que estava passando a semana em New Hampshire, recusou-se a comentar o assunto, 
mas Halpern, o autor da carta, regozijou-se. "Hanfstaengl, como representante de um governo que considera os intelectuais o lixo do mundo e a liberdade de expresso 
um veneno fedorento, no tem lugar em um evento como esse, em uma cerimnia de reencontro em Harvard", disse ele ao jornal. "A sua presena s faria levantar disputas 
e discrdias, e contribuiria para destruir as tradies de tolerncia que Harvard representa".
Quase trs semanas depois, Putzi entrou na discusso concedendo uma entrevista  Associated Press, que foi comprada por vrios jornais. Declarou ter ficado, ele 
prprio, "perplexo" com a controvrsia gerada pela possibilidade da sua presena no encontro e deixou claro que, afinal, era muito pouco provvel que pudesse comparecer-embora 
no descartasse de vez a possibilidade. "Ver-me no meio de uma controvrsia acalorada, que se estende at mesmo aos crculos do Congresso,  ainda mais surpreendente, 
porque Harvard, desde tempos imemoriais, tem sido o smbolo da liberdade de opinio", declarou ele. "Adoraria estar presente e certamente estaria
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se meus deveres aqui permitissem. Como estou assoberbado de trabalho, as chances no so muito favorveis. Quanto  propaganda, nunca fiz e nunca farei propaganda. 
Muitos colegas de turma e outros cidados norte-americanos que nem mesmo conheo esto pedindo para que eu v."
Mesmo que no pudesse estar presente em pessoa, Putzi continuava disposto a deixar sua marca no evento. Assim, em 24 de maio, escreveu a Conant com mais uma sugesto. 
Props criar uma "Dr. Hanfstaengl Scholarship" que "possibilitaria um aluno de Harvard que se destacasse, de preferncia filho de um de seus colegas de turma, estudar 
na Alemanha em qualquer rea artstica ou cientfica". Seis meses da bolsa de um ano se passariam na sua Munique natal ou "centro cultural da Alemanha", como a descrevia. 
Isso pretendia retribuir de alguma maneira "os benefcios inestimveis" que o seu tempo em Harvard lhe propiciara, tanto em termos de conhecimento dos Estados Unidos 
e do mundo quanto do "esprito de disciplina efairplay inculcado nos campos esportivos de Harvard".
A carta tornou-se pblica duas semanas depois. Aps informar alguns reprteres selecionados, Putzi entrou no banco de Delbruck, Schickler & Co. e preencheu um cheque 
de 2.500 reichmarks (mil dlares) no nome de Conant. "Este representa uma bolsa que estou oferecendo a um aluno de Harvard a ser selecionado pelo presidente Conant", 
disse ao caixa. "O estudante pode usar o dinheiro para um semestre de estudos em Munique e outro semestre em qualquer outro lugar da Alemanha." Quando um reprter 
perguntou se isso significava que estava planejando no comparecer mais  cerimnia, ele replicou com um provrbio italiano: "Qui vivra verr"-literalmente, "quem 
viver ver". The New York Times divulgou que a deciso de aceitar ou no o dinheiro seria tomada quando Conant se reunisse com a Harvard Corporation alguns dias 
depois.
A controvrsia em torno da visita potencial de Putzi refletia a turbulncia da poca no somente em Harvard, mas nos Estados Unidos como um todo, que tinham sido 
viradas de cabea para baixo, primeiro pela quebra de Wall Street e a recesso, depois pelo New Deal* de Franklin
'Programa de mudanas econmicas e sociais implantado nos EUA pelo presidente Franklin D. Roosevelt, em 1933, para ajudar a populao que perdera empregos ou propriedades
em decorrncia da Grande Depresso. (N. da T.)
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D. Roosevelt. Para aqueles que olhavam para alm das fronteiras dos Estados Unidos, provavelmente a preocupao maior - e a incgnita maior
- era Hitler. A opinio dividia-se cada vez mais entre seus apologistas
ou aqueles que, pelo menos, estavam preparados para conceder ao regime nazista nascente o benefcio da dvida - e aqueles que, acertadamente, viam no antissemtismo 
do movimento e tticas intimidadoras a tragdia por vir. Havia tambm o medo de guerra.
A mesma dicotomia de opinies sobre Hitler repetia-se no prprio microcosmo de Harvard. A questo complicava-se devido ao compromisso tradicional com a liberdade 
de expresso e a slida lealdade aos ex-alunos, independente do que tivessem feito aps deixarem a universidade. A National Student League, que estava na vanguarda 
da crtica  visita de Putzi, tinha organizado vrios protestos contra o nazismo e o fascismo e tentado mobilizar uma greve geral de professores e alunos para protestar 
contra a tendncia  guerra. No entanto, havia muitos que menosprezavam as ditaduras como pouco piores do que orientaes erradas. Professores sugeriam que o regime 
de Hitler no ia durar, enquanto artigos de Mussolini apareciam freqentemente no Crimson sem nem mesmo gerar controvrsia. Em um editorial de 17 de maio de 1934, 
o jornal mencionou a forte oposio em Harvard provocada pelas atividades da liga de estudantes e incitou um perodo de introspeco. "Alm de no conseguirem esclarecer 
seu programa, as tentativas de consegui-lo desviaram a ateno de seus propsitos", queixou-se. "Reivindicando liberdade de expresso, aparentemente no esto dispostos
a deixar o Sr. Hanfstaengl vir e dizer o que quiser."
Na noite de 10 de junho, Putzi ofereceu uma esplndida festa ao ar livre em sua casa na Pariser Platz, n 3, em Berlim. Muitos nazistas eminentes estavam presentes,
embora os trs grandes - Hitler, Goebbels e Gring
- no comparecessem. Putzi, de terno preto, presidiu. Helene estava majestosa em sua toalete branca, delicada. A escolha do momento foi consciente. O navio de cruzeiro 
da North German Lloyd, o Europa, o ltimo que poderia levar Putzi a Harvard a tempo da celebrao, deveria partir mais
tarde nessa noite, mas ele ainda no sabia ao certo se iria ou no. A importncia do evento no foi desperdiada com reprteres norte-americanos que seguiam de perto
o caso. Ao p da pgina nove de The New York Times, no dia seguinte, havia uma pequena reportagem mencionando que Putzi tinha permanecido em Berlim, perdendo a ltima 
chance de ir ao reencontro. Quando as edies matutinas j chegavam s bancas, tiveram de ser revisadas rapidamente. Sem os convidados da festa saberem, o jovem 
assistente de Putzi, Harald Voigt, j estava nos Estados Unidos fazendo os preparativos necessrios para a sua viagem. Enquanto seus convidados comiam e bebiam, 
Putzi, vestido com uma capa de chuva e culos escuros, escapuliu de casa, tomou um trem atrasado para Colnia, e de l um avio de correio para o porto francs de 
Cherbourg, onde o Europa fazia a sua ltima escala antes de comear a travessia do Atlntico. Levava cinco malas grandes e trs caixotes de madeira, cada um com 
um busto: um do presidente Hindenburg, que pretendia dar  United States Military Academy, em West Point; o segundo era de Arthur Schopenhauer, o filsofo alemo, 
destinado ao departamento de filosofia de Harvard; e o terceiro era de Christoph Willibald von Gluck, o compositor preferido de Putzi, para a "capela dourada" do 
departamento de msica de Harvard.
Os jornais foram obrigados a admitir, no dia seguinte, que tinham sido enganados. "Se a perda de Herr Hanfstaengl das conexes normais e sua perseguio tardia do 
Europa foram causadas por indeciso at o ltimo momento  uma questo de conjetura", observou The New York Times.
A viagem foi agradvel e sem incidentes. Putzi estava em companhia civilizada, longe das tenses da Alemanha nazista e podia relaxar. Entretanto, havia uma preocupao 
em Harvard em relao  sua deciso de comparecer, no tanto por medo do que faria e diria quanto do uso que os adversrios do nazismo poderiam fazer de sua visita. 
A universidade, temendo um possvel bombardeio a seu convidado polmico que pudesse ferir inocentes que passassem por perto, discutiu a visita iminente com o governador 
de Massachusetts, que, por sua vez, consultou a polcia estadual. O Criminal Alien Squad de Nova York foi posto de prontido para vigiar subversivos, com base em 
que "conhecem a maioria dos radicais proeminentes assim que os vem". Ficou decidido que uma guarda de
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detetives e patrulheiros fardados protegeriam Putzi ao desembarcar. Impediriam qualquer manifestao contra ele, escoltariam-no ao seu hotel e o acompanhariam a
todo lugar a que fosse na cidade.
O American Jewish Committee e B'nai B'rith tambm tentaram acalmar as tenses. Seu conselho consultor misto emitiu uma declarao. Apesar de o conselho "abominar 
a poltica do regime de Hitler", insistia em que no se demonstrasse "descortesia de tipo nenhum" em relao a Putzi. Entendia-se que a sua visita tinha o propsito 
exclusivo de participar do reencontro da turma. O consulado-geral alemo descreveu sua visita como puramente pessoal e disse que ele no seria recebido oficialmente. 
Uma comisso de congressistas que investigava a propaganda nazista nos Estados Unidos negou a inteno de entrevistar Putzi sobre o seu possvel papel no caso Black 
Tom e outros atos de sabotagem alem nos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial. O Ministrio das Relaes Exteriores declarou que tambm no pretendia 
interrog-lo.
Com Putzi a caminho, a controvrsia inflamou-se de novo na imprensa. Um dos ataques mais duros foi escrito pelo proeminente jornalista Heywood Broun, em sua coluna 
"It Seems to Me", no New York World-Telegram, em
15 de junho. Como Putzi, Broun era ex-aluno de Harvard. Isso no o impediu de denunciar o visitante controverso que ele acusou de "fomentar as perseguies cruis 
religiosas e econmicas que aconteciam na Alemanha". Previu que a passagem do "agente de Hitler" pelos Estados Unidos, com certeza, seria marcada por uma srie de 
revoltas sangrentas. Por essa razo declarou que Putzi deveria ser forosamente retirado do Europa ao chegar e enviado a Ellis Island, como estrangeiro indesejado. 
O "menestrel" de Hitler deveria ser recebido com "estrondos de silncio e cordilheiras de desateno", disse ele. Broun tambm afirmou ter tomado conhecimento de 
mais detalhes com alguns dos ex-colegas de turma de Putzi sobre a sua expulso do New York Harvard Club depois do naufrgio do Lusitnia, que, segundo ele, foi motivado 
por uma troca de murros que terminou com o alemo inconsciente no cho. Tampouco poupou as habilidades de pianista de Putzi, comentando simplesmente: "Ele toca muito
alto..." Broun concluiu: "Acho que o Dr. Ernst Franz Sedgwick Hanfstaengl deveria ser aconselhado oficialmente a tocar em seu prprio quintal."
The Harvard Crimson, em compensao, partiu em sua defesa. Argumentou, em um editorial, que no somente ele deveria receber a mesma acolhida dos outros que retornavam
para o aniversrio de 25 anos, como tambm receber um grau honorfico "como tributo  posio que tinha alcanado".
Sbado, 16 de junho de 1934, fez uma manh bonita em Nova York. A previso do tempo era de 27 graus. A primeira pgina do New York Times reportava a suspenso de 
ltima hora de uma greve de metalrgicos pela Amalgamated Association of Iron, Steel and Tin Workers, que deveria ter incio  meia-noite; uma tentativa malograda 
de assassinato do presidente de Cuba, Carlos Mendieta; e a confirmao de que a filha alta e loura do presidente dos norte-americanos, a sra. Anna Roosevelt Dali, 
terminaria seu casamento de oito anos com seu marido corretor da bolsa de Nova York. Hitler tambm estava nas manchetes, anunciando que ele e Mussolini, em um encontro 
em Veneza, tinham concordado com a "liberdade da ustria" e que a independncia do pas deveria ser mantida a qualquer preo. Nesse meio-tempo, em Berlim, um novo 
julgamento dos acusados de assassinar Horst Wessel em janeiro de 1930 terminou com Sol Epstein e Hans Ziegler condenados  morte por decapitao. O jornal tambm 
apresentava uma declarao do assistente de Putzi, Harald Voigt, em uma pgina interna repudiando sugestes de que a sua visita causaria problemas. Se houvesse problemas, 
afirmava que emanariam, "a meu ver, no do Dr. Hanfstaengl e no dos verdadeiros norte-americanos". O jornal dizia que Voigt irritara-se com as aluses a que a visita
de Putzi no seria levada a srio. A principal questo dizia respeito a se ele iria ao encontro usando sua famosa "farda cor de chocolate", criada por ele mesmo
e que lhe rendera em Berlim, afirmava o jornal, o apelido de o "Soldado Chocolate".
Nessa tarde, o Europa chegou ao porto de Nova York e atracou no Per
86, na rua 46 com o rio Hudson. Uma multido de 1.500 a dois mil manifestantes aguardava Putzi, encurralado por uma barricada policial. Muitos carregavam cartazes 
onde se lia: "Oust Nazi Hanfstaengl" [Expulsem o
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nazista Hanfstaengl ], "Ship the Hitler Agent Back" [ Despachem de volta o agente de Hitler] e "Free Ernst Thlmann [Libertem Ernst Thlmann]" Aproximadamente cem
policiais fardados, apoiados por mais 56 em trajes civis, foram posicionados para manter a ordem.
Putzi, nesse meio-tempo, no salo da primeira classe, dava uma entrevista coletiva improvisada a quarenta jornalistas que tinham subido a bordo com os funcionrios
da quarentena e imigrao. Os que o viam pela primeira vez ficaram impressionados ao se depararem com aquele homem alto com a cabeleira negra. Usando um terno escuro
com riscas sutis, sapatos pretos, camisa bege clara e gravata preta com listras brancas na diagonal, era, comentou um observador, "o autocontrole em pessoa".
Putzi mostrou-se com o humor jovial. Refletindo sobre seu tempo em Harvard e o seu arrependimento de no ter retornado aos Estados Unidos desde 1921, insistiu com
veemncia em que sua visita era puramente privada. Hitler, disse ele, tinha relutado em autorizar sua partida com base em que "havia muito trabalho a ser feito"
na Alemanha. Mas, depois de perder os encontros de dez e quinze anos, decidiu que dessa vez iria e acabara persuadindo Hitler. Ao pedirem que comentasse a exigncia
de Heywood Broun de que fosse detido na Ellis Island, ele replicou amavelmente: "Ele  um bom garoto, muito bom. No sei por que no me quer no pas, mas, com certeza,
isso no passa de rivalidade de turma. A dele era um ano  frente da minha, entende?" Tambm insistiu, em vo, em que as pessoas naquele tempo costumavam cham-lo
de "Hanfy", em vez de "Putzi".
Os reprteres tentaram levar a entrevista para um lado mais substancial, em particular o maltrato crescente dos judeus por parte dos nazistas. Putzi mostrou-se igualmente 
decidido a no responder. No fez segredo de seu antissemitismo na Alemanha, mas relutou em abordar questes controversas enquanto estivesse nos Estados Unidos.
- Desculpe, no posso responder - disse ele. - Esta  uma pergunta poltica. Talvez em uma data futura eu tenha algo a dizer. Quando? Daqui a alguns anos."
Putzi recusou-se a falar com um reprter judeu que tentou abord-lo a caminho do convs, pedindo cinco minutos de seu tempo.
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- Gostaria de lhe conceder cinco milhes de anos - disse Putzi rispidamente. Depois, em uma breve entrevista para o cinejornal, respondeu simplesmente: "A situao 
dos judeus na Alemanha  normal." Em seguida, posou para fotos com dois ex-colegas de turma que haviam feito a travessia do Atlntico com ele. A pedido dos fotgrafos,
tambm posou sozinho, recostado na amurada, com o brao erguido na saudao a Hitler.
Os que protestavam tinham agido na suposio de que Putzi fosse desembarcar no cais na parte central da cidade - Per 86. De l, achavam, pegaria um txi  estao
da rua 125 da New York, New Haven & Hartford Railroad, e depois embarcaria no trem das 6 horas da tarde para Boston. De modo que cercaram cada carro que saa do
per, checando se Putzi estava dentro, vaiando alguns infelizes passageiros do Europa confundidos com ele.
No entanto, Putzi continuava a bordo. Comodoro Scharf, o capito do navio, convidou-o  ponte de comando e lhe deu binculos. Estava claro que Putzi deveria evitar 
desembarcar pelo porto principal e fizeram uma pausa para planejar uma alternativa. Nesse momento, seis rapazes usando blazers de Harvard novos em folha e gravatas 
surgiram de repente a bordo. O mais velho apresentou-se como Benjamin Goodman do New York Police Department.
- O presidente Roosevelt envia uma mensagem com os votos de que a sua estada seja agradvel - disse Goodman apresentando o salvo-conduto. - Estamos aqui para garantir 
que no haja incidentes.
E, assim, com seis homens e sua montanha de bagagem, Putzi subiu a bordo do rebocador William C. Moore, que o deixou em terra firme, na rua 125. Por volta das 7 
horas, depois de jantar no Claremont Inn na Riverside Drive, foi ao Stork Club, na rua 55 Leste, com Quentin Reynolds, que sara de Berlim e agora trabalhava em 
Nova York para a Collier's. Os dois extasiaram-se com Olive Jones, a "artista da casa", e passaram quase a noite toda escutando-a tocar valsas ao piano.
- Um talento, sem dvida - disse-lhe Putzi, debruado ao piano. Mas precisa praticar cinco horas por dia. Trs horas ao piano e duas em retrospecto.
Jones tambm ficou encantada com Putzi.
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"Ele  simplesmente um grande Don Juan", disse ela depois aos reprteres "Foi to gentil, disse que eu deveria ir a Berlim estudar msica. E o que acha? Disse que 
se eu fosse, ele supervisionaria pessoalmente a minha carreira."
Putzi e Reynolds saram da boate s 23h30 e pegaram o trem noturno para Boston, que partiu s 23h45.
Reynolds continuava a nutrir sentimentos mistos em relao a Putzi desde suas desavenas em Berlim. Estava ali como profissional, por causa de um artigo que Putzi
concordara em escrever para a revista Colher. Segundo a reportagem de um jornal alemo, tambm pagou a Putzi seus honorrios: a soma considervel de dois mil dlares.
O ensaio, intitulado "My Leader" [Meu lder], publicado em 4 de agosto, foi a matria de capa da semana. Extremamente pessoal no tom, contava a vida de Putzi e como
se sentira atrado pelo nacional-socialismo. Tambm apresentava a "verdadeira imagem" de Hitler e repudiava os diversos "equvocos", nos Estados Unidos e em outros
pases, em relao a ele e seu partido. Aos alemes, escreveu Putzi, foi dada a escolha entre comunismo e nacional-socialismo. "Um prometia o caos, a fidelidade
a princpios incompatveis com a natureza alem e a lealdade a um corpo governante estrangeiro", escreveu ele. "O outro prometia a estabilizao da indstria, a
recuperao do amor-prprio, a unificao de todos os partidos em uma nao alem e o retorno da prosperidade econmica." A Alemanha tinha escolhido Hitler, o que
significava que "exclua os elementos indesejveis que por muitos anos asfixiaram o meu pas". Prosseguia pintando, entusiasmado, o retrato de uma nao que estava
combatendo a pobreza e o desemprego, e cujo povo, antes intimidado e humilhado, marchava agora pelas ruas com a cabea erguida.
Embora claramente adaptando seus comentrios a uma audincia americana, no conseguiu refrear um toque de antissemitismo, acusando os judeus de ter abraado, com
excessivo entusiasmo, o papel de "marcapasso do bolchevismo" e de terem se associado intimamente demais com as foras "podres, desorganizadoras" que alimentam o
Estado alemo. A descrio de Hitler foi, previsivelmente, lisonjeira: um "dnamo" com reservas incrveis de energia, perseverana e pacincia, que trabalhava com
regularidade 15 horas dirias e que tinha uma vida pessoal irrepreensvel.
Assim como o presidente Franklin D. Roosevelt, ele ofereceu  Alemanha im"new deal", escreveu Putzi. Mas concluiu com um alerta "Se o infortnio vier, ns o enfrentaremos",
disse ele. "Se formos golpeados, 'seremos golpeados na face, no nas costas', pois essa  a herana que nos tiraram e que foi recuperada por Adolf Hitler."
O trem vindo de Nova York parou na South Station de Boston s 7h30. Ralph Bradley, um comerciante de algodo e membro do Naughty Nines, na casa de quem, em Back
Bay, Putzi se hospedaria, subiu a bordo e saudou-o com um jovial "Ol, Putzi". Uma multido de reprteres estava aguardando na estao; assim como o inspetor da
polcia, seu assistente, 29 homens fardados, um peloto de detetives, basicamente o peloto estrangeiro, e vrios soldados da polcia montada do estado de Massachusetts
- mas, surpreendentemente, nenhum comunista, socialista ou antinazista.
Bradley levou-o primeiro  sua casa, onde vrios outros ex-colegas de turma estavam esperando. Depois, almoaram na casa de Cutler, em Brookline. Tambm estava l
Abbott Lawrence Lowell, que havia renunciado no ano anterior, depois de quase um quarto de sculo como reitor de Harvard. Pediu a Putzi que explicasse a popularidade 
de Hitler. A resposta foi simples: com a guerra perdida e os comunistas dominando as ruas, foi necessrio reconstruir tudo. A quantidade de partidos - 32 - tornava
impossvel uma ao decisiva. Portanto, todos tiveram de unir-se em um nico partido do governo, com Hitler como seu lder.
- Se um carro atola na lama, comea a afundar cada vez mais, o motor para, e ento um homem aparece e derrama algo nas engrenagens que faz com que voltem a funcionar,
voc no pergunta o que ele derramou disse Putzi. -Voc liga o motor e tira aquela coisa dali. Pode ter sido apenas Beigeisterungsschnapps, um coquetel de aguardente,
mas funciona nesse momento.
- Esse seja l como o chama pode ser algo bom com que se comear
- replicou Lowell. - Mas o que acontece quando o motorista embriaga-se com essa coisa?
Putzi no teve resposta; comeava a achar que Lowell percebia alguma coisa. Nessa noite, deu uma entrevista coletiva no pequeno jardim em frente  casa de Bradley.
A atmosfera era descontrada, com Putzi desandando a
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fazer panegricos ao beisebol e seu amor ao gim. Ao lhe perguntarem quem era o melhor orador - Hitler ou Roosevelt -, respondeu:
-  o mesmo que perguntar o que  melhor numa tempestade: o guarda-chuva ou as galochas - mal contendo um largo sorriso de satisfao com o que considerava uma resposta
inteligente.
Os jornalistas queriam respostas a perguntas mais srias, e de novo suas preocupaes se concentraram na situao dos judeus sob o regime nazista. Putzi mostrou-se 
to relutante em dar uma resposta direta quanto no Europa.
- No acho uma boa idia discutirmos essa questo - replicou ele.
- No vai ajudar a Alemanha e no vai ajudar os judeus. - Fez uma pausa. - Mas vou dizer o seguinte - acrescentou com uma frase sujeita a diferentes interpretaes. 
- Digo que a situao dos judeus na Alemanha no vai demorar a se normalizar.
Alguns perceberam um sentido sinistro em suas palavras.
Logo depois, os jornalistas o deixaram em paz. Quando foi dormir nessa noite, a casa de Bradley estava sendo vigiada por seis policiais.
Na tarde seguinte, Putzi compareceu a um servio em memria dos mortos de Harvard na Primeira Guerra Mundial. De novo concordou em responder, depois da cerimnia, 
a perguntas da imprensa. Quando os reprteres aglomeraram-se ao seu redor em um canto sombroso no Harvard Yard, uma voz manifestou-se.
- O que quis dizer na entrevista de ontem com 'o problemas dos judeus na Alemanha logo voltar ao normal'? - perguntou o rabino Joseph Shabow, tambm ex-aluno de 
Harvard. - Referia-se ao extermnio?
Putzi mostrou-se claramente ofendido.
- Ora, ora - replicou.
A sesso foi rapidamente declarada encerrada.
Depois de alguns dias com Bradley, Putzi mudou-se para o norte, para Beverly Farms, casa de outro ex-colega rico, Louis Agassiz Shaw. Tambm conseguiu encaixar-se
em uma ida a uma corrida de cavalos e a uma viagem para assistir o Boston Red Sox jogar contra o St. Louis Browns. Mesmo se quisesse, seria difcil Putzi no chamar
a ateno. Para a sua proteo, foram designados quatro soldados da fora pblica, dois dos quais eram judeus. Todos tinham recebido ordens de usar as calas de
flanela branca,
casaco esporte e gravata listrada, que era o uniforme dos ex-alunos. No fim, serviram de escudo no contra os que protestavam, mas contra o exrcito de reprteres
de Nova York e Boston, que apareceram inesperadamente em quase todo estgio de sua visita.
Nessa quarta-feira, a viagem atingiu seu clmax-o desfile de Harvard. Aps vrios dias de chuva, o tempo estava seco e quente. As comemoraes comearam ao meio-dia, 
quando os estudantes do ltimo ano com suas togas e barretes, e os ex-alunos com seus trajes pitorescos se encontraram para almoar nas diversas casas da universidade. 
Depois do almoo, Cutler, o mestre de cerimnias, conduziu o desfile partindo das casas para o outro lado da Lars Anderson Bridge, at o estdio de futebol coberto 
de hera, para a tradicional batalha de confete. Logo ficou claro que, graas  enorme publicidade que acompanhou a sua deciso de participar, Putzi
era o centro das atenes.
 frente do desfile estavam os poucos sobreviventes das turmas de 1869,
1873 e 1878, com sua marcha vacilante. Em seguida, a turma de 1914, em calas brancas, camisas polo laranja e chapu preto; depois, a turma de 1919, em cala branca,
palet azul e chapu azul e branco na forma de guias. Um grupo segurava um cartaz onde se lia:
1919
PARA PRESIDENTE DA TURMA
MAXHANFSTANGEL
PARA VICE-PRESIDENTE
ADOLPHKEEZAR
Se Max Keezar, um comerciante judeu conhecido em Harvard Square, achou engraada essa justaposio dos nomes, no ficou claro.
Mas havia coisa pior por vir: em seguida, no estdio, foi a vez da turma de
1924. Vestidos com traje completo de camponeses bvaros, com as pernas das calas de couro, meias compridas e chapus verde-escuros com penas, marcharam em passo
de ganso por todo o estdio, a mo direita esticada em saudao nazista. Arrastavam um imenso caminho de cerveja, com a etiqueta Harvard Beer and Ale, do qual distriburam
bebida durante toda a tarde.
Depois veio a turma de 1909, cerca de trezentas pessoas, que de longe foi a maior do desfile. Foram precedidos de cinco membros da turma de 1919, que seguravam o
cartaz "Hanfstaengl para presidente" e tambm faziam a saudao nazista. A maioria dos Naughty Niners usava chapu de palha, palet escuro e cala branca. Putzi 
evitou o uniforme da turma, usando um chapu mole escuro, palet azul e cala marrom. Na lapela, um cravo vermelho. No houve marcha a passo de ganso nem saudaes 
nazistas na turma de Putzi, apesar de ele prprio saudar alguns amigos. Finalmente, vieram os que se graduavam naquele dia, com barrete e toga pretos.
Aps os discursos se encerrarem, os formandos, os ex-alunos e convidados, todos entoaram "Fair Harvard". Depois, quando o som da msica silenciou, o cu foi subitamente 
tomado por serpentinas e confetes coloridos. A batalha anual de confetes reinou por 15 minutos antes de as pessoas se deslocarem para o Soldier's Field, para o jogo 
de beisebol Harvard-Yale. Harvard ganhou de trs a dois.
Quando Putzi acompanhava a batalha de confetes, um homem gorducho e sorridente aproximou-se dele. Pareceu-lhe vagamente familiar; porm, por mais que tentasse, no 
conseguiu lembrar-se de seu nome. Quase no meio do estdio, o homem apertou, ostentosamente, a mo de Putzi. Quando a multido o viu, bradou a sua aprovao. Putzi 
s descobriu depois que o homem era Max Pinansky, o primeiro juiz judeu de Maine. A foto apareceu algumas horas depois nas primeiras pginas dos jornais vespertinos, 
e Putzi, que no tinha tomado a menor iniciativa na situao, viu-se aclamado como pacificador. Era, pensou, "uma propaganda pralem maravilhosa, valia cem entrevistas 
com Hitler". A reao na Alemanha foi muito menos positiva.
Putzi ficou ausente na cerimnia da tarde seguinte. No fez diferena. Membros da National Student League e outros que se opunham  visita mantiveram um protesto 
inabalvel durante todo o discurso de Conant, abafando suas palavras quando agradeceu a Cutler, que tinha acabado de anunciar a doao  universidade de 100 mil 
dlares da turma de 09. Ento, houve uma comoo repentina. Duas mulheres, que haviam penetrado furtivamente, de repente tiraram seus xales e rodearam as cadeiras 
e plataforma de madeira em que estavam sentadas com as correntes a que se
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algemaram. Em seguida, lanaram fora as chaves. Em seus vestidos, nas costas, que agora eram visveis, tinham sido costurados slogans antinazistas
com fitas vermelhas.
"Abaixo Hitler", dizia um. No outro se lia: "Liberdade para Thlmann e Michaelson" - uma referncia a dois dos prisioneiros polticos alemes. A polcia caiu sobre 
as duas e rapidamente desataram as correntes. Um pedao do corrimo foi arrancado quando as mulheres foram levadas ao Fogg Art Museum do outro lado da rua, e depois 
ao quartel da polcia de Cambridge. Identificaram-se como Sheila Shugrue, 18 anos, e Nora Burke, 20 anos, as duas de Cambridge.
Mais tarde, na mesma noite, houve mais problemas em Harvard Square. Charles McBride, 21 anos, tambm de Cambridge, chegou  praa com uma corrente em volta da cintura 
e prendeu-se na cerca de ferro ao redor do ptio do lado de fora de Lehman Hall. Usava um bluso de moletom branco em que se lia "Liberdade para Thlmann" costurado 
nas costas com letras vermelhas. Falou durante 15 minutos denunciando Hitler, Putzi e o regime nazista, e acusando Harvard de aviltar-se ao convidar Putzi para a 
celebrao. Outro rapaz de 21 anos, Joseph Jacobs, da seo Dorchester de Boston, prosseguiu seu discurso at a polcia chegar. Uma grande multido logo se aglomerou 
e bloqueou o trnsito.
A polcia foi pega de surpresa. Tinha ficado alerta a manifestaes em Harvard, mas, encerrada a cerimnia, retornara aos seus postos. Finalmente, os policiais chegaram 
e, depois de conseguirem uma serra em uma oficina prxima, soltaram McBride e levaram-na junto com Jacobs para a delegacia. Mas o protesto no acabou a. Outro jovem, 
declarando representar a Marine Industrial Union, escalou um poste telegrfico e comeou a denunciar Hitler antes de descer e fugir, jogando para o alto o moletom 
"Liberdade para Thlmann". Alguns dos manifestantes subiram nos ombros de outros e comearam a discursar para a multido, enquanto outros comearam a distribuir 
adesivos em que se lia: "Dem a Hanfstaengl o grau de Mestre em Tortura, expulsem o aougueiro nazista, libertem Thlmann e todos os antifascistas presos."
Quando a multido somou dois mil, chegaram mais policiais, as sirenes soando estridentes. Toda vez que algum tentava falar, a polcia
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derrubava-o e levava preso. Os detidos foram acusados de perturbar a ordem, e sete deles tambm de falar em pblico sem permisso. Detidos no quartel da polcia, 
nessa
noite cantaram a "Internacional".
Putzi perdeu todo o drama; tinha passado o dia no campo. Mais tarde, nessa noite, chegou em Cambridge e foi para a sede da associao dos exalunos em Wadsworth House, 
prximo a Harvard Square, sem saber dos atos rebeldes que tinham acontecido. Mais tarde, partiu para New London, Connecticut, onde assistiria  regata Yale-Harvard 
no dia seguinte.
Putzi passou o fim de semana em North Shore com uma ex-namorada que morava em Beverly Farms. Depois, no meio da semana seguinte, reapareceu em Boston para jantar 
com membros do consulado alemo. A imprensa, que acompanhava a visita de perto, tinha outro comunicado a fazer. No sbado seguinte, Putzi iria ao casamento da temporada 
na alta sociedade: o casamento de John Jacob Astor in, o solteiro mais rico dos Estados Unidos, com Ellen Tuck French, em Newport, Rhode Island. Putzi seria o convidado 
de honra em um almoo informal antes da cerimnia, que seria oferecido por Francis O. French, o pai da noiva, embora alguns jornais tenham insinuado que a me da 
noiva no tinha ficado muito satisfeita com isso.
A controvrsia em torno do convite a Harvard, nesse meio-tempo, recusava-se a morrer. The New York Times publicou uma carta assinada por um tal de Robert Skliar 
de Washington, D. C. dizendo que a presena de Putzi escarnecia as tradies liberais da universidade: "Pode um liberal aceitar e defender um homem cuja atividade 
fundamental consiste em organizar, encorajar e defender a perseguio e violncia aplicadas na Alemanha e a serem aplicadas nos Estados Unidos quando chegar a hora?", 
escreveu ele. "O Dr. Hanstaengl pode ser ou no uma pessoa encantadora, mas a universidade no  lugar para um homem que dedicou a melhor parte de sua vida a destruir 
a liberdade intelectual, a humilhar as mentes mais admirveis e a queimar os livros que produziram."

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AS RUAS ESTREITAS AO REDOR da antiga Trinity Church no corao de Newport, Rhode Island, estavam lotadas. A cerimnia de casamento s teria incio s 16 horas, mas
j de manh as pessoas comearam a aglomerar-se, comprimindo-se na rua e na calada, aparentemente ignorando o calor. Vez por outra a polcia empurrava-as para trs, 
abrindo caminho para os carros dos convidados, mas logo depois tornavam a precipitar-se  frente. Fotgrafos agarravam-se  balaustrada de ferro ao redor do cemitrio 
e telhados do outro lado da rua.
Era o evento social da temporada, o ponto alto na agenda das famlias mais proeminentes dos Estados Unidos, conhecidas como as "Quatrocentas". Nessa tarde, os descendentes 
de duas das famlias mais antigas e ricas do pas se casariam. John Jacob Astor, 21 anos, era provavelmente o solteiro melhor partido dos Estados Unidos. Seu tatarav, 
um negociante de peles, tinha estabelecido a base da riqueza da famlia, e seu pai, que prosseguira o trabalho, perdera a vida no Titanic, deixando uma grande fortuna 
a ser dividida entre Jacob e seu irmo, Vincent. A noiva de Astor, Ellen Tuck French, era quase to importante quanto. Tinha somente 18 anos, era neta de Amos Tuck 
French e parente dos Vanderbilts.
Como acontece com todas as famlias proeminentes, h sempre inevitavelmente um escndalo. A me do noivo, Madeleine, que fora resgatada do Titanic, havia causado 
um certo alvoroo em novembro ao casar-se com Enzo Fiermonte, um pugilista italiano de apenas 26 anos, somente cinco anos mais velho do que o seu prprio filho. 
Houve dvidas at o ltimo
200
instante se ela compareceria ao casamento. No fim, ela realmente apareceu, usando um vestido de organdi azul, bem solto, e um grande chapu. Sensatamente, quem sabe,
Fiermonte ficou ausente.
A cerimnia estava repleta de smbolos da antiga tradio americana. A igreja, um edifcio branco comprido, estreito, gasto, revestido de ripas de madeira, com um
campanrio branco alto, a ponta e um cata-vento dourados, pouco mudara desde que fora construda em 1726. A cerimnia obedeceria ao ritual antigo da Igreja Episcopal
Protestante, cujos devotos chegaram  Nova Inglaterra com os primeiros colonizadores.
Apesar de sua imensa riqueza, a nfase foi na simplicidade. Havia uma acentuada ausncia de ostentaes florais e presentes de jias caras. Embora os noivos tivessem
recebido muitos presentes - inclusive vrias belas peas de porcelana e prataria -, foi, segundo o New York Times, que publicou a notcia do casamento na primeira
pgina no dia seguinte, "de maneira geral, uma cerimnia comum, que qualquer casal de recursos moderados teria desfrutado".
Simplicidade foi um termo relativo,  claro. Foram convidadas aproximadamente 250 pessoas de algumas das famlias mais aristocrticas dos Estados Unidos. Receberam
convites gravados simplesmente pela Tiffany de Nova York, com as palavras: "Por favor, apresente este carto na Trinity Church, sbado, 30 de junho." Vrios paroquianos
locais tambm foram convidados e eram recebidos por membros do conselho paroquial que os reconheciam. O porto do lado da Church Street estava guarnecido de detetives
da Pinkerton* e da polcia local, que impediam a entrada dos penetras. Um tapete vermelho felpudo estendia-se do porto  porta da igreja.  porta, estavam os porteiros,
magnficos em seus fraques pretos, coletes brancos, calas de risca de giz, gola alta, gravatas de pontas largas quadradas, presas por um alfinete decorativo, cor
de alfazema, luvas e polainas brancas, sapatos pretos. Na lapela, um cravo branco.
Putzi foi um dos primeiros convidados a chegar. Por causa do calor intenso, muitos tinham optadoipelo traje informal. Pedante por tradio,
*"Pinkerton's National Detectives Agency", uma firma de detetives particulares nos EUA, iniciada por Allan Pinkerton (1819-1884). (N. da T.)
estava de cartola, palet preto, cala cinza de risca de giz - uma das poucas pessoas que no eram do grupo dos padrinhos a se vestirem dessa maneira. Fez uma pausa
para os fotgrafos.
Quando a noiva chegou, a multido deu um suspiro. Alta e esguia, Ellen Tuck French estava vestida dos ps  cabea de branco, o vestido de cetim marfim, no estilo 
princesa, com decote em V e mangas pontudas, e uma cauda medindo quatro metros e meio, que caa de seus ombros. Seu cabelo ruivo era entrevisto por um vu de tule 
comprido, com uma grinalda de flores laranja. Carregava um buqu de orqudeas brancas e lrios-do-vale. Parou para os fotgrafos antes de atravessar o ptio da igreja 
e entrar por uma porta lateral, braos dados com seu pai.
A cerimnia levou somente nove minutos e obedeceu a um ritual episcopal modernizado. A noiva prometeu amar e honrar, mas no obedecer ao marido. O noivo, de fraque 
preto, cala riscada e gravata branca de ponta quadrada, enxugava a testa com um leno, por causa do calor, enquanto
esperava no altar.
Solenes, pousaram para as fotos sob o sol forte do lado de fora da igreja, antes de entrarem no Rolls-Royce, rumo a uma recepo para trezentas pessoas em sua casa 
de veraneio, Mapleshade, na Red Cross Avenue. Champanhe, saladas e sanduches foram servidos aos convidados sob
guarda-sis de cores coloridas, enquanto uma orquestra
cigana, trazida de Nova York, tocava. O casal saiu furtivamente ao anoitecer para a lua de mel em Vancouver e Seattle. Escaparam da bateria usual de arroz e confete, 
depois que um pequeno
grupo de amigos disse, falsamente,  multido, que eles j tinham partido pela porta dos fundos. Enquanto detetives particulares montavam guarda, criados foram despachados
para lojas de bebidas locais para buscarem um suprimento generoso de champanhe.
A data de 30 de junho de 1934 estava destinada a ficar na Histria como mais do que simplesmente o dia do casamento de Astor. Na Alemanha, os eventos tomavam um
rumo dramtico. A crise formava-se h meses. A euforia que saudou a ascenso de Hitler ao poder no ano anterior h muito
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se desvanecera; a economia tornava-se lenta e a retrica nazista da renovao nacional no estava sendo fortalecida com a proviso de empregos. Embora no houvesse
uma oposio franca, o descontentamento crescia. Alguns nacionalistas aliados a Von Papen sonhavam atrair os descontentes, derrubando Hitler e o substituindo por 
uma ditadura de direita mais convencional. "Somos em parte responsveis por esse homem ter chegado ao poder", disse Ernst Jung, um intelectual de direita e um dos 
redatores dos discursos de Papen. "Temos de nos livrar dele de novo." Em 17 de junho, Papen tinha proferido um discurso extremamente crtico, escrito por Jung, denunciando 
um "culto falso de personalidade" em torno de Hitler e criticando outros aspectos do governo nazista. Goebbels proibiu imediatamente a impresso do discurso, porm 
era tarde demais para impedir que trechos fossem publicados no Frankfurter Zeitung, um dos principais jornais da Alemanha.
Mais grave para Hitler foi o que fazer com Ernst Rohm, cuja S fazia o que bem entendia. Ao longo do ano, Hitler pareceu dar-se conta de que deveria romper com ele, 
mas inicialmente no sabia o quo dramtico essa ao deveria ser. O comportamento de Rohm fizera com que angariasse inimigos poderosos, e os conservadores estavam 
desejosos de v-lo colocado no prprio lugar no interesse da restaurao da paz interna. Quando Hitler esteve com Hindenburg em junho de 1921, o general Werner von 
Blomberg, o ministro de Defesa, deixou claro que o Fhrer tinha de agir para refrear a S-ou o presidente teria de declarar lei marcial e entregar o poder ao exrcito. 
Vrios nazistas importantes, inclusive Gring, Himmler, Hess e Bormann, tambm queriam o fim de Rohm. Como ex-oficial da Luftwaffe, Gring, em particular, provavelmente 
teria tomado o partido do exrcito em qualquer confronto com Rohm. Rumores, sem dvida falsos, comearam a correr de que Rohm e a S estavam tramando um golpe. Hitler, 
por fim, parece ter decidido agir na noite de 28 de junho, depois de saber que Papen se encontraria com Hindenburg dois dias depois, com o objetivo de reprimir no 
somente Rohm e a S como tambm ele prprio. A ao, quando aconteceu, foi rpida - e Hitler encarregou-se pessoalmente, Todos os lderes da S foram convocados 
a uma reunio na cidade bvara de Bad Wiessee no final da manh de 30 de junho. Hitler j
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havia ido de avio para Munique s duas da manh. Quatro horas e meia depois, chegou ao hotel de Rohm com membros de sua comitiva e um destacamento da polcia. Com
a pistola na mo, declarou Rohm um traidor e mandou prend-lo. Muitos outros foram levados com ele  priso Stadelheim
- entre eles Edmund Heines, lder do principal grupo da S na Silsia, que havia sido encontrado no quarto vizinho ao de Rohm, na cama com um rapaz. Foi dada uma 
pistola a Rohm e a ltima edio especial do Beobachter, com um artigo detalhando o golpe que era acusado de estar planejando. Esperava-se que tirasse as concluses 
apropriadas e se matasse. Ele no entendeu a indireta e foi morto. Vrios outros que ocupavam uma posio de prestgio na S tambm foram executados. O massacre, 
no entanto, no se limitou  tropa de assalto. Entre aqueles mortos no que ficou conhecido como a Noite dos Longos Punhais, havia conservadores influentes, como 
Kurt von Schleicher, o ex-chanceler e sua mulher, e Herbert von Bose, chefe de gabinete de Papen. O prprio Papen foi colocado em uma espcie de priso domiciliar. 
Embora no tenha sido fornecido nenhum nmero total definitivo de mortos,  provvel que tenha chegado a 200.
Putzi desconhecia os eventos dramticos que se desenrolavam no outro lado do Atlntico quando chegou em Newport naquela manh, para a cerimnia de casamento. Chegou 
em um Ford antigo, de Beverly Farms, nos arredores de Boston, onde tinha sido hspede do Sr. e sra. Louis Agassiz Shaw. Na direo estava Nathaniel Simpkins, jovem 
parente de um aviador norteamericano, ex-colega de Putzi, que morrera na Primeira Guerra Mundial.
Putzi foi bombardeado com perguntas pelos reprteres que o aguardavam sobre o que havia sido descrito nas primeiras reportagens como uma tentativa de revoluo em 
Berlim. Como raras vezes na sua vida, ficou sem saber o que responder.
- No tenho comentrios a fazer - respondeu. - Estou aqui para assistir ao casamento da filha de um amigo. O casamento  mais importante do que qualquer outra coisa 
hoje. Nunca misturo negcios com prazer, e hoje no abro mo do meu programa.
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Seu nico comentrio foi salientar que conhecia as famlias Astor e French h muito tempo. O coronel John Jacob Astor, o falecido pai do noivo, tinha sido um dos 
amigos mais ntimos de sua famlia. E foi para um hotel prximo examinar os jornais.
Ainda no estava bem informado quando, depois do almoo, foi  casa de um amigo para vestir roupas formais. Naquela tarde, j na igreja, um reprter ousado conseguiu, 
sorrateiramente, percorrer a passagem entre bancos at onde ele estava sentado do lado dos Astor. O que Putzi tinha a dizer, perguntou sussurrando, sobre os relatos 
de que Rohm tinha sido preso por conspirar para derrubar Hitler?
- Aqui, no. Depois, l fora - replicou Putzi. Somente no dia seguinte, quando a extenso e a gravidade do que ocorrera tornaram-se claras, Putzi sentiu-se capaz 
de responder. "As notcias que me chegaram no sbado foram novidade para mim, mas no inteiramente inesperadas", disse em uma declarao divulgada por vrios jornais. 
"Meu lder, Adolf Hitler, teve de agir e agiu, como sempre. Hitler nunca se mostrou maior e mais humano do que nas ltimas quarenta e oito horas. Hitler, possivelmente, 
estaria fora do poder se no tivesse agido como fez, se no tivesse agido e salvo a coisa mais preciosa do mundo: a sua misso providencial." Quanto s personalidades 
importantes que tinham sido mortas, respondeu com rispidez: "Haver outros para assumirem seus lugares." A Alemanha, afirmou ele, caminhava para um futuro brilhante, 
e Hitler "no somente impediu a runa da Alemanha, corno a de todo o mundo civilizado".
Putzi insistiu em que no estava preocupado com as conseqncias dos eventos para si mesmo e no tinha recebido ordens de retornar ao seu pas. A sua segurana ocultava, 
entretanto, a preocupao no somente com sua mulher e filho que ainda estavam na Alemanha, como tambm com o destino que o aguardava quando regressasse. Procurou 
o conselho de Von Neurath, o ministro das Relaes Exteriores, enviando-lhe, secretamente, um cabograma, atravs de seus contatos no consulado em Boston. Von Neurath 
sugeriu que retornasse o mais rpido possvel. Putzi j havia reservado um lugar no Europa, para o dia 7 de julho, e decidiu confirm-lo.
Sobrava tempo para alguns negcios importantes no concludos. No dia seguinte, apareceu em Harvard, chegando num txi com trs bustos Gluck, Schopenhauer e Hindenburg.
A universidade estava deserta. Transpirando profusamente por causa do calor e do peso dos presentes, Putzi encaminhou-se ao departamento de msica. Atravessando
seus corredores vazios, esbarrou casualmente com o diretor do departamento, o compositor Edward Burlingame Hill, que passava por seu escritrio para pegar algumas
coisas antes de partir para sua casa de veraneio em New Boston, New Hampshire. O momento era prefeito: o 220 aniversrio de Gluck, e Putzi convenceu Hill a aceitar
o busto.
Durante o almoo, vangloriou-se com Hill de ter escrito uma sute orquestral em homenagem a Hitler,
- O andamento  militar, um andamento revolucionrio - disse ele.
- Descreve o poder nazista.
Ao longo da conversa, Putzi tambm procurou justificar a brutalidade
de Hitler.
- Em todas as revolues, aps um perodo de trs a quatro anos, os antigos lderes revolucionrios tm de ser substitudos por estadistas criadores - disse ele.
Se Hitler no tivesse subido ao poder, "a Alemanha teria se tornado bolchevista vermelha e o cristianismo teria desaparecido da
noite para o dia".
Apesar de seu xito com Gluck, Putzi no conseguiu encontrar ningum em Harvard preparado para aceitar o Schopenhauer ou o Hindenburg. Portanto, depois de duas horas
de busca, consolou-se com um passeio para fazer compras. Mas no tinha desistido de livrar-se dos bustos que restavam. Em 4 de julho, partiu do aeroporto de Beverly
em um avio fretado, rumo a West Point, com o busto de Hindenburg a bordo.
A prestigiada academia militar no aceitava esttuas com freqncia, mas aceitara uma do general de diviso John Sedgwick, bisav de Putzi, que havia sido morto
na Guerra Civil, quando sua famlia a doara. Entretanto, os pressgios no eram bons. O coronel Simon B. Buckner Jr., comandante da academia, tinha alertado que
o consentimento para a aceitao do busto "s seria dado depois de toda a burocracia oficial ser satisfeita", e
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que "parece que no ser aceito". Putzi teve de se satisfazer com a visita ao terreno em volta do edifcio para prestar seus respeitos a seu bisav.
No sbado, 7 de julho de 1934, o Europa zarpou do per aos ps da rua 46 Oeste. Depois de mais de duas semanas de um tempo extraordinariamente quente, a temperatura
atingiu 33 graus  sombra no Central Park. Uma banda dos Amigos da Nova Alemanha tocou quando Putzi subiu a bordo e fez a saudao nazista. A msica foi em homenagem
ao grupo de setenta membros de uma organizao pr-fascista que partia para a Alemanha. Um holofote apontava para a bandeira do navio com a sustica.
Pode-se entender uma certa tremedeira que acometeu Putzi ao deixar o solo norte-americano. A crise que se desenrolava na Alemanha tinha continuado a ocupar a primeira
pgina nos ltimos dias. Alm disso, ameaava assumir dimenso internacional, com as afirmaes nazistas de que Andr Franois-Poncet, o embaixador francs em Berlim,
tinha-se envolvido com a conspirao. O nico consolo era que a situao parecia estar se acalmando; nessa manh, The New York Times relatou que Hitler tinha convocado
o retorno  paz e  tranqilidade, e, para reforar sua inteno, tinha ido passar o fim de semana nos Alpes bvaros. At mesmo Papen, o vice-chanceler, cujo cargo
continuava bastante incerto, estava sorrindo quando foi visitado em sua casa. "Meus planos ainda no esto completos", disse ele ao entrevistador. "A situao geral 
ainda  instvel." Com a trgua, ele podia ir e vir, embora sua casa continuasse guardada "supostamente para proteg-lo de nazistas de sangue quente".
Putzi ainda conseguiu ser otimista quando interrogado pelos reprteres sobre a situao da Alemanha. "O que aconteceu comeou, na verdade, um ano atrs, e as conseqncias 
foram uma questo de amadurecimento", disse ele. "A Alemanha est agora caminhando para a estabilidade." Em relao s implicaes para os judeus do pas, replicou: 
"Esta  uma questo a ser descoberta." Tambm demonstrou indiferena por sua incompetncia para dispor dos dois bustos. Eram "apenas modelos de gesso", disse
ele, prometendo traz-los de volta quando retornasse em novembro para a partida de futebol Yale-Harvard e "exp-los em duas galerias importantes". Os bustos no
foram os nicos negcios no concludos. Havia tambm a questo da Dr. Hanfstaengl Scholarship [Bolsa de Estudos Dr. Hanfstaengl], que Putzi tinha tentado doar.
Essa questo foi finalmente decidida em setembro, quando um encontro de professores com amigos da Harvard University a rejeitaram por votao. O presidente Conant
escreveu a Putzi agradecendo a generosidade e explicando por que no era possvel aceitar
o dinheiro.
"No estamos dispostos a aceitar a doao de algum que se identifica to intimamente com a liderana de um partido poltico que prejudicou as universidades da Alemanha 
com medidas que violentam princpios que acreditamos fundamentais para as universidades do mundo todo", escreveu ele. "Como a sua oferta foi feita publicamente e 
submetida  discusso, julgamos apropriado tornar esta carta pblica." Desse modo, foi divulgada alguns dias depois pelo Harvard News Office e publicada em vrios 
jornais. O gesto de Conant foi aplaudido no somente pelos presidentes de vrias outras universidades da Nova Inglaterra como tambm por comentaristas em jornais. 
The New York Post disse que isso "realmente distingue Harvard" e o Montgomery Alabama Observer descreveu-o como "mais um ponto para o esclarecimento nos Estados 
Unidos". Joseph Brainin, um colunista, tambm opinou: "O presidente de Harvard agiu segundo a tradio de uma grande instituio americana de erudio superior", 
disse ele. "Percebeu que a bolsa Hanfstaengl em Harvard seria uma contradio de tudo o que essa grande universidade representa."
Previsivelmente, uma das poucas notas discordantes foi publicada no Harvard Crimson, que declarou que a recusa no condizia com as tradies liberais de que Harvard, 
com razo, se orgulhava. "A oferta de Hanfstaengl foi uma demonstrao de amizade, e  lamentvel que a Corporao no a tenha tratado como tal, respondendo no mesmo 
esprito", dizia.
A repercusso legal do "caso Hanfstaengl" tambm se arrastava. Em outubro, as duas mulheres que haviam se acorrentado aos bancos e cercas no Yard em junho, e haviam 
interrompido repetidamente o discurso de Conant com gritos de "Abaixo Hanfstaengl!" foram multadas em 50 dlares
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cada uma por seus atos. Em uma sala de tribunal lotada de estudantes, Conant pleiteou, com sucesso, indulgncia. Mais sete pessoas - seis homens e uma mulher - foram
julgadas culpadas de perturbar a ordem e falar sem permisso, e multadas em 20 dlares cada uma e condenadas a seis meses de trabalhos forados na MiddlesexHouse 
of Correction. O juiz, George James, foi quase apologtico. "Lamento impor penas de priso", disse. Seis deles foram perdoados depois de apenas um ms e tornaram-se 
heris de Harvard.
O caso da bolsa de estudos, no obstante, teria um ps-escrito bizarro dois anos depois. Em fevereiro de 1936, Conant foi obrigado a negar publicamente ter pedido 
a Putzi que contribusse para o fundo do aniversrio de 300 anos de Harvard. Putzi, com um humor provocador, tinha vazado a notcia de que havia escrito de novo 
oferecendo dinheiro  universidade. Conant tinha enviado uma carta formal a todos os 67 mil ex-alunos, propondo a criao de bolsas de estudos nacionais e magistrio 
itinerante. Embora pretendesse meramente solicitar a "simpatia geral" dos ex-alunos em relao s propostas, Putzi interpretou-a como um apelo a fundos e considerou 
sua incluso na lista um sinal de que a universidade estava, finalmente, disposta a aceitar o seu dinheiro. Dessa vez, props dez mil dlares para tornar possvel 
a estudantes norte-americanos dez anos de estudos na Universidade de Munique.
E assim a controvrsia recomeou, com todos os mesmos argumentos sendo propalados pelos dois lados. Para aumentar a confuso, The Harvard Crimson declarou, em maro 
de 1936, que, ao contrrio do que havia sido entendido anteriormente, Putzi j tinha contribudo com 1.500 dlares para o fundo da turma de 1909 e estava determinado 
a enviar um estudante  Universidade de Munique, no ano seguinte, "com ou sem o presidente Conant". A histria estava se transformando em uma farsa. Quando foi oferecida 
uma recepo, pouco depois, em homenagem ao trabalho realizado para a universidade por Art Wild, diretor de publicidade de Harvard e responsvel por tratar da controvrsia, 
foi presenteado com um carimbo onde se lia: "A Universidade no tem declarao a fazer em relao  oferta do Sr. Hanfstaengl."
Putzi sentiu-se apreensivo durante a viagem de volta  Alemanha. Quando o Europa atravessava o canal da Mancha, escutou no rdio o discurso de Hitler ao Reichstag
justificando o que tinha feito. Como o nico homem a bordo que conhecia pessoalmente tantos dos envolvidos, Putzi ficou incrdulo diante da explicao dada. O mais 
absurdo de tudo foi a alegao de ter sido surpreendido e ficado chocado com a homossexualidade de Rohm. Putzi lembrou-se da discusso acirrada entre os dois homens 
durante a campanha eleitoral do Reichstag dois anos antes, quando um jornalista tinha publicado um relato pormenorizado da vida privada de Rohm, que havia causado 
sensao em alguns jornais da oposio. Igualmente absurda, para ele, era a declarao do envolvimento do embaixador francs. O pior aspecto do caso, na opinio 
de Putzi, foi a natureza arbitrria da coisa toda: Rohm e alguns de seus partidrios eram bastante desagradveis, mas isso no significava que era certo mat-los 
sem julgamento. Putzi tambm,  claro, s podia se perguntar se no estaria cometendo um erro terrvel em retornar. Von Neurath o tinha aconselhado a voltar, mas 
da maneira como as coisas progrediam, como ter certeza de que no cairia vtima de um expurgo futuro?
Ao chegar em Berlim, encontrou vrios amigos e colegas ainda em estado de choque. Seu velho amigo, o general Von Epp, estava em desespero e quase decidira deixar 
o pas. No escritrio do oficial de ligao Hess, onde ficava sua prpria sala, as pessoas "se comportavam como se estivessem anestesiadas". Ningum parecia saber 
o que estava acontecendo ou, se sabiam, no se atreviam a partilhar suas opinies com Putzi.
A reao mais sensata teria sido no chamar a ateno durante algumas semanas, mas, em vez disso, Putzi decidiu procurar Hitler. Soube que o Fhrer estava relaxando 
com os Goebbels no resort exclusivo de Heligendamm, no mar Bltico. Depois de descobrir o nome do hotel, telefonou e
avisou que estava chegando.
O hotel estava praticamente deserto quando chegou. Hitler, disseram-lhe, ainda estava no quarto, mas Goebbels e sua famlia estavam na praia. Ao passar pelos pinheiros
e chegar ao mar, sentiu como se tivesse se deparado com uma comdia satirizando a alta sociedade. Ali, no meio da fileira impecvel de barracas de praia, estava
o chefe de propaganda nazista, de
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cala de flanela. A maneira entusistica como recebeu Putzi lembrou-lhe um "rico pai de famlia saudando um velho amigo da famlia".
O humor era outro, quando, mais tarde, Putzi subiu ao quarto de Hitler. Erguendo os olhos das reportagens do dia, que Goebbels lhe preparara, Hitler fulminou-o com 
um olhar hostil.
- Ento chegou, Mr. Hanfstaengl - disse ele. - Ainda no o liquidaram?
O uso de "mister"-lembrete de sua origem americana - foi um sinal agourento, assim como o fato de pronunciar o nome de Putzi com um s ingls, em vez do som s/z alemo
normal.
- No, Herr Hitler, os comunistas de Nova York no acabaram comigo - retorquiu Putzi, mostrando-lhe um mao de clippings. Entre eles, a fotografia de Putzi apertando
a mo de Pinansky, o juiz judeu.
- Belos amigos voc tem - disse Hitler. - Que tipo de propaganda para o partido  essa, quando o chefe do departamento de imprensa estrangeira nazista confraterniza 
com um judeu?
Quando Putzi tentou explicar a importncia do lobby judeu nos Estados Unidos, Hitler interrompeu-o.
- Hanfstaengl, voc devia ter estado l - prosseguiu ele. O pensamento de Putzi desviou-se imediatamente para a lista dos executados em
30 de junho.
- Estado onde? - perguntou.
- Em Veneza,  claro. Mussolini gostaria de t-lo revisto.
- No foi culpa minha - retorquiu Putzi. - Falamos a respeito disso at a hora de eu partir...
- Sei, sei - replicou Hitler. - Mas foi tudo providenciado s pressas, na ltima hora, e quando voc j tinha partido.
Putzi no acreditou nele nem por um instante, mas no insistiu. Estava claro que, da parte de Hitler, o assunto estava encerrado. De qualquer jeito, a sua audincia
chegara ao fim. Ajudantes de Hitler e outros oportunistas chegaram e foram todos levados para baixo, para jantar.
O humor de Hitler mudou quando se sentaram para comer. De repente, voltou a ser jovial e o sh tranquilizador foi reintegrado ao nome de Putzi
- se bem que Goebbels, com seu ar malvolo de sempre, no resistiu e
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debochou de como se rastejara ao desembarcar em Nova York, em vez de encarar os manifestantes. Havia um qu surreal em ver Magda Goebbels em seu vestido de vero, 
misturando-se com outros convidados, enquanto toda a Alemanha "gemia em uma atmosfera de assassinato, medo e desconfiana", pensou Putzi. Na verdade, a situao 
lembrou-lhe o ch do Chapeleiro Maluco, em Alice no Pas das Maravilhas, de Lewis Carroll.
Nesse mesmo ms, Putzi acompanhou Hitler ao Festival anual de Wagner em Bayreuth. A admirao de Hitler pelo compositor era lendria. Na cerimnia pelo quinquagsimo 
aniversrio da morte de Wagner, em maro do ano anterior, em Leipzig, Hitler abandonara sua farda do partido por um traje formal de fraque, cartola e cala riscada. 
De todas as peras de Wagner, Die Meistersinger [Os mestres cantores de Nuremberg] era a sua favorita. Em toda cerimnia presidida por Hitler, era tocada a abertura 
da pera. Dizia-se que ele j vira mais de duzentas apresentaes dessa obra. Putzi ficou feliz de ir a Bayreuth - no mnimo porque sua presena ao lado de Hitler 
sugeria que nem tudo estava perdido.
Foi em 25 de julho, durante o festival, que Engelbert Dollfuss, o chanceler austraco, foi morto a sangue-frio. Theo Habicht, lder da faco austraca nazista,
conspirava h algum tempo contra Dollfuss, mas no se sabe se Hitler realmente deu a ordem final. Qualquer que seja a verdade, depois de as primeiras notcias serem
publicadas, Hitler exigiu mais informaes. Putzi teve a idia de ligar para Louis Lochner, o diretor do escritrio da Associated Press em Berlim, que havia sido 
enviado a Viena para informar-se sobre a histria. Pediu a Lochner que lhe contasse as ltimas notcias, e este obedeceu, lendo as matrias que haviam sido enviadas
por telegrama para a AP. Mas Putzi no teria isso de graa.
- Agora que contei o que sei, qual a novidade do seu lado? - perguntou-lhe Lochner. Putzi no o desapontou.
Para surpresa de Lochner, ele respondeu com a voz baixa, quase num sussurro:
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- Um certo senhor idoso na Prssia do Leste est gravemente doente. Receamos o pior.
Tornou-se claro, em abril, que Hindenburg estava gravemente enfermo, e Hitler soube, privadamente, que ele no viveria muito mais. Ento, em junho, o presidente 
retirou-se para a sua propriedade em Neudeck, na Prssia do Leste. Essa foi a primeira notificao que a imprensa recebeu da gravidade de seu estado, e Lochner logo 
despachou a notcia. Goebbels negou-a, mas Lochner manteve-se fiel  sua informao.

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A PROPRIEDADE DE HINDENBURG em Neudeck, no que ento era a Prssia do Leste e hoje  a Polnia, era uma boa propriedade, com uma antiga tradio feudal de acolher
de forma carinhosa os visitantes. A recepo ao grupo de Hitler foi, entretanto, flagrantemente fria. Somente Hitler e seu ajudante Brckner tiveram permisso para
ver o presidente moribundo. Putzi, para sua tristeza, teve de esperar do lado de fora com Otto Dietrich, em um banco perto dos anexos da casa, sem nem mesmo ser-lhe 
oferecido algo para beber. Hitler falou pouco ao sair. Passaram a noite na propriedade Finckenstein do conde Dohna, que havia sido cenrio de parte do romance de 
Napoleo com a condessa Walewska. Apesar do quarto de Napoleo continuar conservado como era no seu tempo, Hitler declinou
do convite de dormir ali.
Na manh seguinte, 2 de agosto de 1934, Otto Meissner, chefe do gabinete de Hindenburg, anunciou em lgrimas o falecimento do presidente. Em uma declarao no dia 
seguinte, Putzi agradeceu aos Estados Unidos os respeitos prestados. "Tal julgamento verdadeiro do carter de um tpico representante do que  mais nobre na vida 
alem s deixar mais claro ao mundo os verdadeiros ideais do povo alemo", escreveu ele.
A morte de Hindenburg transformou a situao poltica na Alemanha de um s golpe. Ele havia sido eleito presidente em 1925, na idade de 78 anos, aps a morte de 
Friedrich Ebert, mas, apesar da idade avanada, candidatou-se de novo em 1932 como o nico candidato capaz de derrotar Hitler. Os que votaram em Hindenburg o escolheram
principalmente
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porque o viam como um baluarte contra a ausncia de lei e a brutalidade dos nazistas. Os consultores do presidente idoso, entretanto, tinham sido convencidos de 
que poderiam chegar a um acordo com os nazistas, portanto o tinham encorajado a demitir Heinrich Brning, lder do Partido Catlico Zentrum, preparando assim o terreno 
para a nomeao de Hitler como chanceler. Mas, em vez de controlar Hitler, Hindenburg foi-lhe soltando cada vez mais as rdeas e no fez nada quando ele apagou os 
ltimos vestgios de democracia e assumiu mais poderes. No obstante, Hitler continuou admirando-o. Como Putzi percebeu em vrias ocasies, at mesmo uma ligao 
do presidente era suficiente para provocar um efeito profundo em Hitler.
A morte de Hindenburg removeu o ltimo, ainda que basicamente simblico, obstculo  concluso da revoluo de Hitler. Em 19 de agosto de
1934, um plebiscito deu-lhe poderes absolutos. De um eleitorado de 45,5 milhes, 43,5 milhes votaram - 38,4 milhes em "sim". Apenas 4,3 milhes de pessoas tiveram 
a coragem de votar contra a proposta. "Aqueles alemes de meia-idade, incertos quanto ao governo nazista, apreensivos em relao ao futuro, no se atreveram a expressar 
seus temores votando contra o Lder", escreveu um observador ingls que excursionava pelo pas durante a votao. "Afinal, que outra alternativa alm da anarquia, 
da guerra civil e de mais horrores?" No obstante, havia algo na mentalidade alem e nessa lealdade a Hitler que era incompreensvel. "H mistrios na mente alem 
em que no conseguimos penetrar ou compreender. So esses mistrios que causam apreenso e medo em outros povos."
Fazia parte do trabalho de Putzi cuidar dessa apreenso, pelo menos at onde dizia respeito  imprensa estrangeira. A imagem dos nazistas no exterior havia sido 
gravemente prejudicada pela brutalidade da Noite dos Longos Punhais. Os jornais norte-americanos, particularmente, assumiam uma postura cada vez mais crtica. Uma 
oportunidade para polir a reputao de Hitler logo se apresentou na forma de William Randolph Hearst. O magnata dos jornais havia partido, em julho, para um tour 
pela Europa com a sua amante, Marion Davies, passando pela Blgica e Holanda at a Baviera, onde compareceu ao Festival da Paixo de Oberammergau. Apesar das revoltas 
polticas, Hearst surpreendeu-se em encontrar a Alemanha
como se lembrava: "pitoresca e disciplinada". "Todos so a favor de Hitler", escreveu em um carto para Julia Morgan, sua arquiteta. "Nos Estados Unidos o consideramos
um tirano, mas o seu povo no pensa assim. Consideram-no um salvador."
Hearst, que estava a caminho de um tratamento na estao de guas em Bad Nauheim, encontrou-se alguns dias depois do plebiscito de agosto com Putzi, que foi a Munique
para tomar um ch com ele. Karl von Wiegand, correspondente de Hearst para a Europa central, avisou seu patro sobre Putzi, mas Hearst no lhe deu ouvidos. Conhecia
Putzi h quarenta anos - assim como seu pai o conhecera antes dele - e era "boa gente", respondeu. Tampouco era nenhum "crime" ele gostar de ganhar um "pouco de
dinheiro de vez em quando com reportagens de destaque". A nica queixa de Hearst era o fato de Putzi ser um extremista que talvez no estivesse aconselhando Hitler
da melhor maneira em relao a como tratar no somente os judeus mas tambm as igrejas crists.
Em 23 de agosto, o Beobachter e o resto da imprensa alem publicou um artigo de Hanfstaengl detalhando uma "srie de conversas" com Hearst. Seu contedo foi aproveitado
por vrios jornais norte-americanos. "O resultado [do plebiscito] representa uma expresso unnime da vontade popular", Putzi citou Hearst declarando. "A maioria
esmagadora com que Hitler surpreende o mundo deve, como agora sabemos, ser aceita como evidente e, de certa maneira, pode inaugurar um captulo na histria moderna.
Se Hitler conseguir apontar o caminho para a paz, a ordem e um desenvolvimento tico que foi destrudo no mundo pela guerra, realizar o bem no somente para o seu
prprio povo, mas para toda a humanidade. A Alemanha est combatendo para a libertao das clusulas perniciosas do Tratado de Versalhes e para a redeno da represso
e confinamento maliciosos a que tem estado sujeita pelas naes que em sua avareza e imprevidncia s tm demonstrado hostilidade e inveja de seu progresso. Essa
batalha, de fato, s pode ser vista como uma luta que todos os povos que amam a liberdade certamente acompanharo com entendimento e simpatia." Putzi concluiu o
artigo dizendo que Hearst tinha prometido comparecer ao comcio nazista em Nuremberg no ms seguinte.
O magnata da mdia declarou que a maior parte das palavras atribudas a ele tinham, na realidade, sido escritas por Putzi. Mas no pareceu preocupado. Como escreveu
a Joe Willicombe, seu secretrio, tinha tentado dar uma entrevista, mas Putzi tinha "achado suas prprias idias melhores". Hearst achava que tais distores eram
esperadas e no tinham sido piores do que as que tinha experimentado em outras partes da Europa.
"Quando se  entrevistado na Alemanha, no pense que o que tem a dizer tenha a menor importncia", disse a Willicombe. "O entrevistador o examina atentamente, escuta
com indiferena, depois escreve o que acha que agradar a Hitler. No os culpo. Se no fazem isso, seus jornais so fechados por uma semana ou mais." O magnata da
mdia, no obstante, admitiu que os dois ltimos pargrafos, em que parabeniza Hitler pela vitria, foram "minhas palavras exatas".
A alegao de Putzi de que Hearst tinha concordado em ir a Nuremberg foi outra histria. Seu convidado ficou pasmo com a revelao, embora no esteja claro se no
concordou em comparecer ou se simplesmente quis ir incgnito. De qualquer maneira, Hearst mandou os editores de seus jornais norte-americanos no levarem a histria
adiante.
Hitler queria conhecer Hearst, e Putzi tentou de todo jeito persuadir o norte-americano a aceitar. Mas Hearst estava relutante e alegou no poder interromper seu
tratamento. Davies, em compensao, estava entusiasmada. "O Sr. Hearst no tem interesse em conhecer o Sr. Hitler. Mas eu tenho", disse ela a Putzi. Por isso, passou
trs dias tentando fazer Hearst mudar de idia. No fim, Hearst sondou seu amigo Louis B. Mayer, o dono do estdio em Hollywood. Mayer incitou-o a ir em frente, dizendo
que ele "poderia beneficiar" os judeus. Desse modo, decidiu-se um encontro na chancelaria em Berlim. Hitler concordou com que Hearst anotasse e publicasse o encontro.
Putzi providenciou um avio particular para levar o magnata dos jornais de Munique a Berlim e o acompanhou como intrprete.
Segundo Hearst, Hitler perguntou por que a sua imagem era to "distorcida, to mal compreendida" nos Estados Unidos e por que o povo norte-americano era to hostil
a seu regime. Hearst no se preocupou em ter tato. Os americanos, disse ele a Hitler, "acreditam na democracia e so avessos  ditadura". Sem se referir  comunidade
judaica diretamente, falou
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de um "elemento grande e influente nos Estados Unidos que est muito ressentido com o tratamento da Alemanha a seus iguais".
- Mas eu sou inteiramente um produto da democracia - retorquiu Hitler. - Eu, como cidado, apelei ao povo da Alemanha. Fui eleito ao meu cargo pela maioria dos votos 
da Alemanha. Apresentei minhas propostas, meus programas, ao povo da Alemanha. Eles endossaram esses programas por uma maioria superior a dois teros dos votos.
E o resto do encontro desenrolou-se assim. Hearst, no obstante, deixou a chancelaria convencido de que tinha sido "capaz de realizar algo positivo". Hitler, escreveu 
ele depois a Willicombe, era "certamente um homem extraordinrio", que os norte-americanos subestimavam para risco prprio. "Tem uma enorme energia, intenso entusiasmo, 
uma faculdade prodigiosa para a oratria dramtica e grande capacidade de organizao", disse ele, mas acrescentou: "Evidentemente, todas essas qualidades podem 
ser mal direcionadas."
O encontro foi tambm um golpe bem dado para Putzi, que se vangloriou de seu xito em capturar o grande Hearst. "S precisei convenc-lo de que estvamos interessados 
na justia e ele esmoreceu imediatamente e aceitou encontrar-se com Hitler" gabou-se. "Hitler representou uma de suas cenas- surpreendente como  fcil impressionar 
esses norte-americanos."
Muitos nos Estados Unidos no eram to facilmente impressionveis
- entre eles, Dorothy Thompson. Seu livro - Sow Hitler, crtico ao extremo, publicado em 1932, irritou o regime - se bem que seus colegas fizessem troa da convico
com que descartara as chances de Hitler chegar ao poder. Surpresa com sua nomeao para chanceler, tinha sustentado seu ataque aos nazistas. Em julho de 1934, foi
 ustria para colher informaes sobre o assassinato de Dollfuss. Em meados do ms seguinte, estava de volta a Berlim.
Um dia depois de a entrevista de Putzi com Hearst ser publicada, o regime vingou-se de Thompson. Alguns oficiais da polcia foram ao Adlon Hotel, onde Thompson estava,
e lhe disseram que no era mais bem-vinda na Alemanha, dando-lhe 24 horas para deixar o pas - ou ser expulsa. Thompson no teve outra alternativa seno obedecer.
No dia seguinte,
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quase toda a imprensa anglo-americana foi v-la embarcar no Nora Express. Chorou quando a presentearam com um imenso buqu de rosas.
A expulso de Thompson deu-se principalmente por causa da publicao de  Saw Hitler, mas tambm por artigos que ela tinha escrito sobre vrias outras visitas desde
que os nazistas tinham assumido o poder, em especial aqueles em que criticava o mau tratamento aos judeus. Foi realizada com base em uma lei de alcance retroativo
que tornava uma ofensa um estrangeiro na Alemanha expressar qualquer opinio "em detrimento dos interesses do Reich" ou desrespeitar algum de seus funcionrios.
Thompson era uma personalidade proeminente mundialmente e sua partida forada foi compreendida nos Estados Unidos e em outros lugares como mais uma prova da crescente 
intolerncia de Hitler a opinies contrrias. Frederick Birchall, o correspondente de Berlim para o New York Times, receou que Hitler pretendesse "banir da Alemanha 
todos os correspondentes estrangeiros que no considerassem as doutrinas nazistas o pice da sabedoria poltica e no estivessem dispostos a tornar-se meros ecos 
da propaganda nazista". Outros membros da mdia partilhavam do seu receio. Como Putzi deve ter percebido, o caso transformou-se em um desastre das relaes pblicas, 
indispondo muitos nos Estados Unidos que tinham continuado dispostos a dar a Hitler o benefcio da dvida. Ironicamente, apesar de toda a sua tristeza com a expulso, 
a principal beneficiada foi a prpria Thompson. J uma jornalista reconhecida, tornou-se, quase da noite para o dia, uma celebridade.
Em pblico, pelo menos, Putzi continuou a defender o regime. No dia em que Thompson foi expulsa, The New York Times publicou uma extensa entrevista que havia dado 
a Jane Grant, uma de suas redatoras, dez dias antes. Vestindo um terno preto de alpaca, repudiou as sugestes de que estaria, de certa forma, presidindo "um bureau 
de propaganda da Alemanha". "Estou aqui para fornecer as informaes procuradas por estrangeiros e membros da imprensa estrangeira, no para imp-las", disse ele. 
De modo no convincente, Putzi tentou dissipar as sugestes de que a morte
de Hindenburg levaria a uma mudana dramtica. "Hitler tem conscincia de que o poder que o destino ps em suas mos  possivelmente maior do que o de qualquer outro
homem no mundo, mas tambm que tem certamente os maiores problemas para resolver", disse ele. "S isso j o proteger contra qualquer interpretao barata, leviana
e desptica do poder que lhe foi confiado. O poder no  nada; a justia  tudo. No existe outra pessoa no mundo to humilde, modesta e com tal autodomnio quanto
Adolf Hitler."
Putzi tambm falou a favor da poltica nazista em relao s mulheres
- inclusive seu banimento da poltica e as tentativas de incit-las a deixar o local de trabalho. Aprovou tambm a campanha contra o esmalte de unhas e batom: "O
homem alemo acredita que esse tipo de coisa  antes um smbolo de um complexo de inferioridade moderno da parte do sexo mais fraco, eternamente assombrado pelo
espectro do declnio da atrao e magnetismo", disse ele. Tambm expressou aprovar a poltica do governo da esterilizao obrigatria dos deficientes fsicos e outros
que no satisfizessem os altos padres exigidos pela raa-superior-em-formao de Hitler. A Alemanha era um pas de produo de "qualidade", no de "massa" disse
ele. "No podemos permitir em nossa populao nem mesmo uma porcentagem pequena de crianas deficientes."
Apesar dessas manifestaes de lealdade, era claro Putzi estava cada vez mais decepcionado. H muito era abertamente cnico em relao a aspectos do regime e em
suas crticas a seus dois adversrios ideolgicos, Rosenberg e Goebbels. Na verdade, orgulhava-se do fato de ainda ningum em seu escritrio saudar o outro com o
"Heil Hitler", que se tornava, rapidamente, imprescindvel na sociedade alem. No entanto, o que era tolerado como uma excentricidade divertida no comeo de 1933,
era bastante perigoso
18 meses depois. Sua averso aos programas de Hitler foi reforada pela percepo cada vez mais clara de sua prpria impotncia e irrelevncia. De maneira sutil,
comeou mover-se, cada vez mais, para a oposio.
Entre aqueles impressionados com a independncia de pensamento de Putzi estava Edgar von Schmidt-Pauli, jornalista e escritor conservador. Havia ido a Munique em
1931 para escrever um livro sobre Hitler e os homens que o cercavam e ficado favoravelmente impressionado-mas depois
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tornou-se crtico e, como Putzi, talvez s sobreviveu  Noite dos Longos Punhais porque estava fora em uma viagem de negcios a Paris. O escritor, que se encontrava
com Putzi freqentemente em Berlim depois de os nazistas assumirem o poder, percebeu como tambm ele perdia a f no regime. Tiveram vrias conversas em que Putzi
expressou seu ultraje em relao  cobia nazista do poder e descreveu alguns dos decretos que haviam publicado como "idiotas". Tampouco Putzi perdia a oportunidade
de falar mal de Rosenberg e tornava-se cada vez mais crtico de Goebbels e at mesmo de Hitler. Isso era muito perigoso, especialmente por Putzi ter admitido que 
temia por sua prpria segurana. A ferocidade e a franqueza com que criticava o regime eram tais, que Von Schmidt-Pauli passou a evitar ser visto com ele em pblico.
Certa noite, um encontro casual em uma recepo na embaixada italiana pareceu especialmente arriscado. Quando Von Schmidt-Pauli e sua mulher saam depois de falarem 
com vrios nazistas eminentes, inclusive Rosenberg, esbarraram com Putzi.
- Como pode falar com um tolo como Rosenberg? - perguntou Putzi. - Ele no  nem mesmo um tolo,  um criminoso.
Quando Putzi ps-se a denunciar, ainda em voz alta, "outros criminosos", Von Schmidt-Pauli silenciou-o de imediato. Sua posio j era precria o bastante sem ser 
associado com esse tipo de coisa. Perguntou-se por quanto tempo Putzi sobreviveria se no tomasse cuidado.
Outros tambm estavam chocados com a franqueza de Putzi. Benno Jehle, que trabalhava no Aeroporto Oberwiesenfeld de Munique, estava de servio no dia, em 1935, em 
que Putzi desembarcou de um JU 52. No terminal, foi saudado com os gritos usuais de "Heil Hitler".
Em vez de corresponder a eles, disse em voz alta:
- Oh, parem com essa besteira de Heil.
Os outros passageiros e a tripulao que ouviram o seu acesso de raiva olharam em volta, uns para os outros, apreensivos. Mas Jehle, que se opunha aos nazistas e
fugiria para a Sua durante a Segunda Guerra Mundial, ficou impressionado. Quando Putzi no conseguiu txi, ofereceu-se para lev-lo em casa. Na privacidade do
carro, Putzi comeou um discurso contra os nazistas, criticando particularmente a deciso de Hitler de nomear
o "incompetente" Von Ribbentrop embaixador em Londres. Putzi nunca o considerara muito e certamente gostaria de ocupar o cargo.
Tais indiscries no passariam despercebidas. Erika Schweickert, que dirigia a Humboldt Haus em Berlim, parte da German Academy of Exchange Services (DAAD) [Academia
Alem de Operaes Cambiais], ficou perplexa com o tom crtico que Putzi adotou no somente em relao  poltica cultural dos nazistas como tambm em relao ao
regime em si. "Ele costumava dizer que o Dr. Goebbels e Rosenberg eram os seus inimigos mais implacveis, e que no mais era escutado por causa de suas adver tncias",
recordou-se ela. Um dia, ela recebeu uma ligao funesta da Gestapo. "Sabemos que tem-se encontrado com o Dr. Hanfstaengl e queremos adverti-la quanto a futuros
encontros, pois ele no  considerado politicamente confivel", disseram-lhe.
As relaes de Putzi com Hitler, nesse meio-tempo, continuaram a de teriorar-se. Parte do problema foi, incontestavelmente, a rivalidade com Goebbels. Putzi nunca
gostara do homem que descrevia, pelas costas, como um "ano venenoso". Depois de Hitler chegar ao poder, os dois entraram em conflito quanto ao trabalho de Putzi
com a imprensa estrangeira, que Goebbels considerava parte de seu territrio. Entretanto, Goebbels era um homem perigoso para quem se opunha a ele, como tinha demonstrado
quando, efetivamente, sabotou seu filme sobre Horst Wessel.
Putzi entrou em conflito at mesmo com Gring, at ento um de seus aliados mais antigos entre os nazistas eminentes. Quando Gring ofereceu uma festa de aniversrio
em sua casa, conhecida como Karinhall, em homenagem  sua falecida esposa, Putzi repreendeu-lhe por expor obras de arte pilhadas de diversas galerias alems. Gring,
indignado, primeiro negou a acusao, mas depois, com raiva, retorquiu: "E o que tem isso? Pelo menos, se as exponho, as pessoas vem belos quadros." Putzi replicou
que muito mais gente os teria visto se estivessem pendurados em seus locais antigos.
O filho de Putzi lembrou-se de uma cerimnia nazista importante no vero de 1934, no Reichskanzlei, em Berlim, a que compareceu com seus pais. Egon, ento com 13
anos, entrou na fila com os outros presentes para a oportunidade de apertar a mo de Hitler, mas, quando finalmente foi a
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sua vez, ficou perplexo com a frieza com que foi tratado. Talvez por causa do afastamento cada vez maior de seu pai, havia pouco da cordialidade do vero anterior
em Berchtesgaden. A situao no melhorou em nada com a maneira como seus pais cumprimentaram Hitler: enquanto os outros presentes levantaram o brao para saud-lo,
declarando "Heil, mein Fhrer" Putzi simplesmente disse "HezT, enquanto Helene fez a saudao bvara tradicional: "Grwss Gott".
Somente Putzi, no crculo de Hitler, fazia questo de nunca cham-lo de "der Fhrer" e sempre que fazia a saudao "Heil Hitler", fazia-a com o brao curvo, em vez 
do gesto fantico do brao esticado. Quando uma forma de tratamento formal era necessria, sempre usava "Herr Reichskanzler".
Na volta para casa, Helene mencionou o aparente aborrecimento de Hitler com a maneira como o havia saudado. Putzi meramente
queixou-se, como tinha feito antes, que Hitler no tinha cumprido a promessa de dissolver o Partido Nazista depois de assumir o poder. Embora um incidente insignificante, 
era tpico da maneira como as
coisas se desenrolavam. Cada vez mais, a questo deixava de ser se Putzi romperia com Hitler, e sim quando.
Putzi alegou, depois da Segunda Guerra Mundial, que a ltima gota havia sido a descoberta de Hitler de que seu chefe de imprensa estrangeira estava organizando a 
visita de um membro do Parlamento britnico a um campo de concentrao. "A partir desse momento, ficou claro para mim que Hitler tinha conscincia da sua culpa", 
declarou ele. Mas, embora essa e outras manifestaes de independncia da parte de Putzi possam ter desempenhado um papel, h outra explicao, e bem mais intrigante, 
para a sua desavena com o partido. De fato, seu rompimento definitivo com o regime pode ser datado de outubro de 1934, quando, como sempre, juntou-se a Hitler e 
seus ajudantes para almoar no Reichskanzlei. Foi ento que a conversa voltou-se para Kurt Ldecke e as transmisses radiofnicas antinazistas a que ele dera incio 
nos Estados Unidos.
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     Ldecke j era membro do crculo de Hitler quando Putzi uniu-se ao movimento e, imediatamente, suspeitou dele. Nada aconteceu, na dcada Binterveniente, que
o fizesse mudar de idia. Ldecke tinha-se afastado de Hitler em 1925, mudando-se para os Estados Unidos, onde se casou com uma americana. No entanto, tinha permanecido
atrado pelo nazismo, e, quando seu apoio popular cresceu, tentou retornar ao crculo de Hitler, ajudado por seu chefe, Rosenberg. Alguns meses depois de Hitler
assumir o poder, Ldecke estava de volta a Berlim, pedindo para ser adido de imprensa na embaixada alem em Washington.
Putzi tinha observado a volta de Ldecke s boas graas com desprezo, no mnimo por causa da renovao da aliana com o odioso Rosenberg. Desse modo, Putzi comeou
a desconfiar dos dois e a colher material comprometedor. Rudolf Diels, o chefe da segurana, que era um amigo pessoal, icou extremamente feliz em ajudar. No foi
muito difcil: a primeira descoberta de Putzi foi que Rosenberg, um antissemita virulento, estava tendo um caso com a filha de um editor judeu. Tambm intrigante
foi a descoberta de que o relato de Ldecke sobre seu passado havia sido quase todo fictcio e que, na verdade, ele tinha atuado como chantagista e vigarista a
partir de 1911. Descobriu, particularmente, que Ldecke havia ganhado centenas de dlares chantagearftio um mdico alemo em Nova York,
ameaando denunci-lo por fazer um aborto. Putzi, convenientemente, passou
a evidncia para as autoridades competentes e, logo depois, Gring prendeu Ldecke e sua amante. Hanfstaengl redigiu
um artigo de fundo sobre o caso para o New Yorker Staatszeitung, o jornal de Nova York em lngua alem, com a seguinte manchete: "Ldecke preso acusado de impostura
e extorso".
Hitler tinha intervindo, entretanto, e ordenado a libertao de Ldecke, evidentemente achando que ele iria direto para Washington assumir o posto que tinha conquistado.
Mas Ldecke decidiu permanecer na Alemanha para limpar seu nome e comeou a preparar um libelo contra Putzi. Seu objetivo, disse ele ao Dr. Alfons Sack, um advogado
reputado, era lanar luz sobre uma "zona quente do nazismo". So poucas as dvidas de que, graas  sua longa associao com o partido, Ldecke sabia coisas sobre
Hitler e seus associados mais prximos de que no gostariam que se tornassem
224
pblicas. Por causa de sua grande experincia com chantagem, ele deve ter pensado que, fazendo isso, poderia obrigar Hitler a apoi-lo com mais fora. No entanto,
era um jogo arriscado, e Rosenberg tentou persuadi-lo a desistir. Ldecke recusou, e em 5 de julho de 1933, mais ou menos uma semana antes do processo ter incio,
foi declarada a sua priso preventiva
s que, dessa vez, por ordem de Hitler.
Dessa vez, no houve libertao antecipada. Ldecke foi inicialmente levado ao Presdio de Pltzensee e depois ao campo de concentrao de Brandemburgo. Durante
o intervalo at a Noite dos Longos Punhais, entretanto, ele escapou para a Sua e retornou aos Estados Unidos onde, no outono de 1934, comeou a fazer transmisses
denunciando Hitler e seu regime.
A antipatia de Putzi por Ldecke era to forte e to conhecida que, quando o tema dessas transmisses foi abordado no almoo no Reichskanzlei em outubro, nenhum
dos presentes surpreendeu-se com a sua reao.
- Foi nisso que deu, Herr Hitler - disse Putzi, que estava sentado a duas cadeiras dele. - Eu o alertei durante os ltimos dez anos contra ter pessoas desse tipo
 sua volta.
Em seguida, ps-se a descrever o contedo do dossi da polcia que ele havia reunido sobre Ldecke, acrescentando:
- O movimento por inteiro tem sido corrompido com a concesso de excessiva liberdade a essa gente. Agora veja o que ele est fazendo. O que mais esperava?
Hitler ficou furioso.
- A culpa  toda sua, Hanfstaengl - gritou ele. - Deveria ter lidado com ele de uma maneira mais diplomtica.
- Como espera que algum trate um homem como esse diplomaticamente? - retorquiu Putzi fora de si.
Foi, recordou-se Putzi, uma cena bastante desagradvel. Hitler tentou no desmoralizar-se e alegou que os registros policiais eram um caso de erro de identidade,
mas Putzi no estava disposto a recuar.
- Vou tornar a reuni-los e lhe mostrarei - insistiu. - Os fatos dizem respeito exclusivamente a ele, e todo mundo sabe disso.
O almoo foi interrompido em desordem.
225
Era tpico da obstinao de Putzi no parar por a, e sim ocupar-se reunindo o material comprometedor. Tambm continuou a comparecer aos almoos na chancelaria. 
Em um deles, uns dois dias depois, Hitler subitamente virou-se para ele e ordenou:
- Hanfstaengl, Spielen Sie das Ding von Ihnen [toque aquela coisa sua].
- Qual? - perguntou Putzi.
- A sua marcha fnebre - replicou ele.
Embora no fizesse muito tempo que a tocara, no comcio do partido em Nuremberg, Putzi achou aquilo estranho e teve um pressentimento. No obstante, obedeceu.
Trabalhava o seu dossi e convocava diversas pessoas aos tribunais da polcia. Rapidamente lhe forneceram o material, o que ele, devidamente, encaminhou a Hess, 
Gring e a mais uma dzia de pessoas no Reichsleitung (comando nacional alemo). Alguns dias depois, Putzi apresentou os arquivos, colocando-os na frente de Brckner.
- O caso est sendo investigado - disse Brckner, pigarreando e parecendo embaraado. - O Fhrer prefere que voc no venha aqui durante as duas prximas semanas, 
at que se chegue a uma concluso.
Putzi soube depois que seus arquivos haviam sido postos na mesa de Hitler e que, quando ele viu do que se tratava, empurrou-os, derrubando-os no cho em um acesso 
de raiva e gritou:
- No quero mais ouvir falar sobre isso!
Foi quando Putzi soube que Ldecke estava trabalhando em um livro. Vibrou com o que achava que seria a prova definitiva de que precisava sobre as ms intenes de 
seu rival. Antes que pudesse saber qualquer coisa a mais sobre o seu contedo, aconteceu outra guinada. Putzi tinha partido para curtas frias no Tengernsee e, quando
voltou, encontrou uma carta para Hitler de Ldecke-ou melhor, de um comit que se descrevia como amigos de Ldecke. Era a quarta cpia em papel-carbono, por isso
o texto estava meio apagado. A mensagem era clara, entretanto: nela, alegavam que Ldecke tinha ido aos Estados Unidos porque no tinha conseguido justia na Alemanha.
Diziam querer 50 mil dlares e que se no os tivessem em 15 de janeiro do ano seguinte, ele estava disposto a publicar material sobre Hitler.
Putzi foi imediatamente  chancelaria, brandindo a carta, mas decidiu discutir o assunto com os ajudantes de Hitler em vez de procur-lo pessoalmente. Estava excitado;
a vingana parecia garantida. "Esperei, ento que Hitler dissesse 'Cus, o que fiz? Isto  uma chantagem!'", disse depois. Mas, se Putzi achou que Hitler ficaria 
do seu lado, teve uma dura decepo.
Ele nunca entendeu por que Hitler era leal a um homem como Ldecke. "Fiz essa pergunta a mim mesmo inmeras vezes", disse ele. "No consigo deixar de pensar que 
provavelmente ele tivesse material para ser chantageado."
Putzi nunca mais se encontrou cara a cara com Hitler.

15
A KING'S BENCH DIVISION, em Londres, tinha visto seu quinho de libelos estranhos, mas a questo diante do Lord Presidente do Supremo Tribunal Herbert, em 29 de
novembro de 1935, era mais estranha do que a maioria. Nessa manh, aconteceu a primeira audincia de Ernst Hanfstaengl contra London Express Newspapers Ltd. Como
muitos casos semelhantes, parecia versar sobre um pequeno detalhe.
O processo teve sua origem num encontro, em agosto do ano anterior, de Putzi com William Ormonde Thompson, um proeminente advogado de Chicago com tendncias esquerdistas,
que fazia campanha contra o desrespeito aos direitos humanos na Alemanha. Thompson h muito tempo se interessava pela Alemanha. Considerava o seu povo o mais instrudo
da Europa e ficou surpreso, e um tanto desgostoso em relao  guinada na situao depois de janeiro de 1933. Sua ateno tinha sido despertada por um artigo no
New York Times em maio de 1934, descrevendo o estabelecimento do chamado Tribunal Popular para julgar casos de traio e atos contra o Estado, e outro, no ms seguinte,
relatando a decapitao dos assassinos de Horst Wessel. Para algum acostumado com as prticas do sistema legal norte-americano, era tudo muito estranho e alarmante.
Thompson tambm queria ver pessoalmente os campos de concentrao que estavam sendo construdos na Alemanha, pois vrios artigos haviam sido publicados falando da
grande crueldade ali praticada.
Portanto, em 1 de agosto de 1934, logo depois de Putzi retornar dos Estados Unidos, Thompson embarcou no navio a vapor Washington, com
228
destino  Frana. Depois de alguns dias em Paris, prosseguiu para Berlim e hospedou-se no Bristol Hotel. Thompson era bem relacionado, e
um primo deu-lhe uma carta de recomendao para o embaixador Dodd. Tambm procurou Junius B. Wood, um velho amigo que era o correspondente do Chicago Daily News
em Berlim. Wood conseguiu-lhe um encontro com o chefe do Tribunal Popular, que no foi nada esclarecedor. Tiveram apenas trinta minutos, e sem uma lngua comum nem 
um intrprete competente. O
nico consolo foi que Thompson teve permisso para olhar processos abertos somente a reprteres alemes. Viu trs comunistas sendo condenados. Continuou determinado
a visitar um campo de concentrao, e Wood sugeriu que procurasse Putzi. Depois de algumas idas infrutferas ao catico escritrio de Putzi na Wilhelmstrasse, finalmente
se encontraram em 25 de agosto. O encontro comeou cordial, mas Thompson logo levou a conversa para a sua esperana de poder visitar um campo de concentrao. Apesar
de toda a sua lealdade a Hitler, no h muitas dvidas de que Putzi partilhava da preocupao de seu visitante em relao ao que de fato estava acontecendo por trs 
dos muros
dos campos. Havia limites, entretanto, com o que podia concordar como representante do regime.
Falando como Thompson mais tarde descreveu "de uma maneira perfeitamente distinta", Putzi replicou que no dirigia "um escritrio de turismo aos campos de concentrao"
e alegou que qualquer visita desse tipo poderia interferir nos planos que estavam sendo finalizados de libertao de 15 mil prisioneiros.
A conversa ento voltou-se para as matrias divulgadas sobre o desrespeito aos direitos humanos e outras crueldades na Alemanha.
- Bem, vocs tm linchamentos, assassinatos com tiros e seqestros nos Estados Unidos - disse Putzi.
Esses atos, replicou Thompson, eram obra no do governo, mas de criminosos.
- Na Inglaterra, no h esse tipo de ocorrncia. -Acrescentou: -- Alm do que, os jornais ingleses so mais incisivos em sua condenao ao que est acontecendo nos
campos do que os norte-americanos.
A maneira cordial de Putzi foi substituda pela raiva.
229
-- Que se danem os professores de Oxford - exclamou Putzi, levantando-se. Ento, segundo o relato de Thompson, deu a volta na mesa e exclamou: -Vou mandar para
l alguns dos nossos porcos comunas que assim podero incendiar a Oxford deles.
E foi isso. Os dois falaram por mais alguns minutos, mas a entrevista tinha chegado ao fim. A coisa toda no durou meia hora. Putzi, agora calmo e novamente cordial,
acompanhou Thompson at a porta da sala.
Ficou claro para Thompson que ele no conseguiria permisso para visitar um campo de concentrao, portanto, trs dias depois, pegou um avio para Copenhague. No
entanto, antes de partir, escreveu um artigo curto descrevendo a entrevista com Putzi e suas outras experincias, e distribuiu-o a vrios jornais. Em 29 de agosto,
um dia depois de sua partida, o Chicago Daily News publicou uma matria escrita por Wood, intitulada "Advogado V a Liberdade Desaparecer da Alemanha". Vrias outras
publicaes adquiriram a matria, entre elas a revista Time, que divulgou a sua prpria verso em 10 de setembro.
A visita rotineira de Thompson teria assim permanecido, no fosse a viagem a Londres planejada por Putzi. Em 19 de setembro, o Daily Express estampou na sua primeira
pgina um breve artigo, de apenas alguns pargrafos, com a manchete: "O 'Putzy' [sic] de Hitler est aqui", ilustrada com
uma fotografia. O artigo mencionava como Hanfstaengl, "amigo ntimo" de Hitler e chefe do departamento da imprensa estrangeira nazista, graduado em Harvard, estava
em Londres, no Claridge's. Em seguida, a parte problemtica.
"Recentemente, William Ormonde Thompson, antigo scio do grande advogado norte-americano Clarence Darrow, foi apresentado ao Tribunal Popular Nazista pelo Dr. Hanfstaengl",
dizia. "Segundo o relato na Time de 10 de setembro, quando o persistente advogado Thompson comeou a citar as opinies dos juristas britnicos sobre o tema justia 
nazista, o homem de Harvard, Hanfstaengl,
acossado, ficou extremamente excitado e acabou sendo incoerente. Vociferou: 'Malditos professores de Oxford! Vou mandar para l alguns de nossos porcos comunas que
assim podero incendiar a Oxford deles!'"
O Daily Express talvez s tenha repetido o que j havia sido publicado nos Estados Unidos. O que, como todo jornalista britnico sabe, no
 nenhuma defesa quando
se est sujeito  lei britnica contra difamao que h muito tempo  uma das mais severas do mundo. Putzi decidiu mover uma ao judicial-embora a causa toda se
fundamentasse em apenas uma frase e um relato de um encontro em que somente ele e Thompson estavam presentes.
Putzi foi para Londres em 26 de novembro de 1935, hospedando-se no Carlton Hotel, em Whitehall. Agnethe von Hausberger, sua secretria, que tambm seria testemunha
no julgamento, reuniu-se a ele no dia seguinte. Putzi estava de bom humor e "confiante [sic] de que Lord B[Beaverbrook, dono do Express], que  um blefador, vai
voltar atrs."
No julgamento, quatro dias depois, Putzi foi representado pelo oficial de justia Alexander Sullivan, famoso por ter defendido Sir Roger Casement, o funcionrio
pblico britnico, com muitos anos de servio, enforcado em 1916 por tentar recrutar ajuda alem para a amaldioada "Easter Rising"* da Irlanda contra o governo
britnico. A causa do Express foi defendida por Sir Patrick Hastings, um dos advogados mais caros do Imprio britnico.
A posio de Putzi era clara. Apesar de no negar o ponto principal de sua conversa com Thompson, manteve que suas palavras haviam sido ligeira -mas crucialmente-diferentes.
Tendo primeiro destacado quantas pessoas haviam sido enviadas aos campos de concentrao por atacar edifcios pblicos, alegou ter dito algo do gnero: "O que diriam
os professores de Oxford se alguns de nossos comunistas incendiassem a sua Oxford?" Era uma distino importante, pois a sua verso no continha nenhuma sugesto
de ameaa. O Daily Express, no obstante, negou que seu artigo fosse difamatrio e alegou neutralidade com a exposio imparcial de uma questo de interesse pblico.
Sullivan fez uma apresentao de Putzi que causou impresso. Seu cliente ocupava uma alta posio do funcionalismo pblico alemo, disse ele 
*Revolta na Pscoa de 1916, quando adversrios armados do domnio britnico na Irlanda assumiram o controle dos Correios, em Dublin, e declararam a Irlanda uma repblica
independente. Foram logo derrotados pelo exrcito ingls, e seus lderes, executados. (N. da T.)
231
corte, e era membro de uma importante famlia de Munique, que tradicionalmente se relacionava com o mundo da arte e que era pioneira na arte da fotolitografia. Tinham
tambm um vnculo, embora tnue, com a famlia real britnica. Putzi era afilhado do duque Ernst de Saxnia-Coburgo Gotha, cunhado da rainha Vitria. i
Putzi estava no seu auge de teatralidade quando deps. Com uma "expresso dorida", negou ter feito os comentrios a ele atribudos. "Havia uma mgoa infinita na
voz do Dr. Hanfstaengl ao depor hoje", comentou The New York Times. "Havia uma profunda tristeza na maneira como sugeriu que nunca perdeu o controle ou fez algo
to Vulgar' quanto chamar os comunistas de porcos." Disse ao tribunal que a declarao a ele atribuda s poderia ter sido feita "por um homem de temperamento violento
e vulgar". "O que mais me magoou foi a idia de que eu seria capaz de incendiar a sede de erudio mais eminente do mundo anglo-saxo", prosseguiu ele. " o mesmo
que dizer que eu incendiaria a casa de Goethe ou de Schiller."
Thompson, que concordou, embora com relutncia, em atravessar o Atlntico para depor, manteve sua opinio. Logo antes de o caso ser adiado por causa do fim de semana,
deps, sob juramento, declarando que Putzi de fato lhe dissera: "Malditos professores de Oxford! Vou mandar para l alguns porcos comunas, que assim podero incendiar
a Oxford deles."
O Daily Express logo percebeu que havia pouca chance de vitria, e, quando o processo foi retomado na segunda-feira, o jornal cedeu e aceitou fazer um acordo. Um
Putzi triunfante retornou ao Carlton Hotel e passou, por telefone, uma declarao  DNB, a agncia de notcias alem. Tambm comeou a reunir fotos daqueles envolvidos
no julgamento para preparar uma brochura sobre o caso.
No mesmo dia, o primeiro jurado, o coronel David Linch, enviou de sua casa, na prestigiada Portman Square, em Londres, um bilhete manuscrito a Putzi. "Lamento no
t-lo visto depois do caso encerrado, j que gostaria muito de t-lo parabenizado por sua vitria", escreveu ele, mencionando "o delicioso feriado" que acabara de
passar na Baviera." Se permanecer em Londres, seria um imenso prazer poder visit-lo. Talvez lhe interesse saber a opinio do jri sobre a questo." Lynch no era
o nico, na sociedade britnica, simptico a Putzi - e consequentemente  causa nazista
232
W. Perkins, um dos procuradores na Essex House, na Essex Street em Londres, que tratou das questes legais de Putzi, escreveu-lhe no ms seguinte mencionando "minha
solidariedade com o seu grande movimento".
Apesar de Putzi no conseguir nenhuma indenizao, suas despesas foram pagas como parte do acordo. Ele estava determinado a conseguir o mximo que pudesse, e a conta
que finalmente mandou para Brown em 23 de janeiro de 1936, depois de vrias sugestes, somava 3.300 reichmarks, mais 115 libras para cobrir despesas incidentais 
durante os seus dez dias em Londres.
No fim, teve de se satisfazer com apenas o total de 203, inclusive com simples 20 libras para as suas despesas no Carlton Hotel.
Cada vez mais apartado de Hitler e seu squito, Hanfstaengl sentiu-se agora isolado do homem a quem tinha servido com tamanha lealdade. No obstante, continuou a
agir como um apologista do regime, como ficou demonstrado por sua presena no comcio de Nuremberg em 1935. Em um discurso para a imprensa estrangeira, foi efusivo
em seus elogios a Hitler e ao procedimento dramtico que assumira - ainda que, pessoalmente, no tivesse mais acesso a ele.
"Quem no compreende a Alemanha de hoje-ou no quer entend-la
- tambm no ser capaz de entender os eventos futuros na Europa e no mundo todo", declarou Putzi. Em um gesto que deve ter acentuado a credulidade da audincia,
tentou colocar os nazistas em um contexto poltico e filosfico mais amplo, remontando a origem de suas idias a Edmund Burke, o pensador ingls conservador do sculo
XVIII; Thomas Carlyle, ensasta escocs do sculo XIX; e norte-americanos como Madison Grant, Henry Fairfield Osborn e Lothrop Stoddard. Tambm no poupou escrnio
ao mencionar os comentaristas que haviam declarado, quando Hitler assumiu o poder dois anos antes, que ele inevitavelmente significava guerra. "Tais profecias no
se realizaram e no se realizaro", disse ele  audincia. "A Alemanha, ao contrrio, comea a desempenhar o papel principal na grande luta da ordem contra o caos."
233
Apesar de seus elogios efusivos aos nazistas, o partido continuou a decepcion-lo, muito mais em sua segunda aventura no cinema. Goebbels, cOm efeito, sabotou a
sua primeira realizao, sobre Horst Wessel. Sua segunda tentativa foi ainda mais desastrosa. Intitulava-se Volk ohne Raum & [pessoas sem espao] e baseava-se no
romance policial de Hans Grimm, de 1926, apoiando a expanso colonial alem na frica. O filme foi quase todo criado por Putzi. Escreveu o roteiro, comps a msica 
e conseguiu o financiamento atravs
de um emprstimo considervel do Bank der Deutschen Arbeit, a instituio de poupana associada  Frente Trabalhista Alem. Mas em agosto de 1936, mesmo antes de
o filme ser concludo, Goebbels proibiu-o. As razes da proibio nunca foram explicadas, mas Putzi considerou-a mais uma tentativa de seu rival de destru-lo. Foi
tambm um enorme golpe financeiro. Sem nenhuma chance de o filme render qualquer dinheiro, tinha de encontrar uma maneira de pagar o emprstimo. A falta de pagamento
poria ainda mais a sua posio em perigo e o tornaria alvo de acusaes de ter-se apropriado indevidamente do dinheiro dos trabalhadores alemes, ganho com suor.
No fim, a nica sada foi a hipoteca de sua parte na firma da famlia.
Em dezembro, quando Putzi se candidatou a duas condecoraes do Partido Nazista, a Blutorden [Ordem do Sangue], concedida queles que tinham participado no golpe
de 123 na cervejaria, e a Ehrenzeichen [Distintivo de Honra], concedida aos primeiros membros do partido, recusaram-lhe ambas. O tesoureiro do partido disse-lhe
que Hitler ordenara uma suspenso na distribuio das Blutorden, e que ele no estava qualificado para uma Ehrenzeichen, porque s tinha se inscrito formalmente
no partido em 1931.
O afastamento de Putzi do regime agora tornava-se pblico. O embaixador Dodd anotou em seu dirio, em novembro de 1936, como Hitler passara a antipatizar com Putzi
e recusava-se a v-lo. No entanto, em vez de sujeitar-se ao regulamento do partido, continuou a arriscar-se. Em particular, anotou Dodd, ele tinha ido a Paris alguns
dias antes, onde dera uma entrevista sobre a reeleio de Roosevelt, que quase com certeza o deixaria em apuros. "Ele simplesmente manifestou a sua admirao ao
pas em que gostaria de viver, se pudesse levar alguma de suas propriedades", escreveu
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235
Dodd. "Eu me pergunto o que ser dito ou feito aqui quando ele retornar Ele  considerado muito inteligente. Mas eu no sei se  ou no ." Quando, um dia, o escritor
Edgar von Schmidt-Pauli visitou Putzi em seu escritrio, achou-o um homem mudado, inseguro e falando "como algum que seria, ele tambm, encarcerado no dia seguinte".
A imprensa estrangeira tambm declarou como fato a marginalizao de Putzi. Joe Williams, escrevendo no New York World-Telegram, em outubro, sob a manchete "Remember 
Hanfstaengl", escarneceu da queda de um homem que tinha sido "grande camarada de Hitler". "De qualquer maneira, o velho Putzy [sic] hoje no passa de mais um boche 
na Alemanha. Ou perdeu sua habilidade no piano ou der Fhrer mudou para bazuca. Putzy, que se gabava de seu poder e posio na cena nazista, sequer recebeu uma entrada 
para os jogos [olmpicos em Berlim]. Acabou tendo de acompanhlos por um redator de esportes norte-americano."
A vida pessoal de Putzi tambm ia mal. Fazia mais de dezesseis anos que ele e Helene tinham-se conhecido e casado com uma pressa indecente. As primeiras tenses 
apareceram logo aps a sua chegada  Alemanha. Helene ficou chocada com o que encontrou l e com a natureza primitiva de sua primeira casa. A vida melhorou com a 
mudana para a Pienzenauerstrasse, mas outros problemas permaneceram. No ajudou a relao '* em nada a vinda da me de Helene para a sua casa. A longa enfermidade 
e morte de sua filha, Hertha, aumentou a tenso. No entanto, continuaram juntos, mas Putzi era um marido difcil. Excntrico e idiossincrtico, tambm era egosta 
em extremo. Era infiel com freqncia, e a sua vida sexual com Helene bastante insatisfatria. Depois de Hitler subir ao poder, Putzi passava quase o tempo todo 
em Berlim, enquanto sua mulher era deixada em Munique com Egon. A separao gradativa do casal chegou ao pice na primavera de 1936. Helene simplesmente ficou farta.
Putzi, de incio, recusou-se a aceitar o divrcio e mostrou-se igualmente relutante em pagar uma penso. No fim, entretanto, acabou concordando com os dois. Os termos 
do divrcio foram acertados e assinados em 12 de maio. Putzi daria a Helene um nico pagamento de trs mil reichtnarks, seguido de 300 reichtnarks por ms, isentos 
de impostos, pelo resto da sua vida - ou at ela casar-se de novo. Helene no se mudou imediatamente
e permaneceu na casa at 18 de agosto. "Prefiro deix-lo agora, enquanto est bem, em vez de depois, quando as coisas derem errado", disse ela. Presume-se que ela
se referia  proibio de Volk ohne Raum, o que aconteceu
no mesmo dia.
Segundo Egon, entretanto, no foram as muitas infidelidades de Putzi, e sim a sua falta de considerao por sua mulher, fora do quarto, que acabou destruindo a relao.
"Meus pais se divorciaram no tanto por causa dos muitos casos de meu pai, mas porque ele era muito desatencioso", lembrou-se ele mais de meio sculo depois. "Dizia:
'Devo chegar em casa para almoar s 13h30' e chegava s 14h30 com dois convidados inesperados. E isso,  claro, aumentava terrivelmente a carga de minha me na
cozinha. Culminou um dia em que no apareceu para o almoo e, dois dias depois, telefonou para ela de Paris. Isso minha me no tolerou."
Logo aps o divrcio, Helene Niemeyer comeou um caso com Hans Trausil, poeta que ela tinha conhecido atravs de seu marido. Ele parecia oferecer todas as qualidades
que faltavam em Putzi. O caso prometia ser o grande amor de sua vida e mudaram-se juntos para uma casa em Armberg, no lago Starnberg, que ela comprou com o dinheiro
do divrcio. Como Helene revelou com franqueza a Egon vrios anos depois, a atrao parecia, em grande parte, ter sido fsica. "Minha me experimentou o primeiro
orgasmo com Trausil", disse Egon. "Meu pai tinha sido um amante do tipo de 'rapidinhas'", disse ele. Egon acreditava que a relao tinha-se iniciado somente depois
da separao. No entanto, talvez no tenha sido esse o caso. O dirio de Putzi, em 1936, contm vrias referncias a um "Herr T" - quase certamente Trausil - que
ele culpava pelos problemas com sua mulher.
Logo depois que Helene se mudou, sua amiga Emmy Streck encontrou-se com Hitler em uma recepo em Berlim. Ele logo perguntou por Helene. Quando ela lhe contou sobre
o divrcio, ele, de sbito, deixou escapar: "Bem, tenho de lhe enviar um telegrama agora mesmo desejando-lhe felicidades!" Sem pensar duas vezes, acrescentou rapidamente:
"No, afinal no seria conveniente." Hitler concluiu com a observao: "Frau Hanfstaengl  uma das raras damas de verdade na Alemanha."
236
Mais tarde, ainda nesse vero, Putzi levou Egon a um passeio no lago Starnberg. No alto das colinas, situava-se a aldeia de Aufkirchen, o domo negro em forma de
cebola de sua igreja cintilava ao sol. Estava tudo quieto; o silncio s foi perturbado pelo som distante dos risos de garotos e garotas banhando-se perto da margem.
Putzi, de repente, virou-se para o filho.
- Aqui  bonito e tranqilo, e estamos a ss-disse ele.-Filho, preste ateno ao que vou dizer e no se esquea de uma palavra sequer. As coisas no vo bem. Todos
ns acreditamos no movimento, no acreditamos? Eu ainda estou me esforando para acreditar nele. Mas descobri muita corrupo srdida aqui e ali. H muitos indivduos
desprezveis, criminosos e pervertidos, a quem Herr Hitler escuta. No ritmo que estamos indo, teremos a guerra - uma guerra em que a Inglaterra e os Estados Unidos
estaro contra ns. Isso  perigoso para a Alemanha e para o mundo. O pas est podre por dentro. Atribuo a situao principalmente aos salafrrios que esto firmemente
entrincheirados atrs de cargos oficiais em Berlim e outros lugares. Tentei, s Deus sabe como, chegar a Hitler e alert-lo.
Sempre otimista, Putzi continuava a insistir em que as coisas poderiam melhorar. Mas havia o perigo de os nazistas o perseguirem e o obrigarem a fugir. Esperava
que Egon decidisse acompanh-lo ao exlio, mas, se assim fosse, o garoto no deveria contar a ningum - nem a seu melhor amigo, nem  sua namorada e nem mesmo 
sua me, que agora estava vivendo na Baviera, sozinha, mas, sendo cidad americana, no corria perigo. Tampouco ele deveria tentar alguma "fuga ao estilo de Hollywood",
descendo de esquis o flanco oposto de uma montanha para a ustria. Seria muito melhor simplesmente pegar um trem. Combinaram usar a senha "Perhaps" - nome de seu
pequeno veleiro. Se Egon recebesse uma mensagem mandando que pintasse ou consertasse Perhaps-, seria o sinal para que ele providenciasse sua partida de imediato.
Egon se recordaria dessa conversa por muitos anos depois. Ela abriu seus olhos a muitas questes e o preparou para a crise que estava por acontecer. No entanto,
nem ele nem seu pai estavam prontos para o quo cedo essa crise aconteceria, nem para a estranha forma que assumiria.

PARTE 4
   ATRS DAS LINHAS INIMIGAS

16
COMO TANTAS VEZES ANTES, comeou com uma ligao e uma convocao de Hitler. O quinquagsimo aniversrio de Putzi, em 11 de fevereiro de 1937, aproximava-se, e ele
estava na biblioteca de sua casa em Munique trabalhando um discurso para o aniversrio de 250 anos de George Washington. A festa, que Putzi organizava todo ano para
assinalar o aniversrio de Washington, tinha-se tornado permanente no calendrio social de Berlim
- quase todos que eram algum na comunidade norte-americana expatriada compareciam, alm de alguns alemes cuidadosamente selecionados.
Fritz Wiedemann, um dos ajudantes de Hitler, estava na linha.
- Est sendo requisitado com urgncia em Berlim - disse ele. - O capito Baur foi instrudo a traze-lo em um vo especial, do aeroporto de Munique.
H algum tempo que Putzi tentava resolver sua disputa com Hitler em relao a Ldecke e ficou sem saber se essa convocao era um bom ou um mau sinal. Mas ordens
eram ordens, e ele no tinha outra alternativa a no ser cumpri-la.
O avio especial prometido no apareceu; a Alemanha nazista nem sempre era to eficiente quanto se acreditava. Portanto, na manh seguinte, Putzi embarcou em um
vo regular da Lufthansa e chegou ao seu escritrio em Berlim ao meio-dia. Encontrou um bilhete de Wiedemann pedindo-lhe que se apresentasse ao Reichskanzlei s
16 horas. Wiedemann tinha comandado a companhia em que Putzi servira como mensageiro durante a Primeira Guerra Mundial. Putzi achava-o agradvel, embora um tanto
241
tacanho. Os dois, entretanto, se davam bem. Ao se encontrarem, Wiedemann foi direto ao ponto: Hitler queria que ele voasse para a Espanha imediatamente para ajudar 
jornalistas alemes que haviam viajado ao local para cobrir a guerra civil. Putzi ficou indignado.
- Algo to importante repentinamente-disse ele com sarcasmo
Vocs so muito gentis. Amanh completo 50 anos e vocs me mandam para a Espanha justo no dia do meu aniversrio.
Wiedemann no titubeou.
- Por que no se sujeita a essas medidas, Hanfstaengl? - props de maneira cordial. - Muitos de ns sentem a sua falta aqui. Se for bemsucedido nessa misso, o Fhrer, 
sem dvida, vai quer-lo de volta aqui. Sua influncia seria muito valiosa.
Wiedemann no pde revelar nada mais sobre a misso, exceto que era confidencial. Depois de avisar Putzi a no mencionar nem uma palavra disso a seu secretrio, 
disse-lhe que fosse ao Ministrio da Propaganda, onde seria informado dos detalhes tcnicos pelo Ministerialrat Berndt, um dos conselheiros de Goebbels, que chefiava 
o departamento de imprensa. Putzi ficou perplexo ao chegar ao Ministrio e ver como as pessoas foram agradveis com ele, at mesmo a
datilgrafa.
Berndt acrescentou muito pouco ao que Wiedemann tinha-lhe dito: os nazistas estavam preocupados com que os correspondentes alemes na Espanha no conseguissem to
bom acesso ao front quanto os norteamericanos j desfrutavam. O problema, ao que parecia, era um certo capito Bolin. A misso de Putzi seria mudar essa atitude 
em relao aos alemes. Ele voaria para Salamanca e ficaria no Grand Hotel, que havia sido tomado pelos nazistas como quartel-general de uma falsa organizao comercial 
chamada HISMA,  qual Putzi seria anexado.
Para inquietao de Putzi, Berndt ps-se a falar dos perigos da Espanha e da possibilidade de ser morto com um tiro. Tambm pediu que Putzi lhe desse dois retratos 
assim que possvel, para que mandasse fazer um passaporte falso. Tudo comeava a parecer muito estranho.
- Quanto tempo ficarei fora?
- Cinco ou seis semanas - foi a resposta.
Putzi ficou atnito. Sabia que cinco ou seis semanas podiam facilmente transformar-se em trs ou quatro meses. J se resignara com o fato de no celebrar o seu quinquagsimo
aniversrio. Ficar fora todo esse tempo sem terem lhe permitido pr seus negcios em ordem estava completamente fora de questo. No mnimo, precisava pegar algumas
roupas convenientes para a viagem. Wiedemann, no entanto, foi inflexvel.
- Tivemos muitas dificuldades para conseguir esse vo - disse ele.
- Ter de estar aqui amanh, s 16 horas, pronto para partir. Ser pego s
15 horas por um carro que o levar ao aeroporto. A essa hora, j terei providenciado seus papis e preenchido todas as formalidades.
De modo que Putzi ligou para a sua governanta, pediu-lhe que enviasse algumas coisas de Munique, e ps-se a arrumar as malas rapidamente. Nessa noite, encontrou-se
por acaso com Karl Heinrich Bodenschatz em uma festa na embaixada finlandesa. Um s da aviao, na Primeira Guerra Mundial, que havia servido com o lendrio baro
Von Richthofen, Bodenschatz tinha-se tornado ajudante de Gring em 1933. Saudou Putzi afetuosamente. J sabia sobre a misso e disse como era uma grande oportunidade
para Putzi restaurar suas relaes com Hitler. Bodenschatz pediu-lhe que fosse ver Gring na manh seguinte antes de partir.
Putzi achou Gring em grande forma. Apesar de sua relao ter-se esfriado nos ltimos anos, tudo pafeceu esquecido quando se cumprimentaram.
- O que esto fazendo com voc? - perguntou Gring.
- No sabe? - retorquiu Putzi.
- Esto enviando-o para a Espanha.
- Sim, amanh completo 50 anos e minha me idosa tinha-me convidado, e a meu filho, e tive de cancelar tudo.
- No podemos ajud-lo, tem de ir - replicou Gring. Para surpresa de Putzi, Gring tambm pediu-lhe que ficasse alerta a algumas outras coisas. - Se ouvir algo
sobre minrios, entende?
Isso s aumentou a desconfiana de Putzi, no mnimo porque no conhecia a Espanha nem falava a sua lngua.
-  engraado, voc me incumbe da misso de procurar mercrio e cobre e coisas de que precisamos aqui na Alemanha, e ao mesmo tempo
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devo cuidar dos correspondentes alemes em todo ofront, de Gibraltar at onde nem sei. So duas misses. Prefiro a sua.
Gring foi insistente.
- No, Goebbels e o Fhrer querem que faa,  melhor cumprir a misso de Goebbels - disse ele. - E paralelamente, faa a outra por mim, fique atento ao que ouvir
e qualquer descoberta, entende?, informe a mim diretamente.
Gring ento fez algumas piadas desajeitadas sobre ficar longe das espanholas se no quisesse pegar doenas venreas, e o encontro foi encerrado.
Nada do que Gring dissera a Putzi tinha aliviado a sua apreenso. Se a misso era to importante quanto todos queriam fazer crer, o Fhrer no teria querido v-lo?
Mas talvez tambm isso pudesse ser explicado. A coisa toda, tentou se convencer, devia ser uma tentativa desajeitada de reconciliao. "Era o meu aniversrio de
50 anos, e sabendo que Hitler estava, de certa forma, estremecido comigo, e que a sua situao era delicada, cercado como estava por todos os meus inimigos, achei
que provavelmente se tratava de uma tcnica para fazer com que eu voltasse s boas graas - me enviaria  Espanha e me chamaria de volta dois meses depois e diria:
'No disse que Hanfstaengl era um homem excelente?'"
De qualquer maneira, no teve muita escolha. Antes de partir, telefonou a Agnethe von Hausberger, sua secretria em Berlim, dizendo que suas ordens tinham mudado
de repente e que passaria o seu aniversrio com a famlia na Baviera.
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Na manh de 11 de fevereiro, o general de diviso Karl von Schoenebeck, comandante das Test Stations em Rechlin-Mritzsee, recebeu uma ligao de Bodenschatz. Ordenaram
que preparasse um JU 52, equipado para vo noturno, para uma "misso especial". Um piloto chamado Frdel ficou encarregado do avio.
Nessa tarde, chegou um carro ao apartamento de Putzi para lev-lo ao aeroporto. Havia mais duas pessoas no carro: um homem do Ministrio da Propaganda, que parecia
se chamar Neumann, e um jovem meio desmazelado, com um casaco de chamais e uma cmera em volta do pescoo, que se apresentou como Jaworsky. Para desgosto de Putzi, 
os dois passaram quase todo o trajeto
falando dos horrores da Guerra Civil Espanhola com os detalhes mais sombrios. O carro no se dirigiu ao sul, na direo do Aeroporto Tempelhof, mas sim a oeste,
em direo ao aeroporto militar em Staaken. Na Adolf-Hitler-Platz, pegaram Berndt, que deu a Putzi seu passaporte falso. Estava no nome de Ernst Lehmann, cuja profisso
seria pintor e decorador. Bodenschatz esperava quando chegaram a Staaken. O coronel Kastner, comandante do campo de aviao, tambm estava com eles. Surpreendentemente,
Kastner mostrou um paraquedas e disse a Putzi para vesti-lo. Enquanto se atrapalhava com as tiras e correias, Putzi chateou-se ao ver Jaworsky filmando-o. Era tudo
muito desagradvel.
Quando subiu a bordo do avio, ficou ainda mais alarmado. Os assentos eram de metal e cerca de sessenta a setenta granadas de mo estavam espalhadas pelo cho. A
idia de passar vrias horas a bordo no foi recebida com muita alegria. Jaworsky, finalmente, subiu a bordo tambm, acompanhado de um homem. Putzi no foi apresentado,
mas descreveu-o em suas anotaes como "exatamente o tipo Gestapo". No fim, a porta foi fechada e o avio decolou. Ao sobrevoar Berlim, foi aoitado por ventos fortes.
Estavam no ar havia apenas dez minutos quando Jaworsky foi ao banco de Putzi e disse-lhe que
piloto queria falar com ele. Portanto, Putzi moveu-se  frente, curvado
porque o teto era baixo, e sentou-se do lado de Frdel. O piloto encarou-o.
-  o Dr. Hanfstaengl? - perguntou.
-  claro - replicou Putzi. - Quem mais eu seria?
- S o conheo como Ernst Lehmann, mas o reconheci pelas fotos nos jornais. Quais so as suas instrues?
Putzi disse que tudo o que sabia era que estava voando para Salamanca.
Frdel mostrou-se surpreso.
- No est indo para Salamanca - disse ele. - Recebi ordens de transport-lo s linhas vermelhas, entre Barcelona e Madri, onde se lanar de paraquedas.
- Do que est falando? - perguntou Putzi. Estive com Gring. Quem
ordenou isso?
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- Bodenschatz - respondeu ele. - Estava no plano, quando o abri. Por que est to agitado com isso? No  um agente?
- Eu, agente? - disse Putzi.
- Sim, me disseram que era um agente. Voc pediu essa misso, no pediu?
- Bem, eu no a pedi.
- Fala espanhol, no?
- No - replicou Putzi.
De sbito, Putzi comeou a se dar conta de como tinha sido tolo. Essa era uma pena de morte, no havia dvida, embora houvesse maneiras muito mais simples de cumpri-la.
Que outra maneira de eliminar um dos mais antigos - porm mais ineptos - associados do Fhrer do que com uma morte herica em uma misso secreta? Putzi j visualizava
as manchetes no Beobachter, comunicando seu falecimento. Disposto a salvar a pele a qualquer custo, tentou persuadir o piloto de que havia algum engano. Por que
no aterrissar em algum lugar e ligar para Berlim para esclarecer tudo? Frdel recusou-se. Tinha recebido ordens e pretendia cumpri-las. Alguns momentos depois,
o tipo Gestapo voltou e Frdel pediu a Putzi que retornasse a seu assento de metal desconfortvel.
Mais ou menos 15 minutos depois, Putzi ainda estava refletindo sobre o seu destino quando um dos motores comeou a fazer um rudo estranho.
- H algo errado. Vamos ter de aterrissar e verificar o que  - gritou o piloto, lanando a Putzi o que ele considerou um olhar significativo. Aterrissaram em Klein-Polenz,
um campo de aviao pequeno embrenhado em uma floresta de pinheiros entre Leipizig e Dresden, no sudeste da Alemanha.
O campo estava deserto. Todos os mecnicos tinham ido para casa, onde passariam a noite. De modo que o grupo todo foi ao bar e Putzi pediu uma rodada de vermute.
Frdel juntou-se a eles alguns minutos depois. O avio s poderia ser consertado na manh seguinte, disse ele. Ficou decidido que passariam a noite em Leipzig. Um
carro chegaria em vinte minutos para peg-los.
Simulando enjo, Putzi conseguiu escapulir e ligar para a diligente Von Hausberger, que estava aguardando instrues em seu escritrio. Ela ficou pasma com o que
ele lhe contou. Disse que vrios jornalistas estrangeiros
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j tinham ligado perguntando como ele planejava passar seu quinquagsimo aniversrio, mas ela os deixara na expectativa.
- Se algum perguntar por mim, diga que liguei e que passarei meu aniversrio na casa de minha me em Uffing - disse ele.
Putzi sabia que no podia perder essa chance. Depois de oferecer mais uma rodada de vermute ao grupo, escapou de novo e dirigiu-se a uma vereda no campo. Uma camponesa 
com uma carroa disse-lhe que havia uma estao ferroviria a um quilmetro e meio mais ou menos, de onde um trem logo partiria para Leipzig. Putzi conseguiu embarcar. 
Ao atravessar uma passagem de nvel, alguns minutos depois, entreviu Frdel no porto. Ele tambm viu Putzi.
- Ns o procuramos por toda parte - gritou o piloto.-V para o
Hotel Hauffe.
Ele ficou para trs. O trem ganhou velocidade e dirigiu-se rapidamente a Leipzig.
Em seu compartimento, Putzi refletiu sobre o que fazer em seguida. Pensou em ir a Berlim exigir uma explicao para esse tratamento bizarro e autoritrio, mas foi 
cauteloso.  claro que tudo no passava de uma piada, pensou. Mas como Hitler e os outros reagiriam se ele desvendasse o blefe? E se isso era o que chamavam de uma 
piada, o que fariam se estivessem agindo srio? Se no se preocuparam com nada ao matar centenas de pessoas durante a Noite dos Longos Punhais, poderiam facilmente
elimin-lo. No, a nica coisa a fazer era deixar o pas e tentar esclarecer tudo na segurana da Sua neutra.
Qualquer um que observasse Putzi quando o trem chegou  estao principal em Leipzig poderia ser desculpado por achar que esbarrara no set de um filme policial. 
Ele deixou que os outros passageiros desembarcassem na sua frente, depois subiu em outro trem que aguardava na plataforma seguinte e saiu pelo outro lado.
Putzi descobriu que havia um trem noturno partindo para Munique dentro de duas horas. Havia ainda a questo de sua bagagem, que ele deixara para trs. Suspeitou 
que tivesse sido levada para o Hotel Hauffe, junto com as outras coisas e pegou um txi para l. Mandou o chofer parar fora de vista e esper-lo. Olhando, furtivamente,
pela porta giratria, viu suas malas
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do lado da mesa da recepo. Felizmente, no havia sinal dos outros membros de seu grupo, e, apesar do risco de ser localizado, penetrou no saguo esforando-se
por demonstrar um ar de indiferena.
O porteiro, entretanto, reconheceu-o e o saudou com um animado "Heil Hitler, Herr Doktor." O resto do grupo o estava esperando, e todos tinham ido ao Auerbach Keller,
disse ele a Putzi, e se ofereceu para carregar suas malas at o quarto. Putzi disse que tinha encontrado um amigo no Astoria e que decidira ficar l, e pediu que
carregasse as malas para o txi. Antes de partir, deixou um bilhete para Frdel, dizendo que tinha recebido novas instrues do Reichskanzlei e o veria pela manh.
E assim apressou-se para a estao de Leipzig com suas malas e pegou o trem noturno para Munique. Estava nervoso demais para dormir, passou quase a viagem toda olhando
pela janela, pronto para se jogar se visse qualquer coisa desfavorvel. O trem parou na estao principal de Munique ao amanhecer de seu quinquagsimo aniversrio.
Faltava apenas uma hora para a conexo para Zurique. Putzi apressou-se a ir para o Regina Hotel, que ficava prximo, e ligou para a sua irm, Erna, que morava em
Solln, nos arredores de Munique. Insistiu em que ela viesse o mais rpido possvel, pois tinha algo urgente a lhe dizer. Esperou at o ltimo momento, mas ela no
apareceu e, com relutncia, embarcou no trem sem se encontrarem. Trs horas depois, cruzou a fronteira de Lindau. Depois de atravessar uma estreita pennsula na
ustria, tinha alcanado a Sua e a liberdade.  difcil explicar como Putzi conseguiu escapar com essa aparente facilidade. Como Egon depois observou, somente
um nmero pequeno de pessoas, ao que parece, participou da conspirao contra o seu pai. No que parece ter sido um golpe de sorte, os trs responsveis, Hitler,
Goebbels e Gring, passaram essa noite escutando a Filarmnica de Berlim, em que Wilhelm Furtwaengler foi o regente. Imediatamente aps o concerto, Hitler embarcou
em um trem para Munique, enquanto Gring partiu para caar na Polnia. A Gestapo, evidentemente, achou que Putzi ainda estava em alguma parte da Baviera e no se
preocupou em investigar seu escritrio em Berlim ou sua casa em Munique. Tampouco incomodaram nenhum de seus amigos com perguntas ou fizeram a menor tentativa de
contatar seu filho.
Esperavam que meu pai acabaria ficando inquieto e sairia do seu escoderijo", pensou Egon. "Ento, o pegariam e tudo o mais sem chamar
mais a ateno. Se essa eliminao tivesse sado como planejada, meu pai com certeza, teria recebido a extrema honra de um funeral do Estado,
com toda a pompa - e Hitler teria passado a mo na minha cabea de noVO e me dito que meu pai tinha morrido cumprindo seu dever com a
ptria e que eu deveria seguir o exemplo."
Os jornais nazistas assinalaram o aniversrio de Putzi com elogios excessivos. Putzi, disse o Beobachter, era membro de uma das famlias bvaras mais antigas, remontando
a 1350, e desde 1931 havia sido o "companheiro permanente" de Hitler. Mencionava os livros que tinha escrito e destacava a sua fama como um compositor de marchas
muito queridas, como Deutscher Fhn, Jugend Marschiert e Deutschland Trauert. Sua ltima obra, declarava, era o monumental Volkschoral Hymne an das Deutsche Erbe.
O tom condizia muito mais com o de um obiturio.
Mas o que aconteceu realmente? O plano da "misso" de Putzi parece que foi arquitetado alguns dias antes, durante um almoo na chancelaria. Toda tarde, por volta
das 14h30, membros da liderana comiam com Hitler em sua sala de jantar iluminada e arejada. Aqueles especialmente favorecidos eram convidados a sentar-se ao redor
da mesa circular que tinha 15 lugares. Hitler ocupava uma das cadeiras de couro vermelho escuro, do lado da janela. Os outros espalhavam-se pelas quatro mesas menores.
Hitler apelidou a reunio de o Restaurant zum Frhlichen Reichskanzler - literalmente, o "Restaurante do Chanceler Alegre".
A refeio em si era sempre simples: carne, batatas e legumes, gua mineral, cerveja em garrafa, ou vinho barato, mas, devido ao espantoso horrio de Hitler, com
freqncia se estendia at depois das 16 horas. No entanto, marcar presena era importante, no somente para demonstrar intimidade com o Fhrer, como tambm para
saber o que estava pensando fazer. O almoo dirio tanto servia como canal para seus fiis seguidores
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acompanharem as suas mudanas de opinio quanto uma chance de tentar conseguir uma audincia pessoal.
Goebbels era um dos convidados mais assduos e sabia como virar o almoo a seu favor, criando piadas que faziam Hitler gargalhar, mas que freqentemente tinham a
inteno de destruir seus rivais na luta pelo poder. Putzi era uma das vtimas de sua lngua venenosa. Goebbels sentiu, durante muito tempo, cimes da intimidade
de Putzi com Hitler e, segundo Albert Speer, o ministro da Guerra, nunca perdia oportunidade de difam-lo. "Goebbels comeou a detratar o carter de Hanfstaengl,
descrevendo-o como avarento, sovina e de honestidade duvidosa", lembrou-se Speer ao comentar os almoos. "Certa vez, ele levou um disco para demonstrar que Hanfstaengl
tinha plagiado uma cano inglesa ao compor a marcha popular 'Der Fhn'."
A gota d'gua foi quando o assunto da Guerra Civil Espanhola veio  tona e Goebbels disse aos que estavam  mesa que Putzi tinha "feito observaes hostis sobre
o esprito de luta dos soldados alemes em combate l", disse Speer. "Hitler ficou furioso. E disse que esse covarde, que no tinha o direito de julgar a coragem
dos outros, merecia uma lio." Alguns dias depois, Putzi recebeu ordens de voar para a Espanha.
"Todos os captulos dessa histria provocaram grande alegria na mesa de Hitler - ainda mais nesse caso, j que Hitler tinha tramado a piada junto com Goebbels",
prosseguiu Speer. "Mas quando, alguns dias depois, chegou a notcia de que o chefe do departamento de imprensa estrangeira que estava desaparecido tinha buscado
asilo no exterior, Hitler temeu que Hanfstaengl colaborasse com a imprensa estrangeira e tirasse proveito de seu conhecimento ntimo do Terceiro Reich."
Talvez Unity Mitford tenha tambm desempenhado um papel bizarro no caso. As relaes de Putzi com Unity e sua irm, Diana, tinham-se intensificado desde que ele
as levara ao primeiro comcio em NurembergNo comeo de 1935, o Hausmeister da Braun Haus, um ex-major do exrcito, tinha procurado a irm de Putzi, Erna, pedindo
ajuda para encontrar alojamento para Unity, que havia voltado  Alemanha para estudar o idioma. O Hausmeister no falava ingls, Unity no sabia praticamente nada
de alemo, e ele no sabia mais o que fazer com ela. Erna, com quase 50
anos e sem filhos, tomou Unity, quase trinta anos mais nova, sob sua proteo e convidou-a a ficar em sua confortvel casa de madeira, no estilo da virada do sculo,
em Solln. Embora Unity tenha passado muito tempo fora, ela guardou suas roupas, livros e fotografias durante os quatro anos seguintes. Erna que, como seu irmo,
era muito bem relacionada, conseguiu-lhe acesso  alta burguesia de Munique. Tambm providenciou aulas
de canto para Unity.
Quanto a Putzi, no gostava nada de Unity; at mesmo seu antissemitismo tornou-se excessivo para ele. "Ela passava o tempo todo bisbilhotando. Odiava os norte-americanos
e era uma perseguidora fantica de judeus, s falando disso, me cansando com essa histria de judeus", recordou-se. "Ela reforava Hitler em sua estupidez. Esse
era o seu principal defeito em momentos crticos." No obstante, Putzi achava que tinha de manter boa relao com Unity, j que, no mnimo, Hitler sentia-se muito
atrado por ela. Ele suspeitava que, com a sua irm casada com Sir Oswald Mosley, Unity sonhava em se dar melhor ainda, e se casar com Hitler.
Ela tambm era, notoriamente, indiscreta - qualidade que Hitler logo soube como usar para proveito prprio,  medida que ela ia se introduzindo em seu crculo ntimo.
Ela costumava passar muito tempo no consulado britnico em Munique e poderia ser, sem perceber, o canal perfeito se Hitler quisesse que alguma coisa chegasse ao
Ministrio das Relaes Exteriores em Londres. "Hitler sabia que se quisesse que algo fosse divulgado, bastava falar na frente de Unity", lembrou-se Winifred Wagner.
"Ele me disse isso pessoalmente."
Tal indiscrio, entretanto, era uma faca de dois gumes. A Alemanha tinha-se tornado um lugar perigoso, onde uma palavra descuidada poderia selar a sorte da pessoa.
Apesar de a maioria daqueles que cercavam Hitler se comportar adequadamente, Unity repetia, sem pensar, mexericos que tinha ouvido de Hitler, quase sempre ignorando
os efeitos desastrosos que suas indiscries poderiam surtir. Erna tentou em vo torn-la mais prudente, acusando Unity de agir como se "o partido fosse uma opereta".
A "misso" de Putzi pode ter sido, em parte, resultado dessa indiscrio. Algum tempo antes, Putzi havia levado Unity e Egon, ento com 15 anos, para um passeio
em seu barco no lago Starnberg. Enquanto remavam, Putzi
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recordou-se de como tinha sido duro viver como um estrangeiro inimigo em Nova York durante a Primeira Guerra Mundial e como, se houvesse outra guerra, ele preferiria
pass-la com seus camaradas nas trincheiras. Ento, como sempre, comeou a criticar as influncias malignas exercidas por Goebbels, Rosenberg e todos os outros que
cercavam Hitler. Unity ficou perplexa. Se pensava assim, disse-lhe ela, deveria deixar de ser o porta-voz do partido.
Putzi defendeu sua posio professando a sua lealdade ao Fhrer e dizendo que estar cercado de homens que s fazem balanar a cabea no o ajudaria em nada. O estrago
j tinha sido feito, entretanto. Unity era ferozmente leal a Hitler e queles que o cercavam.
- Pai, essa mulher realmente o odeia - disse Egon depois que ela se foi. - Vi isso em seus olhos.
Putzi pode ter pago por suas palavras imprudentes pouco depois, quando Unity visitou Berlim com sua irm, Diana, e sua prima, Clementine Mitford. Hitler convidou-as
para jantar no Reichskanzlei e, em seguida, foram ao cinema. Depois, a conversa foi sobre Putzi, e parece que Unity contou parte do que foi dito na viagem de barco.
Segundo a sua verso, foi ento que decidiram enviar Putzi no vo - embora tivesse ficado claro que nunca o forariam a, de fato, lanar-se de paraquedas e poderia
aterrissar de volta a Munique depois de voar, inofensivamente, por algum tempo. "Ele planeja uma brincadeira tima com Putzi", escreveu Unity em seu dirio.
A coisa toda pode ter sido mais do que uma simples brincadeira para Unity-ou para Goebbels -, mas h poucas dvidas de que a misso foi planejada por Hitler para
servir de uma grave advertncia a Putzi de que ele deveria ou obedecer ao partido com mais conscincia ou enfrentar as conseqncias. Putzi, certamente, viu a coisa
toda como uma tentativa sria de mat-lo - e continuou pensando assim pelo resto de sua vida.
"Uma brincadeira supostamente termina com humor e no de maneira degradante", disse mais tarde. "Deveriam ter aterrissado, e ento Bodenschatz apareceria com um
bolo com velas e diria: 'Hanfstaengl, o Fhrer desejalhe felicidades, jantaremos com ele hoje  noite.'"
putzi comeou seu exlio com estilo, hospedando-se no Hotel Baur au Lac, que era, como ainda hoje, um dos mais exclusivos e caros em Zurique. Registrou-se como Dr.
Franzen e ficou em um quarto no ltimo andar. Uma das primeiras providncias foi chamar Erna. Depois barbeou-se pela primeira vez em 36 horas e, s 18 horas, completamente
exausto, deitou-se nos lenis frescos e adormeceu. "Deus, que cansao - e Zurique logo ali, do lado de l da janela com os novos sinos da igreja embalando nosso
sono", dizia a ltima anotao em seu dirio no dia de seu aniversrio.
Erna chegou na tarde seguinte. Tinha aceitado mal a queda gradativa de Putzi e o seu exlio s fazia agravar as coisas. Alm de poder ter conseqncias danosas para
a firma da famlia, poderia, por extenso, abalar a sua prpria posio. Sentados em seu confortvel quarto de hotel, ela escutou incrdula a histria de seu vo.
No conseguiu aceitar, como Putzi aceitava, a idia de que Hitler tivesse tentado mat-lo, e achou que seu irmo tinha sofrido um colapso nervoso. Portanto, elaborou
um plano.
Atravs de um amigo, entraram em contato com Carl Jung, ex-parceiro de Freud. Agora no comeo da faixa dos 60, ele continuava a praticar em sua Zurique nativa. Erna
estava convencida de que Jung poderia ajudar o irmo. Nesse meio-tempo, ela espalharia em Berlim a notcia de que ele estava doente e sendo tratado. No podia dizer
a Putzi,  claro. Ele se sentiria ultrajado com qualquer, insinuao de que estaria sofrendo de parania. Mas Erna encontrou uma boa maneira de contornar tambm
isso propondo a seu irmo que fingisse estar doente. Em 16 de fevereiro, Putzi teve a sua primeira consulta com Jung, em sua casa na Kssnacht. Deve ter sido um
encontro fascinante. Apesar de Putzi retornar no dia seguinte, no prosseguiram com as sesses. Jung advertiu-lhe que seria insensato ele fingir ser seu paciente.
Putzi manteve a cabea baixa, passando a maior parte do tempo em seu quarto de cortinas pesadas, onde fazia quase todas as suas refeies. Ocasionalmente, andava
a esmo  margem do lago ou via as vitrines dos comerciantes de arte de Zurique. Na Alemanha, circulavam cada vez mais rumores sobre o seu destino. A festa de aniversrio
de Washington estava apenas a alguns dias. A lista de convidados nesse ano era seleta como nunca. Alm de norte-americanos eminentes, como o embaixador Dodd, o coronel
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Truman Smith e o reverendo Stewart H. Herman Jr., da American Church em Berlim, inclua tambm alemes como o Dr. Hugo Eckener, o prncipe Louis Ferdinand da Prssia
e o embaixador alemo Heinz Dieckhoff, que eram vistos como amigos dos Estados Unidos. Alguns dias antes da festa todos os convidados receberam um telefonema de 
Von
Hausberger, dizendo que tinha sido cancelada. Ela no disse a razo.
Em 13 de maro, o Daily Telegraph de Londres publicou uma matria dizendo que Putzi havia sido expulso da Alemanha e o seu escritrio, "liquidado". Alguns diziam
que ele estava na Espanha, outros, na Inglaterra, declarava o jornal. Mas o que ficou entendido foi que "ele foi denunciado recentemente e, em conseqncia, solicitado
a deixar o pas". The New York Times tambm adquiriu a matria. Comentou que Putzi tinha sido um dos amigos mais ntimos de Hitler, mas que as relaes entre eles
foram-se deteriorando durante os dois ltimos anos. A causa da ruptura foi descrita de maneiras diversas como cimes e dissenso interna entre os outros amigos de
Hitler.
A histria logo ganhou destaque. No dia seguinte, a imprensa americana publicou uma notcia vinda de Berlim, declarando que Putzi estava escondido nos Alpes, no
executando uma suposta misso secreta na Espanha. H mais de um ms, antes de partir, ele teria declarado: "Receio que haja algo falso em relao a essa minha misso
especial." Na reportagem, amigos so citados como dizendo que ele tinha partido por ordens secretas de Hitler, com quem perdera o prestgio h algum tempo, mas que
no tinha ido para alm da Sua. Havia tambm especulaes de que Joachim von Ribbentrop, o embaixador alemo na Gr-Bretanha, tivesse querido que Putzi fosse removido
para outra funo, onde no pudesse criticar o trabalho de sua embaixada.
Tais reportagens, embora prximas da verdade, no passavam de especulao. Um porta-voz do governo alemo disse que no sabia nada sobre o paradeiro de Putzi ou
seus planos futuros. Von Hausberger declarou apenas que o escritrio da imprensa estrangeira "estava em processo de liquidao". Tampouco a famlia de Putzi podia
ou queria esclarecer qualquer aspecto do caso. Erna disse que acreditava que seu irmo havia partido em uma misso secreta para Hitler, mas no sabia onde ele estava.
Sua me  e qUe o esperara no dia de seu aniversrio, mas que no dia seguinte recebera uma carta sua em que dizia ter partido em uma misso. "O obje. 0  secreto", 
escreveu
ele, acrescentando que teria notcias dele depois, uando pudesse falar. "Desde ento, no soubemos mais nada dele."
Para aumentar o mistrio, o ministro da Propaganda divulgou um comunicado no dia seguinte anunciando que o bureau de Putzi estava em processo de desativao, porque
se tornara suprfluo. Seu chefe estava no exterior e seria designado para "atribuies artsticas" ao retornar, provavelmente em duas ou trs semanas. Outros rumores
diziam que Putzi estava de frias ou tratando de questes oficiais em Moscou, Espanha ou
mesmo Nova York.
Louis P. Lochner, o chefe do bureau da Associated Press, ficou intrigado com o caso. Ele estava entre aqueles que foram convidados - e, depois, desonvidados-para
a festa do aniversrio de Washington oferecida por Putzi. Em uma sociedade em que os desaparecimentos tinham-se tornado bastante comuns, ele estava curioso para
descobrir o que tinha acontecido a seu velho amigo. Teve a sua resposta dois dias depois, em um coquetel oferecido por Martha Dodd. Lochner e alguns dos outros convidados
falavam do misterioso desaparecimento de Putzi, quando foram interrompidos pelo Lt. Commander [capito de corveta] Harry Guthrie, adido da marinha dos EstadosTJnidos,
que ouvira por acaso a conversa.
- No h nada misterioso em relao a Hanfstaengl - disse Guthrie.
- Ora, esbarrei com ele no bar do Hotel Baur au Lac, em Zurique, ontem mesmo. Acabo de chegar de l.
Lochner percebeu o furo. Apesar de ser o nico jornalista no grupo a que Guthrie se dirigiu, havia outros presentes na recepo e havia o risco de que pegassem a
histria. Saiu o mais rpido possvel sem atrair muita ateno e tentou ligar para Putzi no hotel. O que quer que tivesse realmente acontecido com seu amigo, calculou
que a sua curiosidade natural gritaria mais alto e ele atenderia o telefone. Seu palpite estava certo.
- Como descobriu onde eu estava? - perguntou Putzi.
- Isso no importa - replicou Lochner. - Sabe to bem quanto eu que um jornalista no revela suas fontes. O principal  que sei onde est.
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Vai ser a grande manchete de hoje, e mais o que quiser me contar sobre as razes de sua fuga.
Putzi disse que pegasse o prximo avio para Zurique, onde lhe contaria a histria toda. Lochner objetou; achou que j tinha os fatos de que precisava. E, de qualquer
maneira, se fosse necessrio algum complemento, pediria a seus colegas da Associated Press em Berna e Genebra que fossem ver Putzi. Nesse meio-tempo, lembrou-se
Lochner, Putzi deu ordens ao hotel para dizer a todos que ligassem de Berlim procurando-o que "Herr Doktor no est".
Na manh seguinte, a imprensa americana publicou a matria de Lochner. Putzi, dizia a matria, tinha demonstrado surpresa com o fato de o mundo todo estar  sua
procura. "Estou de frias, fazendo passeios diariamente. Espero retornar a Berlim depois da Pscoa", foi citado dizendo. Ao ser informado de que seu escritrio havia
sido fechado e da comunicao de que receberia um cargo acadmico, declarou: "Estou com 50 anos e esperando, h algum tempo, retornar aos estudos de histria. Fico
feliz que isso agora seja possvel."
Nesse nterim, o regime em Berlim agitava-se. No ficou claro em que ponto exato Hitler soube como a sua brincadeira havia se voltado contra ele prprio. De fato,
inicialmente, ele e Goebbels acharam que Putzi talvez retornasse por conta prpria aps algumas semanas fora. Mas j se passara mais de um ms e Putzi continuava
na Sua. Tinha deixado escapar pouca coisa sobre suas intenes, mas a liderana nazista sabia que ele poderia acabar causando problemas. Como uma das poucas pessoas
que tinham sido ntimas de Hitler desde o comeo da dcada de 1920, Putzi era literalmente o homem que sabia demais. Considerando-se suas ambies literrias, era
provvel que registrasse suas reminiscncias em um livro.
Em 1937, quando os agressivos programas polticos dos nazistas conduziam o mundo para a guerra, Hitler deveria ter coisas mais importantes com que se preocupar do
que com a possibilidade de algumas revelaes de um ex-ajudante. Mas a situao era bastante constrangedora, e ele e os homens  sua volta estavam muito interessados
em evitar um escndalo. Putzi tinha de ser persuadido a retornar  Alemanha.
A Gestapo enviou-lhe vrias mensagens instigando-o a voltar. Foram todas ignoradas e ficou claro que seria necessrio uma nova abordagem. Portanto, em 20 de maro,
o porteiro uniformizado do Hotel Baur au Lac anunciou a chegada de um certo Herr Bodenschatz. Putzi ficou atnito. Mas o ajudante de Gring estava descontrado e
seu humor era cordial e festivo. A coisa toda, insistiu ele, no havia passado de uma brincadeira, a qual, infelizmente, tinha provocado uma reao excessivamente
emocional em Putzi, e ele propunha que retornasse, que no tinha nada a temer. Para enfatizar suas palavras, Bodenschatz chegou a dar a Putzi uma carta assinada
por Gring. Estava escrita usando a forma de tratamento familiar du.
Caro Hanfstaengl,
Segundo uma informao que recebi hoje, voc est em Zurique h algum tempo e no pretende retornar  Alemanha. Presumo que a razo disso tenha sido o seu recente
vo de Staaken a Wurzen, na Saxnia. Asseguro-lhe que isso tudo no passou de uma brincadeira inofensiva. Queramos lhe dar uma oportunidade para refletir sobre
algumas declaraes excessivamente audaciosas que fez. No se pretendeu nada alm disso.
Enviei o coronel Bodenschatz para que lhe explique pessoalmente. Considero vital, por diversas razes, que retorne  Alemanha imediatamente com Bodenschatz. Dou-lhe
a minha palavra de honra que poder permanecer aqui, entre ns, como sempre fez com total liberdade. Esquea suas suspeitas e aja com a razo.
Com saudaes amigas Hei/Hitler Hermann Gring
Em um ps-escrito, tinha acrescentado,  mo: Espero que aceite a minha palavra.
Putzi no se convenceu. Se era tudo uma brincadeira, perguntou, por que a sua repartio tinha sido fechada, seu pessoal despedido e havia uma
ordem de priso contra ele?
- Era a idia da brincadeira, e a inteno era lhe pregar um pequeno
susto - insistiu Bodenschatz.
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-  engraado eu precisar de trs ministros para um pequeno susto
- replicou Putzi. - E  muito engraado o piloto ter-me dito que estvamos indo para Barcelona e que vocs estavam usando avies dos contribuintes para fazer piadas
desnecessrias. Se era uma brincadeira, por que o piloto no me contou?
- Esquea o piloto - disse Bodenschatz. - Tudo o que disse foi ensaiado antes de o avio decolar.
Putzi ainda assim no se convenceu.
- Desde quando a Lufthansa e a aeronutica da Alemanha tm atores to maravilhosos que so capazes de improvisar o que o piloto me disse?
Bodenschatz no teve resposta.
Por enquanto, a principal preocupao de Putzi era a segurana de Egon, que acabara de completar 16 anos e freqentava o internato em Starnberg, a apenas 56 quilmetros
a sudoeste de Munique. Putzi sabia que os nazistas poderiam usar seu filho como refm para obrig-lo a retornar e deu-se conta de que precisava ganhar tempo. Respondeu
que precisava refletir e Bodenschatz props passar uns dois dias no resort de Arosa, nos Alpes suos, e ento voltar para ter a sua resposta.
Putzi decidiu acelerar a partida de Egon. Desde a conversa no lago, seu filho sabia que talvez precisasse fugir do pas e, logo depois de sua chegada a Zurique,
conseguiu avis-lo de que se preparasse para partir. Pediu-lhe tambm que no desse a impresso de pressa, j que isso poderia levantar suspeitas. A situao tinha,
obviamente, mudado com a publicao da matria de Lochner. Portanto, um dia antes da visita de Bodenschatz, Putzi ligou para o diretor da escola, que transmitiu
a seu filho a mensagem para tentar passar o fim de semana na Sua.
Mas havia um problema. Egon deu-se conta, para o seu horror, de que no tinha passaporte. Sob condies normais, teria simplesmente ido a Munique para providenci-lo,
mas receou que tivessem sido enviadas instrues de Berlim que impedissem consegui-lo. Mas estava com sorte. Formalmente era um residente de Starnberg e, portanto,
podia ir ao Bezirksarnt de l mesmo. Como era menor, precisava da permisso dos pais para tirar o documento e escreveu a seu pai pedindo que a enviasse.
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O processo prosseguia quando Bodenschatz retornou a Zurique, dois dias depois, para a sua resposta. Putzi tinha enviado a Egon a declarao necessria, mas precisavam
de mais tempo para conseguir seu passaporte, de modo que decidiu arrastar as negociaes com Bodenschatz. Fez isso denunciando Goebbels como o agente mais provvel
de seu infortnio e exigindo que Gring oferecesse uma garantia que o protegesse contra a vingana do "doutorzinho".
Bodenschatz comeou a perder a compostura.
- No podemos calar a imprensa para sempre - disse ele a Putzi. O pessoal da imprensa estrangeira em Berlim j comeou a fazer todo tipo de pergunta constrangedora.
Se no usar a razo, as coisas podem ficar desagradveis para a sua famlia.
Putzi no estava preparado para ser ameaado dessa maneira.
- Diga ao seu patro para tirar qualquer idia de fazer refns da cabea
- disse ele. - Se eu souber que qualquer um deles chegou a sofrer a mais leve ameaa, publicarei tudo o que sei sobre o regime nazista. Todos os meus registros esto
em local seguro j h algum tempo e posso dizer que at mesmo o pequeno Herr Goebbels no sair do armrio durante semanas.
E, para culminar, Putzi tambm exigiu um pedido de desculpas escrito, de preferncia do prprio Hitler. O lder nazista o tinha humilhado de modo ultrajante, disse
ele, e Rdeve entender que precisarei de muito tempo para chegar a um acordo com essa brincadeira".
Parte disso era puro blefe; apesar de Putzi ter alguns documentos com ele, a maior parte continuava na Alemanha, pois, a despeito de seus esforos, ainda no tinha
conseguido traz-los. Mas Bodenschatz no sabia disso.
- Muito bem - respondeu o mensageiro, que havia claramente esgotado seu mandato de negociao. - Informarei Gring e ligarei de Berlim. Tem de haver uma maneira
de chegarmos a um acordo.
Com certeza, os nazistas no tinham esperado essa resistncia. Mas, trs dias depois, Bodenschatz estava mais uma vez de volta, e ento tentou um caminho mais conciliador.
Apesar de confirmar que a repartio de Putzi estava fechada desde a sua partida, ofereceu-lhe uma posio importante,
sob a chefia de Gring, e que podia determinar seu prprio salrio. A ordem
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de priso contra ele havia sido retirada. Deu a Putzi o prazo at a
Pscoa para aceitar sua oferta - ou enfrentar as conseqncias.
Putzi no mudou de idia. Depois da visita, tinha telefonado para Starnberg e ficado sabendo que, embora a nota que escrevera para o seu filho fosse insuficiente
para os documentos requeridos, Egon tinha conseguido persuadir um funcionrio mais velho que trabalhava no Bezirksamt a emitir seu passaporte. Se tudo corresse bem,
o garoto logo estaria a caminho da Sua.
Na verdade, nessa manh, depois de beber um pouco de Cinzano para tentar acalmar os nervos, Egon tinha embarcado em um trem rumo a Zurique. A viagem at a cidade
fronteiria de Lindau correu tranqila, mas, quando o trem parou ali, a polcia da fronteira comeou a examinar o compartimento quase vazio. Egon cruzou os dedos
quando o guarda caminhou na sua direo. O guarda olhou fixo por um instante seu passaporte e o devolveu a ele. Depois pediu para examinar sua mala. Dentro havia
algumas toalhas e uma fotografia de Hitler. O guarda curvou-se para examinar a dedicatria:
Ao meu jovem amigo Egon Hanfstaengl, cordialmente, Adolf Hitler. Berlim, 24 de maro de 1932.
O corao de Egon quase parou. Por que tinha sido to idiota levando-a na mala, perguntou a si mesmo. O guarda aprumou o corpo e olhou para Egon.
- Foi mesmo o Fhrer que assinou? - perguntou perplexo.
-  claro que sim. Meu pai a trouxe para mim - replicou Egon.
- Donnerwetter [est certo]. Mas por que a est levando?
- Bem, sabe, no  todo mundo que tem uma foto dessa. Alm disso, quero mostr-la  minha tia em Zurique. Estou indo passar minhas frias com ela... no a vejo h
muito tempo.
Impressionado, o guarda mandou-o fechar a mala. Mas a provao do garoto no chegara ao fim. O guarda quis saber quanto levava de dinheiro. Ele respondeu que cerca
de 40 reichmarks.
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- Lamento, garoto, mas no posso deix-lo passar a fronteira com mais de 10 reichmarks - disse o guarda. -  a lei.
A essa altura, Egon teria jogado, com satisfao, o dinheiro todo pela janela do trem, mas o guarda props que o enviasse a algum, atravs de uma ordem de pagamento.
- Depois de me mostrar o recibo, poder atravessar - disse ele. Egon correu  estao atrs de um servio de telgrafo. A nica pessoa
que lhe ocorreu foi sua velha tia Hedwig em Munique. De modo que lhe enviou os 30 reichmarks. Voltou  estao a tempo justo de entregar o recibo ao guarda e embarcar
antes que o trem partisse.
- Fico feliz que tenha feito isso - disse o guarda. - Boa viagem e divirta-se.
Egon sentou-se  janela e esperou. A ltima milha at a fronteira pareceu durar uma eternidade. Mas ento viu a tabuleta: "Grenze-Osterreich". Tinha chegado  fronteira
austraca. Os guardas nessa fronteira mostraram pouco interesse nele e lanaram apenas um olhar superficial ao seu passaporte. O trem prosseguiu, mas levou somente
alguns minutos para atravessar a estreita faixa do territrio austraco, e ento surgiu a tabuleta anunciando a fronteira sua. O funcionrio suo tambm no falou
muito. Como seu colega austraco, satisfez-se com uma verificao rpida dos documentos de Egon. "
Egon teve de lutar para conter sua alegria. Tinha conseguido sair, mais por sorte do que qualquer outra coisa, mas estava livre. Estava tambm terrivelmente cansado
e faminto. Mas no havia nada mais a fazer a no ser esperar. De modo que tirou os sapatos, sentou-se de volta em seu lugar e esperou, com impacincia, enquanto
o trem serpeava seu caminho pelo campo suo rumo a Zurique.
Era quase meia-noite quando o trem finalmente parou na estao. Egon logo localizou seu pai. Usando suas roupas do campo mais velhas, assomava acima das outras pessoas
esperando, e parecia ficar mudando o peso do corpo de uma perna para a outra enquanto tentava ver as pessoas sarem do trem. Embora exausto, Egon no resistiu e
pregou uma pea no pai. Aproximando-se furtivamente por trs dele, esperou at todo mundo sair e, s ento, surpreendeu-o.
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- Herrgott [Deus]! - exclamou Putzi. Herrgott, companheiro, voc conseguiu! H dois dias espero todos os trens de Munique, e agora, enfim, est aqui.
Caminharam da estao, descendo a Bahnhofstrasse at o hotel. Zurique estava quase completamente s escuras; a cidade treinava para um ataque areo. Depois de deixar
as coisas de Egon no seu quarto no ltimo andar, tornaram a sair e foram ao Bahnhofrestaurant Zur Enge. Apesar da hora tardia, Egon conseguiu devorar um bife e muita
salada. Eram perto das 2h30 da manh quando voltaram ao hotel. Ele dormiu durante quase o dia todo.
Com a chegada de Egon, Putzi havia rompido um elo vital com a Alemanha. Agora no havia mais por que permanecer na Sua. Uma nova, se bem que no menos dramtica,
fase em sua vida estava para ter incio.

17
PUTZI PARTIU DA SUA para Londres em 1 de abril de 1937. A data foi escolhida intencionalmente - era o aniversrio de Bismarck, o Chanceler de Ferro. Entretanto,
o dinheiro comeava a ser um problema, e teve de pedir emprestado cem francos suos a um amigo. Ele e Egon ocuparam um compartimento de segunda classe at Calais
e atravessaram o Canal da Mancha, deFerry, at Dover.
A chegada de Putzi foi notada pelo Special Branch, uma diviso da Metropolitan Police da Gr-Bretanha. "Ernst Hanfstaengl, alemo, conhecido como divulgador da imprensa
nazista, chegou neste porto, vindo de Calais, s 13h15, hoje. Recebeu permisso para desembarcar por duas a trs semanas para visitar amigos. Deu como seu futuro
endereo o Bayswater Hotel, em Londres." A descrio foi concisa: "Idade: 50; profisso 'escritor'; altura 2,03m; constituio forte; ombros largos; cabelo e olhos
castanhos; tez clara; barbeado; feies pronunciadas. Usando chapu de feltro cinza; terno cinza-escuro, camisa azul e colarinho; gravata marrom; sobretudo cinza-escuro;
sapatos pretos." Seu filho, Egon, o registro dizia, o acompanhava e ficaria no mesmo endereo.
Putzi podia no estar com muito dinheiro, mas estava determinado a gastar o pouco que lhe restava em grande estilo. Depois de usar suas ltimas moedas como gorjeta
do garom no trem para Londres, chamou um txi ao chegar na Victoria Station. Egon, que estava ciente do estado lamentvel de suas finanas, ficou chocado com a
extravagncia, mas seu pai disse-lhe que no se preocupasse. Talvez com a inteno de despistar, em
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vez do Bayswater Hotel, disse ao motorista que seguisse para o Claride um dos estabelecimentos mais caros da cidade. Pediu ao porteiro que
cuidasse do pagamento do txi e reservou um quarto barato no sto, usado normalmente pela equipe do hotel. Os dias seguintes foram passados evitando jornalistas 
que haviam escutado rumores
de sua chegada a Londres Egon era enviado para vigiar o saguo, atento a "inimigos", e entravam e saam do hotel por uma pequena porta lateral.
Dinheiro, ou melhor, a falta de, seria a caracterstica definidora de Putzi nos dois anos seguintes. Homem de gosto refinado, demonstrou pouca disposio para mudar
seus hbitos. Logo depois de chegar, matriculou Egon na St. PauPs, uma das escolas particulares mais prestigiadas em Londres, e contratou uma secretria particular,
Elizabeth Downing, e uma governanta/cozinheira. O desafio era achar uma maneira de pagar tudo isso, enquanto prosseguia as complicadas negociaes para retornar
 Alemanha. O jornalismo era uma possibilidade, embora potencialmente arriscada. H muito passara o tempo em que Putzi podia esperar ser pago pelo tipo de artigo
pr-Hitler que tinha escrito para a Collier's trs anos antes. O clima na imprensa tinha mudado: agora o que se pedia eram artigos crticos sobre os nazistas, contendo
detalhes lascivos sobre Hitler e seu squito. Mas escrever esse tipo de artigo significaria uma ruptura evidente com o regime, e Putzi ainda no estava preparado
para isso. Uma parte dele ainda sonhava em voltar  Alemanha. Por enquanto, pelo menos, tinha de aguardar o momento propcio.
Mas havia outra maneira de ganhar dinheiro, que se apresentou inesperadamente alguns dias depois de sua chegada. Quando Putzi ligou para Mary von Gersdorff, uma
amiga de Berlim, ela mencionou a ltima edio de Cavalcade, uma revista inglesa, que continha um "artigo desagradvel sobre ele. A matria, datada de 27 de maro
e intitulada "Clash", oferecia uma descrio pungente do exlio de Putzi em Zurique e refletia sobre as razes de sua partida de sua ptria. A revista dizia que
ele tinha irritado Von Ribbentrop, de quem sempre sentira inveja, plantando histrias em jornais estrangeiros, sugerindo que ele estava para ser afastado de seu
posto como embaixador na Gr-Bretanha. Von Ribbentrop, ento, conseguira sua vingana. Putzi, dizia a revista, "foi informado de que tinha chegado
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a hora de ele deixar a Alemanha. A lealdade de Hitler se esgotou". Enquanto errava solitrio e desesperanado, "Putzy [sic] se perguntava por que seu amigo Hitler
no tinha ido salv-lo, e sentia suas chances diminurem a cada dia".
Putzi adorou o achado de Von Gersdorff. Teria de consultar seus advogados,  claro, mas se concordassem com que o artigo na Cavalcade era difamatrio, uma ao legal
poderia fornecer uma fonte til de fundos. Igualmente importante era que lhe daria influncia contra Berlim: poderia deixar claro a Hitler que, se processasse a
revista, teria de revelar as verdadeiras e sinistras circunstncias de sua fuga. O artigo, disse a Von Gersdorff, " inestimvel para mim e meus advogados, e forma
uma plataforma soberba para tudo o que pretendemos fazer". Kenneth Brown, seu advogado, concordou e uma ao foi iniciada.
Um dia depois de Putzi ficar sabendo do artigo da Cavalcade, Brown respondeu em seu nome  carta que Gring lhe enviara, na Sua. "Est agora evidente que as pessoas
dentro e fora da Alemanha esto sendo induzidas a acreditar que estou sendo impedido de retornar  Alemanha por razes desonrosas para mim e no tenho a inteno
de tolerar isso", escreveu Putzi. Se o seu nome no podia ser limpo de outra maneira, ele iria processar os jornais que propagavam "reportagens ofensivas e inverdicas",
descrevendo no processo como e por que ele havia deixado a Alemanha. Nessas circunstncias, no esperava retornar  sua ptria por enquanto.
Os nazistas continuavam ansiosos por conseguirem atrair Putzi de volta, entretanto, especialmente por causa de seu conhecimento ntimo de Hitler h 15 anos, e o
uso bastante constrangedor que poderia fazer disso. Desse modo, em 12 de abril, Bodenschatz foi enviado para v-lo em Londres. Putzi no estava a fim de mudar de
idia; na verdade, era o oposto. A reportagem da Cavalcade e outras matrias em outras publicaes significavam que a sua partida da Alemanha era agora um assunto
pblico - tornando algum tipo de apologia formal ainda mais necessrio, na sua opinio. Bodenschatz tambm foi inflexvel. No ofereceu nenhuma nova concesso, mas
um ultimato: Putzi tinha cinco dias para retornar  Alemanha. Se no retornasse, seria tratado como um emigrante e, ominosamente, "outras agncias" cuidariam do
caso. No dia seguinte, Bodenschatz partiu.
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Putzi recusou-se a ser intimidado. No dia em que o ultimato expirou mudou-se no para a Alemanha, mas para uma casa alugada em Maida Vale, na parte oeste de Londres. 
Tambm escreveu a amigos em Munique, pedindo-lhes que tirassem bens pessoais de sua casa e os colocassem em custdia.
Goebbels ficou furioso, no mnimo por ter sido o principal responsvel pela "brincadeira" que havia inspirado a fuga de Putzi, saindo o tiro pela culatra. Como deixou 
claro em uma anotao em seu dirio no dia seguinte  visita de Bodenschatz, o caso todo estava caminhando para um constrangimento crtico. "Hanfstaengl est em 
Londres. Ameaa fazer revelaes", escreveu Goebbels. "Um porco comunista (...) nunca o considerei outra coisa (...) Se comear a dizer o que pensa, ofuscar todos 
os outros emigrantes. Quando o pegarmos, deveremos prend-lo imediatamente. E nunca mais solt-lo."
Porm, apesar da tentativa de Bodenschatz de descrever a sua visita como a ltima chance de Putzi, Berlim ainda no estava disposta a desistir. Alguns dias depois, 
Gring enviou Fritz von Hausberger, o marido da secretria de Putzi, para avis-lo de que poderia ser considerado um traidor e ser expropriado se no retornasse. 
O ex-oficial do exrcito austraco tinha recebido instrues de convencer Putzi a regressar e lhe oferecer nada menos que sete cargos diferentes. Sua mulher, ansiosa 
com o regresso de seu patro, tambm tentou pressionar a irm de Putzi, Erna, para persuadi-lo a reconsiderar. Ento, em 8 de maio, Herbert Stenger, chefe de equipe 
do Verbindungsstab [Pessoal de Ligao], chegou com a combinao de promessas e ameaas de sempre. At mesmo a me de Putzi, Katherine, envolveu-se quando se aproveitou 
de uma viagem  Gr-Bretanha, dois meses depois, para reiterar a seu filho o convite de Gring para que retornasse  ptria. O ajudante de Putzi, Voigt, tambm fez 
uma tentativa. Mas Putzi recusou-se a escutar qualquer um deles.
Logo depois, recebeu boas notcias sobre o processo. Em 7 de julho, os donos da Cavalcade desculparam-se formalmente por terem sugerido que ele fosse "culpado da 
conduta que desonrava a si prprio". Embora os detalhes no tenham sido proclamados, concordaram com lhe pagar 250 libras por prejuzos assim como as custas dos 
atos judiciais. Putzi ficou feliz e
proferiu uma declarao em que descrevia a sua vitria como um tributo  justia britnica. Tambm entrou em contato com Louis Lochner, chefe do bureau da AP, em
Berlim, e incitou-o a divulgar o caso em jornais de lngua alem na Sua e ustria, que eram lidos pela liderana nazista. Putzi estava convencido de que a sua
vitria ajudaria na sua exigncia de um pedido de desculpas de Hitler. Mas, se o lder nazista e seus camaradas ficaram impressionados, guardaram para si mesmos.
Por mais oportunas que tenham sido as 250 libras, Putzi no podia viver somente de aes legais. Tampouco estava recebendo qualquer dinheiro da firma da famlia,
j que tinha sido obrigado a abrir mo de suas cotas. Em vez disso, comeou a trabalhar em suas memrias e, em 19 de julho, assinou contratos com as editoras Hamish
Hamilton, em Londres, e Harper and Brothers, em Nova York. Para ajudar a sua pesquisa, enviou cartas s livrarias de obras antigas, em Munique, em busca de material
sobre a ascenso de Hitler ao poder. Queria, em particular, um livro de coletnea dos seus discursos, um exemplar de segunda mo de Mein Kampf
e um conjunto completo dos nmeros passados do Beobachter. Essa, claramente, seria uma obra sria, que se basearia em mais do que simplesmente a sua memria. Estranhamente, 
Putzi tambm
encomendou livros em alemo sobre Oliver Cromwell. Para evitar chamar a ateno em Munique, escreveu muitas vezes envingls, assinando Ernest Sedgwick. Tambm contratou
Robert Wlfle, proprietrio de uma livraria de obras antigas perto da Universidade de Munique, para catalogar a sua biblioteca e outros bens pessoais que ele havia
deixado para trs durante a sua fuga apressada.
Putzi, nesse meio-tempo, estava se tornando persona non grata na Alemanha. Uma troca de correspondncia entre a Fazenda e a Gestapo, datada de maro e abril de 1937,
que s apareceria depois da guerra, deixou claro que ele seria preso se retornasse  Alemanha. Por ordem de Martin Bormann, foi decretado que"Herr Hanfstaengl no
seja mencionado nunca mais em publicaes de tipo algum (...) Essa medida deve ser executada como uma questo interna do partido, de modo que no se torne pblica".
A ordem prosseguia: "Tambm peo que pensem em como pode ser possvel retirar seus livros e composies do mercado de maneira discreta, sem chamar
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ateno." Na ausncia de Putzi, um Reichsfluchtsteuer - imposto para deixar a Alemanha - de 40 mil reichmarks tambm foi-lhe imposto.
Mas a situao estava comeando a mudar. E, de novo, a causa foi sua nmesis, Ldecke. Desde que se mudara para os Estados Unidos e comeara suas transmisses de
propaganda, Ldecke ameaava revelar tudo o que sabia sobre a liderana nazista. Em novembro, cumpriu a ameaa: seu livro /Knew Hitler: The Story ofa Nazi Who Escaped
the Blood Purge foi publicado nos Estados Unidos, com sucesso considervel. Uma edio inglesa s saiu em 1938, mas Putzi pde dar uma primeira olhada no livro no
fim desse ms no British Museum. O livro, que tinha mais de setecentas pginas, era muito semelhante a um que o prprio Putzi poderia ter escrito e que, de fato,
escreveu depois da guerra. Comeando com o seu primeiro encontro com Hitler em 1922 - somente alguns meses antes de Putzi -, Ldecke prosseguia descrevendo o crescimento
do movimento nazista at a Noite dos Longos Punhais e a sua prpria e estranha relao com ele.
Putzi s recebeu algumas poucas referncias maliciosas. Depois de reivindicar o crdito de t-lo introduzido ao movimento, Ldecke comentou como ele se tornou rapidamente
"o admirador supremo de Hitler" e uma espcie de secretrio social, cuja "casa confortvel e culta foi, inquestionavelmente, a primeira desse tipo a abrir suas portas
a Hitler". Tambm escarnecia de Hitler por suas "maneiras excntricas" e "feies grotescas". Porm, apesar de insinuar a tenso entre eles, Ldecke no descreveu
como a sua rixa antiga com Putzi tinha contribudo para precipitar a queda de ambos.
A publicao do livro surtiu efeitos contraditrios em Putzi. Por um lado, sentiu-se vingado; agora que o rompimento de seu antigo rival com o regime era definitivo,
no havia mais obstculos para a sua prpria reabilitao. Entretanto, ao mesmo tempo, parecia lanar sombras em seus planos de escrever suas memrias. Assim como
os rumores de que tambm pretendia escrever cresciam, aumentava a especulao de que seguiria o exemplo de Ldecke em direo ao exlio do partido.
Putzi ainda estava inseguro quanto ao que fazer. Antes de tomar qualquer outra atitude, precisava ter certeza do motivo do que lhe tinha acontecido e de quem tinha
sido o responsvel. Parte dele se atinha  idia de
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que "a brincadeira" - se  que tinha sido uma - tinha sido perpetrada por Goebbels e alguns de seus camaradas, mas no por Hitler pessoalmente. Isso, por sua vez,
explica a sua relutncia em precipitar a publicao de seu livro. Se publicasse todo o material comprometedor sobre Hitler e ficasse demonstrado que o lder nazista
no sabia nada da conspirao, ele se sentiria um nscio. Putzi tambm hesitou por causa dos rumores de que Goebbels tinha cado em desgraa depois de um caso que
estava tendo com Lina Barowa, uma atriz tcheca muito atraente. O iminente afastamento de seu grande inimigo poderia ser benfico para a sua prpria causa.
Para Putzi, tudo competia, basicamente, a Hitler. Se o lder nazista pudesse ser persuadido a escrever uma carta de desculpas pelo que tinha acontecido, ento Putzi
poderia confi-la aos cuidados de seu advogado em Londres e ficar em "uma posio relativamente slida para impor meu ponto de vista". Mas isso implicava que deveria
ter cuidado em no macular sua imagem de partidrio leal ao regime.
Por volta dessa mesma poca, outro evento do passado tambm retornou para assombrar Putzi. Quase duas dcadas tinham-se passado desde o fim da Primeira Guerra Mundial,
mas algumas reivindicaes de direito de posse entre a Alemanha e os Estados Unidos permaneciam pendentes. A questo complicou-se com a alegao de que os alemes
que na poca viviam nos Estados Unidos tinham-se envolvido em diversos atos de sabotagem - a principal delas, a exploso no per Black Tom, em 1916. Vrias empresas
que sofreram prejuzos com isso - inclusive as ferrovias Lehigh Valley e Canadian Pacif, que serviam ao per - queriam ser indenizadas com a propriedade alem confiscada
pela U.S. Alien Property Custodian durante a guerra. Uma Comisso Mista, compreendendo um rbitro norte-americano, um rbitro alemo e um independente, foi designada
em 1922 para investigar os diversos incidentes anteriores a abril de 1917. Mas, em 1938, ainda no tinham completado o trabalho.
Putzi foi envolvido no caso quando, em 1934, James Larkin, um estivador irlands, lder do Partido Trabalhista, que tinha passado a guerra em
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Nova York, fez um depoimento acusando-o de ter espionado para os alemes. Larkin, ativo no Partido Socialista dos Estados Unidos, alegou que Putzi tinha sido um
dos agentes oficiais que vigiavam o porto de Nova York, "encarregado da superviso das operaes destruidoras a partir de 1915". P0r causa dessas declaraes, Putzi
escapou por pouco de ser intimado por urna House Committee [Comisso da Cmara] que investigava as atividades alemes nos Estados Unidos durante a sua visita a Harvard
em junho de 1934. Qualquer que seja a verdade em relao s afirmaes de espionagem, Peaslee & Bingham, advogados da Lehig Valley Railroad suspeitaram que Putzi
tinha um conhecimento valioso, de dentro, do que acontecera na comunidade alem de Nova York durante a guerra. O fato de agora viver no exlio na Gr-Bretanha tambm
sugeria que talvez estivesse mais disposto do que outros alemes a prestar testemunho. Em 11 de maro, enviaram um telegrama a seu advogado, dizendo que tinham sido
informados de que talvez ele fosse aos Estados Unidos e gostariam de consultlo para "um possvel servio valioso". Prometiam arcar com as despesas da viagem e "compens-lo
razoavelmente por seu tempo". Em telegrama, dez dias depois, perguntavam se Putzi estava disposto a corroborar o depoimento de Larkin de que os dois haviam se encontrado
em Nova York em abril de 1916 e discutido questes relacionadas s atividades da Alemanha ali. Mesmo que Putzi no estivesse preparado para um depoimento formal,
o seu conhecimento do que tinha acontecido e sobre as recentes falsas contestaes de acusao em litgio poderiam ser decisivas, escreveram. Garantiam sigilo absoluto.
Putzi, como sempre, quis pesar todas as opes; suas dvidas crescentes e a escassez de possveis fontes de renda deixavam-lhe poucas alternativas. Portanto, ao
mesmo tempo que continuava a encorajar rumores em Peaslee & Bingham - sem se esquecer de tentar descobrir quanto estavam dispostos a pagar -, procurou a embaixada
alem e contou-lhes o que estava acontecendo. O caso pareceu-lhe uma oportunidade valiosa de provar a sua lealdade a Berlim, no somente recusando-se a depor para
os norteamericanos como tambm assumindo uma posio a favor da Alemanha. Alm disso, esperava conseguir tirar algum dinheiro de Berlim por causa dos problemas que
tivera.
Sua estratgia teve xito - mas somente at certo ponto. Gring, que tambm tinha-se envolvido, queria que Putzi depusesse a favor da Alemanha e prometeu financiar
a sua viagem. Mas os nazistas frustraram a tentativa de Putzi de usar o caso para extrair uma desculpa formal pela maneira como tinha partido. Tambm hesitaram,
evidentemente, diante de sua exigncia de mais de mil libras para cobrir os honorrios dos advogados e custas diversas, assim como uma passagem, de primeira classe,
de ida e volta a Nova York.
Em 29 de maro de 1938, Ernst von Weizscker, o ministro do Exterior alemo, escreveu  embaixada alem em Londres, em nome de Von Ribbentrop, advertindo Putzi a
diminuir suas exigncias. "Se H. [Hanfstaengl] est inclinado a esperar e exigir uma'satisfao' para seu retorno  Alemanha, ento nada poder ser feito", escreveu
ele. O melhor que Putzi poderia esperar seria retornar e viver tranqilamente, sem se envolver com poltica. Se fizesse isso, com lealdade, ento poderia"levar uma
vida sem ser perturbado".
Putzi viu-se em uma situao difcil: depor para os norte-americanos seria, com certeza, a sua opo mais lucrativa - uma considerao importante, j que, como anotou
em seu dirio em 11 de abril, ele tinha apenas duas libras no bolso e ainda no pagara Elizabeth Downing, a sua secretria. Mas estava relutante. Considerava o caso
uma inveno, e Larkin, um perjuro. Depor para os norte-americanos significaria a ruptura definitiva com Berlim. Alm disso, independente de seus sentimentos, o
caso era contra a Alemanha Imperial,  qual continuava leal, e no contra os nazistas, uma distino importante para ele. Havia a questo da sua palavra tambm,
pois ele tinha discutido o assunto com Von Weizscker e Von Neurath no vero passado, de 1936, quando ainda vivia na Alemanha, e lhes garantira que testemunharia
fiel  verdade.
Em 8 de abril, partiu a bordo do lie de France para a viagem de seis dias at Nova York. Estava pendendo para o lado alemo, mas no decidira totalmente. Sua visita
foi muito mais extraordinariamente calma do que a viagem a Harvard quatro anos antes. Naquela poca, ele estava no auge de seu poder e influncia; agora era um mero
exilado envolvido em uma questo curiosa que permanecia obscura ao mundo exterior. No obstante, sua chegada provocou uma agitao na imprensa local, e ele,
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compreensivelmente, foi cauteloso. Harry Meeker, um velho amigo de Nova York, e sua mulher, Muriel, souberam que estava indo e foram encontr-lo quando o navio atracou.
Vendo Meeker vir em sua direo, sups que fosse um reprter e esquivou-se. Muriel acabou alcanando-o.
A primeira parada de Putzi foi no Harvard Club, onde tinha combinado encontrar-se com o Dr. Paulig, diplomata na embaixada alem. Durante esse e os encontros subsequentes,
Paulig ajudou-o a esboar uma declarao em que negava qualquer ligao com o exrcito alemo durante a Primeira Guerra Mundial e qualquer envolvimento com "operaes
destruidoras" dirigidas contra o esforo de guerra norte-americano. Ficou acertado que ele viajaria a Washington em 26 de abril para assinar e confirmar sob juramento
a verso final do documento.
Nesse nterim, Putzi conseguiu tempo para visitar alguns dos lugares que costumava freqentar. Ficou vrios dias na casa dos Meeker na rua 88, n 163 Oeste, e retribuiu
a hospitalidade levando-os para jantar no Voisin's, na Park Avenue, e Longchamps, na rua 78 com a Madison Avenue. Tambm foram ao Metropolitan Museum of Art. Alm
de rever outros velhos amigos, Putzi visitou o local de sua antiga loja na rua 45 e o que tinha sido a sua residncia na Christopher Street n 4 - a qual, para sua
tristeza, tinha sido transformada em um estacionamento. Grande parte do tempo, a imprensa o seguiu. Foi obrigado a sair rapidamente pela cozinha ao perceber que
tinha sido localizado durante uma de suas idas ao Harvard Club. Em outra ocasio, pensou em escapar pelo telhado. Os Meeker achavam aquilo tudo muito divertido.
"Rimos muito quando lemos que a cidade estava procurando (em vo) o Dr. Hanfstaengl, enquanto estvamos tranqilos bem no centro das coisas", lembrou-se Meeker mais
tarde.
Porm, apesar de todo o tempo que passou com Paulig, Putzi ainda no tinha certeza de se assinaria ou no. Para a frustraro da embaixada alem, decidiu ganhar tempo.
Duas semanas depois, retornou  GrBretanha - sem ter assinado o documento.
A viagem de Putzi aos Estado? Unidos teve um ps-escrito bizarro. Entre os jornais e revistas que escreveram sobre ele estava The New Republic. Em 27 de abril de
1938, dia em que deixou Nova York, publicou um artigo intitulado "Refugiados indesejveis". A revista dizia: "Somos sinceramente
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a favor da sugesto de que os Estados Unidos estendam a sua hospitalidade a refugiados polticos de outros pases, mas isso no diminui a nossa averso a dois deles
recebidos recentemente." O primeiro era Gerardo Machado, ex-presidente de Cuba, "um ditador cruel", cuja poltica assassinara pelo menos 350 de seus adversrios.
O outro era Putzi. "O Dr. Hanfstaengl foi famoso como o namorado de Hitler at se tornar vtima de uma intriga palaciana", acrescentava a revista. "Um santurio
poltico  supostamente para as vtimas de perseguio, no para os perseguidores." Isso era justamente do que Putzi precisava - ou assim parecia. Ainda radiante
com o xito do processo contra a Cavalcade, viu a a chance de uma segunda vitria. O caso parecia ter ainda mais potencial. Alm de ser uma difamao bvia que
poderia lhe causar problemas graves, por ser uma acusao to ofensiva a Hitler quanto a ele prprio, aparentemente oferecia meios de influncia com Berlim. Se The
New Republic fosse uma publicao britnica, Putzi teria-se aproveitado das leis inglesas severas contra calnias e, com certeza, ganhado a ao. Mas, infelizmente,
The New Republic era publicada em Nova York.
No entanto, havia outro caminho para a vingana. A lei britnica contra a calnia tambm possibilitava processar os que propagavam a difamao
- o que significava qualquer estabelecimento que vendesse a publicao ofensiva. Neste meio-tempo,4tavia uma clusula importante: um estabelecimento, supostamente,
no estaria familiarizado com tudo o que era escrito nas publicaes por ele vendidas. A obrigao seria da pessoa que abrisse o processo para provar que o vendedor
estava ciente do contedo difamante da publicao e, apesar disso, continuou vendendo-a.
Com isso em mente, Putzi elaborou seu plano. Em 11 de maio, ligou para uma amiga, Doris Alberta Lynch, que vivia na Gloucester Place de Londres. "Se passar por uma
banca onde possa comprar um exemplar da New Republic, acho que talvez v gostar de ler nele algo sobre mim", disselhe ele. Sugeriu que ela comprasse a revista na
Selfridges, uma importante loja de departamentos. Uma semana depois, os advogados de Putzi escreveram  Selfridges, advertindo-os contra venderem a edio da revista
contendo o libelo alegado. A loja tinha apenas um exemplar no estoque - e o havia vendido a Lynch. O departamento de jornais estrangeiros foi, ainda
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assim, alertado do problema e afirmou no possuir mais nenhum exemplar do nmero difamador.
Putzi esperou um ms e, em 21 de junho, pediu a Elizabeth Downing, sua antiga secretria, que fosse  loja e pedisse um exemplar da mesma revista. Pare evitar levantar
suspeitas, pediu que comprasse tambm 13 nmeros antigos. Teve sorte, pois o vendedor esqueceu-se da advertncia legal e aceitou o pedido. E, em 12 de agosto, todos
os 14 exemplares foram devidamente entregues a Downing. Isso deu a Putzi o fundamento para a sua causa. Selfridges, poderia argumentar, continuava a distribuir exemplares
de uma revista que continha uma crtica difamadora de sua reputao, apesar de ter sido especificamente advertida a no fazer isso.
Nesse intervalo, Putzi tambm trabalhava a outra parte de seu plano: o envolvimento de Berlim. Escreveu a Herbert von Dircksen, que substitura nesse mesmo ano Von
Ribbentrop como embaixador alemo na GrBretanha. Verses diferentes da carta, tanto em ingls quanto em alemo, existem na documentao de Putzi, mas o sentimento
em ambas  o mesmo. Com ela, ia um exemplar do nmero injurioso da The New Republic, que ele alegava circular livremente na Gr-Bretanha assim como nos Estados Unidos.
"Tero de admitir que a expresso Lustknabe de Hitler [Namorado de Hitler] constitui uma difamao ultrajante da vida privada do Fhrer", escreveu Putzi. "Ao mesmo
tempo, a caracterizao constitui um insulto intolervel a minha pessoa." Era desastroso, prosseguiu ele, que o caso estivesse fadado a envolver-se com o processo
da sabotagem no Black Tom, no qual Ldecke, o "conhecido chantagista homossexual", quase que certamente se apresentaria em juzo. "Que medidas, seja como uma maneira
de protesto do governo ou uma ao legal [sic], o governo alemo pretende tomar para defender e fortalecer meu carter como uma testemunha digna
de crdito e honesta e, desse modo, capacitar-me a cumprir meu dever em relao  verdade e ao meu pas?" perguntou.
Durante esse tempo todo, as autoridades britnicas estavam perplexas com o que Putzi estava fazendo no pas. Estava bvio ao M15, o servio de inteligncia domstico,
que ele cara em desgraa com o regime nazista, mas no estava claro se era resultado de uma disputa pessoal ou de uma
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divergncia ideolgica mais fundamental. "Uma coisa  certa", dizia um relatrio de "nosso representante em Berlim", datado de 8 de fevereiro de
1938. "O Partido tinha sido informado de que ele pretendia publicar um livro e que possua certos documentos (...) cuja publicao seria inconveniente para a Alemanha."
A agncia, no obstante, continuou a vigi-lo de perto, monitorando seus contatos com seus vrios amigos em Londres e observando suas negociaes com Hamish Hamilton, 
os editores, para escrever seu livro. Tambm interceptavam sua correspondncia, que inclua vrias cartas loquazes de Unity Mitford. Putzi, perceberam, mantinha 
contato freqente com a embaixada alem em Londres. Uma carta datada de 23 de fevereiro do adido da aeronutica revelava que uma questo, aparentemente relacionada 
com ele, seria apresentada em breve para a apreciao de Hitler. Em 3 de junho, ele recebeu uma carta de Dircksen convidando-o a um encontro na embaixada dez dias 
depois. Mais desconcertante para o M15 foi uma carta annima datada de 14 de junho - escrita em francs e postada na Itlia - mencionando que Erna enviara a seu 
irmo um aviso especial de que no tentasse v-la, pois enfrentaria "dificuldades extremamente perigosas" na fronteira. Apesar desses fragmentos de notcias to 
intrigantes, as autoridades britnicas continuaram desconcertadas. "Sabemos muito pouco alm disso sobre suas atividades" conclua uma carta ao major V. Vivian do 
servio secreto de inteligncia, datada de 27 de julho.
Os casos Black Tom e Selfridges tornavam-se, nesse meio-tempo, cada vez mais interligados - e Putzi estava determinado a usar sua influncia sobre o primeiro para 
fazer o regime nazista ajud-lo no segundo. Em 4 de novembro, Kenneth Brown escreveu uma carta a Hjalmar Schacht, presidente do Reichsbank, que sempre fora simptico 
a Putzi, incluindo cpias dos dois cabogramas que ele recebera em maro, de Peaslee & Bingham, de Nova York. Eram, dizia ele, "mais uma prova da lealdade de meu 
cliente a seu pas". Brown descreveu a Schacht como Putzi tinha recusado tal"chamariz de adversrios da Alemanha" e colocado imediatamente tal prova  disposio 
de Von Weizscker e ido a Nova York fornecer o material para um depoimento.
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A tentativa de Brown de descrever Putzi como um nazista leal foi minada, de certa maneira, por sua recusa definitiva a assinar o depoimento. Mas o advogado tinha
uma explicao tambm para isso: Putzi tinha declinado pela simples razo de que no seria considerado uma testemunha apta enquanto o libelo permanecesse pendente 
contra ele. Brown tambm lamentou a falta de ajuda ou mesmo conselho dos alemes a seu cliente. "Esperava-se que os responsveis pela conduo do processo da Alemanha 
nos Estados Unidos apreciassem a importncia de a testemunha (cuja evidncia os adversrios, de qualquer maneira, consideram essencial) ter seu carter e prestgio 
reabilitados", conclua a carta.

18
QUANDO TEVE INCIO O ANO DE 1939, o mundo estava a apenas alguns meses da guerra. Em maro do ano anterior, Hitler havia tomado a ustria no que os nazistas chamaram
de Anschluss [anexao] -, realizando seu sonho de unir a sua terra natal ao Reich. Animado com a facilidade de seu xito, voltou ento sua ateno para a Tchecoslovquia. 
Uma conquista militar total tinha parecido, de incio, fora de questo, porm trs milhes de alemes tnicos que viviam na Sudetenland ofereceram a Hitler um meio 
fcil de desestabilizar o pas e enfraquecer suas defesas. Em vez de resistir aos nazistas, as outras potncias europias prontificaram-se a fazer concesses. O 
Estado tcheco, criado em Versalhes, era visto por muitos, inclusive na Gr-Bretanha e na Frana, como um constructo artificial. Um editorial no Times de Londres, 
em 7 de setembro, destacava que simplesmente fosse dada aos alemes. A questo foi resolvida - de certa maneira- na Conferncia de Munique em 29 de setembro, na 
qual a GrBretanha, a Frana e a Itlia concordaram com que a Sudetenland fosse cedida  Alemanha no ms seguinte.
Alguns dias depois, Hitler atravessou a fronteira tcheca em um Mercedes com trao nas quatro rodas e seus soldados marcharam para uma recepo tumultuada da comunidade 
alem. O pavor  guerra era tal na Gr-Bretanha e na Frana que quando Neville Chamberlain, o primeiroministro, retornou a Londres brandindo um pedao de papel que
dizia que "garantiria a paz no nosso tempo", foi saudado como um heri, em vez de acusado de ter cedido aos nazistas. Houve um tumulto quando Winston
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Churchill iniciou um discurso na Cmara dos Comuns com as palavra "Sofremos uma derrota consumada, absoluta."
A concesso feita em Munique s aguou o apetite de Hitler e intens' ficou seu desprezo pela fraqueza moral da Gr-Bretanha e da Frana. Em
21 de outubro, ele ordenou a "liquidao" do resto da Tchecoslovquia e a tomada do porto lituano de Memel, ento conhecido como Klaipeda. Um ms depois, acrescentou 
uma ordem de preparativos para a tomada de Danzig.
Em seu pas, Hitler tambm esforava-se por mobilizar o povo alemo e prepar-lo psicologicamente para a guerra. Aproveitando-se do assassinato de um diplomata alemo 
em Paris por um exilado judeu, atiou ainda mais o antissemitismo. Na noite de 9 de novembro - que mais tarde ficou conhecida como Kristallnacht [A noite dos cristais], 
por causa das janelas quebradas -, bandos de desordeiros por toda a Alemanha atacaram judeus nas ruas, em suas casas, locais de trabalho e templos. Pelo menos
96 judeus foram mortos e centenas foram feridos. Mais de mil sinagogas foram incendiadas, quase 7.500 estabelecimentos judeus, cemitrios e escolas foram destrudos, 
e 30 mil judeus foram detidos e enviados a campos de concentrao.
Pouco depois Hitler voltou sua ateno para o que restava da Tchecoslovquia, usando a mesma ttica para desestabiliz-la que usara na Sudetenland - o encorajamento 
da revolta de uma minoria. Dessa vez usou como instrumento os eslovacos. Em 14 de maro, sob a presso de Hitler, declararam a independncia. Em conversaes em 
Berlim, nas primeiras horas da manh seguinte, foi oferecida a Emil Hacha, o idoso e frgil presidente tcheco, uma escolha: ou aceitar a "proteo alem" ou seu 
pas ser invadido. S lhe restou curvar-se. Hitler, nesse nterim, j estava de olho em seu prximo alvo - a Polnia.
De sua casa em West London, Putzi observava os eventos com apreenso. O aniversrio de 18 anos de Egon aproximava-se e ele estava em seu ltimo ano na St. PauTs. 
Putzi queria que o seu filho seguisse o seu exemplo e estudasse em Harvard; isso tambm teria a vantagem de afast-lo da situao, cada vez mais ameaadora, na Europa.
Portanto, em 28 de janeiro, entrou corn um pedido ao consulado-geral norte-americano de passaporte para Egon.
Os planos de Putzi para si mesmo eram menos seguros. Passava a maior arte de seu tempo lendo e trabalhando em seu livro, mas ainda no estava pronto para public-lo
- j que isso romperia sua ligao com Hitler. Estava, como admitiu mais tarde, "esperando at o ltimo momento possvel". A idia de acompanhar Egon aos Estados
Unidos era certamente atraente. Mas, apesar de tudo o que tinha acontecido, a seduo da Alemanha continuava forte. Como muitos de seus compatriotas, Putzi no via
nada de errado no Anschluss, mesmo estando chocado com a maneira como os nazistas tinham agido depois. O mesmo com a anexao da Sudetenland. No entanto, ficou espantado
com um discurso de Hitler alguns dias depois, em Staarbrcken. Em vez de ser magnnimo na vitria, Hitler pareceu brutal e ignorante. Putzi culpou por sua atitude
a influncia de Von Ribbentrop, ex-embaixador na Gr-Bretanha, que havia substitudo o mais civilizado Von Neurath, como ministro das Relaes Exteriores, em fevereiro
de 1938.
Putzi, mais tarde, afirmaria que esse foi o ponto crucial, porm, mesmo nesse estgio, um pedido de desculpas escrito por Hitler teria sido suficiente para faz-lo
retornar  Alemanha. "Se eu sentisse que era o antigo Hitler falando comigo e no o Fhrer, se sentisse que a criatura humana que eu conhecera no passado refletia-se
em sua carta, possivelmente teria pensado que seria o meu dever .regressar", recordou-se. No foi somente a esperana de reconciliao que o inspirou. Por mais implausvel
que parea, alegou mais tarde que continuava a esperar uma "oportunidade para uma mudana em Hitler".
Um aspecto que atrapalhava era a permanente instabilidade das finanas de Putzi. Havia recebido quinhentas libras adiantadas da Hamish Hamilton editors, e entregue
a eles o captulo inicial de seu livro, que cobria o perodo at o seu primeiro encontro com Hitler. (Se regressasse  Alemanha, teria deixado o manuscrito com Kenneth
Brown, assinalando: "Para ser queimado em caso de minha morte natural e para ser publicado em caso de dvida." Porm, exceto os prejuzos pagos no caso Cavalcade,
o adiantamento era tudo que ganhara desde que chegara  GrBretanha. Para equilibrar o oramento, teve de pedir duas mil libras emprestadas a seus advogados, prevendo
um rendimento provvel do
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livro e alguns artigos, mas no tinha como pag-los imediatamente. Muito dependia do resultado da ao contra a Selfridges.
Na quinta-feira, 18 de maio de 1939, o caso Hanfstaengl versus Selfridges and Co Ltd teve incio na King's Bench Division da Corte Suprema, em Londres. O magistrado 
Atkinson presidiu. Desde o comeo, Putzi teve a impresso de que o juiz e o jri estavam contra ele.
Erich Sachs, advogado de Putzi, abriu o caso com a descrio da formao e carter de seu cliente. Putzi, disse ele  corte, havia nascido em uma famlia de Munique 
muito reputada. Um de seus padrinhos era o duque de Saxma-Coburgo, cunhado da rainha Vitria. A firma da famlia, para a qual ele tinha trabalhado, tambm era muito 
renomada. Embora sem negar como tinha sido ntimo de Hitler, Sachs enfatizou que a sua amizade havia se enfraquecido. Na verdade, Putzi era um homem moderado, cujas 
opinies divergiam "da prtica do Partido Nazista em relao a aspectos como os campos de concentrao e religio".
Provar que a parte ofendida tem uma reputao que pode ser prejudicada  importante em qualquer ao de difamao. No entanto, no era isso que estava em jogo, pois 
Putzi estava tentando interromper a difuso da New Republic na Gr-Bretanha, em vez de processar seus editores norte-americanos, o que necessariamente ps em foco 
seu motivo e mtodos. "Qual  o seu objetivo com essa ao, limpar a sua reputao ou ganhar dinheiro?", perguntou G. D. Roberts, um dos advogados da Selfridges, 
durante o interrogatrio. Putzi, de certa maneira maliciosamente, insistiu em que seus motivos no eram financeiros, embora acrescentasse que no queria ter prejuzos 
"provocados por um insulto".
Putzi, no obstante, teve de lutar muito para convencer o jri de que no era culpado do que Roberts descrevia como "um truque sujo". Roberts disse-lhe: "Nem uma 
alma sequer na Inglaterra conheceria o artigo se voc no tivesse movido esta ao." A ao de Putzi, alegou ele, era puramente artificial, uma ao em que ele fabricara 
evidncia de publicao trapaceando e armando ciladas para a Selfridges oferecer um exemplar de um nmero
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antigo de uma revista semanal apenas para dar incio a uma ao legal. Como Putzi poderia exigir indenizao se a nica publicao - a venda a Downing - tinha sido 
provocada por seu prprio agente provocador?
O caso parecia condenado desde o comeo. Tampouco Putzi podia, como um dos simpatizantes mais prximos de Hitler, esperar contar com a simpatia do jri; a atitude 
na Gr-Bretanha em relao  Alemanha nazista tinha mudado radicalmente nos quatro anos desde que ganhara a ao contra The Daily Express e, at mesmo, nos dois 
anos desde a sua vitoria
sobre a Cavalcade.
A deciso judiciria foi transmitida no dia seguinte: o tribunal estabeleceu que no havia tido "nenhuma publicao". Isto , independente de se a descrio de Putzi
como" namorado de Hitler" era ou no difamatria, a Selfridges no poderia ser acusada de distribuir o artigo que continha a expresso ofensiva, j que os nicos
exemplares dessa edio da revista, na Gr-Bretanha, tinham sido vendidos para Putzi ou seus agentes.
Putzi tinha esperado que o caso fosse a sua salvao financeira; mas, ao contrrio, ameaou precipitar a sua queda. No somente no lhe propiciou nenhuma indenizao,
como tambm o obrigou a cobrir as custas legais suas e da Selfridges. Tal ordem foi dada com plena autoridade da corte de justia. Se no pagasse, a autorizao
de residncia poderia ser revogada e ele ser efetivamente expulso.
O revs estimulou Putzi a agir. Ainda no estava clara a extenso das custas, mas certamente seriam de centenas de libras - o que significava centenas de libras
mais do que tinha. A nica soluo para as suas aflies financeiras seria um trato lucrativo com a imprensa. Ao mesmo tempo, a sua derrota legal tambm tinha removido
uma importante barreira psicolgica  sua escrita. Segundo Putzi, a recusa de Hitler de ir em sua ajuda significava que o lder nazista era responsvel por suas
dificuldades financeiras - autorizando, por sua vez, Putzi a limpar seu nome na imprensa. No mesmo dia em que foi proferido o veredicto, ele comeou a contatar revistas
interessadas em publicar a sua histria.
Putzi estava disposto a vender a sua histria quele que fizesse a maior oferta. A expectativa mais promissora parecia ser a da revista Colher's, para a qual havia
escrito em 1934. Entrou em contato com Quentm Reynolds,
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na revista em Nova York, e ofereceu-lhe um artigo com 10 a 20 mil palavras, a um dlar a palavra. Tambm havia a possibilidade de combinar isso com um acordo com
o Daily Express, que estava disposto a pagar 500 libras por seis artigos publicados na Gr-Bretanha ao mesmo tempo em que eram publicados na Collier's, nos Estados
Unidos.
As negociaes prosseguiram durante junho. Para alegria de Putzi, a Collier's parecia disposta a aceitar um artigo muito mais longo de 25 mil palavras ao mesmo preo
generoso de um dlar por palavra. Mas em 29 de junho, logo antes de o contrato ser assinado, a revista mudou de opinio e decidiu s aceitar um artigo menor. Mas
nem tudo estava perdido. Em um encontro durante o caf da manh no dia anterior, Bill Hillman, o representante de Londres das revistas Hearst, disse a Putzi que
a Hearst's International-Cosmopolitan, a arquirrival da Collier's, talvez se interessasse por artigos de 34 mil palavras tambm a um dlar a palavra. Putzi rapidamente
se ps a escrever uma sinopse para a Hearsfs International-Cosmopolitan e a enviou. O tempo corria; Brown acabara de lhe escrever advertindo-o de que Selfridges
estava exigindo 425 libras de custas legais. Embora Brown tivesse conseguido a desaprovao de 45 libras, Putzi ainda tinha de pagar 280 libras.
A sinopse de Putzi no foi, exatamente, o que a Hearst's InternationalCosmopolitan esperava, e alguns dias depois Hillman pediu-lhe uma nova sinopse. Nesse nterim,
Putzi continuava a explorar outras possibilidades. Em 11 de julho, o escritrio da Fleet Street do King Features Syndicate Inc. enviou uma breve sinopse de uma srie
de trs artigos que queriam que escrevesse. Incluam, alm de sua prpria histria e seu papel na ascenso de Hitler, "Hitler, o homem, como Hanfstaengl o conheceu"
e "uma descrio pessoal resumida e anedotas das preferncias ntimas de Hitler". No deu em nada.
Para quem quer que Putzi acabasse escrevendo, era evidente que o tipo de material crtico esperado significaria um rompimento definitivo com Hitler. No entanto,
continuou a considerar suas memrias nada alm de uma aplice de seguro. Paradoxalmente, mesmo quando negociava para contar tudo quele que fizesse a oferta mais
alta, continuava a sondar, por meio de Josef Thorak, o escultor de Hitler, e diversos outros intermedirios
em Berlim, sobre um possvel retorno  Alemanha. Em 27 de maio, tinha at mesmo enviado um telegrama a Gring gabando-se de que havia "defendido a honra do Fhrer
no julgamento" e exigindo que ele enviasse Bodenschatz antes que tomasse "a deciso fundamental" na semana seguinte. Nove dias depois, quando ainda no recebera
nenhuma resposta, Putzi enviou outra carta em que dizia que em breve seria obrigado a levar a cabo uma "apresentao extensiva ao pblico dos eventos e pessoas,
desde 1923". Prosseguia: "Outra prorrogao ser impossvel (...) Antes da deciso final, apelo pela ltima vez ao senso de justia e generosidade do Fhrer."
Gring no respondeu. Essas tentativas veladas de chantagem no repercutiram bem em Berlim. Entretanto, os nazistas continuavam determinados a levar Putzi de volta
e resolveram recorrer  ajuda de sua irm. Segundo o relato de Erna, Hitler convidou-a a tomar ch em seu apartamento na Prinzregentenstrasse e pediu-lhe que persuadisse
seu irmo a retornar. O encontro parece ter-se transcorrido bem e Hitler at mesmo declarou que estava disposto a contribuir para um entendimento com Putzi. Erna,
entretanto, foi prudente. No ficou claro se ela, de maneira deliberada, quis sabotar a coisa toda ou se estava apenas tentando extrair o mximo da situao. De
qualquer maneira, o resultado foi desastroso. Aparentemente, sem nem mesmo discutir a questo com o irmo, ela partiu e compilou uma lista de condies^ara que ele
retornasse  Alemanha inclusive uma penso anual de 60 mil marcos, que Erna receberia por ele. Ela pediu a Unity Mitford que levasse a carta a Hitler.
Unity cumpriu a misso obedientemente alguns dias depois. Indo no encalo de Hitler, como sempre, na Osteria Bavria, disse-lhe que precisava falar-lhe em particular
e convidou-o a ir ao seu apartamento. Enquanto tomavam ch, ela lhe deu a carta de Erna, aparentemente ignorando seu contedo. Hitler ficou lvido. Depois de ler
algumas frases, ficou bastante irado, denunciou Putzi e sua irm como avarentos e queimou a carta com uma vela. Tambm mandou Unity deixar de morar com Erna imediatamente;
ficar mais um dia seria impossvel, disse-lhe. Como agora tinha um apartamento s dela, no havia desculpa para no se mudar. Estranhamente, Hitler ofereceu-se at
mesmo para comprar a moblia para a sua sala de estar embora ela recebesse uma mesada bastante generosa de seus pais.
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Unity saiu do encontro amedrontada e chocada. Levou a advertncia de Hitler to a srio que relutou em ver Erna de novo. Em vez disso, procurou Pinky Obermayer,
uma amiga comum, e pediu que lhe passasse a mensagem. Nessa noite, tirou suas coisas da casa de Erna, em Solln, e passou a noite em um hotel. No fim do dia seguinte,
partiu para a Inglaterra
Putzi ficou surpreso quando Unity ligou para dizer-lhe o que tinha acontecido. "Erna estragou tudo", disse ela. "Teria dado tudo certo, se no fosse a proposta da
penso."
Putzi, de imediato, tentou desligar-se de Erna e acelerou sua campanha de reabilitao, dessa vez enviando uma carta a Hitler atravs de Thorak. Mas seus esforos
foram to inteis quanto os da sua irm. O primeiro texto foi rejeitado porque Heinrich Hoffmann, fotgrafo de Hitler, que tambm tinha sido envolvido no caso, achou
seu tom exageradamente imperioso. Putzi, ento, apresentou uma verso mais obsequiosa, que foi mostrada a Hitler e que, dizem, obteve uma resposta favorvel. Entretanto,
persistiu o mesmo empecilho - Putzi insistiu em que s retornaria  Alemanha se recebesse uma garantia escrita pelo prprio por Hitler. Tal carta
- que, evidentemente, ele guardaria fora da cidade - permitiria que retornasse com honra e impediria Hitler de virar-se contra ele. "Se ele tivesse mandado uma carta,
um milagre poderia ter acontecido", disse Putzi mais tarde. "Eu acreditava nisso, por mais tolo que achem."
Quanto a Egon, ficou perplexo com a atitude ingnua do pai e enfatizou que mesmo uma carta pessoal de Hitler estaria longe de ser uma garantia absoluta de sua segurana.
"Voc  um tolo, papai", disse ele. Mas Putzi estava disposto a arriscar-se. "Se o homem me escrever, correrei o risco, mesmo que possivelmente seja morto depois",
disse ele.
No entanto, o "homem" no estava demonstrando nenhuma inclinao a escrever, e o prazo se esgotava. Em 4 de agosto, Putzi recebeu uma notificao de falncia e intimao
instruindo-o a apresentar-se  corte 12 dias depois.
A ltima esperana era Winifred Wagner, a amante de Bayreuth, uma das mulheres mais ntimas de Hitler. Nascida Winifred Williams, em Gales do Sul, quando rf, foi
enviada  Alemanha antes da Primeira Guerra Mundial e havia se casado com o filho do compositor, Siegfried. Porm ele
morreu em 1930, e ela passou a administrar o Festival Wagner sozinha desde nto. O amor de Hitler pelo compositor foi uma das principais caractesticas de sua vida
e o festival anual, um dos pontos altos do ano. Quando se hospedava na Haus Wahnfried, a suntuosa casa construda por Wagner, comportava-se sem a menor cerimnia.
Winifred, por sua vez, fazia o possvel para instru-lo. Tinha-se sentido atrada por ele antes que subisse ao poder e, a partir de 1933, tornou-se uma partidria
ainda mais fervorosa. Era uma das poucas pessoas que continuava a chamar Hitler de "Lobo"- seu codinome nos primeiros anos.
Winifred tinha enviado a Putzi um convite para visit-la em Bayreuth durante o festival e assistir a uma representao de Die Valkyrie, aparentemente por ordem de
Hitler. Embora o lder nazista no tivesse prometido nenhuma proteo, Winifred deixou claro que Putzi estaria em liberdade na Alemanha e que Hitler "voltaria a
ser muito cordial". Putzi deveria retornar e tudo ficaria bem, disse ela. Era um sinal encorajador. Winifred era "a ltima chance possvel de ele chegar ao homem
Hitler e no ao Fhrer, no a essa farda e coisas no gnero", escreveu ele. "Eu queria chegar ao velho Hitler de novo." Ainda assim, nem mesmo o "Hitler de Bayreuth"
era digno de toda confiana, e Putzi continuou querendo a carta.
Nesse meio-tempo, prosseguiam as discusses para o acordo com as revistas. Em 10 de agosto,'Putzi, Hillman e May finalmente se encontraram. Putzi entregou-lhes um
projeto para trs artigos, cada um com cinco mil palavras, ao mesmo preo de um dlar por palavra - com mil dlares a serem pagos no ato da assinatura. Acertaram
que ele assinaria um contrato preliminar em 14 de agosto - a tempo de ele pagar a sua dvida legal. O contrato final seria assinado 12 dias depois.
Antes do encontro com a Cosmopolitan, Putzi ligou para Winifred em Bayreuth, que lhe disse que haviam lhe garantido que ele estaria seguro ao retornar. Evidentemente,
no havia carta nenhuma, mas ela prometeu tentar persuadir Hitler a escrev-la. Alguns dias depois, Putzi recebeu um telegrama - de Martin Bormann, o Reichsleiter,
e no de Hitler. Bormann admitia a mensagem enviada por Winifred e oferecia mais garantias a Putzi de que podia retornar  Alemanha sem medo, onde lhe seria oferecida
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uma posio condizente. Tambm deixava claro que a embaixada alem em Londres cobriria todas as suas dvidas.
Em 18 de agosto, Putzi decidiu encerrar a questo de uma vez por toda e ligou de novo para Wagner. Alcanou-a durante a apresentao de O navio fantasma. Ele dissera
a seu ctico filho que escutasse a conversa na extenso
- Egon - tinha dito -, Frau Wagner  incapaz de mentir para mim porque gosta de mim.
Putzi e Wagner tiveram uma longa conversa, durante a qual ela insistiu em que ele retornasse.
- O senhor em questo de fato empenhou sua palavra? - perguntou Putzi, relutando em proferir o nome de Hitler.
- Voc volta e ele lhe escreve uma carta - garantiu-lhe ela.
Putzi insistiu que deveria receber a carta antes de deixar a Gr-Bretanha, mas havia pouco que Wagner pudesse fazer. Hitler s deveria retornar a Bayreuth em 24
de agosto - vrios dias depois que o prazo da falncia de Putzi expirasse.
Na mesma noite, Putzi recebeu uma carta do escritrio Berchtesgaden de Hitler, assinada por Bormann. Escrita em um tom levemente exasperado, reafirmava a oferta
anterior e no oferecia nada novo. Tinha-se chegado ao fim: a ruptura parecia inevitvel.
Em 18 de agosto, Putzi escreveu a Bormann o que pretendia que fosse a sua ltima carta. O nico homem capaz de desfazer os "eventos aviltantes" de fevereiro de 1937
era o Fhrer, escreveu ele, mas o fato de Hitler no ter-lhe fornecido a garantia que ele tinha pedido impedira que ele retornasse dignamente a seu pas. "Vejo-me
obrigado a adiar meu regresso e a assumir o esclarecimento do meu caso", concluiu
Uma semana depois, Putzi comprou a passagem de Egon para os Estados Unidos. No dia seguinte, 26 de agosto, assinou o contrato definitivo com a Hearsfs International-Cosmopolitan.
A sorte estava lanada. Depois de mais de dois anos de manobras, Putzi, enfim, rompia com o Terceiro Reich.

19
A SITUAO ESTAVA MELHORANDO para Putzi. Aps extensas negociaes, em
1 de setembro de 1939, ele assinou um contrato para escrever um artigo de cinco mil palavras
sobre "o carter e a histria confidencial" de Adolf Hitler para a Hearst's International-Cosmopolitan, pela soma considervel de cinco mil dlares. Hearst tinha
direito a mais dois artigos nos mesmos termos. Putzi recebeu 450 dlares imediatamente, com a promessa de mais
2.050 depois e os restantes 2.500 dlares no final. O momento foi infeliz, para dizer o mnimo. s 4h45 dessa manh, 53 divises do exrcito alemo, sob o comando
do general Walther von Brauchitsch atravessaram a fronteira com a Polnia em vrios pontos. Em algumas horas, tinham penetrado fundo no pas. A guerra-relmpago
de Hitler tinha comeado.
Egon deveria embarcar para a Amrica do Norte no dia seguinte, no Empress ofBritain, da Canadian Pacific Liner. Putzi viu-o partir e voltou para casa. Pretendia
ir ao encontro do filho alguns meses depois, mas primeiro tinha de encerrar seus negcios. Seus planos foram rapidamente alterados pelos eventos na Polnia. Nesse
mesmo dia, mais tarde, quando Putzi preparava-se para escrever seu artigo, bateram  sua porta. Dois policiais aguardavam do lado de fora.
Quase 75 mil alemes e austracos viviam na Gr-Bretanha, nessa poca, entre eles cerca de 55 mil judeus e outros adversrios do nazismo, predominantemente da esquerda,
que tinham fugido de seus pases desde que Hitler tinha assumido o poder. Apesar de a lealdade da maioria ser inquestionvel, as autoridades britnicas identificaram
dois mil como potencialmente
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perigosos para a segurana por serem considerados fazendo parte de redes de espionagem alem ou por serem nacional-socialistas confessos Decidiu-se det-los
imediatamente.
Putzi estava no topo da lista. Os policiais o levaram  Bow Street Aliens Office, onde foi fichado sob o nmero E.Z. 281247. Sua casa foi revistada e um grande nmero
de cartas e outros documentos, a maior parte em alemo, foram encontrados. A polcia trancou dois cofres e um arquivo e enviou as chaves ao superintendente do Special
Brandi of the Metropolitan Police. Putzi, nesse nterim, foi levado ao Olympia Exhibition Centre, a curta distncia de sua casa em West London, onde um campo de
deteno tinha sido improvisado.
Abrangendo quase um acre e com assentos para nove mil pessoas, o Olympia era a maior arena coberta da Gr-Bretanha, provavelmente da Europa. Inaugurada no Natal
de 1886 com o gigantesco Paris Hippodrome Circus, o imponente edifcio de tijolos vermelhos e pedra tinha sido, desde ento, usado para apresentar do Buffalo BTs
Wild West Show  exibio militar anual do Royal Tournament, assim como feiras mais tradicionais, como a Ideal Home Show. Alm disso, tinha sido, apropriadamente,
local de vrios encontros da British Union of Fascists de Oswald Mosley- inclusive em junho de 1934, quando judeus e outros antifascistas inoportunos foram brutalmente
espancados pelos camisas-negras de Mosley. Uma mostra do rdio acontecera ali at o dia anterior  chegada dos presos polticos. Agora, no lugar da mostra, havia
fileiras de leitos.
Os 41 homens reunidos no Olympia formavam um grupo diversificado. A associao passada de Putzi com Hitler tornava-o o mais conhecido de todos eles, mas havia tambm
vrios jornalistas proeminentes, empresrios e outros pilares da comunidade alem na Gr-Bretanha. Todos tinham sido detidos por serem considerados riscos  segurana.
No entanto, no que se tornou leitmotifda poltica do governo britnico, no foi feita nenhuma tentativa de discriminar entre partidrios e adversrios do regime
de Hitler nem mesmo de segregar um do outro. Portanto, pr-nazistas rancorosos que estavam, por acaso, na Gr-Bretanha na poca foram misturados com judeus e outros
que tinham sido forados a fugir da Alemanha. Em urn dos exemplos mais absurdos dessa poltica, Bernhard Weiss, judeu
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ex-assistente do chefe da polcia de Berlim, que partira depois que os nazistas assumiram o poder, foi detido junto com o capito Schiffer, o homem que supostamente 
teria
assinado a sua ordem de priso antes de ele prprio escapar depois da Noite dos Longos Punhais.
Em 3 de setembro, Putzi e os outros foram chamados logo depois das
11 horas da manh. O tenente-coronel Biggaley, comandante do centro, informou que a Gr-Bretanha e a Alemanha estavam, agora, em guerra e que a partir de ento seriam
considerados estrangeiros inimigos. Desse modo, de presos polticos passaram a ser prisioneiros de guerra e foi mandado que elegessem um lder para represent-los
perante as autoridades britnicas. Escolheram Weiss. Apesar de os nazistas entre eles preferirem Schiffer, perceberam que teriam mais crdito com seus captores se
escolhessem um judeu.
Nessa tarde, as fileiras de prisioneiros polticos, de modo geral da classe mdia, foram aumentadas com a chegada da tripulao de 37 homens do Pomona, um navio
cargueiro alemo contratado por uma companhia britnica para transportar bananas da Jamaica e que havia sido apreendido ao atracar em Londres. O humor entre os prisioneiros,
que at agora se dividiam igualmente entre nazistas e antifascistas, logo mudou. Os oficiais passaram a cumprimentar-se com a saudao de Hitler e a fazer observaes
antibritnicas e antissemitasT incitando os nazistas entre os originais 41. Egon, a essa altura, rumava ao meio do Atlntico. O Empress of Britam estava a apenas
seis horas de Cherbourg quando a guerra foi declarada, mas ele e os outros a bordo s ficaram sabendo vrios dias depois. O navio estava cheio e muitos tinham de
dormir nas quadras de squash. As janelas foram pintadas de preto e todos carregavam seus salva-vidas o tempo todo, para o caso de um ataque. Nos dias seguintes,
ele foi ficando cada vez mais preocupado com o destino de seu pai.
Quando anunciaram que aportariam em Quebec em 24 horas, Egon, de sbito, lembrou-se da farda da Juventude Hitlerista que levara consigo e receou a reao dos funcionrios
da alfndega canadense se a encontrassem. Decidiu conservar as calas de couro, mas sabia que a camisa marrom teria de desaparecer.
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Nessa noite, tirou a camisa da mala, enrolou-a e foi para o convs d popa. A lua brilhava intensamente e o convs estava deserto. Desenrolou-a olhou pela ltima
vez a farda com a faixa do brao com a sustica e a insgnia no ombro: Bann 325 Gefolgschaft 13. Ento, lanou-a o mais
longe que conseguiu, e o quepe em seguida. Observou-a tornar-se cada vez menor at finalmente atingir o mar abaixo. Fez uma pausa, virou-se e preparou-se para a 
nova vida
nos Estados Unidos. Na viagem de volta, o navio foi afundado por torpedos alemes.
O campo de deteno de Olympia era somente um centro de deteno temporrio e, em 5 de setembro, Weiss recebeu a ordem de preparar seu grupo para partir. s 10 horas
da manh seguinte, Putzi e vrios outros prisioneiros marcharam para a estao na Addison Road, em West London, onde um trem especial j exalava seu vapor. Os bales
de barragem sobre a cidade cintilavam ao sol como fileiras de nuvens prateadas quando o grupo partiu da estao.
O trem seguiu uma rota sinuosa, dirigindo-se primeiro a noroeste, na direo de Liverpool, depois atravessando a leste a Inglaterra central passando por Cambridge,
antes de descer de novo para o sul. Os prisioneiros no tinham sido informados de aonde estavam indo - se na Gr-Bretanha ou alm-mar - e cada mudana de direo
incitava novas teorias. J passavam das 5 horas da tarde quando finalmente alcanaram seu destino: Clacton-on-Sea, um resort  beira-mar muito conhecido, no litoral
ventoso de Essex, normalmente a apenas uma hora e meia de Londres. Depois de se alinharem na plataforma, marcharam at a cidade. A bagagem acompanhou-os de caminho.
Um grande nmero de locais ps-se a caminhar com eles e pareciam mais curiosos do que hostis. Depois de vrios dias trancafiados no Olympia, os prisioneiros deleitaram-se
com a brisa quente do entardecer.
O seu novo lar seria o Butlin's Holiday Camp. Billy Butlin, um showman sul-africano, que havia ido para a Inglaterra fazer fortuna, tinha percebido corretamente
o potencial turstico da massa em uma nova lei que
garantia as frias pagas a todos os trabalhadores, e em abril de 1936 inauellrara um acampamento em Skegness, Lincolnshire, na costa leste. O
campo Clacton tinha sucedido em junho de 1938. Foi um sucesso imediato. A capacidade inicial para 400 pessoas logo aumentou para trs mil. No jia em que a guerra 
foi declarada, Butlin
foi informado de que os dois campos haviam sido requisitados pelas foras armadas e recebeu ordens de acomodar os indivduos acampados em outro lugar. Na segunda-feira
seguinte, o exrcito tomou o acampamento em Clacton, enquanto a marinha tomava o de Skegness. Os dois foram cercados de arame farpado e holofotes foram adaptados.
O campo de Clacton era formado de uma srie de cabanas de madeira de cores vivas, idnticas - ou chals, como eram conhecidas - circundadas de canteiros de flores
bem-cuidados. Alm, espalhados por cerca de 28 acres de terra, havia um terreno de golfe e um gramado. O mar, visvel de partes do terreno, estava a menos de 90
metros. Cada cabana media trs metros por trs metros e tinha uma lmpada incandescente, dois leitos com colches de mola e cobertores de l brancos de boa qualidade,
e uma pia com uma torneira de gua fria. O campo tambm ostentava uma piscina ao ar livre, uma galeria de lojas, um pavilho para dana, quadras de tnis, campo
de futebol e instalaes para equitao e golfe. Como um dos prisioneiros falou: "Tudo o que a imaginao exuberante de um bancrio era capaz de conceber para um
feriado com a sua namorada era concretizado ali."
Infelizmente para os prisioneiros, a melhor das instalaes estava fora do alcance. Apesar de os ltimos hspedes terem partido h apenas um dia, o arame farpado
em volta do campo impedia o acesso aos campos de esportes e ao salo de jantar principal. Os prisioneiros s tinham permisso para freqent-los acompanhados de
policiais.
Mas a vida era bastante confortvel. Durante as primeiras semanas houve apenas oitenta prisioneiros no campo e o tempo estava extraordinariamente quente. Os homens
no foram requisitados a trabalhar e passavam a maior parte do tempo se socializando ao sol ou jogando tnis, futebol e voleibol. Aqueles com um pouco de dinheiro
nem mesmo precisavam limpar a cabana ou lavar a prpria roupa. Essas tarefas eram realizadas pelo pessoal do Pomona em troca de tabaco. Com a desculpa de dor de
dentes,
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os prisioneiros tinham permisso de ir  cidade, acompanhados de guardas, para se consultarem com um dentista. No era difcil persuadir
os soldados que os guardavam de dar um jeito de um desvio para o pub local Mas o aprisionamento gera necessariamente frustraes. O campo era administrado por membros
do Regimento de Essex, e alguns dos oficiais e outros sentiam, claramente, prazer em impor restries mesquinhas aos prisioneiros e punir os que no as respeitavam.
Os homens eram proibidos de fumar depois que escurecia, por receio de se tornarem um sinal para avies inimigos, e no tinham permisso para ter lminas de barbear,
como precauo para o caso de us-las para ameaar os guardas ou cortar a cerca. Aps vrias semanas, tambm foram requisitados a fazer "faxinas", como limpar o
refeitrio dos oficiais-apesar dos protestos de que isso era contra a Conveno de Genebra. Alm disso, seu nmero cresceu, e em algumas semanas havia ali mais de
trezentos prisioneiros.
Tambm era motivo de preocupao para grande parte dos internos a crescente tenso entre nazistas e antifascistas, que se agravara de maneira considervel desde
o tempo no Olympia. O capito Sievers, o comandante fervorosamente nazista do Pomona, no demorou em proibir seus homens de trabalhar para os judeus ou outros tais
como Putzi, que haviam fugido da Alemanha. Os nazistas tornavam-se mais assertivos a cada avano dos exrcitos de Hitler na Polnia e comearam a agredir e a bater
nos judeus. Os antifascistas escreviam cartas ao comandante do campo e a vrias autoridades britnicas para protestar e pedir que fossem separados dos nazistas,
mas seus pedidos no eram atendidos.
Putzi tinha pouco interesse nas quadras de esportes de Clacton. Como muitos de seus camaradas prisioneiros, sentia-se ultrajado por ter sido encarcerado dessa maneira,
sem nenhuma acusao ou julgamento e dirigia todos os seus esforos para garantir a sua libertao. Havia um certo motivo para otimismo. Logo depois de ter sido
levado ao campo, o governo britnico anunciou o estabelecimento de 120 tribunais encarregados de examinar os casos de todos os estrangeiros inimigos no pas. Seriam
divididos em trs grupos: Categoria A, aqueles julgados indignos de confiana e que seriam aprisionados imediatamente; Categoria B, aqueles cuja confiana no era
absoluta e que ficariam sujeitos a determinadas restries; e
categoria C, aqueles que teriam permisso para levarem sua vida de antes e at mesmo trabalharem na unidade civil de defesa e na indstria de armamentos.
Os tribunais s iniciariam seu trabalho em 2 de outubro, mas Putzi psse rapidamente a reunir seu caso. Tinha vrios amigos influentes na GrBretanha. Ele e seu
advogado comearam a compilar uma lista daqueles que fariam lobby a seu favor ou que testemunhariam sobre seu carter perante um tribunal. Incluam Sir Robert Vansittart,
o principal consultor diplomtico do governo, e David Margesson, membro do Parlamento.
Em 26 de setembro, Putzi escreveu uma "petio humilde" ao secretrio do Ministrio do Interior, pedindo para ser libertado. Na carta de nove pginas fazia um relato
de sua vida e da desavena definitiva com Hitler. Embora admitisse ter mantido vnculos com o regime nazista depois de sua partida da Alemanha, insistia em que havia
rompido, desde ento, completamente com Berlim - citando uma carta que escrevera a Hitler em 18 de agosto de 1939. Tambm comentava que havia assinado um contrato
com Hearst para contar a sua histria e inclua uma cpia como prova. "Seu requerente respeitosamente prope que longe de sua libertao ser um perigo ao Estado,
divulgaria aos Estados Unidos e ao resto do mundo uma informao de valor incalculvel como propaganda contra o atual regime nazista ao mesmo tempo que a questo
da Declarao de Neutralidade dos Estados Unidos  posta na balajia", escreveu ele.
Nesse nterim, as autoridades britnicas continuavam a estudar Putzi. Algumas semanas depois que ele foi detido, dois oficiais do Special Brandi voltaram a revistar
sua casa. Grande parte do que encontraram parecia com certeza complicar o caso. Entre o grande nmero de documentos e a correspondncia recuperada estava uma cpia
da carta que Gring tinha escrito a Putzi quando estava na Sua, considerando a sua partida da Alemanha como resultado de nada alm de "uma brincadeira inofensiva";
outra de Unity Mitford, datada de 7 de fevereiro de 1938, de Viena; e transcries de conversas entre Putzi, Unity e sua irm, Diana. Em uma delas, Diana admitia
ajudar Unity, seu amigo, o capito [Fritz] Wildemann, e A. H. - obviamente, Adolf Hitler - na perpetrao da "brincadeira inofensiva". Havia tambm a carta de Martin
Bormann, datada do ms anterior, garantindo a Putzi seu retorno  Alemanha.
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Embora Putzi tivesse sido rigorosamente vigiado desde a sua chegada dois anos antes, documentos da inteligncia, desde ento tornados pblicos, mostram que o M15
e o Special Branch nunca tinham se convencido das razes que o haviam levado  Gr-Bretanha nem de suas intenes. A deflagrao da guerra tornara ainda mais importante
estabelecer sua verdadeira lealdade. Leonard Ingrams - descrito em um documento como "o irmo de Ingrams que  nosso oficial da contraespionagem em Aden" pediu e
recebeu autorizao para ver Putzi no campo de Clacton.
Ingrams, que disse conhecer Putzi h muito tempo, anotou suas impresses para o capito Guy Liddell, no Ministrio da Guerra, em 25 de setembro. Sua misso tinha
sido trplice: descobrir se Putzi mantinha contato com qualquer oposio organizada a Hitler na Alemanha; ver se havia alguma coisa que Putzi pudesse fazer para
desestabilizar a situao em sua ptria; e solicitar qualquer conselho que Putzi pudesse dar aos aliados sobre como realizar a guerra.
Entretanto, Putzi no disse a Ingrams nada que ele j no soubesse. Durante a entrevista, enfatizou que poderia provar que os nazistas tinham tentado mat-lo - o
que, como escreveu Ingrams, no era prova nenhuma.  objeo de que era um alemo patriota e, sem dvida, interessado na vitria da Alemanha, Putzi retorquiu que
no existia essa coisa de alemo patriota, "sendo os prisioneiros no campo prova suficiente de que no havia nenhuma unidade nesse pas". Putzi, concluiu Ingrams,
era "um homem de grande personalidade e as suas circunstncias atuais provavelmente o afetavam mais do que a uma pessoa comum. Do lado pessoal, queixou-se dos ps
frios e da escassez de comida, e me pareceu angustiado. Ele gostaria que eu lhe mandasse um pouco de queijo. Seria permitido?"
Liddell remeteu a carta dois dias depois a Vansittart, mas destacou que as chances de ele ser libertado eram pequenas. "Talvez ele tenha mudado muito desde a ltima
vez que o vi, logo depois que os nazistas assumiram o poder. Apesar de gostar dele pessoalmente, tenho a impresso de que  uma pessoa capaz de fazer qualquer coisa.
Acho que  fundamentalmente alemo e que permanecer sendo um alemo", concluiu.
Os jornais, nesse meio-tempo, tambm ficaram sabendo da priso de Putzi. Um artigo no New York Times, em 4 de outubro, dizia: "Sob outras
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circunstncias, Ernst Franz Sedgwick Hanfstaengl teria passado pela vida jovialmente, mas no em evidncia. Era a melhor das companhias. Tocava piano, cantava, contava
histrias. No  difcil pensar nele como afetado por um fanatismo. Um homem ingenuamente amvel, fraco o bastante para se deixar impressionar pela autoridade e
poder, talvez no merecesse destino pior."
As autoridades britnicas ainda no tinham perdido a esperana em Putzi. No mesmo dia em que o artigo foi publicado, ele recebeu a visita de um capito que havia
sido enviado pelo comandante do campo para sondar o tipo de ajuda que poderia oferecer ao esforo de guerra britnico por meio da publicao de suas memrias nos
Estados Unidos. A resposta de Putzi desapontou seus captores. Apesar de estar preparado para desempenhar algum papel na propaganda antinazista, disse estar relutante
quanto a fazer um ataque pessoal direto a Hitler. Tambm enfatizou a sua convico de que, ao escrever uma mensagem aos alemes, "a destruio do hitlerismo no
significaria a reabilitao da comunidade judaica alem". Ao contrrio, seria "um ingls louro falando com um alemo louro", disse ele. "A propaganda pr-judeu,
no presente estado da opinio alem, seria um erro fatal e adverso ao entendimento que estamos tentando criar entre os povos britnico e alemo e a derrubada do
regime de Hitler."
Um relatrio sobre o interrogatrio de Putzi escrito seis dias depois pelo Special Branch revela a luta que ele enfrentou tentando convenc-los de que rompera com
Hitler. "Hanfstaengl esmerou-se, manifestamente, em esquivar-se de perguntas inconvenientes, impresso mais tarde fortalecida pelas contradies ostensivas e inverdades
deliberadas", escreveu seu inquiridor. "Sua sinceridade  bastante questionvel, e considero que seus protestos de dio contra o regime nazista e suas declaraes
de simpatia por este pas devem ser aceitos com extrema cautela." As concluses do relatrio, registradas em 18 de outubro, foram condenatrias: Putzi tinha sido
simptico  Alemanha e ao regime nazista at a deflagrao da guerra e havia evitado publicar seu livro por medo da ruptura com seu pas. Na verdade, se no fosse
a sua insistncia em receber um pedido de desculpas de Hitler, com certeza, ainda ocuparia um alto cargo no governo nazista.
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A inteligncia britnica teria ainda ficado mais cautelosa em relao a Putzi se tivesse conhecimento de que as autoridades alems tinham persistido em seus esforos
de persuadi-lo a retornar, mesmo depois da deflagrao da guerra. Em sinal da importncia ainda dada ao caso de Putzi, Hitler tinha despachado uma ordem, em 5 de
setembro,  embaixada sua na Gr-Bretanha, que representava os interesses alemes, de contact-lo. Mesmo que Putzi no estivesse preparado para regressar  Alemanha,
poderia, pelo menos, pensar em ir para a Holanda, dizia Hitler. A Sua recusou-se a transmitir uma mensagem que considerava poltica, portanto os alemes tiveram
de tentar pass-la atravs dos holandeses. Seus esforos foram em vo; somente quando Hitler foi alertado da publicao de uma matria no Daily Express revelando
o aprisionamento de Putzi  que entendeu por que ele no respondera ao seu chamado.
O programa da internao foi controverso desde o comeo. Apesar de as sees mais xenfobas da imprensa popular britnica mostrarem que as condies desfrutadas
pelos prisioneiros polticos eram mil vezes melhores que os horrores dos campos de concentrao de Hitler, no h dvida de que alguns prisioneiros sofreram consideravelmente.
Maridos e mulheres foram separados e prisioneiros eram freqentemente alojados em cabanas sem colches. Tambm no tinham direito a ler os jornais, escutar o rdio
ou receber cartas, e no tinham como descobrir o que havia acontecido com os membros de sua famlia. Houve vrios suicdios. Grupos humanitrios argumentaram em
vo para uma melhoria de condies, apesar do apoio de vrios membros do Parlamento e de outras personalidades proeminentes, como o escritor H. G. Wells.
Para muitos crticos, o aspecto mais chocante dessa poltica era o fato de vrios desses prisioneiros serem ou leais aos sditos britnicos ou estrangeiros que haviam
fugido da Alemanha ou da Itlia precisamente por seu envolvimento na luta contra o nazismo ou o fascismo. No obstante, as autoridades britnicas continuaram a tratar
os pr-nazistas e antifascistas de maneira igual, rejeitando os apelos de Weisss, entre outros, para
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que os dois grupos fossem pelo menos separados fisicamente. De fato, segundo Alec Natan, um prisioneiro antifascista extremado que escreveu um relato de suas experincias
quando detido, os nazistas eram com freqncia tratados melhor, porque o governo britnico estava preocupado com a retaliao contra seus cidados prisioneiros na
Alemanha.
Putzi viu-se em uma situao desconfortvel. Embora pudesse ter esperado algo semelhante  posio de um heri no meio nazista, por causa de sua intimidade passada
com Hitler, a maneira como partira da Alemanha depunha contra ele. Tampouco sentia-se  vontade com os antifascistas, especialmente os judeus. Eles, por sua vez,
desconfiavam, compreensivelmente, de um homem que tinha sido um colaborador na ascenso do nazismo ao poder. Em conseqncia, Putzi foi deixado em uma espcie de
terra de ningum entre os dois - um lugar bastante apropriado, considerando-se seus sentimentos ambguos em relao  liderana em Berlim e  guerra. Independente
de sua apreenso em relao aos excessos dos nazistas, a briga e Putzi com Hitler foi, em sua essncia, uma disputa de honra, e, depois que o estado de guerra se
imps, foi difcil para ele, como alemo patriota, torcer pela vitria britnica.
Seu companheiro de recluso, Natan, que era fascinado por Putzi, ficou impressionado com essas contradies em seu carter. Putzi, anotou ele, no tinha abandonado
a.ideologia do nacional-socialismo e ainda defendia com firmeza vrios de seus pontos originais, culpando Goebbels e Rosenberg "pela desordem que levou  guerra".
Mal conseguia mencionar Hitler: um sinal evidente de seu ressentimento por ter cado em desgraa com seu velho amigo. Natan achou Putzi tambm inconsistente quando
se tratava da questo da poltica nazista em relao aos judeus. Embora no fosse apriori um antissemita e um crtico do "absurdo" das leis de competio de Nuremberg,
ops-se veementemente  afluncia em massa de judeus do leste  Alemanha, que ocorreu a partir de 1917. De modo estranho, Putzi parecia ver a si mesmo como o lder
de um futuro Quarto Reich, "que evitaria cometer os erros de seus predecessores e que poderia at mesmo tentar introduzir princpios democrticos em sua ideologia".
Para Natan, isso era simplesmente auto iludir-se. Tudo que Putzi tentara at ento tinha fracassado, concluiu Natan, e se ele estava to determinado a ser o
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foco de ateno faria melhor se empregasse suas habilidades no concert hall e no na poltica. Tampouco essa era uma opo no momento.
Putzi no permaneceu muito tempo em Clacton. No comeo de outubro, a estao comeou a mudar: o sol do outono foi substitudo por tempestades e chuva pesada, e as
cabanas comearam a encher-se de gua. Ficou claro para as autoridades britnicas que o campo era imprprio para habitao humana no inverno, e os prisioneiros foram
informados de que seriam removidos para o sul. A data de sua partida seria em 16 de outubro. Os que podiam pagar quatro xelins e seis pence-menos de um quarto de
libra - por dia foram transferidos para o relativamente luxuoso campo classe A em Paignton, em Devon, na chamada Riviera britnica, onde lhe prometeram comida melhor
e acomodaes mais confortveis. Os que no tinham o dinheiro - o que, para tristeza de Putzi, o inclua - foram informados de que seriam enviados a Seaton, cerca
de 48 quilmetros a leste, ao longo da costa de Devon. Mais uma vez, no foi feita nenhuma tentativa de separar os nazistas dos antifascistas. Nessa manh, quando
os homens marchavam para a estao de ferro de Clacton, as melodias de Land ofHope and Glory e God Save the Queen misturavam-se s canes patriticas alems.
O novo lar de Putzi foi o Warner's, um rival mais barato e de qualidade inferior do Butlin's, cujos freqentadores pertenciam basicamente  classe mdia baixa. Para
desalento dos prisioneiros, as condies em Seaton eram muito menos agradveis do que em Clacton. Os proprietrios do campo tinham retirado a maioria das instalaes
e equipamentos antes de pass-lo ao Ministrio da Guerra, deixando pouco mais de duas sries de cabanas com leitos simples. Quando os prisioneiros chegaram, no
encontraram uma nica cadeira, colcho ou travesseiro. Quase todos os espelhos estavam quebrados e as torneiras pingando.
A comida era tambm muito inferior  de Clacton. Uma das poucas satisfaes de Putzi nas semanas seguintes foi capturar enguias que nadavam no solo pantanoso, por
um buraco em sua cabana. Pessoalmente, no ligava para enguias, mas havia muitos compradores entre seus colegas internos - que, em troca, engraxavam seus sapatos.
Alm disso, iniciava-se o terrvel inverno ingls. Um dos prisioneiros comparou suas condies
com as de um campo de concentrao nazista: Dachau war besser [Dachau era melhor], declarou.
A hora de Putzi chegou em 30 de outubro, quando se apresentou ao comit consultivo do Ministrio do Interior, conselho que apreciava os apelos contra ordens de priso.
Localizava-se na Burlington House, em piccadilly, que hoje abriga a Britain's Royal Academy of Arts. Putzi foi levado de Seaton a Londres no dia anterior. O quadro
de cinco membros era presidido por Norman Birkett, advogado proeminente que, depois da guerra, foi um dos juizes britnicos no tribunal de crimes de guerra de Nuremberg.
O interrogatrio, que durou mais de trs horas, foi intensivo, abrangendo a carreira toda de Putzi com Hitler. Tambm abarcou, com detalhes, seu comportamento desde
a sua chegada na Gr-Bretanha e suas negociaes com os nazistas. O tom foi cordial.
Putzi j tinha apresentado ao comit uma petio expondo seu caso; tambm tinha includo o depoimento, sobre seu carter, de dez membros do Parlamento e outros membros
proeminentes do establishmentbritnico, tais como Vansittart. Durante a audincia, tentou descrever-se como um nacionalista alemo decente que se desencantara com
os nazistas quando seus planos espantosos se tornaram claros, e que tinha fugido do pas depois que Hitler tentara mat-lo. Entretanto, seu contato constante com
os ajudantes de Hitler at semanas antes de sua deteno pesaram contra ele. O comit tambm estava preocupado com que, apesar de toda a revolta professada contra
os eventos na Alemanha, ele tinha deixado claro que teria ficado feliz em regressar e trabalhar para Hitler no vero de 1939 em troca de um pedido pessoal escrito
de desculpas. Sua insistncia em que a sua nica razo para isso era exercer uma influncia moderadora sobre a poltica nazista no foi muito convincente. O comit
achou-o "vaidoso, presunoso e irresponsvel".
Qualquer conselho decente teria recomendado outra defesa. A Putzi, entretanto, no foi permitida nenhuma, tampouco permitiram que conversasse com Brown antes da
audincia. De fato, parece que a entrega de uma carta que escreveu a seu advogado foi deliberadamente prorrogada pelas autoridades.
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Em 9 de novembro, G. P. Churchill, secretrio do comit, escreveu as concluses em um documento assinalado Confidencial. "A inferncia  bvia que Hanfstaengl, por
princpios, no se opunha ao regime de Hitler mas, pelo contrrio, estava ansioso por e disposto a reconciliar-se e a assumir um papel em uma posio de poder, se
o pedido pessoal de desculpas pelo incidente de 1937 tivesse sido oferecido", escreveu ele. Por esse motivo concluiu, os membros do comit votaram unanimemente contra
a libertao de Putzi. "Ficariam apreensivos, para dizer o mnimo, se esse homem, no passado to poderoso nos crculos nazistas, e que, at o ltimo momento, mostrou-se
ansioso por voltar a ser poderoso, estivesse em liberdade em um momento como esse."
Putzi ficou decepcionado com a deciso, mas no surpreso. "Porque respondi  sua (de Birkett) pergunta concludente se eu queria retornar  Alemanha com um 'sim',
o comit decidiu pela minha permanncia ali", escreveu. Cinco dias depois, Putzi e um grupo de outros prisioneiros foram removidos de novo, dessa vez para a pista
de corridas em Lingfield Park, em Sussex. De modo geral, foi um grande progresso em relao a Seaton. Os prisioneiros que pagavam por sua manuteno foram alojados
nas dependncias dos scios, enquanto Putzi e os outros foram conduzidos  tribuna principal. O telhado de vidro protegia do vento e da chuva, e o aquecimento central
revelou-se eficaz no que seria um inverno rigoroso. Os prisioneiros tambm ficaram agradavelmente surpresos com a gentileza com que foram tratados pelo comandante
do campo, o major Ayres, e seu pessoal. Brown, nesse meio-tempo, continuava a fazer lobby a favor de Putzi. Em 20 de novembro, requereu de maneira formal ao conselho
consultivo uma nova audincia; a impossibilidade de seu cliente consult-lo antes do caso caracterizou que lhe foi negado o aconselhamento legal de que tinha direito,
alegou. O Ministrio do Interior no se deixou influenciar. Em
1 de dezembro, Putzi recebeu uma carta dizendo que ele continuaria detido. Putzi no aceitou bem a recusa a seu recurso - principalmente porque muitos daqueles
detidos ao mesmo tempo que ele j estarem sendo libertados. Segundo Alec Natan, Putzi comeou a sofrer cada vez mais "ataques de histeria" que prejudicavam a relao
com os outros prisioneiros. "Comeou a mudar a sua posio, resmungando o tempo todo, e tornando-se
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um mexeriqueiro malicioso", escreveu Natan sobre Putzi. "Um antissemitismo violento tambm se apossou dele." Para horror de muitos antifascistas, Putzi tambm representou
um papel importante em uma celebrao paga com que os nazistas assinalavam o solstcio de inverno, que se encerrou com a cano "Horst Wessel Lied" e o hino nacional
alemo, ao redor de uma fogueira na pista de corridas.
No comeo de 1940, Putzi foi transferido para outro campo, em Swanwick, em Derbyshire, que j tinha adquirido a reputao merecida de um canteiro de nazistas. Alguns
antifascistas suspeitavam que o comandante do campo simpatizava com os nazistas. Judeus e outros crticos do regime eram regularmente atacados - na maioria das vezes
na frente de guardas, que quase nunca intervinham. "No se irritem", um oficial britnico, segundo rumores, disse depois de assistir a um incidente desse tipo. "
simplesmente como uma escola pblica, em que os novatos sempre apanham como uma espcie de iniciao."
Foi demais para Putzi, que, at ento, tinha ficado neutro nos campos pr e antinazistas. Em abril, finalmente se viu empurrado para as fileiras antifascistas ao
se recusar a participar das festividades que celebravam o aniversrio de Hitler. Como conseqncia, foi alvo de tormentos freqentes e tornou-se ainda mais antipatizado
ao interceder, em vrias ocasies, a favor de prisioneiros judeus. Acuado, certo dia, por cinco ou seis nazistas no lavatrio, exibiu suas mos enormes e avisou
seus agressores de que talvez conseguissem mat-lo, mas que pelo menos um no esqueceria dele pelo resto da vida, porque perderia a orelha nessa luta. Decidiram
no correr o risco.
Em maio, a provao de Putzi chegou ao fim. Depois de vrios apelos, obteve permisso, para seu grande alvio, de retornar ao relativo conforto de Lingfield. L,
encontrou um piano e formou um quarteto de piano com trs de seus colegas prisioneiros.
Durante o tempo em Swanwick, a questo levantada foi se permitiriam que escrevesse um artigo sobre Hitler. As autoridades britnicas eram a favor, especialmente
por acharem que poderia ter um valor de propaganda considervel. O Ministrio do Interior, entretanto, insistiu em que ele s poderia fazer isso no cativeiro. No
havia dvidas de que era impossvel"libertar esse homem que era, com certeza, o mais perigoso de todos os prisioneiros" disseram.

20
PUTZI SERIA REMOVIDO de novo, dessa vez para o outro lado do Atlntico. A guerra ia mal para a Gr-Bretanha na primavera de 1940. Os exrcitos de Hitler tomaram
a Noruega e a Dinamarca em abril; em maio, atacaram os Pases Baixos e a Frana. No fim do ms, houve a evacuao forada das foras britnicas das praias de Dunquerque.
Em 14 de junho, os alemes entraram em Paris; oito dias depois, o armistcio franco-alemo foi concludo em Compigne e a metade norte da Frana foi ocupada pelos
nazistas.
Os temores britnicos de uma invaso alem se intensificavam, assim como a preocupao sobre o papel que poderiam representar os estrangeiros residentes. Histrias
da assistncia recebida dos quinta-colunas pelos invasores nazistas nos pases ocupados aumentou o medo do "inimigo interno". Em 12 de maio, o Observer relatou quantos
dos Reichsdeutsche vivendo na Holanda, com vistos especiais, tinham aguardado a chegada dos paraquedistas alemes. Dois dias depois, o Daily Express comentou como
"chocolates e vinhos envenenados, espies disfarados de padres, carteiros e criadas, todo tipo de artifcio para enfraquecer a confiana e causar confuso tinha
sido usado pelos nazistas".
Winston Churchill, que sucedeu Neville Chamberlain como primeiroministro em 10 de maio, estava determinado a impedir que a Gr-Bretanha sofresse o mesmo destino.
Um dos primeiros gestos de Anthony den, ministro da Guerra em seu novo governo de coalizo, foi anunciar a criao de uma guarda cvica, a Local Defence Volunteers
- mais tarde conhecida
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303
como Home Guard -, para repelir invasores potenciais. Durante as semanas que se seguiram, metralhadoras foram posicionadas em Whitehall, postes sinalizadores retirados
das ruas para confundir invasores, e outorgado  polcia e militares o direito de entrarem em casas suspeitas de conterem equipamento usado para fazer sinais ao
inimigo.
Ao mesmo tempo, aumentavam os pedidos para se recolher todos os estrangeiros inimigos das categorias "B" e "C" que, at o momento, tinham permisso para ficar livremente
na Gr-Bretanha. "No seria muito melhor prender todos eles, e ento selecionar os bons?" perguntou o coronel Burton, membro conservador do parlamento. Diante de
uma campanha conjunta da imprensa da direita, o governo agiu. Durante maio, quase trs mil estrangeiros inimigos vivendo dentro da faixa costeira de 32 quilmetros,
que ia da Esccia, ao norte, a Southampton, ao sudoeste, foram detidos. Em seguida, todas os estrangeiros da categoria "B"- aproximadamente trs mil homens e 3.500
mulheres - tambm foram aprisionados. "Pas salvo do golpe da quinta-coluna" declarou o Daily Herald. Nem mesmo isso foi o bastante para alguns. Em 21 de junho,
o governo decidiu prender tambm todos os da categoria "C".
At onde dizia respeito s autoridades, a priso de estrangeiros era uma melhoria evidente em relao a deix-los transitando em liberdade pela Gr-Bretanha, onde
ficariam em posio de cometer atos de sabotagem. Mas se temia que mesmo aqueles nos campos pudessem ser libertados por soldados alemes que avanavam e passassem
a servir como uma quintacoluna. Portanto, o Ministrio da Guerra tomou uma deciso de selecionar cerca de 7.500 dos mais perigosos potencialmente e, para evitar
o perigo, "export-los" para a Austrlia e Canad.
Putzi estava entre os escolhidos. Ele partiu de Liverpool em 20 de junho a bordo do Duchess ofYork, o primeiro dos trs navios que zarpariam com o intervalo de alguns
dias uns dos outros. Como nas mudanas anteriores, os prisioneiros foram mantidos no escuro quanto ao seu destino. Somente quando o trem chegou ao porto de Liverpool
e avistaram o navio perceberam que atravessariam o Atlntico.
A travessia teve pouco em comum com as viagens transatlnticas anteriores de Putzi. As condies a bordo do Duchess ofYork eram terrveis; o
navio transportava 2.500 prisioneiros polticos, mais do dobro de sua capacidade normal. A viagem deu a Putzi a oportunidade de refletir sobre a queda dramtica
e brusca de sua sorte. Aps oito dias no mar, o navio checou a salvo em Quebec. Aqueles prisioneiros a bordo do segundo navio, o Arandora Star, tambm com destino
ao Canad, no tiveram tanta sorte. Em 2 de julho, um dia depois de zarpar de Liverpool, o navio foi torpedeado e afundado por um submarino alemo do lado da costa
oeste da Irlanda. Cerca de 682 dos 1.571 refugiados alemes e italianos a bordo perderam
suas vidas.
Apesar do desastre, o governo britnico continuou com a sua poltica de transferir os prisioneiros polticos para o outro lado do Atlntico. Um total de mais de
35 mil prisioneiros de guerra e nipo-canadenses ficaram presos no Canad durante a guerra. Ficaram alojados em 26 recintos cercados e dezenas de campos menores.
Um dos trs campos na remota e inspita margem do Lago Superior foi montado em uma fbrica vazia em Red Rock, Ontrio. Foi para a que Putzi foi levado.
Os prisioneiros ficaram a milhas de distncia da batalha entre a Royal Air Force e a Luftwaffe que, no vero de 1940, assolaria os cus da GrBretanha. Mas a vida
em Red Rock era dura, especialmente quando o rigoroso inverno canadense se instalou e a temperatura caiu muito abaixo de zero. Putzi passava grande parle de seu
tempo lendo. Seu gosto era ecltico: alm do estudo da histria, filosofia e literatura, lia a Bblia simultaneamente em ingls, grego, latim, francs, alemo e
holands, comparando a qualidade das tradues. Depois tambm estudou o Coro. Suas cartas para a sua terra revelavam nostalgia da beleza dos Alpes bvaros e da
Munique que conhecera quando criana. A relao com a maioria dos outros prisioneiros, entretanto, no era melhor do que tinha sido nos campos na Gr-Bretanha. O
sentimento predominante em Red Rock era pr-nazista
- a ponto de um representante do Ministrio do Interior britnico enviado ao Canad para entrevistar aqueles que se diziam adversrios do regime nazista nem mesmo
se dar ao trabalho de ir at l.
Embora Putzi j tivesse se manifestado publicamente contra Hitler, a natureza de sua partida da Alemanha o colocava em uma situao embaraosa e ele e outros adversrios
do regime eram com freqncia ameaados
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pelos "ultranazistas". A situao no melhorou nada quando Egon deu uma entrevista  imprensa canadense em setembro, em que dizia estar feliz por seu pai "estar
o mais distante possvel da probabilidade da morte nas mos de nazistas". Putzi enviou a seu filho uma carta indignada"Tive de convenc-los de que voc provavelmente
tinha-se expressado mal e que devia ter querido se referir  possibilidade, agora felizmente eliminada de eu ser morto por algum torpedo ou ataque areo alemo",
escreveu ele
Putzi podia estar longe da Gr-Bretanha, mas no tinha sido esquecido. Em novembro, cinco meses depois de ter cruzado o Atlntico, Charles A. Smith, editor em Londres
do Hearsfs International News Service, na Fleet Street, escreveu ao Ministrio do Interior salientando que Putzi continuava sob contrato para escrever seu artigo
para a International-Cosmopolitan. Smith pedia permisso para Putzi escrev-lo e ter seus papis de volta. Em uma carta no ms seguinte, Smith dizia que "o artigo
contemplado teria um valor de propaganda extraordinrio do ponto de vista britnico, da maneira como tentaria expor Herr Hitler". Smith oferecia-se para enviar ao
Ministrio do Interior cpias do contrato.
Os britnicos foram precavidos, mas, no ms seguinte, "depois de considerar o caso com cautela", concordaram em devolver a Putzi seu material. O Special Branch entregou-o
ao seu advogado, Kenneth Brown, dois dias depois do Natal. Inclua quatro dirios Collins"Paragon", quatro cadernos de anotaes de folhas soltas, dois dirios,
vrios vistos especiais para o Reich alemo, cartas, documentos e um passaporte alemo, n 141.R.611/36, emitido em Berlim, em 2 de fevereiro de 1937, no nome de
Ernst Lehmann.
Em fevereiro do ano seguinte, o escritrio de Hearst em Londres pediu a Brown que enviasse os documentos ao Canad. Brown separou cuidadosamente o material mais
delicado do resto para acelerar o processo, mas o Ministrio do Interior fez corpo mole e recusou a permisso para o envio de alguns dos documentos, que incluam
os dossis sobre Winifred Wagner e Gring e outro contendo a correspondncia com Unity Mitford. O Ministrio do Interior alegou ser simptico ao empenho dos editores
norte-americanos, mas observaram que os problemas que enfrentavam eram "risco comercial comum se publicassem artigos de nazistas proeminentes como Hanfstaengl, que,
provavelmente, permaneceriam presos se
continuassem no pas ou seriam condenados  morte se retornassem  Alemanha". Tambm insistiram em que tudo o que Putzi escrevesse fosse enviado de volta aos censores
na Gr-Bretanha para ser aprovado, mesmo que se baseasse em informao obtida na Amrica do Norte. Somente em julho de 1941 - quase oito meses depois de o primeiro
pedido ter sido feito .- os documentos foram liberados, e no antes de os advogados de Putzi terem, pessoalmente, pedido ao ministro do Interior, Herbert Morrison.
No comeo de 1941, Egon, agora no segundo ano da faculdade em Harvard, estava pronto para tomar uma deciso por conta prpria. Em 22 de setembro de 1939, tinha sido
um dos alunos que atravessara a sala de matrcula para se unir s fileiras dos calouros. A controvrsia desencadeada to furiosamente durante a visita de seu pai
cinco anos antes tinha desaparecido quase que por completo; a sua admisso mereceu somente uns dois pargrafos no topo da lista de "prognie de celebridades", que
recebeu a matrcula 43. Mas ele tambm foi uma personalidade digna de nota. Quando estava  uma das compridas mesas do Memorial Hall, preenchendo formulrios interminveis,
flashes, de sbito, espocaram  sua volta. Seguiram-se uma srie de entrevistas a jornais.
Egon herdara um pouco a propenso de seu pai para ser o centro das atenes, e gostou disso - mesmo que no pudesse esquecer que o interesse no era nele, e sim
em seu pai. Entretanto, era difcil ficar indiferente, especialmente quando baixou os olhos para um jornal deixado em um vago de metr de Boston e viu seu prprio
rosto encarando-o. Inevitavelmente, a ateno se desvaneceu alguns dias depois, tendo ele de retomar
a vida normal de estudante.
Em 2 de fevereiro de 1941, vspera de seu aniversrio de 20 anos, Egon alistou-se no exrcito norte-americano. Como ainda no tinha idade suficiente, precisou de
uma carta de sua me, Helene, que deixara a Alemanha e regressara a Nova York antes de a guerra ser deflagrada na Europa. Ela forneceu-a de bom grado. Pearl Harbor
s aconteceria dali a dez meses e persistia um grau extraordinrio de isolacionismo em Harvard. Egon ficou
306
impressionado com o nmeros de pessoas na universidade que acredita'vam que aquela era uma guerra puramente europia em que os Estados Unidos no cometeriam o erro
de se envolver. No obstante, Egon estava convencido de que, mais cedo ou mais tarde, os Estados Unidos se uniriam aos aliados. Por esse motivo, considerando a sua
ascendncia, achou que tinha de pr as cartas na mesa.
Na festa de despedida na International House, onde vivia, Egon garantiu a seus amigos que estava "purificado das idias que me levariam a me tornar um brbaro de
Hitler. E me sinto orgulhoso". Planejou o primeiro dia no exrcito como um presente de aniversrio para si mesmo. "Esta  uma era de violncia, no de erudio",
acrescentou. "Estou me alistando no exrcito amanh para defender um modo de vida diretamente oposto  ideologia de Hitler e seus gngsteres."
H muito tempo ele queria ser piloto e, como parte de seu treinamento na Juventude Hitlerista, tinha feito parte de um grupo selecionado para estudar aerodinmica
e aprender a voar. Seria uma ironia tornar-se piloto para combater contra a Alemanha, declarou, pois "quando era garoto e vivia na Alemanha, o marechal Gring parabenizou-me
por minha percia no tiro ao alvo e disse que eu daria um bom soldado. Se de fato o for, serei bom ao bombardear Munique, pois conheo muito bem o lugar. Bombardearei
tudo, menos as galerias de arte, as igrejas e as cervejarias. No, pensando bem, bombardearei as cervejarias, pois se h alguma coisa que deixe o povo de Munique
revoltado,  justamente priv-lo da sua cerveja diria."
Os jornais logo apossaram-se de sua deciso. "Filho de Putzi Diz 'Tio Sam Em Vez de Tio Adoldf'", lia-se no Daily Record debaixo de uma fotografia de Egon fazendo
o juramento de fidelidade para tornar-se um cadete no U.S. Army Air Corps no Gunter Field, no Alabama. Outro jornal estampava uma foto sua com o corte militar de
cabelo sendo examinado no centro de convocao do exrcito na Columbus Avenue onde se apresentou no dia seguinte s 9 horas da manh para o exame clnico. Notcias
de sua deciso tambm alcanaram a Alemanha. O antigo rival de Putzi, Goebbels, anotou o evento em seu dirio. "Filho de Hanfstaengl no exrcito dos EUA. Tal pai,
tal filho."
307
Nos meses que se seguiram, Egon foi freqentemente requisitado como um especialista em Alemanha. Um dia mandaram que fosse ao Correio central e se apresentasse no
escritrio de relaes pblicas. Dois jornalistas o aguardavam - um do jornal local, o Montgomery Advertiser, e o outro da Associated Press. Queriam saber sua opinio
sobre o deputado de Hitler, Rudolf Hess, que tinha chegado  Esccia em 10 de maio em um misterioso vo solo. Assim foi como Egon soube da histria, mas depois que
recebeu um molho de relatrios do servio telegrfico ficou feliz em especular os possveis motivos de Hess. Falou da tendncia original de Hitler a considerar a
Gr-Bretanha uma "nao irm" e do romantismo incurvel de seu deputado quando se tratava de poltica. Tambm refletiu sobre o casamento infeliz de Hess, comentando
que a sua mulher tinha confidenciado muitas vezes a Helene Hanfstaengl sobre suas aflies matrimoniais. Na manh seguinte, Egon levou um susto ao ver a manchete
no jornal atribuindo o vo de Hess ao seu desejo de escapar da mulher dominadora.
Ningum pensou em consultar Putzi, que continuava preso em Red Rock. Como a nica pessoa fora da Alemanha que, com certeza, melhor conheceria o deputado de Hitler,
Putzi estava convencido de que era o nico que poderia realmente esclarecer o que havia inspirado a deciso de Hess. Tinha certeza de que ele fugira por temer por
sua vida e tinha vrias sugestes de como a Gr-Bretanha poderia ter explorado a situao para confundir a liderana nazista e extrair deles mais informaes. Poderiam,
props, ter noticiado que Hess havia cometido um erro e sofrido um acidente nas ilhas Orkney ou que tinha aterrissado no sul da Irlanda, expondo assim as relaes
do pas com os nazistas. Putzi pensou em outros boatos tambm provocadores que produziriam reaes reveladoras de Berlim. Em vez disso, os britnicos tinham simplesmente
anunciado a chegada de Hess. O incidente, segundo ele, tinha sido tratado com "uma estupidez inacreditvel".
Mas Putzi no tinha sido completamente esquecido. Em fevereiro de
1941, talvez em resposta  publicidade gerada pelo alistamento de seu filho no exrcito, ele recebeu um carto de aniversrio de Pat Burton, colega de Harvard. "Amigos
norte-americanos acabam de saber de seu paradeiro surpreendente", escreveu Burton. "A razo para que esteja a  inconcebvel. Com certeza, como pai de um soldado
norte-americano, voc tem o
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direito de apelar ao nosso governo para entrar nos Estados Unidos, onde viveu durante tanto tempo como membro respeitado da comunidade. Mantenha a cabea erguida!"
Inclua alguns recortes de jornais sobre a nascente carreira militar de Egon.
Em novembro, The New Yorker tambm comentou o destino de Putzi: "Ernst Franz Sedgwick (Putzi) Hanfstaengl, da turma de 09 de Harvard, foi, de certa forma, posto
de lado pelos eventos atuais e algumas pessoas talvez nem reconheam o nome desse antigo agente de publicidade de Adolf Hitler, ghost-writer e pianista amador",
escreveu a famosa correspondente em Paris da revista, Janet Flanner, na matria intitulada "Progresso de Putzi". "Suas relaes na cidade, que permanecero annimas,
mas que so muitas, acham que ele est indo bem. Mantm uma correspondncia to regular quanto os censores canadenses permitem. Recentemente, pediu a uma de suas
amigas aqui que lhe enviasse um par de sapatos pretos de couro e cordo, resistente, tamanho 12-D, e um exemplar de Phdre, de Racine. Isso indica uma vida solitria
de leituras, interrompidas com caminhadas saudveis. A literatura francesa, Racine em particular,  um novo estmulo para Putzi, que falava mal a lngua. Um de seus
primeiros pedidos foi uma gramtica francesa e um Larousse, e agora, aps um ano de estudo, declara Racine um intelecto prodigioso. Uma existncia pacfica, inofensiva,
para um homem que alguns jornalistas consideram um dos seis homens que sabem a verdade sobre o incndio do Reichstag."
Quando o artigo do New Yorker foi publicado, Putzi tinha sido removido de novo. Em outubro, o campo de Red Rock tinha sido fechado e seus internos divididos. Putzi
esperara ser mandado para um campo de no nazistas - no mnimo por ter feito parte de um grupo de prisioneiros que tinham assinado uma petio dois meses antes em
que se dissociavam, formalmente, do Reich de Hitler. Para seu horror, foi levado para o Campo "Q", em Monteith, norte de Ontrio, onde a atmosfera era ainda mais
veementemente pr-Hitler. A recepo de seu grupo foi, previsivelmente, rude, sofrendo insultos na chamada e gritos de "Emigranten mus" ["Fora emigrantes"] quando
iam comer. Tambm eram ameaados com a publicao de seus nomes em Das Schwarze Korps, uma publicao da SS na
Alemanha. Mas s tiveram de suportar isso por um ms; no fim de novembro, Putzi foi mandado para Fort Henry, em Kingston, Ontrio.
Fort Henry era um lugar imponente e inspito. O forte original tinha sido construdo durante a guerra de 1812 para servir de defesa contra os ataques norte-americanos.
Provavelmente, a obra mais eficiente de defesa j construda na Amrica do Norte, situava-se no local perfeito para proteger a passagem para o rio St. Laurence e
estaleiros da marinha de Kigstone. A slida fortificao de pedra tinha ficado abandonada e comeou a ser restaurada em 1936. Quando a obra foi concluda, dois anos
depois, o forte foi transformado em museu. To difcil escapar quanto entrar ali, tornouse campo de deteno de prisioneiros de guerra alemes e de "estrangeiros
inimigos" quando irrompeu a guerra.
O alojamento de Putzi era mido e s tinha 1,80 metro de altura, o que o impedia de ficar em p ereto, exceto durante o perodo de exerccios. "As condies eram
to ruins que o comandante no conseguia nem mesmo nos encarar quando alinhava os prisioneiros para cont-los", recordou-se Putzi em uma entrevista a um jornal,
depois da guerra. "Ele contava os ps e depois dividia por dois para verificar o total. Esse campo era to ruim que, finalmente, foi fechado." Seus companheiros
prisioneiros incluam "um baro polons que tinha gerido o escritrio do North German Lloyd em Londres, tendo se tornado cidado alemo depois de perder suas propriedades
na Primeira Guerra Mundial, o capito do Bremen, alguns membros de um circo, inclusive palhaos e anes, e um indivduo excntrico e divertido que tinha uma liga
tatuada na perna".
Em 7 de dezembro de 1941, avies japoneses realizaram um ataque de surpresa sobre navios de guerra dos EUA, em Pearl Harbor. Roosevelt declarou guerra ao Japo e
Hitler respondeu declarando guerra aos Estados Unidos. Para Putzi, isso significou que a ruptura com a Alemanha nazista agora estava completa. Sua ptria estava
em guerra com os Estados Unidos e o seu filho estava combatendo no lado dos Estados Unidos. Dez dias antes, ele escrevera uma carta do campo para a ColHer's, oferecendo-se
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para escrever um artigo. Foi redigido com uma letra quase ilegvel, em uma folha de papel arrancada de um livro de exerccio, e endereada a Bill Hillrnan que deixara
o jornal de Hearst para ser editor de notcias do exterior na Collier's, em 1939. Putzi no sabia que ele mudara de novo, agora para ser comentarista de notcias
transmitidas pelo rdio.
A guerra entre o Terceiro Reich e os Estados Unidos ser no mximo uma questo de semanas. Quando isso acontecer, meu filho nico, Egon Sedgwick Hanfstaengl, sargento
na U.S. Air Force, agora em Macon, Gergia, enfrentar a Luftwaffe.
Apesar de eu continuar sendo mantido prisioneiro e, consequentemente, para a minha profunda tristeza, impossibilitado de falar e escrever, como homem livre, como
um autor livre - o que teria sido uma propaganda muito mais eficaz -, devo considerar a deflagrao da guerra como o momento para encerrar meu silncio em relao
a Hitler e  Alemanha. Penso que  o mnimo que devo a meu bom filho e seus camaradas de armas: fazer tudo, com a minha pobre influncia, para ajudar a destruir
o regime de Hitler e acabar essa guerra o mais cedo possvel.
Pensando nisso, proponho que venha aqui para conversarmos seriamente a respeito. Depois de assinar um contrato, estarei livre para ditar o artigo desejado, para
que o leve (...) Estar tudo pronto em 48 horas. Traga uma mquina de escrever.
Aurevoir. Sinceramente, Ernst Hanfstaengl.
PS. Como no sei se est ou no em Nova York, escrevi uma carta semelhante para Quentin Reynolds para me certificar de que chegaria a algum do pessoal da Collier's.
A carta nunca foi enviada a Hillman. No alto de uma cpia da carta que Putzi guardou, ele acrescentou, depois, em tinta vermelha: "No tive resposta desta." i

Parte 5
LEALDADE DIVIDIDA

21
EM 2 DE MARO DE 1942, uma limusine preta estacionou nos portes do Fort Henry. Dentro estavam John Franklin Carter e sua mulher, Sheila. Tinham ido ver o Prisioneiro
3026. Para fazer a visita, Jay Pierrepont Moffat, emissrio diplomtico norte-americano no Canad, tinha sido requisitado para conseguir a permisso especial do
primeiro-ministro Mackenzie King. Carter tinha conhecido Putzi dez anos antes, durante a campanha da eleio de 1932, quando ele apareceu em Berlim levando uma carta
de Franklin D. Roosevelt. Isso no diminuiu a surpresa de Putzi ao rev-lo. Ficou ainda mais surpreso ao saber o que a visita inesperada tinha a oferecer.
Carter era uma das personalidades mais pitorescas do crculo de Roosevelt. Tambm era um dos mais bem relacionados, com contatos na rea empresarial, na mdia e
no servio diplomtico por todo o mundo. Nascido em Fali River, Massachusetts, em 1897, estudou em Yale e, depois, mudou para o jornalismo, trabalhando brevemente
para a revista recmlanada Time antes de ir para o New York Times e, depois, tornar-se correspondente em Washington para a Liberty. Sua relao pessoal com o futuro
presidente tinha comeado logo antes da eleio de 1932, quando foi convidado a almoar em Hyde Park.
Roosevelt tinha ficado impressionado com a extenso dos contatos de Carter e, aps sua vitria, convidou-o a envolver-se com a ligao da poltica estrangeira e
a apresentar idias para reorganizar o Ministrio das Relaes Exteriores. Carter depois foi consultor de Henry Wallace durante seu perodo como ministro da Agricultura
e, ao mesmo tempo, prosseguiu
314
315
sua carreira de jornalista - iniciando uma coluna, "We the People" ["Ns, o Povo"], que escreveu sob o pseudnimo de Jay Franklin, publicada
em vrios jornais - e publicou vrios livros. Alm disso, atuou na campanha para a eleio do terceiro mandato de Roosevelt, em 1940.
Quando os Estados Unidos entraram na guerra, Carter desempenhou outro papel. No comeo de 1941 tinha sugerido a Sumner Welles, o subrninistro das Relaes Exteriores,
a criao de uma unidade pequena, informal, de servio secreto, que responderia diretamente ao presidente. A sugesto foi oportuna. O servio secreto norte-americano,
especialmente no exterior, estava uma baguna, com a responsabilidade dividida entre o FBI, a Army's Military Intelligence Division [Diviso de Inteligncia Militar
do Exrcito] e o Office of Naval Intelligence [Seo de Inteligncia Naval], cujos caminhos estavam sempre se cruzando. No havia nada, at ento, equivalente ao
servio de inteligncia britnico, M16, montado h mais de 30 anos. A fundao desse servio seria realizada em maio, com a nomeao de William J. "Wild Bill" Donovan
para o novo posto de coordenador de informao. A organizao criada por ele foi transformada formalmente em junho do ano seguinte em Office of Strategic Services
(OSS) [Departamento de Servios Estratgicos], que, por sua vez, seria substitudo em 1947 pela Central Intelligence Agency.
Mesmo depois da nomeao de Donovan, continuou a haver muito espao para Carter e sua unidade. Seu papel era muito diversificado. Apesar de sua principal funo
ser a anlise poltica, tambm avaliava novos armamentos, investigava erros militares e monitorava outras operaes secretas em nome do presidente. Como Carter disse:
"No todo, a condio estipulada pelo presidente Roosevelt para a operao era que deveria ser absolutamente secreta e prontamente negada no caso de publicidade."
A carreira de jornalista de Carter oferecia a fachada ideal. Depois de apenas alguns meses operando, j tinha 11 agentes na folha de pagamento de sua organizao
annima. Tambm gerou certa apreenso a rapidez com que gastava o dinheiro que convergia para a operao por via do Ministrio de Relaes Exteriores.
Putzi tinha causado uma forte impresso em Carter durante o encontro tantos anos atrs e Carter tinha acompanhado sua carreira subsequente.
Portanto ficou intrigado ao saber que algum com um conhecimento to ntimo de Hitler e seu crculo estivesse vivendo to prximo do solo norte-americano. O pretexto
imediato de sua visita a Fort Henry foi uma carta que Putzi havia escrito duas semanas antes a Cordell Hull, ministro do Exterior dos EUA. Na carta-uma verso similar
tinha sido tambm enviada s autoridades canadenses -, Putzi oferecia seus servios ao esforo de guerra aliado, propondo analisar a propaganda alem transmitida
por rdio e preparar, e mesmo transmitir, contrapropaganda ao seu pas. Carter percebeu, de imediato, os benefcios potenciais que isso proveria  sua rede de informao
novata, e em 10 de fevereiro procurou Roosevelt para falar sobre usar Putzi.
- O que diabos acha que ele poderia fazer? - perguntou o presidente. Putzi, replicou ele, "conhece realmente toda essa gente no governo nazista. Talvez possa dizer
algo que explique o comportamento deles".
Roosevelt no precisou de mais nada para ser convencido. Quando se tratava da inteligncia, se tivesse de escolher entre fatos e estatsticas e detalhes pessoais
picantes, sempre preferia os ltimos. Ao mesmo tempo, o presidente tambm entendeu o dilema que Putzi, sendo alemo, enfrentaria ao trabalhar contra a sua ptria.
Longe de ser um traidor, ele, pelo contrrio, estaria dando a sua contribuio para a criao de uma "nova" Alemanha.
- Pode dizer [a Hanfstaengl] que no h motivo nenhum para que os alemes no voltem a ser o tipo de nao que eram com Bismarck-disse ele a Carter.-No militarista.
Eram produtivos, eram pacficos, eram uma parte importante da Europa. E esse  o tipo de Alemanha que eu gostaria de ver. Se ele quiser trabalhar com base nisso,
muito bem.
E assim, algumas semanas depois de ligar para J. Edgar Hoover, diretor do FBI, para informar o que estava fazendo, Carter partiu para Ontrio, para estar cara a
cara com Putzi e sond-lo.
Foi um encontro estranho. Depois de mais de dois anos em vrios campos de deteno, Putzi era uma sombra da personalidade esfuziante que tinha sido quando Carter
o conhecera em 1932. Tambm tinha perdido muito peso e sofria com os dentes. Sheila Carter ficou to chocada ao v-lo que lhe ofereceu o buqu de violetas que estava
carregando. Quando ele descreveu a sua vida no campo, ela caiu em pranto.
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O propsito da visita de Carter era determinar at onde a proposta de ajuda de Putzi era sria e saber o que estava preparado a oferecer.
Alm disso, sua mente j planejava algo em que a Alemanha desempenharia} papel central.
- Legalmente, voc  propriedade britnica, mas h uma possibilidad de o governo canadense entreg-lo ao governo dos Estados Unidos sob custdia, durante o perodo
de guerra - disse Carter. - Nesse caso, voc iria para Washington.
Putzi gostou da idia de libertar-se do desconforto do campo. Tambm se sentiu lisonjeado com o envolvimento pessoal de Roosevelt. Inevitavelmente, sua mente voltou-se
para os anos imediatamente anteriores  Primeira Guerra Mundial, quando se divertia ao piano no Harvard Club, em Nova York, enquanto o ento senador tomava o caf
da manh. Assim como o piano tinha sido central em sua relao com Hitler nos anos intervenientes, Putzi fantasiou tocar tambm para Roosevelt. De fato, ele at
mesmo se convenceu de que as suas habilidades musicais poderiam ter contribudo de modo significativo para despertar o interesse do presidente no projeto. "No tenho
a menor dvida de que [Roosevelt], hoje, ainda pensa com freqncia no ano 1912/1913 do Harvard Club-e teve a idia de tirar de A. H., por assim dizer, seu antigo
pianista", escreveu em seu dirio.
Embora Carter tivesse convencido Roosevelt, precisou obter a aprovao britnica para o projeto. Churchill e o Ministrio das Relaes Exteriores no eram muito
simpticos  idia de seu prisioneiro poltico nazista mais proeminente, depois de Hess, trabalhar para os norte-americanos. No estavam convencidos de que ele rompera
em definitivo seus laos com Hitler e seu regime, e achavam que podia at mesmo ser um agente nazista. Mas Carter estava decidido a prosseguir com seu plano-independente
do que considerava sabotagem britnica - e aliciou a ajuda de Roosevelt para pressionar Londres.
O presidente, por sua vez, chamou Welles. O subministro tambm ficou intrigado com o plano, no mnimo por causa do conhecimento que sabia que Putzi tinha reunido
enquanto estava do lado de Hitler durante os anos de formao do partido nazista. Mesmo que o governo britnico estivesse com razo ao suspeitar que ele no tivesse
rompido completamente suas relaes com os nazistas, Welles achou que seria melhor
entrevist-lo para ver o que poderia esclarecer sobre as aes internas da
liderana. Explicou a situao a Lord Halifax, o embaixador britnico em Washington, e providenciou para que visse Carter. Halifax passou um
cabograma para o Ministrio das Relaes Exteriores em Londres, para instrues. "Fui procurado, extraoficialmente, a respeito do Dr. Ernst Hanfstaengl, que est, 
no momento, preso no Fort Henry, no Canad", escreveu
Halifax a seus mestres polticos. "Autoridades dos Estados Unidos esto ansiosas por transferi-lo para seu pas, j que pensam que podem us-lo. Fui informado de
que o presidente est a par da questo e aprova o pedido. Por favor, informe-o logo que possvel se a libertao de Hanfstaengl pode ser autorizada. As autoridades
dos Estados Unidos desejam que no seja dada nenhuma publicidade ao caso."
O Ministrio das Relaes Exteriores respondeu que queria mais tempo, embora mencionando que o Ministrio do Interior no estaria "sob nenhuma circunstncia preparado
para libert-lo se ele estiver nesse pas (...) De qualquer maneira, parece essencial que saibamos o que pretendem fazer com ele, se libertado (...) No queremos
fazer objeo a um pedido aprovado pelo presidente, mas a nossa experincia em relao a Hanfstaengl nos mostra que ele  excntrico e no confivel".
Carter tambm encontrou resistncia do FBI e do Ministrio das Relaes Exteriores, ambos cautelosos em relao  sua inexperiente organizao de inteligncia. Edward
A. Tamm, o nmero trs de Hoover no FBI, desconfiava especialmente dos motivos de Carter. Notando que Putzi estava escrevendo suas memrias e vrias revistas americanas
disputavam seus direitos, suspeitava que Carter estivesse planejando ganhar dinheiro publicando-as ele prprio. O bureau tambm estava ctico em relao a como o
arranjo funcionaria na prtica.
Pelo plano de Carter, Putzi poderia ficar em uma casa em, digamos, Washington ou Baltimore, e ser mantido em "liberdade condicional" pelo FBI; um agente poderia
ligar uma ou duas vezes por dia para averiguar, mas fora isso estaria livre para prosseguir seu trabalho. Carter teve uma recepo fria, entretanto, quando foi discutir
a proposta com Tamm. At onde dizia respeito ao FBI, se Putzi trabalhasse primordialmente para a
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organizao de Donovan, ento eles se encarregariam de sua segurana e vigilncia. Se coubesse ao FBI, disse-lhe Tamm, eles "o tratariam
como qualquer outro prisioneiro potencialmente perigoso e o manteriam
preso e sob uma vigilncia constante, 24 horas por dia". De qualquer
maneira no fariam nada sem instrues especficas do presidente.
Aparentemente pego de surpresa com sua resposta, Carter decidiu manter Putzi alojado em uma rea restrita em uma base do exrcito.
Em 22 de abril, cerca de seis semanas depois de seu primeiro encontro Carter retornou a Ontrio para ver Putzi. Levava boas notcias. - Tanto Roosevelt quanto Welles
tinham, enfim, aprovado o plano. Putzi voaria para Washington, jantaria na casa de Carter, em seguida seria transferido para um forte prximo. Embora fosse, formalmente,
ficar sob vigilncia militar, desfrutaria a liberdade do terreno e seria tratado como um oficial na condicional. Carter tambm apresentou a idia de um piano.
Putzi concordou imediatamente. Ficou feliz com a idia de mudar-se para um lugar em que, alm de ser tratado com um certo respeito, poderia prosseguir com sua escrita.
H vrias semanas tentava trabalhar um artigo que tinha prometido  Hearst's International-Cosmopolitan, mas estava sentindo dificuldades. As autoridades tinham
sido prestativas at certo ponto: o comandante do campo ajudou-o a conseguir algumas obras de referncia e deu-lhe permisso para usar uma sala fora de sua cela,
onde podia trabalhar por vrias horas ao dia. No entanto, houve uma restrio: o pedido de Putzi de estender suas horas de trabalho foi negado e ele temeu nunca
conclu-lo. Alm disso, a relao com o nazista mais extremado entre os prisioneiros tinha-se tornado to tensa que temia por sua segurana. At onde lhe dizia respeito,
quanto mais cedo deixasse o campo, melhor. Mas isso dependia dos britnicos e eles no estavam dispostos a ceder.
Um dos muitos argumentos que Londres usou contra a inteno de Washington empregar Putzi foi a alegao de que ele era um homossexual
- o que, na poca, era considerado um obstculo ao trabalho da inteligncia por causa do potencial para chantagem. Carter pediu conselho a Clare Boothe Luce, a
bela dramaturga esposa de Henry Luce, o editor da revista Time, que ele conhecia desde o tempo de Yale. Ela apresentou um plano bizarro. Por que no testar a sexualidade
de Putzi enviando Gerald Haxton, secretrio e amante de Somerset Maugham, para v-lo? Haxton, que passara dois anos como prisioneiro de guerra na Alemanha durante 
a Primeira Guerra Mundial, poderia
falar alemo com Putzi. Alm disso, ele tinha a reputao de no ter o menor escrpulo. A mulher de Maugham - que dividia seu marido com Haxton -- certa vez disse
sobre ele: "Se ele achasse que obteria o mnimo que fosse, iria para a cama com uma hiena."
Portanto, Haxton foi despachado para o campo. Putzi passou no teste com louvor. Quando Carter foi v-lo no dia seguinte, encontrou-o furioso.
- Gostaria que se livrasse desse homem - disse ele. - Uma das coisas que eu no conseguia tolerar em Hitler eram aquelas bichas todas que ele mantinha  sua volta.
No gosto de bichas.
No obstante, em Londres, muitos permaneceram na dvida em relao ao projeto. Mas, como escreveu um funcionrio do Ministrio das Relaes Exteriores, considerando-se
o interesse pessoal de Roosevelt e as condies sob as quais seria mantido, "ns, apesar de cticos em relao a acreditar na utilidade de Hanfstaengl, no fazemos
objeo ao experimento".
Segundo o acordo, delineado por Halifax e confirmado por Carter em uma carta  embaixada britnica em 26 de maio, Putzi viajaria para Washington, D. C., acompanhado
por um agente de confiana do governo norte-americano, e seria alojado em uma instalao militar em Fort Belvoir, ao sul da cidade. No teria permisso para sair
nem receber visitas sem autorizao especial e permaneceria sob vigilncia 24 horas por dia. Caso se revelasse intil ou prejudicial  causa aliada, seria mandado
de volta ao Canad. Autoridades britnicas tambm teriam o benefcio de qualquer informao que ele fornecesse.
A misso seria absolutamente confidencial. No haveria publicidade e Putzi seria conhecido, durante a sua estada, como Ernest Sedgwick, usando o nome dos ascendentes
norte-americanos de sua me. Alm disso, s seria libertado no fim da guerra, para que no trasse o que ficaria sabendo a respeito dos mtodos polticos em tempo
de guerra.
Em 23 de junho, Sir Ronald I. Campbell, representante diplomtico na embaixada britnica em Washington, escreveu a Carter confirmando o acordo. No entanto, no conseguiu
deixar de expressar suas dvidas sobre Putzi uma ltima vez. Anexado  carta, havia um memorando descrevendo
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os procedimentos das autoridades britnicas com ele e as vrias reclamaes - que iam da mentira persistente durante o interrogatrio  aparente determinao de
reconciliar-se com Hitler at a deflagrao da guerra.
"Devo admitir francamente que as autoridades britnicas consideram a proposta de usar Hanfstaengl com muita apreenso", escreveu Campbell. Concluiu insistindo em
que os norte-americanos sustentariam a condio do acordo e garantiriam que Putzi no se tornasse foco de ateno para ningum, exceto aqueles que tinham interesse
profissional nele. "Acho que todos concordamos em relao ao perigo de confundir quem quer que seja, nesse momento, quanto a acreditar que h bons e maus ex-nazistas",
disse ele.
No dia seguinte, FDR enviou uma breve nota a Welles autorizando o envio de uma avio ao Canad para trazer Putzi, secretamente, a Washington. "O que acha?", escreveu
o presidente. "No posso tratar disso diretamente, somente aprovar a sua vinda a Washington se todo mundo concordar. Tudo bem traze-lo em um avio do exrcito, mas
ele tem de se convencer de sua segurana enquanto estiver aqui." Alguns dias antes, Carter tinha pedido financiamento para a operao. Achava que poderia manter
o custo total abaixo de mil dlares.
Por que exatamente Roosevelt deu seu apoio ao projeto diante das objees britnicas implacveis permanece uma questo de conjetura. Apesar do que Putzi pensava,
a antiga amizade entre eles - ou melhor, o fato de terem se conhecido antes - parece no ter interferido. Como fonte de inteligncia, Putzi tambm deixou muito a
desejar. No havia dvida da proximidade e extenso de sua relao com Hitler, mas os britnicos, que o interrogaram demoradamente, achavam que tinham boas razes
para no confiar nele e desconfiavam profundamente de suas opinies polticas. Seus motivos para ajudar os aliados tambm estavam longe de ser desinteressados. Afinal,
foi o seu bilhete de sada do Fort Henry. O presidente tinha um grande nmero de outras fontes de informao sobre a Alemanha nazista, portanto por que usar essa?
A razo, em parte, estava na preferncia de Roosevelt de fazer uso do mximo possvel de fontes de informao. Desconfiado do tipo de inteligncia obtido por canais
convencionais, ele freqentemente dava a mesma
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tarefa a vrias agncias e usava a informao fornecida, informalmente, por vrios indivduos. Vincent Astor, o milionrio meio-irmo de John Jacob Astor, de quem
Putzi comparecera ao casamento durante a sua visita aos Estados Unidos em 1934, era um dos espies freelance. William Bullitt, embaixador primeiramente na Unio
Sovitica e, depois, na Frana, tambm entretinha e informava o presidente com um fluxo regular de cartas que evitavam os canais usuais do Ministrio das Relaes
Exteriores. Embora a responsabilidade da inteligncia estivesse se concentrando cada vez mais na nova organizao de Donovan, o presidente no tinha inteno de
mudar seus mtodos.
Putzi, como um inimigo estrangeiro, estava, claro, em uma categoria diferente de pessoas como Astor ou Bullitt, mas, no obstante, ajustava-se ao padro idiossincrtico.
Roosevelt sentia-se tambm atrado pelo tipo de informao que Carter o fez acreditar que Putzi forneceria - inteligncia peculiar, rico em detalhes pessoais, que
acrescentariam uma dimenso humana ao material rido e factual que j recebia por outros canais.
Tampouco Putzi seria confinado para meramente fornecer informao de segundo plano. Carter garantiu a Roosevelt que ele tambm poderia representar um papel muito
mais proativo na propaganda aliada, aconselhando o tipo de informao que repercutiria especialmente em alemes comuns e preparando ele prprio o que radiodifundir
para eles. Como Carter falou: "Ele era um guia para o que poderia ser feito para afastar o povo alemo de Hitler, para separ-los e conseguir a paz poltica, em
vez da destruio militar."
Subjacente a isso, estava a questo mais fundamental de como o regime nazista poderia ser derrubado. Nos primeiros meses de 1942, as expectativas de uma vitria
militar rpida sobre Hitler pareciam improvveis. A Alemanha j tinha assolado grande parte da Europa, e Roosevelt sabia que enfrentava uma luta para convencer o
povo norte-americano a fazer o sacrifcio econmico e humano necessrio para uma invaso da Europa Ocidental. A idia de que no somente os franceses, holandeses,
tchecos e outros povos ocupados, mas tambm os prprios alemes poderiam ser incitados a sublevar-se e derrubar seus opressores nazistas era, consequentemente, atraente
ao presidente. Significaria a derrota do hitlerismo, mas com um
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custo econmico e humano muito menor do que por uma conquista militar franca. Isso, por sua vez, "tornava vantajosa uma guerra psicolgica capaz de identificar e
explorar fraquezas no sistema nazista". No caso dos alemes, isso significava fazer uma distino entre pessoas comuns e seus lderes. Em suas transmisses de propaganda,
os aliados, por conseguinte, tinham de deixar claro que culpavam Hitler e seus seguidores fiis - e no a populao como um todo - pelos atos agressivos e assassinos
perpetrados em nome da Alemanha.
Era uma poltica controversa, mesmo desde o comeo, e estava fadada ao atrito com a Gr-Bretanha. Para Churchill, a agresso nazista no era algo estranho imposto
ao povo alemo, mas um fenmeno que tinha suas razes no militarismo prussiano. Simplesmente livrar-se dos principais nazistas no resolveria, portanto, o problema
fundamental-especialmente se, como parecia o cenrio mais provvel, fossem derrubados em uma revoluo palaciana por outro grupo de pessoas implicadas nos crimes
passados do regime. De fato, segundo seu argumento, a cada ms que passava os alemes comuns mais perdiam seu direito de serem considerados vtimas. Como disse o
ministro do Exterior britnico Anthony den, em maio: "Quanto mais tempo o povo alemo apoiar e tolerar o regime que o est levando  destruio, maior a sua responsabilidade
pelo dano que est causando ao mundo."

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EM 30 DE JUNHO DE 1942 - oitavo aniversrio da Noite dos Longos Punhais -, um agente norte-americano apareceu no Fort Henry e levou Putzi para Washington. Era um
belo dia de vero. Foram diretamente para a casa de campo de Carter. Foi quase o suficiente para apagar da memria os trs anos infelizes passados nos campos. Carter
tambm tinha uma surpresa agradvel para Putzi. Aguardando no quarto do lado estava Egon, que fora promovido a sargento no exrcito norte-americano desde que se
alistara no ano anterior. A ltima vez que Putzi tinha visto o filho tinha sido em setembro de 1939, quando o pusera no navio para o Canad logo antes de ser preso.
Putzi chorou ao v-lo.
Algumas semanas antes, Egon havia tido o palpite de que se encontrariam. Fazia 18 meses que se alistara no exrcito e a sua exuberncia inicial h muito havia desaparecido.
Depois de alistar-se, havia sido enviado ao campo de recrutas em Montgomery, Alabama, bero da Confederao. Os Estados Unidos ainda no estavam em guerra e a reao
dos locais foi hostil. "No fomos bem recebidos", lembrou-se. "Via-se isso em alguns cafs: um cafezinho custava cinco cents, e para os soldados, dez cents. Ou 'no
 permitida a entrada de cachorros e soldados'."
Tudo isso mudou da noite para o dia quando os japoneses atacaram Pearl Harbor. Mas Egon ficou frustrado. Sonhava em ser piloto, e estaria em condies de ser, em
especial por ter-se alistado voluntariamente meses antes do recrutamento. Entretanto, havia uma restrio fundamental: somente oficiais podiam tornar-se pilotos,
e Egon foi impedido de cursar a
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escola de candidatos a oficiais por causa do passado nazista de seu pai e as dvidas que isso lanava sobre a sua prpria confiabilidade. Soube mais tarde que a
ordem para barr-lo tinha sido imposta sob instrues de ningum menos do que o general de diviso George Veazey Strong, auxiliar do chefe do estado-maior, da inteligncia
militar (G-2). Nesse contexto, Egon foi informado, certo dia, de que deveria viajar para Washington em misso especial. No precisou de muito tempo para se dar conta
de que deveria ter alguma coisa a ver com seu pai.
Apesar de Carter ser o encarregado do que seria conhecido como projeto-S - o S era de Sedgwick -, decidiu-se que o principal interlocutor e supervisor de Putzi seria
Henry Field, um antroplogo de meia-idade, formado em Oxford e especialista em Oriente Mdio, usado por Roosevelt sempre que precisava de algum discreto para tarefas
no convencionais. Field antipatizou quase que de imediato com Putzi; sua primeira impresso foi a de "um alemo alto, desajeitado, com o cabelo despenteado e feies
sugerindo acromegalia branda. Uma figura de aparncia desagradvel com uma personalidade forte".
Para comear, a relao de Putzi com seus anfitries no Fort Belvoir teve um comeo ainda menos promissor. Na manh seguinte  sua chegada ao campo com seus edifcios
de estilo colonial, foi convidado para tomar o caf da manh com o general Max, o comandante. As coisas pareciam ir bem. Max tinha estudado em Heidelberg quando
garoto e falava um pouco de alemo. Ao acabarem de comer, ele convidou Putzi a uma sala de reunio ao lado e perguntou-lhe o que achava de como a guerra estava progredindo.
Na parede, havia um grande mapa da Europa e frica, indo de John o'Groat's at a Cidade do Cabo. Putzi aproximou-se. O mundo todo estava esperando os norte-americanos
montarem uma linha de frente na Europa, disse ele, mas isso acabaria, inevitavelmente, sendo um desastre, pois os alemes j controlavam grandes extenses da costa
atlntica francesa, logo a resistncia seria feroz.
- O nico lugar que me ocorre no  na Europa, mas aqui-prosseguiu Putzi, apontando para Casablanca com um dedo comprido e rgido, e falando como se se dirigisse
a uma platia. -  aqui o ponto mais fraco.
Max ficou perplexo.
- Por que no Marrocos? - perguntou.
- Bem - replicou Putzi. - Afinal  o melhor local, o mais seguro para o desembarque de suas tropas de reserva e reforos. Podero dominar o norte da frica e fazer
a Itlia recuar num abrir e fechar de olhos.
Mas Putzi no teve tempo de explicar mais nada. Ainda estava falando quando o general se levantou abruptamente e explodiu com fria, deixando seu interlocutor perplexo,
sem palavras. Putzi, que, razoavelmente, no se considerava um estrategista militar, achou que no estava fazendo nada alm de declarar o bvio. Entretanto o que
desconhecia era que tinha predito o que seria a primeira operao militar dos Estados Unidos no contexto do atlntico. Os estrategistas britnicos e norte-americanos
estavam finalizando planos do que passaria a ser conhecido como Operation Torch, uma srie de desembarques perto de Casablanca e no litoral mediterrneo da Arglia,
de onde comeariam a libertao do norte da frica. Embora a elaborao do plano j acontecesse h seis meses, a operao estava prevista somente para novembro.
Putzi recebeu ordens de retornar imediatamente ao bangal dos oficiais, onde Field e um sargento do exrcito norte-americano viveriam. Disseram-lhe que s poderia
fazer exerccios depois que escurecesse, as sentinelas l fora foram triplicadas e Egon foi despachado.
Todos aqueles envolvidos acabaram absolvidos de qualquer responsabilidade pelas predies militares excepcionais de Putzi, mas no antes de o assunto ser apresentado
a Roosevelt. Carter ficou imperturbvel com o
incidente.
- Foi apenas Hanfstaengl usando sua inteligncia - assegurou ao
exrcito.
O bangal, que tinha seis cmodos, era cercado de rvores, sombrio e melanclico. Para irritao de Field, Putzi insistiu em ficar com os dois cmodos mais claros
- um para quarto de dormir e outro para escritrio. Ainda assim no ficou satisfeito, e quando o major Bittenbender, oficial da cavalaria na base, lhe fez uma visita,
Putzi bombardeou-o com queixas em relao ao seu alojamento e ao fato de s ter permisso de sair  noite. Bittenbender, chispando de raiva, lembrou-o de que no
passava de um prisioneiro.
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- No vou tolerar nenhum problema causado por voc, no se esquea disso - disse Bittenbender a caminho de seu carro. Putzi teve de se contentar com resmungar alguns
insultos em alemo. Field achou uma sorte o major no reconhecer com que animal estava sendo comparado nem entender os comentrios de Putzi sobre seus ancestrais.
Nesse dia, Field e Putzi almoaram a ss. Falaram do tempo de estudante de Field e das muitas viagens que tinha feito  Alemanha a partir de ento. A Field pareceu
a conversa de duas pessoas de frias que se encontram por acaso. Nessa tarde, Field compilou uma lista de material de leitura e obras de referncia que Putzi disse
que precisaria. Tambm pediu um rdio de ondas curtas com o qual ele poderia escutar as transmisses alemes. Field buscou tudo em Washington. Para seu desgosto,
tambm teve de comprar cuecas, meias e sapatos para ele, embora nada parecesse ajustar-se a ele apropriadamente. Putzi, nesse nterim, assinou uma declarao a Carter,
como representante do governo dos EUA, dando a sua palavra de honra de que "obedeceria escrupulosamente a todas as normas e restries que poderiam, ocasionalmente,
ser estabelecidas pelas autoridades americanas para a segurana e sigilo de minha estada nos Estados Unidos". O livramento condicional poderia ser retirado por qualquer
um dos lados com o aviso de uma semana.
Putzi logo se concentrou para trabalhar. Field era uma espcie de radioamador, e, quando conseguiu pr funcionando o receptor, Putzi foi instrudo a escutar as principais
estaes alemes e escrever memorandos sobre as transmisses de propaganda nazista, enfatizando seus pontos fortes e os fracos. Seus comentrios eram lidos pelos
especialistas em guerra psicolgica que, eventualmente, tambm lhe escreviam pedindo a sua opinio sobre questes especficas. Putzi ficou fascinado pelo assunto,
e at mesmo Field teve de admitir que ele trabalhava com afinco.
Entretanto, Putzi era um prisioneiro poltico canhestro, e sua alegria e gratido pela libertao dos horrores do campo no Canad se esvaneceram rapidamente. Desde
o comeo, tornou a vida de seu guarda difcil - um sargento do exrcito que, para repugnncia de Putzi, era negro foi introduzido para preparar e servir o jantar.
O sargento tinha pavor dele.
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- Nunca vi nada como esse prisioneiro, um olhar to malvado, e que gnio! - disse ele a Field certa noite, quando Putzi tinha sado para caminhar um pouco, escoltado
por dois guardas armados. - Tenho medo de que tente me matar hoje  noite.
Field tentou tranqiliz-lo, mas tambm ele era cauteloso com Putzi
- especialmente porque ele e o sargento estavam desarmados. Algumas horas depois, ao passar pela porta aberta do quarto de Putzi, Field viu o cabo de um revlver
projetando-se de seu travesseiro. Espantado, telefonou para Bittenbender, que chegou de jipe, acompanhado de quatro soldados armados, carregando rifles com baionetas
fixadas. Quando os quatro cercaram Putzi, Bittenbender perguntou onde tinha conseguido o revlver.
- Supus que os tolos dos norte-americanos nunca o descobririam disse Putzi. - Comprei-o no Canad de outro prisioneiro.
- No somos to tolos quanto pensa - retorquiu Bittenbender. Conhecemos os nazistas muito bem. Relatarei isso ao general e veremos que medidas disciplinares ele
vai querer que tomemos. Quero lhe dizer que temos ordens de no mat-lo, mas nenhuma ordem proibindo o castigo fsico. Se eu tiver mais algum problema com voc,
vai receber um golpe de baioneta na perna e uma surra. No vamos suportar nenhuma besteira sua. Est claro?
As maneiras de Putzi mudaram imediatamente.
- Sim, senhor - replicou ele, e o major saiu com seus soldados. Cerca de meia hora depois, o sargento apareceu da cozinha com uma
bandeja com duas tigelas de sopa. Putzi, que estava de frente para a porta, gritou assim que o viu.
- Sckweinehund-disse ele, acrescentando em ingls:-Nunca comi nada preparado por um negro. Nunca comi nem comerei. - Em seguida, a plenos pulmes, gritou: -Voc
 um negro cretino preguioso.
O sargento correu para seu quarto e empurrou a cmoda contra a porta. Foi pedida outra ligao para Bittenbender, que chegou poucos minutos depois com os mesmos
quatro soldados.
Putzi, achou Field, deliciava-se com cada minuto disso.
- Boa noite, senhores - disse ele. - Lamento terem sido obrigados a interromper deveres mais srios. Este sargento negro  um cozinheiro
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abominvel, um sargento assustador e preguioso como nunca vi. Os senhores me repreendem por gritar com ele? - prosseguiu. - Se enfiassem a baioneta, lentamente,
nele, talvez o despertassem um pouco.
O infeliz sargento, que surgira de seu quarto, continuava acaapado em sua farda de servio. Ento, com as baionetas em riste, foraram Putzi contra a parede. Bittenbender
disse-lhe que se continuasse se negando a comer o que havia sido preparado pelo sargento, simplesmente iria para a cama sem jantar. Farto de seu prisioneiro, avisou
que mais um acesso seria tratado com muito mais rigor.
Logo depois, ouviu-se o ranger dos cascalhos l fora e o coronel Richard Lee, segundo no comando, irrompeu na sala.
- Recuso-me a discutir o assunto com o senhor, Dr. S - disse ele. Foi avisado de que no causasse aborrecimentos neste posto. Se eu receber mais uma queixa sobre
o seu comportamento, eu o tratarei da maneira como um nazista entenderia. Seu privilgio de exerccio est revogado por
48 horas, aguardando o resultado de uma investigao.
Putzi no teve outra alternativa a no ser ceder. Reconhecia uma autoridade militar ao v-la e desapareceu em seu quarto, murmurando vingana.
Field dormiu mal, e quando, no meio da noite, foi  cozinha buscar um pouco de gua, deu com o sargento sentado ereto e teso  mesa, aterrorizado, com pavor de ser
atacado se dormisse. A vitria de Putzi, entretanto, foi medocre. No dia seguinte, antes do almoo, o sargento negro foi substitudo por um branco.
Mas isso no foi o fim da histria. Putzi tinha recebido ordens de no olhar para fora, pelas persianas das duas janelas que davam para um chal vizinho. Fazia calor,
e, uma tarde, ele no resistiu  tentao de abrir a janela e viu a mulher de um capito suspendendo a roupa lavada no varal. Ele gritou em alemo para ela e ela
correu, aterrorizada, para dentro de casa. Imediatamente ligou para o marido e disse-lhe que tinha um homem louco no chal vizinho. O coronel soube do incidente
e, mais uma vez, apareceu para castigar Putzi.
Em setembro, tinha ficado evidente a Carter e a outros envolvidos no projeto que Putzi no poderia permanecer por muito mais tempo no forte. No somente por causa
de seu comportamento desagradvel. O
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campo tambm tinha uma priso militar prxima com prisioneiros nazistas que o consideravam traidor e colaborador, por isso sua equipe tinha tentado manter segredo
da sua presena. Porm, depois de alguns meses, acabaram sabendo que um traidor nazista de um posto alto vivia entre eles, recebendo boa alimentao, acomodaes
confortveis e podendo escutar o rdio. O comandante ficou preocupado com que se rebelassem e, at mesmo, tentassem assassinar Putzi, o que o deixou ainda mais ansioso
por se livrar dele.
Portanto, foi tomada a deciso de remover Putzi para um alojamento privado, isolado. Coube ao pobre Field procurar o lugar adequado. Ele se ps a sondar os corretores
de imveis, mas depois de duas semanas ainda no tinha conseguido encontrar um local convenientemente distante. Foi ento que Lee fez uma sugesto. Por que no tentar
Bush Hill, uma propriedade isolada no meio da regio rural, a cerca de 40 quilmetros de Washington, alm de Alexandria? Lee lembrou-se de brincar ali quando criana.
Lembrou-se tambm que, coincidentemente, pertencia a uma prima distante de Field.
Field recordava-se vagamente de Emily Gunnell e de sua irm, Mary, e partiu para dar uma olhada. Aps uma demorada viagem atravessando florestas e trilhas, tomou
uma via por um bosque denso de carvalhos, bordos e faias, desceu uma grande colina, e atravessou uma ponte instvel, com uma ferrovia. A estrada, disseram-lhe, era
"provavelmente a pior no leste dos Estados Unidos". Passou por dois moures debaixo de um esplndido azevinho e dobrou  esquerda. A via estava to tomada pelo mato
e arbustos altos que Field foi obrigado a abandonar seu Ford e seguir a p.
A casa era uma construo de tijolos slida, mas em estado precrio, que dava a impresso de no ter sido tocada desde a dcada de 1850. Uma pequena escada de pedra
ngreme levava  varanda que se estendia ao longo da fachada. Para alm, o que havia sido o alojamento dos escravos, estava agora repleto de ferramentas, documentos
e lembranas excntricas. Tambm havia estbulos e garagens tomadas pelo mato. Tudo isso ocupava um terreno de 100 acres de floresta.
Field ficou satisfeito ao ver as janelas abertas e a casa parecendo ocupada. Passando pelos arbustos, chegou a um prtico onde uma mulher
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idosa de cabelos brancos balanava-se na cadeira ao sol de fim de vero. Seus olhos estavam fechados. Despertou com um susto quando Field perguntou por sua prima
e disse seu nome. Alguns minutos depois, Emily Gunnell apareceu  porta.
- No o vejo desde que era um beb em Oakland - disse ela. - Entre.
A sugesto de Lee tinha sido inspirada; as duas mulheres tentavam j h bastante tempo alugar Bush Hill e mudar-se para um clima mais ameno. Emily Gunnell revelou
que tinha rezado por um milagre apenas alguns minutos antes de seu primo entrar em cena. Deus a ouvira. Dali a meia hora, Field tinha alugado a casa. No se mencionou
Putzi,  claro. Disselhes que a sua casa seria usada como posto de escuta pela Federal Communications Commission.
As duas mulheres mostraram-se dispostas a logo mudar-se para um hotel. Antes de arrumarem as malas, pediram um conselho a Field em relao ao que deveriam fazer
com as 12 limusines antigas estacionadas na vila. Ele props que as dessem ao ferro velho, o que obedientemente fizeram, perdendo milhares de dlares com isso.
Depois que as mulheres partiram, comearam rapidamente a preparar a casa para seu ilustre morador. Aparelhos rsticos de cozinha foram substitudos por fogo eltrico
e uma nova geladeira. Estufas a carvo e lenha foram colocadas nos cmodos sem lareiras. Toneladas de carvo foram obtidas atravs de canais oficiais. No houve
tempo para cuidar da decorao. A sala de estar estava gasta, com o brocado apodrecido descascando das paredes, caindo sobre os retratos dos ancestrais norte-americanos
dos proprietrios. Os outros cmodos, mais ou menos uma dzia, no estavam em melhor estado.
Em outubro, depois que as providncias foram aprovadas pelo prprio presidente, Putzi deixou o forte e mudou-se para Bush Hill. Seus anfitries militares no poderiam
ficar mais alegres com a sua partida.
 "A transferncia do Homem Ningum-Sabe-Quem- ocorreu para a satisfao de todos e a nova operao j teve incio", escreveu Carter a Grace Tully, secretria de
Roosevelt. "Nunca tinha visto expresses de tanta felicidade em Fort Belvoir quanto no momento em que o comandante foi
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formalmente liberado da responsabilidade de um projeto estranho  sua experincia no exrcito."
Putzi logo voltou ao trabalho em sua nova casa. Armado com um poderoso rdio Hallicrafter de ondas curtas que lhe possibilitaria escutar as transmisses da Alemanha,
comeou a escrever relatrios, suas anlises das notcias de Berlim informadas por seu conhecimento pessoal de Hitler e daqueles mais prximos a ele. Desde o comeo,
Carter acompanhou com interesse o projeto, indo a Bush Hill com freqncia para fazer perguntas a Putzi, suas ou de Roosevelt. Para grande desgosto de Field, no
entanto, sua tarefa era assisti-lo diariamente. Alm dos dois, moravam ali George Baer, um artista judeu eminente que Putzi tinha conhecido em Schwabing antes da
guerra, e sua mulher americana. Chef cordon bleu, ela falava alemo e, alm de preparar uma comida excelente, era perita em lidar com os acessos de mau humor de
Putzi. Os residentes eram completados com trs guardas militares.
A rotina no mudava. Depois do caf da manh, o "Dr. Sedgwick" sentava-se em seu gabinete e ligava o rdio. Escutava as principais notcias alems, tomando notas
detalhadas em alemo, usando ocasionalmente uma expresso ou palavra em ingls. Tambm lia The New York Times e o Washington Post. Depois do almoo e de uma hora
descansando ou lendo, quase sempre sobre Frederico, o Grande, ou Oswald Spengler, sentava-se para redigir seu memorando, geralmente de 400 a 500 palavras. A, ele
analisava a propaganda alem, procurava seus pontos fracos e sugeria ataques retaliatrios. Field tambm o estimulava a concluir com uma pergunta que seria embaraosa
ao alto comando alemo se includa na propaganda americana, como o que aconteceu com os desenhos pornogrficos feitos por Hitler e por que o seu revlver estava
na mo de Geli Raubal quando ela foi encontrada morta em seu apartamento, em 1931.
Toda tarde Field lia o memorando escrito  mo, certificando-se de que era legvel, e o levava ao Q Building do Office of Strategic Services. Nunca precisou corrigir
o ingls de Putzi, que era excelente graas  sua educao
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em Harvard. Eram feitas quatro cpias originais e um carbono. O carbono era arquivado e as outras cpias iam para o presidente, aos cuidados de Grace Tully; para
Welles; para Donovan; e para Carter. Na manh seguinte  10 horas, Field entregava tudo a Carter no Press Building. Ele os passaria com um pequeno bilhete para os
outros trs.
A rotina s era mudada quando Hitler falava. O Ministrio das Relaes Exteriores notificava Field de uma transmisso iminente e ele, por sua vez, passava as notcias
por telefone de Bush Hill, usando um telefone pblico por segurana. Equipado com fones de ouvido altamente sensveis, Putzi escutava o discurso de Hitler, tomando
notas. Segundo Field, com freqncia, era uma experincia difcil e emocionalmente perturbadora para Putzi. Assim que Hitler acabava de falar, ele levantava-se e
ficava andando de l para c na sala, como um animal enjaulado. Durante a hora seguinte, enquanto tomava notas, o silncio se impunha - interrompido somente por
irrupes em alemo em voz alta. Independentemente da hora, os relatrios eram logo enviados a Carter. Tambm eram passados aos departamentos de guerra psicolgica
tanto da OSS quanto do Ministrio das Relaes Exteriores, que transformava alguns comentrios de Putzi em programas de desinformao da OSS, transmitidos na Alemanha
por meio da emissora BBC na regio de Kent, no sul da Inglaterra. Ocasionalmente, uma das opinies de Putzi acertava o alvo - especialmente as perguntas no fim do
programa. A rdio oficial alem logo foi obrigada a admitir que um ex-nazista de posio alta estava agora trabalhando para os norteamericanos.
Roosevelt estava querendo testar a habilidade da nova inteligncia dos Estados Unidos. Em uma de suas primeiras questes, pediu a Carter para conseguir sugestes
de Putzi quanto  melhor maneira de os Estados Unidos atrair diretamente o povo alemo, passando por cima do regime nazista. Putzi sugeriu esperarem at a vitria
no norte da frica, e ento mandar Eisenho"er, Marshall ou outro oficial militar de alta patente dirigir-se aos soldados alemes e suas famlias, salientando que
todos os seus sacrifcios tinham sido em vo. Havia de fato uma possibilidade, argumentou ele, de que o exrcito inteiro se voltasse contra os nazistas e derrubasse
Hitler em vez de "fomentar um 'libi traioeiro' como depois de Versalhes".
Duas semanas depois, o presidente pediu a opinio de Putzi sobre as mudanas recentes no alto comando alemo movidas pela nomeao do general Kurt Zeitzler para
chefe do estado-maior. Putzi declarou que Hitler estava ficando cada vez mais paranico em relao a um possvel golpe contra ele de dentro dos escales superiores
do exrcito e temia que o dcimo ano de seu governo, que se completaria em breve, fosse o ltimo. A nomeao de algum leal a Himmler, como Zeitzler, era, por conseguinte,
sinal de uma "deciso de ltima hora" de Hitler para nazificar por completo o Reichswehr e para "excluir, profilaticamente, de certo modo, todas as juntas reais
e imaginrias, conspiraes de sabotagem, intrigas e separar movimentos de paz procedidos da oposio conservadora alem". Em suma, representava "uma clara vitria
de Himmler sobre a ala quase aristocrtica de Gring no partido", escreveu ele. "Himmler e a Gestapo de Himmler representam o argumento final de Hitler. Para alm
de Himmler no existe nada, a no ser o destino - e o ltimo lance exasperado de um
facnora poltico."
s vezes, a inteligncia britnica pedia permisso, por meio de Welles, para interrogar Putzi. Embora isso fosse permitido, Field tinha ordens de no deixar ningum
a ss com seu prisioneiro. Em uma ocasio, Field levou-o para uma sesso de pergunta-e-resposta com um painel de seus companheiros antroplogos em uma sala no poro
do Ministrio da Justia. Os acadmicos no tinham percebido para o que foram admitidos. Putzi, com sua mente afiada, fez picadinho das perguntas maantes, e bvias.
A situao toda lembrou a Field um vencedor do Prmio Nobel obrigado a falar educadamente com um grupo de adolescentes.
Apesar de impressionado com a capacidade intelectual de Putzi, Field no gostava dele como pessoa. Foi, recordou-se mais tarde, "uma misso terrvel". Putzi tornou-se
cada vez mais temperamental e o "seu comportamento indesculpvel" afugentava o pessoal que estava ali para atend-lo. "Exigia mais variedade em sua comida, menos
esttica em seu super Hallicrafter, mais livros, roupas de baixo de l menos spera e mais liberdade para caminhar a esmo", escreveu Field. Em certa ocasio, isso
significou buscar a enciclopdia completa, de vinte volumes, de Der Grasse Brockhaus, que Field teve de carregar de Nova York, espremida em sua cabina de trem.
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Mesmo quando no estava em Bush Hill, estava sempre  disposio d Putzi, durante 24 horas por dia.
Para agravar a carga de Field, Putzi comeou a sofrer problemas crnicos de dentes - conseqncia, talvez, das ms condies nos vrios campos de deteno. E assim,
os dois partiriam no velho Ford de Field para o dentista na rua 1. Decidiu-se que chamariam menos ateno se no levassem mais ningum junto. O risco de Putzi escapar
era pequeno; era uma figura difcil de manter-se oculta por muito tempo e sabia que, se pego, seria mandado de volta ao Canad. O mais importante era manter a misso
secreta. Putzi foi quase reconhecido em pelo menos uma dessas viagens. Em outra, o carro foi seguido por um grupo de jornalistas at Field conseguir livrar-se deles.
Alm disso, Field sempre tinha de atender as ligaes de reprteres exigindo saber o paradeiro de Putzi.
Nas primeiras horas de uma certa manh, Field recebeu uma ligao de emergncia, dizendo que fosse imediatamente a Bush Hill. Quando chegou, havia um pandemnio.
Do lado de fora da sala de Putzi, um sargento norte-americano, chefe dos guardas, estava cado de bbado no cho. Baer e Field o levantaram e colocaram no sof para
curar a ressaca. Baer alegou que Putzi o tinha assediado deliberadamente com vinho para que se embriagasse. Putzi gargalhava e apontava para o sargento.
- Este  o exrcito dos Estados Unidos. No tm como vencer guerra nenhuma-declarou ele. Field pediu a Putzi que no desse lcool de novo a seus guardas.
Embora desconhecessem esse tipo de comportamento, os britnicos continuavam apreensivos em relao ao projeto, principalmente por causa da disputa transatlntica
contnua sobre o quo restritamente - ou amplamente - o inimigo deveria ser definido. Em seus discursos durante a primavera e o vero, Roosevelt e membros do seu
governo continuaram fazendo distino entre povo alemo e seus dirigentes. Para Churchill, entretanto, qualquer tentativa de absolver pessoas comuns da culpa das
 atividades do regime nazista tinha o sabor de fraqueza e conciliao. Aos olhos do governo britnico, Putzi estava meramente encorajando seus anfitries a seguirem
esse caminho indesejvel. Parte das informaes e recomendaes dadas por ele, em especial sua insistncia nos esforos para
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inspirar um golpe militar contra Hitler, era percebida em Londres como Lieis O mesmo era vlido para o seu anticomunismo radical. Puta mosrava "sinais de tornar-se
cada vez mais perigoso em seus conselhos sobre a Alemanha", escreveu Campbell, na embaixada britnica, para Carter. O rojeto-S como um todo, disse ele, "contm
vrios elementos que, tanto direta quanto indiretamente, se revelariam prejudiciais s relaes angloamericana e anglo-sovitica".
Londres, portanto, prosseguiu seus esforos para minar o projeto. Cerca de trs semanas antes de transferir Putzi para Bush Hill, Carter tinha escrito  embaixada
britnica contando o que estava planejando e pedindo a sua resposta urgente. A embaixada transmitiu a informao a Londres, mas quando chegou a hora da mudana,
os norte-americanos no tinham recebido nada e Carter tinha seguido adiante. Somente cerca de seis semanas depois, ele recebeu o que considerou uma carta ofensiva
de Campbell declarando que o Ministrio do Interior recusava-se irrestritamente a consentir novas providncias, que, a essa altura, j tinham sido tomadas e funcionavam
bem. Campbell tambm escreveu a Welles repudiando os relatrios de Putzi como
"completamente inteis do ponto de vista tanto da guerra psicolgica quanto da inteligncia"
e insistindo em que ele s deveria permanecer nos Estados Unidos para um inqurito de um ms.
Carter ficou pasmado diante de mais um exemplo da duplicidade britnica. Segundo ele, as condies*de vida de Putzi estavam de acordo com a "essncia" do pacto original,
na medida em que era mantido sob a vigilncia de uma guarda armada e incomunicvel. Depois de discutir a questo com Welles, disse a Campbell que o presidente tinha
aprovado as providncias e proposto firmemente que o governo britnico no acompanhasse mais o caso. Carter ficou ainda mais desconcertado quando Campbell admitiu
que o governo britnico no pretendia fazer uso de espcie alguma de Putzi, mas apenas privar os norte-americanos de seus servios e liquidar todo o projeto.
O inqurito de um ms de Putzi veio e se foi, e Carter o definiu como o blefe da Gr-Bretanha. Na verdade, foi encorajado por sinais de que alguns em Londres pareciam
apreciar seus esforos. Em 20 de novembro, Carter escreveu ao presidente para informar que no dia anterior a
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inteligncia britnica o tinha "parabenizado pelo valor e mtodo dos relatrios do Dr. Sedgwick" e havia pedido mais com urgncia. Com a sua prpria carreira e reputao
dependendo do projeto, Carter ficou cheio de orgulho pelo trabalho de seu protegido. Putzi, disse ele, tinha descoberto, no discurso feito por Hitler em uma cervejaria,
em 8 de novembro, uma referncia que expunha claramente os planos dos nazistas de invadirem a Espanha e tomar Sevilha e Gibraltar. Putzi, escreveu Carter a Welles,
lembrava-se de "muitas conversas em que Hitler destacara que de Berlim ao Volga era a mesma distncia do que de Berlim a Gibraltar, e que a Alemanha precisava garantir
que as duas reas intermedirias ficassem inacessveis na Europa". A informao tinha sido encaminhada sem demora a Welles, que providenciara a sua imediata impresso
em off-set.
Esse tipo de conversa sobre o projeto-S teve, talvez, relao com as tentativas de Carter de conseguir mais dinheiro. J estava custando quatro mil dlares por ms
- uma soma nada desprezvel. Carter queria mais 500 para cobrir despesas extras para reparo da estrada, escavao do poo, linha eltrica, cuidados mdicos, e outros
incidentes relacionados a abrigar Putzi em Bush Hill e usar seu conhecimento.
No entanto, Carter j comeava a se perguntar por quanto tempo seria possvel manter o projeto em segredo. A embaixada britnica em Washington havia vazado notcias
da presena de Putzi a vrios jornais em uma evidente tentativa de sabotar o projeto. Apesar de nenhum deles terem ainda publicado a matria, parecia que isso era
apenas uma questo de tempo, principalmente por causa do artigo que Putzi estava preparando h algum tempo para a Hearst's International-Cosmopolitan. Em vez de
simplesmente deixar a notcia vazar, Carter se perguntou se no seria melhor tirar proveito da coisa toda e anunci-la.
Roosevelt ficou alarmado. A aparente proteo concedida pelo governo a um ex-nazista proeminente em uma casa de campo prxima a Washington era potencialmente constrangedora
e poderia desencadear dvidas em relao a seu envolvimento com a derrota total do regime de Hitler. A questo era ainda mais delicada, porque o presidente j estava
sofrendo ataques por concordar com um pacto que estabelecia que Jean-Franois Darlan, notrio colaborador de Vichy, fosse nomeado chefe do governo
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civil do norte da frica em troca por apoiar a invaso aliada que tinha comeado com a Operation Torch. Samuel Grafton, um colunista norteamericano, chegou at mesmo
a cunhar um nome para esse e vrios outros casos semelhantes: chamou-os de darlanismo.
Roosevelt convocou Carter e mandou que fizesse "um acordo rpido" com o editor da Cosmopolitan. Em 4 de janeiro de 1943, Carter ficou satisfeito ao enviar uma mensagem
ao presidente dizendo-lhe que j tinha feito isso. Os termos estipulavam que a revista concordava em reter a publicao do artigo at 1 de fevereiro. Nesse nterim,
o governo anunciaria a presena de Putzi em 28 de janeiro, para coincidir com os planos de propaganda para marcar o 10 aniversrio dois dias depois da ascenso
de Hitler ao poder.
Carter fez bom uso do adiamento por um ms que tinha conseguido. Contatou vrios jornalistas importantes - entre eles, Dorothy Thompson; Walter Millis, o editor
internacional do New York Herald-Tribune; e os correspondentes do Ministrio das Relaes Exteriores dos servios telegrficos da Associated Press e United Press
- para lhes explicar o caso. Putzi, garantiu-lhes, estava "destitudo de importncia poltica ou diplomtica em termos de vida poltica alem". Tambm teve o cuidado
de negar qualquer paralelo entre o seu papel e o de Darlan. Em troca de terem a matria, concordaram em obedecer ao,embargo.
A declarao de Carter  imprensa, realizada  meia-noite, em 28 de janeiro, foi curta e direta. Depois de uma breve biografia de Putzi - enfatizando as suas vrias
relaes americanas, de sua educao em Harvard ao servio militar de seu filho no exrcito norte-americano -, descreveu como ele foi transferido da jurisdio canadense
 americana e estava "cooperando ativamente com os representantes da inteligncia americana no que se refere a aspectos do regime de Hitler e do movimento nazista".
No entanto no seria "compatvel com o interesse pblico desta poca revelar detalhes de sua localizao atual ou a natureza exata de seus servios a este governo",
disse ele.
A mdia americana aceitou prontamente a declarao. As primeiras pginas dos jornais continuavam ocupadas pelos relatos do Casablanca Summit no comeo da semana,
a que compareceram FDR e Churchill e
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pelo contra-ataque russo vitorioso em Stalingrado. Putzi no foi uma grande notcia. Uma reportagem da Associated Press deixou claro que ele estava "sob guarda armada,
e no de um agente dos Estados Unidos" e que tinha fornecido informaes teis. Uma fonte bem informada do governo
- supostamente Carter - confirmou que Putzi tinha sido interrogado "extensa e cuidadosamente" e fornecido "voluntariamente muitas informaes sobre o Partido Nazista,
os lderes do partido e as personalidades que cercavam Hitler". Tentando menosprezar a importncia da operao, a fonte destacou que, na medida em que Putzi era
considerado como tendo um "temperamento instvel" e no tinha mantido contato com a Alemanha por pelo menos cinco anos, "no fora consultado sobre nada de importante".
Em sinal do sigilo que cercara toda a operao, a reportagem foi a primeira que a Alien Enemy Control Unit of the Department of Justice [Unidade de Controle de Inimigos
Estrangeiros do Ministrio da Justia] tomou conhecimento sobre a presena de Putzi nos Estados Unidos. Seu diretor, Edward J. Ennis, escreveu a Hoover no dia seguinte,
solicitando seu paradeiro exato e perguntando se o FBI tinha alguma informao que sugerisse a possibilidade de ele tornar-se "um problema de segurana como inimigo
estrangeiro". Hoover respondeu tranquilizando-o, dizendo que estava tudo bem.
Enquanto a imprensa anunciava a presena de Putzi de uma maneira neutra, os arquivos do FBI continham vrias cartas de norte-americanos comuns-alguns aparentemente
refugiados da Alemanha nazista-apreensivos com a idia de que um associado to ntimo de Hitler estivesse agora trabalhando para as autoridades dos EUA. "Como um
flagrante inimigo da democracia e de todos os direitos humanos, ele deve levantar suspeita do governo", escreveu um crtico, especialmente severo, cujo nome foi
apagado. "No posso acreditar que o Ministrio das Relaes Exteriores esteja prestes a manter qualquer tipo de relao confidencial com esse homem."
Sem considerar essas queixas, Carter congratulou-se pela divulgao das notcias terem sido "benfeitas e bem recebidas". De fato, estava to orgulhoso de sua prpria
atuao que escreveu ao presidente no dia seguinte descrevendo como tinha conquistado a mdia por meio de uma srie de informes oficiais a reprteres e ;editores
cuidadosamente selecionados. O
mtodo, sugeriu ele, poderia servir de projeto para futuras relaes com a imprensa, em especial para o Ministrio das Relaes Exteriores, cujos membros tinham
a reputao, no meio jornalstico, de serem arrogantes e
inconfiveis.
O governo britnico foi muito menos afvel: no que pareceu a Carter mais uma tentativa de Londres de causar problemas, a embaixada britnica em Washington escreveu
a Welles no dia anterior  publicao da matria, exigindo o retorno de Putzi  sua custdia. Carter ficou furioso. Em um memorando minucioso, de oito pginas, a
Roosevelt, elogiou a cooperao de Putzi, que, disse ele, tinha-se revelado "til em vez de importante", e demoliu o argumento britnico de que, de certa forma,
tinham sido mantidos no escuro em relao a seus movimentos. Suas obj ecoes no eram a Putzi, disse ele ao presidente. Os britnicos estavam tentando assegurar para
si mesmos um monoplio da informao poltica e contatos com a Europa e o Oriente prximo, e estavam determinados a "se apoderar de novo de Putzi para suprir uma
lio prtica de sua supremacia nesse campo". Carter argumentou que Putzi tinha cumprido o acordo, correspondido s expectativas de boa-f e dedicado o mximo de
suas habilidades. Obriglo a retornar  Inglaterra seria "injusto e desumano" - e, possivelmente, tambm ameaa de vida, especialmente se fosse colocado de volta
em um campo em que os prisioneiros eram controlados por gangues nazistas terroristas. A concluso de Carter foi clara: "H boas razes, em meu julgamento, para uma
recusa tranqila, moderada e bem-humorada a se submeter ao que parece ser uma exigncia arbitrria", escreveu ele. Roosevelt ouviu seu
conselho.
Algumas semanas depois, a edio de maro de 1943 da Cosmopolitan, com o artigo de Putzi, foi distribuda. Entre as suas afirmaes mais sensacionalistas estava
a de que a sobrinha de Hitler, Geli Raubal, no tinha se suicidado, mas
sido morta por Hitler porque se apaixonara por seu professor de canto vienense judeu. "Geli
morreu com o ferimento de uma bala do revlver de Hitler", escreveu Putzi. "Hitler, depois, em pnico, mandou chamar Hermann Gring e Gregor Strasser, lder do partido.
Strasser saiu com a cara fechada. O dio de Hitler por ele teve incio nesse momento. Strasser tinha-se recusado a considerar aquilo um acidente." O artigo tambm
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declarava que, depois do assassinato, Hitler procurou superar seu trauma com uma "sucesso de louras" do teatro e cinema, que, segundo Joseph Goebbels, o ministro
de Propaganda, fomentavam o "complexo de me" de Hitler. Era um material ligeiramente mais picante do que o que Putzi enviava para Roosevelt, embora, sem dvida,
menos exato.
Apesar dessas publicaes, o nome de Putzi desapareceu da imprensa nos meses subsequentes. Sua presena, no entanto, continuava a provocar fascnio. Em abril, o
FBI foi procurado pela United Artists em nome de Charlie Chaplin. Chaplin tinha terminado O grande ditador, seu filme sobre Hitler, e o estdio no explicou o que
queria de Putzi. De qualquer maneira, foi dito que seria "impossvel assegurar-se de seus servios nesta poca".

23
DURANTE O TEMPO EM Fort Belvoir, Putzi comeou a perder o interesse nos seus relatrios de propaganda rotineiros. Field, ento, ofereceu uma soluo. Alm de seu
trabalho regular, Putzi prepararia um relatrio pessoal detalhado sobre Hitler. Com a ajuda de um psiclogo que trabalhava para o governo dos EUA, foi elaborada
uma lista de perguntas e Putzi ps-se a escrever sobre as fraquezas e foras de Hitler, suas deficincias e anormalidades, suas atitudes em relao a tudo, da msica,
arte e literatura, a religio e mulheres. Ele assumiu a sua nova tarefa com entusiasmo; durante dias, cobriu pginas e pginas de papel almao. A secretria de Field
datilografava cada seo at um manuscrito de cinqenta pginas, com espao duplo, estar concludo. Apesar de organizado de maneira um tanto casual, era uma leitura
fascinante. Os dois sentaram-se juntos por vrios dias para ordenar o material em uma seqncia lgica.
A secretria de FDR, Grace Tully, achou que o presidente teria interesse em um memorando, e um exemplar muito bem datilografado foi encadernado com uma capa preta
e entregue na Casa Branca. Tully tinha razo. Roosevelt, que preferia claramente fofocas a inteligncia maante, ficou fascinado e intitulou-o "Hitler's Bedtime
Story" [Histria de Hitler para a Hora de Dormir]. Emprestou sua cpia a Harry Hopkins, seu confidente de longa data e consultor extraoficial em relaes exteriores,
e a vrios outros ajudantes. A verso final, datada de 3 de dezembro de 1942, tinha
68 pginas. Nela, Putzi tentava fazer uma anlise completa do carter,
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comportamento e influncias de Hitler. O tom era crtico e muito diverso do discurso elogioso ao seu amado Fhrer, redigido apenas alguns anos atrs.
Previsivelmente, talvez, Putzi encontrou as razes das aes posteriores de Hitler em sua infncia - em seu pai violento e abusivo e uma "me de olhar histrico"
que ocupou uma posio central em sua "gnese ertica". Quando adolescente, a ausncia de uma educao formal foi responsvel para a desconfiana que Hitler nutria
em relao ao que chamava "do tipo professoral". Entretanto, era dotado, desde a infncia, de um dom extraordinrio para o discurso e lia muito - sentia-se especialmente
atrado por exemplos destacados de retrica e epigramas histricos. Quando lia biografias importantes, era sempre atrado pelo lado "demaggico, propagandstico
e militarista", em vez do contemplativo.
Os heris de Hitler eram vrios, mas tinham em comum a determinao para usar uma fora suprema com o intuito de alcanarem suas metas. Portanto, Oliver Cromwell
era admirado por decapitar o rei Charles, e Field Marshall Blcher era elogiado pela determinao com que liderou as foras prussianas contra Napoleo. O prprio
Napoleo tinha-se tornado uma espcie de modelo, afirmou Putzi, superando Frederico, o Grande, um heri anterior. Hitler admirava em Napoleo o seu esprito revolucionrio
e suas atitudes anticonservadoras, anticapitalistas e antiburguesas. Impressionavalhe principalmente a maneira como Napoleo tinha moldado, progressivamente, os
franceses  sua prpria imagem, e queria fazer o mesmo com os alemes.
Putzi disse que Hitler costumava afirmar que recebera uma ordem "do outro mundo" para salvar a Alemanha quando estava no hospital em Pasewalk no outono de 1918.
No entanto, a viso de Hitler de si mesmo tinha mudado ao longo dos anos. No comeo de 1923, referia-se a si mesmo como o "tocador de tambor  frente de um grande
movimento da liberao por vir". Isso significava que um dia viria um lder maior - o que, de certa maneira, explicava a subservincia que mostrava em relao a
Ludendorff e a outros membros da casta militar. Dez anos depois, o tocador de tambor tinha-se tornado o Fhrer, e os historiadores nazistas chegaram at mesmo a
negar que ele, algum dia, tivesse usado o termo. Se tivessem, de alguma maneira, se referido a ele como o "tocador de tambor", certamente teria sido por seus inimigos
que queriam depreciar suas chances de liderana suprema. Joo Batista tinha sido transformado em Messias, mas a concepo do Messias de Hitler no era como "Cristo 
crucificado, mas como Cristo furioso
- Cristo com um chicote".
Putzi tambm escreveu detalhadamente sobre Hitler como pessoa - e fez um retrato curioso. Meticuloso em relao  aparncia pessoal, nunca tirava o casaco em pblico,
independente do calor que fizesse. Tampouco permitia que o vissem no banho ou despido. Seus gostos eram espartanos: quase completamente vegetariano, parou de fumar
assim que a guerra comeou. Depois de sua priso em Landsberg, passou a beber raramente. Foi o lado asctico da natureza de Hitler o responsvel pela sua crescente
averso pelo Rohm epicurista, conhecido por seu amor a jantares prdigos e bons vinhos. Embora tivesse um fsico robusto e fosse capaz de trabalhar muitas horas,
Hitler era desinteressado por jogos, fossem ao ar livre ou no, no sabia nadar-na verdade, tinha medo da gua-e s caminhava ocasionalmente. Seu nico exerccio
era falar em pblico e ficava banhado em suor depois de um discurso importante. S ficava satisfeito e tranqilo depois de falar a ponto de desfalecer de exausto.
Talvez por isso dormisse mal - sempre se deitando o mais tarde possvel e, invariavelmente, com um sedativo.
A msica era uma das principais diverses de Hitler, exercendo a tripla funo de isol-lo do mundo, relax-lo e, depois, estimul-lo  ao. Tristo era a preferida,
e, se estivesse enfrentando uma situao desagradvel, gostava de que tocasse Mestres-Cantores para ele. s vezes tambm recitava passagens inteiras do texto de
Lohengrin, que, para espanto de Putzi, ele parecia saber de cor. Alm de Wagner, Verdi e certas peas de Chopin e Richard Strauss, tambm gostava de msica cigana,
de rapsdias, de Lizt e Grieg. No gostava de Bach, Handel, Haydn, Mozart, Beethoven e Brahms. Tambm gostava muito de cinema - principalmente daqueles proibidos
na Alemanha, que Goebbels conseguia para ele e que eram exibidos na sua sala de exibio privada, na chancelaria. Tambm eram exibidos filmes de prisioneiros polticos
e execues. O vaudeville e o circo, especialmente nmeros na corda bamba e trapzios, tambm eram seus favoritos. "A emoo de artistas mal pagos que arriscam suas
vidas tambm era um verdadeiro prazer para ele", escreveu Putzi. No gostava muito de nmeros com animais selvagens, a no ser quando uma mulher corria perigo.
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A vida sexual de Hitler era um mistrio para Putzi, ainda que o tivesse observado durante anos, provavelmente mais de perto do que qualquer outra pessoa. Putzi especulou,
como outros fizeram - apesar da ausncia de qualquer prova concreta - que Hitler talvez tivesse sido infectado com uma doena venrea durante seu tempo em Viena
a partir de 1909. Tambm no havia muitas dvidas de que Hitler tinha sido exposto ao homossexualismo durante a sua estada no Mnnerheim Brigittenau, um albergue
em Viena famoso como um lugar "em que homens mais velhos iam em busca de rapazes". Putzi, entretanto, no achava que ele tivesse chegado a praticar a homossexualidade.
"Apesar do verdadeiro Adolf Hitler ser elusivo ao diagnosticador, h certos fatos que provam que sua situao sexual  insustentvel e, at mesmo, desatinada", escreveu
ele. "Parece haver obstculos psquicos, talvez tambm fsicos, que tornam a verdadeira e completa satisfao sexual impossvel. Em geral, ele procura uma mulher
metade me, metade namorada." Impossibilitado de encontrar a satisfao, Hitler, ento, obtinha alvio se dirigindo a uma multido, o que se tornou, para ele, como
cortejar uma mulher. Quando Putzi lhe perguntou certa vez por que nunca tinha-se casado, Hitler respondeu: "O casamento no  para mim e nunca ser. A minha nica
esposa  a minha Ptria."
Um dos estranhos hbitos de Hitler era levar sempre um chicote na mo - que agitava ao falar, geralmente um tanto timidamente, de mulheres. Putzi estava convencido
de que o chicote desempenhava algum tipo de papel misterioso nas suas relaes com o sexo oposto. "Todo esse brandir do chicote parece ter relao com um desejo
oculto da parte de Hitler por um estado de ereo que venceria seu complexo de inferioridade sexual", escreveu ele. Pensava se no seria induzido pela lembrana
de seu pai sdico, brandindo o chicote.
O retrato de Hitler foi apenas um das dezenas de relatrios que Putzi escreveria para os norte-americanos. Documentos em seus arquivos a partir desse perodo oferecem
uma amostra do material que ele fornecia. Em uma anlise de seis pginas intitulada "A situao alem no comeo de 1943"
datada de 4 de janeiro, descreveu as tentativas nazistas de arregimentar a populao depois da contraofensiva sovitica vitoriosa em Stalingrado e Os avanos norte-americanos
e britnicos no norte da frica. "Isso, com certeza, no afetou favoravelmente o moral e o prestgio alemes", escreveu ele. Sinais de que a guerra entraria em seu
quarto ano provocaria, inevitavelmente, comparaes com a Primeira Guerra Mundial e o seu clmax "no grande colapso de nervos, a Revoluo de novembro de 1918"-
algo que Hitler e seus aliados queriam evitar a todo custo. Por isso ele, Goebbels e Gring queriam cada vez mais lembrar ao povo o combate mais herico da Guerra
dos Sete Anos e Frederico, o Grande. Desde que Hitler traara, pela primeira vez, paralelos entre os dois conflitos em um discurso na Lwenbrukeller, em novembro
passado, passara a fazer cada vez mais aluses  guerra. Tais menes, disse Putzi, "constituem uma tentativa bvia da parte deles de habituar a massa  idia de
pensar em termos de sete anos, em vez de quatro - em uma vitria distante, em vez de uma derrota iminente.
Para Putzi, tal comparao entre Hitler e Frederico, o Grande era espria. Hitler era "um usurpador que  forado a sustentar seu governo com instituies opressivas,
quase policiais", e no um soberano legtimo. Seus objetivos com a guerra eram muito diferentes. Frederico perseguiu metas geogrficas restritas, definidas pelo
solo prussiano e pela defesa do futuro da nova Alemanha. O imprio de Hitler em contraste, era "uma monstruosidade geogrfica e tnica". Putzi tambm no resistiu
a mais uma cutucada em Hitler - enquanto Frederico representava o progresso do pensamento, convidando homens como Voltaire, Diderot, D'Alembert, Maupertius, e outros
pensadores eminentes  sua corte, Hitler evitava, conscientemente, grandes eruditos e "passa a maior parte de seu tempo privado na companhia de motoristas intelectuais".
Putzi ficou orgulhoso com o seu relatrio. 'Como as elaboraes acima no sobrepujam, de maneira nenhuma, o conhecimento do alemo mediano, a nossa informao sugere
seu uso imediato para propsitos de propaganda", escreveu ele.
Quatro dias depois, Putzi escreveu um comentrio sobre o discurso de Vspera de Ano-Novo de Goebbels. No se deixou impressionar: um exame cuidadoso do texto alemo
original "prova, sem deixar a menor sombra de dvida, que Goebbels pressionou o ltimo registro de seu grande
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rgo Wurlitzer (...). As diversas asseres, promessas etc. etc., tendo
sido refutadas pelo inesperado fracasso dos fronts alemes no Cucaso. Stalingrado - fatalmente
retornaro a Goebbels e ao regime de Hitler" Putzi predisse: "O comeo do fim est muito, mas muito mais prximo do que a maioria das pessoas acredita. Com toda
a probabilidade, Goebbels ter desaparecido definitivamente quando escutarmos o prximo discurso alemo de Fim de Ano. Em ltima anlise, esse discurso  (...) a
admisso franca de que a filosofia criminosa geopoltica foi finalmente reprimida" Em 8 de maro, Putzi escreveu outro relatrio sobre "o modo provvel de sada
de Adolf Hitler do palco da histria", em que especulou - de forma prematura-se Hitler se sentiria tentado a cometer suicdio. Sua concluso foi de que sim, se chegasse
a deparar com uma situao to grave que tivesse uma razo "legtima" para agir assim. Alternativamente, talvez buscasse umaHeldentod [morte herica] nofront. "Hitler
sabe que no caso de derrota no haver nenhuma Santa Helena para ele", escreveu ele.
Putzi no limitou suas contribuies a esses comentrios. Depois de seu retrato de Hitler, voltou a ateno para os seus seguidores fiis. Um relatrio sobre Himmler,
datado de 23 de abril de 1943, descreveu-o como uma criana que crescera demais-"imaturo, dissimulado e frustrado pela Grande Guerra e suas conseqncias". A chave
para entender a psicologia de Himmler, escreveu Putzi, era que ele tinha planejado originalmente fazer carreira na agricultura e agronomia e, por conseguinte, via
o mundo com os olhos de um simples fazendeiro. "Para ele, a Alemanha no passa de uma grande propriedade", escreveu. "Seu dever  mostrar resultados. Quaisquer obstculos
so tratados ou como erros ou como sabotagem os primeiros deveriam ser corrigidos, e a segunda deveria ser tratada como se trata erva daninha ou vermes, pelo extermnio.
No h sentimentos. E apenas parte do trabalho. Por via de regra, fazendeiros no fazem parte da Sociedade de Preveno da Crueldade com Animais."
A verdadeira esposa de Himmler, declarou Putzi, era a sustica, a bandeira. Isso explicava, em parte, a sua abordagem do casamento: "Ele escolheu uma esposa que,
sendo a vencedora do Prmio Nobel de Feiura Feminina, no representa o menor perigo de ser cativada e enfraquecida
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por uma vida amorosa domstica excessivamente absorvente." Na verdade, Frau Himmler "tem uma aparncia to horrvel que nunca  vista".
Tais anedotas tornam uma leitura interessante. Embora seja duvidosa a extenso de seu uso operacional, Roosevelt tinha um apetite considervel pelo tipo de detalhes
pessoais que Putzi podia oferecer. Mas isso tinha um preo. Em maio, Carter pediu um aumento para o seu oramento mensal de 4.500 para cinco mil dlares. No foi
somente por causa das contas de mdicos de Putzi - depois de um trabalho dentrio caro, precisava agora extrair as amgdalas -, mas tambm devido ao desenvolvimento
da operao, que inclua a ampliao do escritrio de Carter em Nova York e o acrscimo do escritor Henry Pringle na folha de pagamento.
Mas nem todos os relatrios de Putzi foram bem recebidos. Aqueles que leram o seu trabalho ficaram impressionados no somente com o seu antissemitismo, como tambm,
e ainda mais, com o seu violento anticomunismo. Isso era salientado pelo que passaria a ser conhecido como o Massacre Katyn. Em 13 de abril de 1943, o governo alemo
anunciou a descoberta, por seu exrcito, dos corpos de 4.421 oficiais poloneses em uma floresta perto de Smolensk, na Rssia ocidental. Com um tiro na nuca e com
as mos amarradas com arame farpado, os homens jaziam, uns em cima dos outros, em valas imensas. Pareciam ter sido obrigados a ficar em p ou ajoelhados  beira
da sepultura comum. Quando a bala os atingia, caam para a frente, poupando a seus matadores o trabalho de enterr-los. Os nazistas perceberam imediatamente o valor
de propaganda da descoberta terrvel. Os soviticos, que tinham sido adotados pelo Ocidente com tanto entusiasmo, como aliados, foram os autores desse crime terrvel,
anunciaram. O Kremlin negou a acusao, afirmando que tinham sido os alemes os assassinos dos poloneses e que agora queriam desonrar a Rssia. Putzi no tinha dvidas
de que os russos eram os culpados e continuou a apontar, nos relatrios subsequentes, o uso eficiente que os nazistas estavam fazendo do massacre em suas transmisses
para a Europa Oriental.
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"A amarga verdade permanece, como colocado pelo Dr. Goebbels, que o caso Katyn revelou-se incontestvel", escreveu ele. "Em relao a isso,  bom no nos esquecermos
de que no existe melhor propaganda do que a verdade." Se os aliados tentarem ignorar a coisa toda, s faro agravar a situao, avisou. A qualquer "no bolchevista",
a "idia de uma invaso aliada do continente pode significar a runa do obstculo alemo no Leste, e a inundao subsequente da Europa pelas 'hordas bolchevistas',
com todas as possibilidade de outra 'katynizao' em uma escala sem precedentes". Tal opinio era necessariamente repulsiva aos anfitries norte-americanos de Putzi.
Havia pouca dvida de que eles tambm tivessem percebido que os russos eram os culpados. Owen O'Malley, embaixador britnico para o governo polons no exlio, tinha
admitido isso em um relatrio secreto a Winston Churchill que, por sua vez, quase admitiu a responsabilidade sovitica pelo massacre a Wladyslaw Sikorski, o primeiro-ministro
polons no exlio. "Pois , as revelaes alems so, com certeza, verdadeiras", disse-lhe Churchill. "Os bolchevistas podem ser cruis."
Mas a guerra tinha de ser vencida, e os aliados ocidentais precisavam desesperadamente da ajuda dos russos para derrotar Hitler. Duas semanas depois da descoberta
dos corpos, Churchill mandaria a Stalin um telegrama com excessivas congratulaes pelo "discurso esplndido" que proferiu no desfile do Dia do Trabalho. A verdade
sobre Katyn tinha de esperar. S em 1990 o Kremlin enfim admitiu a verdade e o presidente sovitico Mikhail Gorbachev culpou, formalmente, a NKVD, precursora da
KGB. Dois anos depois, aps a dissoluo da Unio Sovitica, Boris Yeltsin, o presidente russo, entregou os documentos da contraparte polonesa provando, sem deixar
dvida, que o massacre tinha sido ordenado por Stalin. Em outras ocasies, entretanto, Putzi estava simplesmente errado seu julgamento turvava-se por seu dio intenso
do comunismo. Em 14 de julho de 1943, ele disse a Carter que esperava que Hitler casse em mais ou menos trs meses, e que a sua queda seria seguida de uma revoluo
alem. Tambm aproveitou a ocasio para alertar contra as conseqncias de Katyn. O massacre, disse ele, tinha, sem dvida, surtido um efeito sobre a opinio pblica
na Europa Central e Oriental - algo subestimado pela
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inteligncia americana - que corria o risco de empurrar a Polnia de novo para os braos da Alemanha".
Putzi no parava de falar com Field sobre Egon e de como sentia saudades dele. Depois do breve encontro  hora do almoo, em junho do ano anterior, Egon tinha retornado
 sua unidade. No entanto, a sua base continuava sendo nos Estados Unidos, e, quando Field mencionou o assunto a Carter, ele props um plano: Egon seria levado a
Bush Hill para tornar-se o guarda militar de seu pai.
Era, como Egon descreveu mais tarde, um papel triplo estranho. Ele seria o guarda-costas de seu pai "tanto contra o possvel perigo de um louco Kraut, que odeie
meu pai por ach-lo um traidor, quanto contra um possvel incidente organizado pelos britnicos para desprestigiar ou dar fim ao projeto-S"; o seu guarda de prisioneiro
de guerra que "tem de impedir que meu pai fuja"; e seu secretrio particular "para ajud-lo a monitorar o rdio, compor seus relatrios, datilograf-los etc." Essa
posio anmala s fez intensificar a sensao de Egon de "ser extraordinrio". Field ficou impressionado: o filho de Putzi, alm de ser muito inteligente, tinha
um profundo conhecimento de seu complexo pai. Field tambm achou-o muito mais agradvel do que Putzi.
Egon ajudava o pai a examinar as transcries realizadas pela Federal Communications Commission e os microfilmes dos jornais europeus que recebiam e a monitorar
as transmisses do Reich. Tambm usava o seu prprio conhecimento e experincia para ajudar Putzi a compor seus relatrios. Egon percebeu a exasperao do pai ao
lhe pedirem, periodicamente, para comentar as declaraes de que Hitler estava morrendo. Depois de lhe fazerem a mesma pergunta pela quarta ou quinta vez, Putzi
perdeu a pacincia:
- Parem de me fazer essa pergunta idiota-disse a um de seus interlocutores. "Se ele morrer e quando morrer, eu direi. Terei de dizer, porque certamente vocs sabero.
O homem no  simplesmente um testa de ferro; ele  o chefe, e haver revoltas tremendas. Sua morte no passar despercebida."
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Putzi no tinha mais pacincia com os muitos funcionrios de cargos altos que costumavam aparecer e usar o seu conhecimento. Em certa ocasio, Egon ouviu-o repreender
severamente um general de diviso encarregado da guerra psicolgica por ele no falar alemo.
- Isso  um absurdo - disse Putzi a seu visitante, com a voz alta, durante um encontro na biblioteca, com Egon escutando discretamente no corredor do lado de fora.
- Vou lhe fazer uma oferta: voc vem aqui duas vezes por semana e lhe darei aulas de alemo, e dentro de algumas semanas estar em condies de realizar a misso
que agora no est capacitado a cumprir.
O general no se sentiu inclinado a aceitar a oferta e deixou o edifcio furioso, sem responder  saudao de Egon. Egon repreendeu o pai por tratar um general de
diviso dessa maneira, quase expulsando-o.
- Como espera exercer influncia, se usa esse tipo de psicologia? perguntou.
Era tpico de seu pai, pensou. Parecia sempre encontrar uma maneira de exasperar as pessoas. Gente como Putzi estava fadada a ser como "Cassandras", concluiu Egon.
"Profetizaro corretamente, mas no sero escutados. Seus conselhos no sero aceitos porque impedem essa possibilidade ofendendo seus ouvintes a ponto de no serem
capazes de julgar os mritos do que lhes est sendo dito."
Uma tarde, quando Egon e Field estavam sentados na varanda, contemplando o jardim e desfrutando o sol quente, Egon, de sbito, interrompeu o devaneio de Field com
uma proposta inesperada.
- A morte de Hitler abreviaria a guerra - disse-lhe Egon. - Acho que posso mat-lo. Tenho as qualificaes ideais.
Enquanto Field escutava, perplexo, Egon prosseguiu delineando um plano bizarro para assassinar o lder nazista. Ele iria a Berchtesgaden, que conhecia bem desde
que era menino, num momento em que sabia que o lder nazista estaria l. Haveria ento duas possibilidades: ou tiraria o rifle de um guarda e atiraria em Hitler
pela imensa janela de espelho, atrs da qual ele costumava andar de l para c, na hora do crepsculo. Ou, alternativamente, poderia tentar entrar na casa, talvez
dizendo aos guardas que levava uma mensagem secreta de seu pai.
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- Uma vez l dentro, acho que Hitler ficar intrigado ao me ver disse ele. - Se eu puder chegar perto o bastante para apertar a sua mo,
poderei mat-lo.
Egon estava convencido de que poderia sobreviver por muito tempo na confuso que se seguiria para reivindicar o status de prisioneiro, segundo a Conveno de Genebra,
como "um sargento norte-americano agindo sob ordens diretas do comandante supremo para assassinar o inimigo". Mesmo que o plano fracassasse, ele estava convencido
de que abalaria gravemente a psique de Hitler.
Apesar da natureza estranha da proposta, Field ficou impressionado o bastante para discuti-la com Carter, que, em seguida, enviou-a ao presidente. Foi respondida
com uma recusa brusca. No somente a improbabilidade de sucesso provocou a rejeio. Roosevelt, aparentemente, era fiel ao princpio tico segundo o qual um chefe
de Estado no tenta assassinar outro. Sem desanimar, Egon apresentou outra proposta logo depois. Salientou que sabia detalhes das defesas areas de Berchtesgaden,
que, ele supunha, seria o lugar a que Hitler se retiraria, talvez para encenar algum final dramtico no Ninho da guia. Providncias foram tomadas para que ele instrusse
oficiais da U.S. Army Air Force. L, com uma vareta na mo direita, diante de uma maquete de Berchtesgaden, com reprodues pequeninas de avies, mostrou como era
possvel com duas esquadrilhas enganar a defesa e destruir as casas de Hitler, de Gring e de outros. O Ninho da guia, no alto, ficaria intocado, pois ali se guardava
registros importantes.
Em outra ocasio, Egon descreveu a Field suas experincias na Juventude Hitlerista e como tinha sido treinado para matar sem fazer rudo. O diretor da OSS, general
William Donovan, ficou to impressionado ao saber disso que mandou Egon fazer palestras a membros da OSS que se submetiam a um treinamento especial nos arredores
incompativelmente luxuosos do Congressional Country Club, perto de Washington. Usando roupas de camuflagem e com as mos e rosto enegrecidos, Egon - conhecido ali
como sargento Martin - demonstrou vrios mtodos de mortes silenciosas - inclusive estrangulamento por trs com uma corda de piano e outros princpios bsicos de
combates noturnos. Anos depois, um eminente banqueiro de Wall Street disse a Field como esse dia de aula tinha
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salvado a sua vida, pois tinha cado atrs das linhas alems,  frente do exrcito de Patton, e sabia o que esperar.
Inspirado pelo tempo de Egon na Juventude Hitlerista, as autoridades dos EUA tinham outra tarefa especial para ele. Em 30 de dezembro, foi levado por Carter ao escritrio
de Leo Rosten, chefe da sucursal domstica do Office of War Information. L, os dois homens o incitaram a escrever suas memrias, "com referncia especial a H.J."
[Juventude Hitlerista].  maioria das pessoas pareceria estranho escrever suas memrias aos 22 anos. Mas Egon j tinha se submetido a um grau tal de ateno da imprensa
que enfrentou a situao sem hesitao.
No comeo de janeiro de 1943, pegou a caneta e se ps a escrever. "Comecei, nesse dia, a rascunhar algumas diretrizes para a execuo de'minhas memrias'", dizia
uma anotao em seu dirio no dia de Ano-Novo. Os norte-americanos tambm consideraram o papel em um filme: em 12 de janeiro, Rosten chamou-o para uma reunio com
o tenente-coronel Frank Capra, que levantou a idia de uma pequena participao no segundo filme de um seriado chamado "What Are We Fighting For". Egon gostou muito
da idia; infelizmente, no foi levada adiante.
O livro tambm progredia lentamente. Egon, alm de ter de continuar a assistir seu pai, tinha de ajudar a cuidar de Bush Hill, cortando lenha para o fogo, transportando
suprimentos, bombeando e transportando gua sempre que o motor Delco quebrava - o que acontecia com freqncia. Alm disso, a escrita no flua com facilidade. Egon
quis escrever na terceira pessoa -  Csar - para conseguir uma imparcialidade, mas foi persuadido do contrrio, justamente para no haver distanciamento.
O projeto no deixou de ser controverso. Apesar do entusiasmo de Carter e Rosten, o general Strong foi cauteloso, em parte por causa da clusula nos regulamentos
do exrcito contra qualquer pronunciamento de um soldado para publicao sobre questes que tivessem implicaes militares diretas ou indiretas. Alegou que violaria
o acordo com os britnicos. Carter repudiou tais objees, e a questo da publicao tornou-se tema de um debate acalorado no mbito ministerial. Egon no deu importncia
 confuso. De fato, tornava-se cada vez menos entusiasmado com o projeto e acolhia bem as ordens de "Suspender" dadas de tempo em tempo
como uma desculpa para adiar trabalhar seu manuscrito. Finalmente, em
20 de fevereiro, Henry L. Stimson, ministro da Guerra, tratou do assunto diretamente com Roosevelt. Carter, que apoiava o projeto, tambm discutiu-o com o presidente.
Um dia, no comeo de maro, Carter chamou Egon, dirigindo-se a ele com uma "solenidade elaborada" que divertiu os dois.
- Sargento Hanfstaengl - disse ele. - O presidente instruiu-me que lhe transmitisse sua ordem direta, na qualidade de seu comandante supremo, de que escreva suas
memrias.
Em 9 de maro, Egon se ps a trabalhar com afinco. Ao dar uma olhada no material, uma semana depois, Carter proclamou-o "material de primeira
classe".
Cada pgina era levada  OSS, onde uma datilografa fazia vrias cpias, uma das quais, Egon foi levado a acreditar, era entregue e realmente lida por Roosevelt.
Vez ou outra, Carter o estimulava com mensagens demonstrando interesse ou aprovao do presidente. Como um incentivo a mais, Carter disse-lhe que a Reader's Digest
estava interessada em publicar trechos do livro por uma soma considervel. O progresso foi rpido. Em 1 de junho, uma cpia datilografada completa foi encaminhada
de volta a Egon para ser revisada.
Carter ficou impressionado com o trabalho de Egon. Uma semana depois escreveu a Roosevelt elogiando-o como "um documento impressionante" que, depois de mais uma
reviso, poderia ser utilizado eficazmente para propsitos de propaganda. Tambm sugeriu que talvez o presidente quisesse conhecer Egon antes que ele partisse para
"arriscar a vida por este pas". Roosevelt ficou satisfeito ao ler o manuscrito, mas no achou sensato conhecer o "jovem Putzi". Egon estava to cansado do projeto
que o mximo que conseguiu fazer foi ler todo o primeiro tratamento. Em 8 de julho, entregou todas as 477 pginas datilografadas a Field e esperou para ver o que
ia acontecer. O manuscrito intitulava-se Out ofthe Strong.
Enquanto Egon estava terminando seu livro, Putzi preocupava-se com a sua me, que ento estava na faixa dos 80 anos. Ela escrevia-lhe regularmente para o endereo
de Fort Henry, mas as cartas no passavam do Office of Censorship, em Washington. Em setembro, as cartas foram enviadas ao
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FBI, que, por sua vez, as enviaram a seu laboratrio para serem examinadas, checarem tinta secreta e a presena de cdigos ou cifras. Evidentemente, o teste deu
negativo. Eram apenas o desabafo de uma mulher idosa preocupada com a possibilidade de no rever seu filho antes de morrer. "Existe algo mais triste para uma me
do que a separao que agora sofremos?" escreveu ela em uma das cartas. "Se pelo menos eu soubesse como voc est!" Em outra, ela falava da "tortura sofrida por
todos aqueles separados de seus entes queridos, sem notcias de seu bem-estar".
O verdadeiro interesse de Egon no era tanto escrever o livro quanto a sua carreira militar. Apesar do prazer de estar com seu pai, no tinha se alistado no exrcito
para passar a guerra em uma casa de campo nos arredores de Washington. Queria prestar servio ativo, mas o status de Putzi significava que Strong continuaria a impedi-lo.
Egon tinha herdado a determinao do pai, e em 16 de fevereiro conseguiu que o presidente Roosevelt assinasse uma ordem pessoal autorizando-o a ser enviado para
ofront. Mas ele permaneceu em Bush Hill.
Em 22 de julho, Carter ligou com duas boas notcias. Primeiro, o manuscrito seria publicado: Henry Pringle, que tinha ganhado um prmio Pulitzer por sua biografia
de Theodore Roosevelt e, recentemente, sido acrescentado ao escritrio de Carter, seria o ghost-writer e editor. Depois de algumas revises, o manuscrito foi enviado,
no ms seguinte,  Reader's Digest. Foi planejado que tambm seria lanado como livro. O que mais interessou a Egon foi a notcia de que seria enviado para combater
no sul do Pacfico. Ele teria preferido a Alemanha, pensando que seria mais til l, mas qualquer designao seria melhor do que permanecer na Virgnia.
Em 1 de outubro, Egon fez a ltima anotao no dirio que mantinha desde que chegara a Bush Hill: "Packen -Abfahrt ins Blaue" [Prepare-se
- Partida para o Desconhecido]. Logo depois, partiu feliz para o sul do Pacfico. Antes de partir, deu a Carter uma procurao para dispor do lucro com seu livro.
Egon no alimentou esperanas. Foi bom, pois, apesar de todo esforo de Pringle, o livro nunca foi publicado. Todos os editores
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a quem procuraram rejeitaram-no. Um condenou-o como uma "forma
particularmente insidiosa de propaganda alem.
    Egon achou engraado. Relembrando, muitos anos depois, lamentou
que fosse jovem e fraco demais para resistir  tentao de escrever -
exatamente o que as autoridades dos EUA e o pblico norte-americano queriam
ouvir. Foi mesmo uma sorte", pensou ele, que o livro nunca tivesse sido publicado.

24
ERA UMA NOITE DE NOVEMBRO mida e desagradvel quando Alexander Sturm, recm-graduado na faculdade, dirigia seu Lancia azul-escuro conversvel em direo a Washington.
Estava a caminho de seu primeiro emprego, oferecido, nesse vero, por Carter, que no havia esclarecido o que deveria fazer nem quanto lhe pagariam. Nessa noite,
continuava na mesma: s sabia que um quarto de hotel havia sido reservado para ele na rua F, no muito distante do Ministrio das Relaes Exteriores.
Era tarde quando Sturm finalmente chegou ao hotel. Sua primeira impresso no foi favorvel. O quarto era to pequeno que mal havia espao para os trs mveis de
madeira, muito menos para ele prprio e suas malas. Saindo na chuva torrencialTbuscou conforto na refeio de vichyssoisse e peixe-espada, acompanhada de uma garrafa
de Niersteiner Sptlese 1934. Depois, ao retornar ao hotel, sentiu-se pronto para qualquer coisa. O que foi timo.
Na manh seguinte, Sturm dirigiu, como instrudo, para a casa de Carter na Leroy Place. De l, seguiram juntos para o prdio onde funcionara uma escola e que tinha
sido convertido em quartel-general da contra espionagem. Ali, depois de uma minuciosa verificao dos documentos e muitas assinaturas, o novo recruta foi apresentado
a um tenente chamado Neumann que, lhe disseram, o ajudaria a aprimorar a sua percia no tiro ao alvo. Advogado de formao, Neumann escutava aprovando enquanto Carter
resumia a atribuio de Sturm. Tudo continuou vago: a sua principal tarefa, disseram, seria "exercitar o tato". Foi somente quando os dois
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tornaram a partir sob um cu azul-claro, riscado de nuvens, dessa vez rumo a Alexandria, Virgnia, que Sturm finalmente ficou conhecendo a verdadeira natureza de
seu trabalho.
- Seu futuro imediato - disse-lhe Carter - ser como guarda-costas e acompanhante de Ernst Franz Sedgwick Hanfstaengl, conhecido como 'Putzi', ex-vice-ditador da
Alemanha.
No obstante o exagero da importncia do papel anterior de Putzi, Carter prosseguiu resumindo brevemente a sua vida e formao. Por razes de segurana, salientou,
seu protegido seria conhecido como Dr. Sedgwick ou simplesmente o doutor. Dito isso, prosseguiram para Bush Hill.
Um Baer sorridente abriu a porta para Carter e Sturm. Ao entrarem, Sturm teve a sua primeira viso de Putzi quando emergiu da porta em frente. Estava totalmente
vestido de caqui. A primeira coisa que causou impresso em Sturm foi a sua "qualidade hemisfrica". No era apenas alto, era macio. Cabelo preto liso, dividido
ao meio, que estava sempre caindo sobre seus olhos. Sempre um anfitrio perfeito, Putzi convidou Sturm e Carter  sala de estar, onde a lenha queimava na lareira.
Um gato cinza estava enroscado dormindo sobre o sof. A sala era estranha: as mesas e peitoris das janelas estavam cobertos de pilhas de livros, jornais e relatrios
mimeografados empoeirados. Brocado apodrecido e gasto descascava das paredes.
Putzi escutava um discurso de Churchill em seu rdio de ondas curtas, tomando notas com uma pena de ao, quando entraram. Virou-se e olhou para Sturm aprobativamente."
- Parece-se com o enteado de Wagner - disse ele.
- Um servio especial da administrao - replicou Carter.
Putzi disse que ensinaria alemo a Sturm e, sem contrariar sua propenso a dar apelidos, comunicou que o chamaria de Sturmi. Em seguida, deu a Carter a ltima parte
de sua crtica poltica semanal que seria encaminhada ao presidente. Nela, revia os discursos mais recentes de Hitler, citando expresses particularmente marcantes
e descrevendo a quem eram dirigidas. Tambm explicava o que revelavam sobre o que Hitler estava pensando. Tudo isso foi dito em um ingls excelente, embora com forte
sotaque. Depois de tomarem caf, Carter e Sturm despediram-se de Putzi e estavam de volta a Washington antes do meio-dia.
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Sturm passou a semana seguinte concluindo as formalidades necessrias, antes de poder exercer sua atribuio. De novo se surpreendeu com a singularidade e informalidade
do programa de ao. Seu salrio, ficou sabendo, seria pago por Joseph F. Guffey, senador da Pensilvnia, que devia um favor a Carter. Recebeu uma carteira do National
Press Club, um cheque de 20 dlares e um revlver de calibre 38 em um coldre para canhoto. A arma tinha uma histria estranha. Pertencera originalmente a Egon, que
a tinha portado junto com a automtica distribuda pelo governo. Mas a tinha esquecido quando partira, e seu pai a guardara sobre o rdio como lembrana. Um dia,
foi vista por um coronel do Pentgono que, compreensivelmente, ficou espantado com a idia de um prisioneiro como Putzi estar armado. Como era propriedade privada,
no podia ser apropriada, de modo que Carter a reteve at poder ser devolvida a seu dono.
"E assim aconteceu", escreveu Sturm, "tinha sido empregado por uma pessoa fsica, e seria pago por um senador para guardar um prisioneiro poltico com uma arma,
para a qual eu no tinha licena, e que, como eu, no tinha nenhum status oficial."
Sturm comeou em Bush Hill em 16 de novembro de 1943. Ele e Putzi logo estabeleceram uma rotina. Putzi levantava-se todo dia s 4 horas da manh e lia ou escrevia
por algumas horas. Trabalhava em um gabinete no andar de cima da casa. No cmodo havia uma estante carregada de livros e, pelo menos, quatro mesas cobertas de livros
e de algumas estampas, reprodues e outros itens de interesse que ele encontrara por ali. Depois do caf da manh, ele e Sturm retiravam-se para a sala de estar
onde escutavam transmisses de Berlim ou, se no tivesse mais nada de interesse, msica. s 10 horas, saam para dar uma volta pela floresta, caminhando pelas sendas
e trilhas e absorvidos por uma conversa ecltica.
Assim como a casa, o terreno estava descuidado, abandonado. Isso era de tal modo uma afronta  sensibilidade de algum acostumado aos jardins bem cuidados de Potsdam,
Versalhes ou Hyde Park, que, numa manh de dezembro, Putzi decidiu atacar os arbustos espinhosos, urtigas e ervas daninhas que dominavam o que j tinha sido um imenso
gramado. Depois de empilh-los, ps fogo neles, criando uma imensa fogueira. A mulher de Baer viu as chamas de quatro metros de altura e saiu correndo de
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casa com uma leiteira cheia de gua. Seu susto s aumentou o entusiasm de Putzi. Ao cair da tarde, o que no comeo do dia era uma selva
tinha sido reduzido a terra seca.
Em seus relatrios nos primeiros dias do ano seguinte, Putzi continuou a escrever sobre o que estava rapidamente se tornando temas familiares, o principal deles
sendo os movimentos contnuos dos nazistas para uma reaproximao da Igreja. A confirmao disso, disse ele a Carter durante um encontro em janeiro, estava nos
relatrios de que Albert Speer, principal arquiteto de Hitler, elaborava projetos para a reconstruo das igrejas destrudas pelo bombardeio aliado. Essa tentativa
de retomar a relao com o Vaticano parecia relacionada a uma tentativa mais ampla dos nazistas de convencerem no somente os alemes, mas tambm os poloneses e
outros europeus, de que o regime de Hitler era a nica defesa contra os soviticos ateus. Por isso, argumentou Putzi, os aliados deviam tentar convencer os alemes
comuns de que tambm eles se opunham  expanso russa no ocidente, de modo que no achassem que a salvao da Europa da"Bolchevizao Asitica" dependia exclusivamente
dos nazistas.
Em outras reflexes nessa primavera, Putzi lanou a dvida de se a Finlndia firmaria um acordo de paz separado com a Rssia e afirmou que os alemes estavam torcendo
por uma tentativa precoce em um segundo front, j que estavam confiantes de que seria rechaada com tantas perdas que abateria o nimo dos britnicos e dos norte-americanos.
Putzi tambm atentava para o futuro da Alemanha. Argumentava que os aliados deveriam transformar o pas em um estado federado, com a sua capital no em Berlim, mas
sim em outra cidade, como Leipzig no leste ou Kassel no oeste. No obstante, era pessimista quanto ao futuro de sua terra natal. Em um relatrio de abril de 1944,
alertou sobre as grandes dificuldades de estabelecer um regime democrtico duradouro na Alemanha ps-guerra. Os social-democratas e os liberais tinham tido a sua
chance antes da guerra, e fracassado miseravelmente, alegava. Por isso, os jovens talvez abandonassem o nazismo, considerando-o um fracasso, mas oscilariam para
a esquerda radical, totalitria. Embora a ocupao pelos americanos, britnicos e franceses pudesse prorrogar tal regime, ele seria inevitvel depois que se retirassem.
A ocupao conjunta com os russos significaria que qualquer
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governo futuro seguiria, necessariamente, a frmula sovitica. "O regime comunista surgir como um movimento alemo espontneo", declarou ele. Ao mesmo tempo em
que refletia sobre o futuro da Alemanha, Putzi tambm nutria preocupaes mais mundanas. Os Baer, que faziam parte do projeto desde o comeo, tornavam-se cada vez
mais arrogantes, tentando reduzir as tarefas domsticas que lhes cabiam. O ponto de discrdia definitivo foi uma questo trivial: quem lavaria a loua. Quando Sturm
chegou, os Baer lhe disseram que limpar a casa e lavar a loua fazia parte de suas obrigaes. Ele as cumpriu obedientemente, at um dia em que
Carter foi visit-los.
- No tem de lavar a loua - disse-lhe Carter.
- Diga isso aos Baer - replicou Sturm.
Durante uma semana, fizeram o que lhes foi mandado, mas quando Carter retornou na visita seguinte deram-lhe um ultimato: ou algum lavava a loua ou se demitiriam.
A disputa logo adquiriu uma importncia muito maior do que de fato tinha. Quando no foi encontrada uma soluo, Field foi chamado para mediar. Por fim, fizeram
um acordo - foi estipulado um horrio segundo o qual todos se revezariam. Mas o ressentimento dominara a relao. A ltima gota aconteceu quando, um dia, Sturm foi
para Washington e esqueceu de avisar  sra. Baer que no voltaria para o almoo. Alguns dias depois, uma bela manh de dezembro, ela e seu marido foram embora.
Putzi achou a coisa toda muito engraada. Depois de os Baer partirem, Sturm encontrou-o varrendo, com fria, a cozinha e cantando em um falsete operstico irnico:
"Hspedes vm e vo, eu fico para sempre." Os Baer foram substitudos por um cozinheiro do exrcito aposentado, de County Court, chamado McHugh. Um homenzinho vivo
de cabelo branco e olhos azuis, tinha um fraco pela bebida e, vrias vezes, quando sem superviso, era encontrado inconsciente no cho da cozinha. Era ajudado por
um kentuckiano de constituio vigorosa, do G2, chamado Goranflo. Com 30 e poucos anos, Goranflo era de temperamento afvel, mas se isolava grande parte do tempo
- o que convenceu Putzi de que os estava espionando. McHugh no durou mais de dois meses. Bebia cada vez mais e depois que Goranflo confiscou seu suprimento de usque,
comeou a
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conseguir lcool clandestinamente, vertendo-o em garrafas de corante de alimentos. Um dia, depois do almoo, saiu para dar uma volta e nunca mais voltou. Pouco tempo
depois, mandou buscarem sua mala. A partir de ento, Goranflo e Sturm passaram a cozinhar, aprendendo em um livro intitulado Favorite Recipes of Congressmers Wives
["As receitas preferidas das esposas de congressistas"].
Putzi teve permisso para deixar Bush Hill e ir a Alexandria somente para cortar cabelo. Toda vez recebia um dlar e ficava livre na cidade. Tinha ordens de mudar
de barbeiro com freqncia para no levantar suspeita. Permitiam que ficasse com o troco do dlar. Ele o juntava e chamava de seu Fundo de Fuga. Ocasionalmente,
seus carcereiros transgrediam as normas. Uma noite, no comeo de 1944, levaram-no ao cinema pela primeira vez para assistir ao musical The Gang's Ali Here, com Carmem
Miranda. Putzi ficou, de imediato, impressionado com ela, dizendo que lhe lembrava uma mulher de Munique. Em fevereiro, levaram-no ao campo de batalha de Buli Run.
Em outra ocasio, foram  livraria local, onde Putzi saboreou a oportunidade de examinar seu estoque.
A alegria de Putzi ao sair dos limites de Bush Hill era moderada pela averso a andar de carro. "Sempre que entro dentro de uma dessas coisas, arrisco a minha vida",
queixou-se a Sturm quando partiram em seu Lancia. Na verdade, a nica coisa que gostava ainda menos era de avio - averso, nesse caso, agravada pelo vo em 1937
que havia precipitado a sua partida da Alemanha.
Apesar do cativeiro, Putzi mantinha o nimo elevado. Sturm ficou impressionado com a multiplicidade de suas impresses e sua perspiccia. Quando, certa vez, Sturm
queixou-se de estar atrasado em seu dirio, Putzi disse-lhe que no se preocupasse.
- Goethe estava vinte anos atrasado em seu dirio - disse ele. - Isso lhe deu aquele qu extraordinrio de prescincia.
Duas pessoas de fora que foram ver Putzi nessa poca registraram suas impresses detalhadamente. O primeiro foi Arthur Pope, presidente da
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American Morale Commission, que o conhecia desde seus dias em Harvard, em 1905. Putzi, observou ele, estava ressentido com seu aprisionamento, no tanto pelo desconforto
pessoal quanto porque achava difcil acostumar-se com ser um "ningum" - como ficou demonstrado quando os britnicos no o consultaram sobre Hess. Putzi deixou claro
a Pope que depreciava tambm a maneira como os Estados Unidos tinham lidado com Hitler na dcada de 1930 - a comear pela escolha do menosprezado Dodd para embaixador,
e a incapacidade de deixar claro que lutaria contra o militarismo alemo. A conseqncia, alegou ele, foi que permitiram que Hitler se convencesse de que, ao contrrio
da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos permaneceriam, dessa vez, fora de qualquer conflito. Apesar de ressentido e depreciativo em relao a Hitler, Pope
achou-o profunda e permanentemente pr-germnico, sentindo um prazer evidente com as notcias de que a linha alem estava resistindo. Pope tambm achou que ele continuava
"excntrico em relao aos judeus"; embora alegando ter alguns amigos judeus, permanecia ressentido com a sua influncia.
Jack Morgan, que passou dois dias com ele cerca de uma semana depois de compilar um relatrio para o Ministrio das Relaes Exteriores, estava, pelo contrrio,
convencido de que Putzi continuava com propenso nazista, independente da antipatia por alguns dos lderes, como Goebbels. Se o regime nazista tolerasse algum tipo
de dissenso, Morgan tinha certeza de que Putzi teria permanecido na Alemanha para representar o papel de "oposio leal". Isso no tornava o que Putzi tinha a dizer
menos til; suas idias eram o que se esperaria dele se ainda "ocupasse um cargo com autoridade em Berlim e se empenhasse em causar a impresso a um deputado estrangeiro
de que tudo ia bem com o Reich".
Msica, como sempre, oferecia um consolo a Putzi. Na escura sala da frente da casa, em um piso que rangia, estava um Steinway de armrio. Tinha sido encomendado
e colocado l por ordens diretas de Roosevelt, que sabia como era importante para ele poder tocar. No entanto, estava um tanto desafinado. Field foi encarregado
de encontrar um bom afinador de piano, obter a aprovao do FBI e do Ministrio das Relaes Exteriores e lev-lo a Bush Hill. Com toda essa burocracia, foram trs
meses at o homem certo ser encontrado e aprovado. Field, que no tinha a menor
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pressa de fazer qualquer favor a Putzi, esperou mais nove meses antes de ligar para marcar uma visita. Quando ligou, infelizmente, o afinador tinha morrido. Sem
desanimar, Putzi sentava-se diante do teclado, entusiasmado, tocando Bach, Chopin, Beethoven, Schubert, Brahms, Wagner e Strauss, assim como algumas de suas prprias
composies.
A suscetibilidade de Roosevelt em relao a divulgar a presena de Putzi nos Estados Unidos restringiu as oportunidades de us-lo ativamente na desinformao. No
havia como ele fazer programas para seus compatriotas da mesma maneira que William Joyce, por exemplo, foi usado pelos nazistas para falar pelo rdio a seus companheiros
britnicos, que o apelidaram de Lord Haw-Haw. Em geral, a informao confidencial que Putzi fornecia sobre o passado de Hitler ou sua relao com tenentes era incorporada
anonimamente nos programas de propaganda. Mas Putzi estava pronto para desempenhar um papel mais proeminente. Carter tinha escrito a Roosevelt em julho, sugerindo
o uso de panfletos de propaganda que aproveitariam, explicitamente, o fato de Putzi estar nos Estados Unidos. Apesar do risco para a sua famlia na Alemanha, Putzi
estava a fim de ir adiante com isso. Carter queria uma deciso sobre os aspectos polticos do plano, que, segundo ele, envolveria "capitalizar a sua personalidade
em vez da poltica atual de reprimir qualquer referncia pblica ou internacional a Putzi". Roosevelt props que ele discutisse o assunto com Bill Donovan, Cordell
Hull e Robert Sherwood, diretor da agncia do Office of War Information no estrangeiro. A idia parece no ter decolado.
Putzi foi usado de uma maneira estranha no comeo de 1944 quando Carter convidou-o a jantar na Leroy Place, em Washington. Field levou-o em seu velho Ford. Putzi
usava o terno azul que Field lhe trouxera de Alexandria. No tinha o caimento nem o estilo dos que Putzi costumava comprar em Londres, mas era decente. Putzi estava
alegre e cheio de perguntas.
- Quem vai estar l? - perguntou. - Alguns de meus amigos de Harvard? Vou conhecer algum deles? Todos sabem por que estou indo?
- Sim, sabem por que estar l - replicou Field. - Espere e ver.
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Carter e sua mulher, Sheila, receberam Putzi  porta.
- Dr. Sedgwick, estamos to contentes que tenha podido vir - disse Carter. - Vrios de seus amigos esto aqui para v-lo, alguns de seu tempo de Harvard.
Dentro estavam quatro casais, duas mulheres jovens, Putzi e Field. Ficou combinado que no se falaria o alemo e que nenhuma referncia seria feita nem a Hitler
nem  guerra. A conversa seria sobre msica, literatura, Harvard e outros temas leves. Apesar de nada distinguir Putzi dos outros convidados, ele permaneceu sob
constante vigilncia. Um de seus guardas estava esperando  mesa enquanto outro bancava o chofer de um txi estacionado na calada em frente. O procedimento todo
foi gravado. Por um acordo feito de antemo com o vizinho, um pequeno buraco tinha sido perfurado na parede e um operador da FCC (Federal Communications Commission)
se posicionado ali.
A comida e os vinhos eram excelentes, e Putzi, que aproveitava com prazer qualquer oportunidade que o colocasse em evidncia, logo estava entrosado em conversas
animadas com os outros comensais. Como acertado antes, durante o "baked Alasca" (sorvete com cobertura de merengue aquecido) Putzi comeou a falar de msica. Depois
do caf e licor, todos foram para a sala de estar, onde, sobre um tapete branco, aguardava um
Steinway de cauda.
No foi preciso insistirem para Putzi tocar. Antes de sentar-se ao piano, Field acendeu duas velas, cada uma de um lado da estante de partituras. Tambm apertou
um boto branco debaixo de um microfone que estava sobre o piano entre as duas velas. Uma luzinha vermelha acendeu indicando que a fita em um gravador secreto estava
em funcionamento.
Putzi comeou tocando Debussy, bem e com tranqilidade. Depois, gradativamente, a msica tornou-se menos leve e frvola, e ele passou a tocar as favoritas de Hitler.
Ao mesmo tempo, o seu humor mudou: sua expresso tornou-se feroz, violenta, quase descontrolada. Field percebeu que ele estava projetando seu corpo e mente no salo
de Hitler, com as janelas compridas, em Berchtesgaden.
- Agora, ele est tocando para der Fhrer.
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Depois, com o que Field chamou de "um respeito quase servil", Putzi comeou a discursar ao "mein Fhrer". Suas palavras sinceras, emotivas e retradas pediam a Hitler
que interrompesse a guerra, alertando que os aliados pretendiam destruir a sua amada ptria. A paz a qualquer preo incitava, mesmo que significasse rendio total.
A msica intensificou-se at atingir o clmax e, depois, interrompeu-se de sbito. Putzi levantou-se, tremendo. Apertou mos, agradeceu a todos e saiu do apartamento.
Putzi no falou durante todo o trajeto de volta a Bush Hill, com Field. No dia seguinte, comentou sobre a boa companhia, a excelncia da comida e do vinho, e o prazer
de rever seus antigos colegas de Harvard. No falou nada sobre a msica, embora Field soubesse que tinha discutido isso com Carter.
A fita foi mandada para a CBS, que imprimiu milhares de cpias de um disco de uma nica faixa. Centenas de caixas, endereadas a Hitler, Gring, Himmler, Ribbentrop
e outras figuras eminentes alems foram lanadas de aeronaves dos EUA sobre a Alemanha, com instrues de serem entregues lacradas em seus respectivos endereos.
A msica tambm foi transmitida para a Alemanha de uma estao emissora americana em East Anglia. No se sabe se Hitler chegou a escutar a exortao de seu antigo
amigo. Himmler, entretanto, certamente a conhecia. Em um de seus programas, declarou que "um conhecido traidor da Ptria, que agora vive no exterior, est enviando
mentiras  Alemanha pelo rdio e por discos". Qualquer um que encontrasse um dos discos recebia a ordem de destruir o embrulho sem abri-lo. Field concluiu que o
jantar tinha sido um sucesso.
No comeo de 1944, Carter achou que as coisas estavam ficando cada vez mais difceis em Bush Hill. Segundo ele, havia somente duas maneiras de melhorar a situao:
ou trazer o exrcito ou o FBI para cuidar de Putzi ou mud-lo, com um nome falso, para um hotel ou apartamento em Washington "para lhe garantir alimento e abrigo".
Carter estava tambm convencido de que Putzi seria escrupuloso em respeitar seu livramento condicional, mas estava tambm convencido de que os britnicos ficariam
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furiosos. Hoover continuou a recusar-se a envolver o FBI, e FDR props que o exrcito se encarregasse de cuidar de Putzi.
No ms seguinte, Putzi e Sturm, ao voltarem certa manh de sua caminhada, depararam-se com um carro grande, verde-oliva, estacionado em frente  casa. Vrios coronis
do Pentgono tinham ido, aparentemente, falar com Goranflo. Estavam acompanhados de Neumann, que, nesse meiotempo, tinha sido promovido de tenente a capito. Putzi
imediatamente viu a uma chance de avanar o projeto e convidou-os para almoar. Enquanto Goranflo praticava seu talento culinrio recm-descoberto, Sturm servia
o vermute, decantava o vinho e providenciava o conhaque e os charutos.
Putzi estava em excelente forma, estimulado pela presena de uma nova platia, e no demorou a fazer os coronis rirem. Antes de partirem, aceitaram a sua oferta
de ensinar-lhes o alemo. Ficou decidido que o jantar de tera-feira seria uma boa oportunidade para isso. Depois de uma insinuao, no muito sutil, de Putzi, um
soldado raso do G2 foi mandado para realizar o trabalho domstico - com exceo de cozinhar, tarefa da qual Goranflo passara a gostar. Os coronis ficaram to interessados
em suas aulas de alemo que logo depois decidiram assumir completamente a operao. A partir de ento o projeto-S passaria a ser dirigido pelo Counter Intelligence
Corps (CIC) [Unidade de Contrainformao]. Goranflo recebeu um grupo de cinco assistentes, e Sturm, sendo estrangeiro, foi informado por Carter de que os seus servios
no eram mais necessrios.
Um ms depois, Sturm voltou para uma visita social a Putzi. Ficou surpreso com o que viu. As trilhas tinham sido limpas, as sebes, aparadas, as paredes, pintadas,
e gramados surgiram por debaixo do mato. Limpeza e ordem por toda parte. Carter tambm ficou impressionado. Goranflo e sua equipe eram "ativos, adaptveis e totalmente
cooperativos", escreveu ele. Ficou especialmente impressionado com o prprio Goranflo, que havia assumido o projeto no momento mais difcil e o havia "levado adiante
com firmeza, bom humor e com uma prontido inestimveis".
Putzi, nesse nterim, continuava a fazer sugestes, algumas excntricas, para dizer o mnimo. Uma das mais estranhas foi em maio de 1944, na vspera do dia d. Putzi
props que algum personificando Hitler fizesse
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um discurso dizendo aos alemes que tinha chegado a um entendimento com os aliados para uma operao conjunta para "conter a horda judaic de bolcheviques asiticos
vinda da Europa". Esse Hitler falso deixaria claro que o seu dever primordial seria defender a Europa dos comunistas e reivindicar, para isso, que bombardeiros norte-americanos
estabelecessem bases avanadas na Alemanha, de modo que "foras de civilizao" conquistassem a Rssia. Dessa maneira, prosseguia o argumento, em vez de tentar repelir
os invasores aliados, as foras alems os receberiam como reforos.
Carter gostou da idia e a passou a Elmer Davis, diretor do Office of War Information. "Por mais estranho que parea, pareceria plausvel aos alemes e, se plantado
com habilidade, ou atravs de um Hitler falso ou por meio de algum outro artifcio aparentemente oficial, pouparia vidas e tempo", escreveu Carter. Teria de ser
checado com o governo sovitico, no entanto, "para evitar um possvel mal-entendido".
Roosevelt, entretanto, foi cauteloso com a idia, e Davis a rejeitou rapidamente. Embora no tivesse dvida de que causaria considervel confuso por algumas horas,
o tiro poderia sair pela culatra quando a verdade fosse descoberta. "A nossa credibilidade ficaria bastante abalada e grande parte do efeito da nossa propaganda
estaria permanentemente perdida", alertou. Considerando-se que os norte-americanos no tinham estaes de rdio de desinformao prprias, Davis disse que seria
obrigado a discutir a questo com os britnicos - que igualmente se opunham. O Ministrio das Relaes Exteriores, que tambm foi consultado, ficou horrorizado,
no mnimo sem saber como os russos reagiriam. "Mesmo que o plano fosse vivel, o que achamos duvidoso, seria impossvel convencer o governo sovitico de que representaria
somente uma guerra psicolgica , foi dito ao presidente. "Os soviticos e muitos outros povos da Europa, alm dos alemes, acreditariam que a transmisso proposta
representava a poltica secreta dos Estados Unidos e da Inglaterra."
Durante esse tempo todo o governo britnico tinha pressionado para dar fim ao projeto-S. O prprio Churchill tinha levantado a questo na primeira Quebec Conference,
em agosto de 1943. No entanto, FDR foi irredutvel, deixando os britnicos impotentes. "O primeiro-ministro, em deferncia  vontade do presidente, concorda que
ele [Hanfstaengl] permanea sob cuidados estritos nos EUA", registrou pesarosamente um memorando interno britnico. Na verdade, esses esforos britnicos s intensificaram
a determinao de Roosevelt de manter Putzi.
Estava se tornando claro, no entanto, que a sua utilidade - e, consequentemente, de todo o projeto - estava chegando ao fim. A cada ms que passava, sua percepo
da liderana nazista tornava-se mais datada e, portanto, menos valiosa. Tampouco o ajudava seu constante antissemitismo e a natureza cada vez mais excntrica de
suas sugestes, como o discurso do Hitler falso. Field percebeu que ele, compreensivelmente, ficava cada vez mais abalado corn bombardeios macios  sua terra natal
e escrevia cada vez menos memorandos. Em vez disso, dedicava cada vez mais tempo ao livro que estava escrevendo sobre Frederico, o Grande. Putzi o justificava por
causa dos paralelos traados por Hitler entre o conflito e a Guerra de Sete Anos de seu heri. Mas Field no se convenceu. A relao entre os dois, insatisfatria
h muito, tornava-se ainda pior. Putzi irritava-se com a maneira como Field ficava perturbando-o para escrever mais relatrios. Field, por sua vez, achou difcil
ocultar seu ressentimento de que Putzi, com seus criados e cuidados 24 horas por dia, vivesse muito melhor do que ele. E o mais importante: os objetivos da guerra
dos Estados Unidos tinham mudado e as esperanas de um golpe palaciano em Berlim tinham desaparecido. Em certo sentido, a verdadeira mudana tinha acontecido em
janeiro de 1943 na Casablanca Conference, quando Roosevelt tinha rejeitado falar de qualquer acordo dos aliados com seus inimigos e exigia a rendio incondicional.
Os xitos militares aliados no norte da frica e a vitria russa em Stalingrado aumentavam essa possibilidade. Qualquer forma de rebelio domstica contra Hitler
continuava a ser encorajada, na medida em que destruiria a mquina militar alem, mas deixara de ser a meta primordial. De fato, em discursos durante o ano, Roosevelt
passou a adotar a prtica britnica de obscurecer a distino entre nazistas e povo alemo
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como um todo. "Quando Hitler e os nazistas sarem, a camarilha militar prussiana ir com eles", declarou em vrias ocasies. "As gangues de rniT taristas geradas 
na
guerra devem ser erradicadas da Alemanha (...) Se pretendemos ter uma garantia real de paz."
Putzi no percebeu essa mudana de poltica ou, pelo menos, no a aceitou e continuou a insistir na esperana de um golpe militar contra Hitler pelas foras conservadoras
que ele sempre admirara. O antigo "ReichswehrJunker prussiano  volta de Hindenburg, Groener e Von Seeckt (...) nunca aceitou realmente o cabo austraco, de cujos
projetos de expanso sem limites desconfiavam e tinham receio", escreveu em setembro. Por isso insistiu em que a propaganda americana deveria conter uma expresso
que deixasse claro aos militares insatisfeitos que no seriam confundidos com nazistas. Subjacente a essa sugesto estava o medo de Putzi do comunismo. Se a Alemanha
tivesse de ser combatida  exausto, estava convencido de que o caos conseqente culminaria no pas sendo transformado em uma repblica sovitica. "Essa metamorfose
da sustica para a foice e o martelo levaria menos tempo do que alguns especialistas parecem acreditar", disse ele.
Roosevelt relutava cada vez mais em ouvir argumentos desse tipo, ainda que no visse a necessidade de sacrificar Putzi. Na primavera de 1944, entretanto, isso estava
mudando. Hitler estava sendo forado na defesa em todos osfronts. As potncias ocidentais impulsionavam para o norte, atravs da Itlia, enquanto os russos abriam
caminho a oeste, recuperando o territrio de que os nazistas tinham-se apoderado trs anos antes. Ento, em junho aconteceram as aterrissagens do dia D na Normandia
e o comeo da libertao da Europa Ocidental. Com a derrota total da Alemanha nazista, agora s uma questo de tempo, os norte-americanos estavam determinados a
rechaar qualquer iniciativa de paz por parte do Reich.
Nesse contexto, os conselhos de Putzi tornavam-se cada vez mais irrelevantes - tampouco eram baratos. Carter agora empregava um total de
25 pessoas e recebia dez mil dlares mensalmente do Ministrio das Relaes Exteriores para administrar o projeto-S e outra operao, no relacionada, conhecida
como o Bowman-Field Committee on Migration and Settlement - ou, resumindo, o projeto-M.
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No final das contas, entretanto, foram preocupaes domsticas que desferiram o golpe final. A campanha para as eleies de novembro de 1944 estavam acontecendo
e Roosevelt recebeu um aviso de Carter de que os britnicos estavam ameaando fazer estardalhao da presena de Putzi nos EUA. De certa maneira, isso no seria novidade
nenhuma, j que havia sido informado no comeo do ano anterior que Putzi estava trabalhando para os norte-americanos. No entanto, o projeto tinha continuado sigiloso,
e Carter, em seguida, tinha se esforado ao mximo para impedir que o nome de Putzi sasse nos jornais. Roosevelt sabia que chamar a ateno para o projeto - especialmente
se os britnicos conseguissem divulgar uma imagem negativa do papel de Putzi-daria a seus inimigos uma arma potencial de propaganda que poderia ser usada contra
ele.
Sem restar nenhum argumento capaz de reter Putzi, Roosevelt apressou-se a encerrar o projeto. Em 28 de junho, ordenou que fosse definitivamente encerrado a partir
de 1 de julho. Trazer Putzi para os Estados Unidos tinha envolvido meses de negociaes complicadas; envi-lo de volta era muito mais fcil e mais rpido.
Grace Tully deu a notcia a Carter em 7 de julho. Ele percebeu que era intil protestar, mas no podia deixar a questo passar sem fazer um ltimo apelo a Roosevelt.
Em um memorando ao presidente nesse mesmo dia, Carter comunicou seu receio de que, se Putzi fosse enviado de volta a um campo de deteno na Gr-Bretanha, pudesse
sofrer represlias no somente dos oficiais britnicos como tambm de internos pr-nazistas principalmente depois de tomarem conhecimento da sua colaborao com
os norte-americanos e de que Egon servia voluntariamente no exrcito dos EUA no sudoeste do Pacfico. Carter tambm reiterou a sua preocupao de que o tratamento
de Putzi dissuadisse outros nazistas de se apresentarem para ajudar os norte-americanos.
No entanto, Carter no teve opo a no ser curvar-se ao inevitvel e comeou a encerrar o projeto. Cinco dias depois, escreveu  embaixada britnica comunicando
que Putzi estava  sua disposio. Ofereceu-se igualmente para marcar as entrevistas que as autoridades britnicas quisessem ter com ele. No mesmo dia, escreveu
a Grace Tully pedindo-lhe que notificasse o general de diviso Jon T. Lewis, comandante do Washington
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Military District, que deveria entregar Putzi assim que as autoridades britnicas tivessem concludo as providncias para a sua transferncia.
Ningum ainda tinha avisado Putzi, que, desconhecendo seu destino, continuou a escrever relatrios durante as semanas seguintes, documentando a runa nazista. Seu
humor estava sombrio; finalmente se convencia de que os alemes estavam sendo derrotados, e temia o futuro. Tambm achava que milhares de vidas estavam sendo desperdiadas
pela insistncia dos aliados em exigir a rendio incondicional.
Putzi argumentou que os Estados Unidos deveria dirigir a sua ateno para derrotar o Japo antes de dar o golpe decisivo na Alemanha, receando que Washington ficasse
em uma posio fraca demais em relao  Rssia se ainda tivesse uma guerra asitica a vencer. Sua tristeza estendiase para alm do futuro da Alemanha, ao futuro
da prpria Europa como um todo. Dentro de um ano, predisse, "o nome 'Europa' ter desaparecido e tudo o que restar ser a 'Stalin-Asia'". Tambm viu o fracasso
da conspirao do coronel Claus Schenk von Stauffenberg, em 20 de julho, para assassinar Hitler, como levando  eliminao dos ltimos elementos conservadores na
Alemanha e a transformao do regime nazista em "comunismo nacional". O exrcito alemo provavelmente poderia resistir at 1945, predisse ele, mas no havia dvida
de que a Alemanha "estava arruinada". Quanto a dividir a Alemanha em trs pases, como Sumner Welles tinha defendido, "resultaria em outro Hitler vinte anos depois".
Nada disso era o tipo de informao que Roosevelt queria ouvir, porm, mesmo que fosse, seria tarde demais para impedir que Putzi fosse enviado de volta  GrBretanha.
Em meados de agosto, Carter ainda aguardava uma palavra dos britnicos. A contrainformao do exrcito tinha comunicado  guarda pessoal de Putzi que o projeto estava
sendo encerrado, mas ainda no tinham informado o prisioneiro. Carter sabia que era s uma questo de tempo at Putzi perceber o que estava acontecendo. Havia mais
um problema: Putzi tinha pedido permisso para ver Helene, que vivia em Nova York, para discutir questes relacionadas a Egon. O tenente-coronel B. W. Davenport,
secretrio-assistente do estado-maior, vetou o pedido "como
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desaconselhvel e impraticvel do ponto de vista da segurana". Como o exrcito agora era o responsvel por Putzi, Carter teve de curvar-se a seus desejos.
Em 22 de setembro de 1944, Carter partiu da Casa Branca para ver Putzi e dar a notcia de que a sua misso tinha-se encerrado. Nessa tarde, Putzi sentou-se na biblioteca
em Bush Hill e refletiu sobre seu destino - e o da sua amada ptria. Ficaria apenas observando enquanto a Alemanha era transformada em um "gigantesco campo de batatas",
como sugerido no plano traado por Henry Morgenthau Jr., secretrio do tesouro de Roosevelt? Um dos guardas tinha deixado a pistola carregada no quarto de Putzi
por engano e ele pensou no suicdio. Nem bem comeou a redigir sua carta de despedida, percebeu uma carta, ainda lacrada, do Pacfico. Era de Egon. Putzi no conseguiu
levar seu ato at o fim.
Tudo ento aconteceu muito mais rpido do que todos - at mesmo Carter - esperavam. Na manh seguinte, Putzi foi levado ao aeroporto de Washington e colocado no
vo noturno rumo a Prestwick, Esccia. Durante uma escala em Gander, Newfoundland, o avio recebeu vrios passageiros, inclusive um general britnico que voltava
para casa, na Indochina. Sentou-se  janela, do lado de Putzi, e os dois logo encetaram uma conversa animada. Quando o avio aterrissou, os guarda-costas de Putzi
preparavam-se para o escoltarem quando um bando de montanheses surgiu na porta para saudar seu companheiro de viagem. Foi, recordou-se Putzi, mais um desses "interldios
de Gilbert e Sullivan" de que a sua vida era to repleta. Ele foi, formalmente, entregue s autoridades britnicas s 10h30 da manh, em 24 de setembro.
Os novos anfitries de Putzi parece que no o esperavam. Mas ele foi colocado no melhor quarto para hspedes da delegacia local e, na manh seguinte, foi despachado
no vapor com destino  Isle of Man, um ilhu ventoso no Mar Irlands, na costa oeste da Inglaterra. Ali foi representada a mesma comdia. Dada a natureza secreta
da misso de Putzi nos Estados Unidos, ningum l tinha tampouco sido avisado de sua chegada. O jovem guarda que o acompanhara - e passara a viagem toda nauseado
sentiu desespero, achando que nunca se livraria de seu protegido. O campo alemo recusou-se a admitir Putzi, como fizera o campo judeu. Portanto, foi levado ao campo
japons, em Peel, no litoral oeste da ilha.
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A guerra, nesse meio-tempo, j iniciara seu estgio final. Depois dos desembarques do dia D, em 6 de junho de 1944, no norte da Frana, Os aliados tinham avanado
para o leste, libertando Paris em agosto e limpando a maior parte da Frana e Blgica das foras alems em outubro Em 7 de maro de 1945, depois de romperem a altamente
fortificada Siegfried Line, atravessaram o Reno e, rapidamente, dominaram a Alemanha ocidental. Ao mesmo tempo, os russos avanavam do leste, entrando no leste da
Prssia e Tchecoslovquia em janeiro de 1945, e alcanando a Alemanha Oriental pelo Oder. Em 25 de abril, os exrcitos ocidentais e russos encontraram-se em Torgau,
na Saxnia. Cinco dias depois, Hitler curvou-se ao inevitvel e cometeu suicdio em seu bunker de Berlim. A guerra na Europa tinha terminado. A rendio incondicional
da Alemanha foi assinada em 7 de maio na cidade francesa de Reims e ratificada no dia seguinte em Berlim.
Putzi assistiu ao colapso alemo na segurana da Isle of Man com sentimentos mistos. A natureza dramtica da morte de Hitler no o surpreendeu. Nos relatrios que
tinha escrito em Bush Hill, predissera que o lder nazista preferiria cometer o suicdio no caso de derrota do que sofrer a humilhao do exlio, como Napoleo ou
o kaiser Wilhelm antes dele. A satisfao com o fim da guerra, "da maneira como ele desesperanosamente tinha predito", foi mitigada pelo receio no somente em relao
ao seu prprio futuro, como tambm ao de sua amada Alemanha. Putzi continuou a agarrar-se  esperana de que membros da classe de oficiais alemes derrubariam Hitler
em um golpe de Estado muito tempo depois de os aliados terem abandonado a idia como improvvel e indesejvel. Se tivessem tido xito, esperava, os novos governantes
da Alemanha teriam concludo rpido um acordo de paz com os aliados ocidentais, talvez se unindo a eles no combate aos russos. Em vez disso, sua ptria tinha sido
obrigada a uma rendio incondicional - e metade dela tinha sido ocupada pelo Exrcito Vermelho. O receio, que Putzi expressou em seu ltimo relatrio para Roosevelt,
em julho, de que a Europa fosse transformada em uma sia stalinista parecia agora uma certeza. O nico pequeno consolo era que a sua cidade natal, Munique, estava
nas mos dos Estados Unidos, e no nas mos soviticas.
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Putzi tambm estava preocupado com o efeito da runa alem sobre a sua famlia. Agora tinha permisso para escrever e receber cartas, embora com freqncia atrasassem
muito tempo. No que provavelmente foi a ltima carta para a sua me, datada de 2 de maio, tranquilizava-a a respeito de sua condio de vida. "Tendo sabido que a
Baviera foi ocupada pelo 7 Exrcito dos EUA, apresso-me a dizer que estou bem", escreveu ele. "Estou prisioneiro no campo acima. De minhas janelas posso ver o mar
Irlands o dia inteiro." Comunicou que Egon, que tinha acabado de lhe escrever das Filipinas, estava passando bem e tinha ficado noivo da filha nica do presidente
do banco da Nova Inglaterra. Ele nunca mais viu sua me. Ela morreu cinco dias depois.
Putzi continuou no campo at o vero de 1945, quando ele e seu companheiro de cela foram levados de navio para Stanmore, no subrbio de Londres.
Carter estava fora em uma viagem a trabalho, em Nova York, e s descobriu que Putzi tinha sido enviado de volta  Gr-Bretanha ao retornar, no dia seguinte. Ficou
furioso. Em um breve memorando ao presidente, condenou a ao do exrcito como ^'extremamente oficiosa". Mas era tarde demais. Por definio, a partida de Putzi
significou o fim do projeto-S. O episdio no diminuiu o interesse de Carter na inteligncia. Em setembro, sentiu grande satisfao em passar para Grace Tully um
memorando da OSS elogiando a ajuda que prestara para a guerra psicolgica. O presidente "talvez se interesse em ter uma prova concreta da insignificante utilidade
de algumas de minhas atividades", escreveu ele.
Em 1947, Carter sentou-se para contar a histria do projeto-S. Em vez de oferecer um relato factual do que aconteceu em Bush Hill, descreveu suas experincias na
forma de uma conversa ficcional entre Roosevelt, Churchill e Putzi. Foi publicado como The Catoctin Conversation, sob o pseudnimo de Jay Franklin, que Carter usava
no jornalismo.
Avaliar a importncia do trabalho de Putzi para os norte-americanos  difcil. O retrato de Hitler e outros artigos de anlises impressionam pela
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quantidade de informao pessoal e detalhes precisos que oferece.
Apesar de a maior parte ser fascinante,  difcil dizer de que uso operacional foram para os norte-americanos.
Muitas previses de Putzi revelaram-se inexatas, parciais, por seu dio fantico dos russos, assim como o seu desejo de ver o regime nazista cair. Em algumas ocasies,
entretanto, principalmente com a percepo de que Stalin era responsvel pelo Massacre Katyn estava correto. No foi culpa sua as ordens da realpolitik terem impedido
que os aliados reconhecessem a verdade e tirassem concluses. Apesar do entusiasmo de Carter na poca pelo projeto-S e sua frustrao ao ser encerrado, descreveu-o
depois como nada mais do que uma "diverso pitoresca e extravagante, que vale a pena ser descrita do ponto de vista cmico", mas, afora isso, insignificante.
 incontestvel o interesse pessoal de Roosevelt, principalmente nos primeiros meses, quando alm de ler os relatrios de Putzi, tambm lhe fazia perguntas especficas.
No conheceu Putzi nem seu filho pessoalmente para se proteger; precisava manter distncia de um projeto que foi extremamente controverso desde o comeo.
Na introduo de The Catoctin Conversation, Welles escreveu que Roosevelt acompanhou o experimento de perto; apesar de aparentemente desapontado com a falta de informaes
detalhadas ou concretas, o presidente acreditava que os relatrios de Putzi tinham fornecido ao governo "muitos esclarecimentos em relao ao processo mental dos
lderes nazistas", escreveu ele. Welles, que recebera um grande nmero de relatrios de Putzi, tambm considerava as informaes neles contidas valiosas, embora
mais teis do ponto de vista da guerra psicolgica do que da inteligncia militar. Tambm o fascinava "o que podia ser lido nas entrelinhas". Concluiu: "As transcries
que me foram dadas por Carter fazem-me crer que a concluso pessoal do presidente foi a de que o projeto (...) revelou-se muito valioso."

25
EM 14 DE SETEMBRO DE 1945, um prisioneiro alemo judeu no campo de Stanmore presenteou triunfantemente Putzi com o exemplar do dia do Daily Mail. "Voc ser libertado",
declarou ele. "Voc est na lista negra da Gestapo." Sob a manchete "A Gr-Bretanha Tinha 2.300 Homens Marcados", o jornal citou dados dos dossis da Gestapo que
vieram a conhecimento pblico revelando "o plano de Himmler para 'liquidar' lderes em todos os campos de atividade britnica", se os alemes invadissem em 1940.
A matria dizia que os nazistas tinham elaborado uma lista negra de 2.300 pessoas-britnicas e alems - cuja priso seria "automtica" como parte de seu objetivo
de alcanar a total subjugao da Gr-Bretanha.
A lista, encontrada nos quartis de Berlim da contraespionagem do Reich por investigadores aliados, estava na forma perfeita de uma agenda, com os nmeros fichados
pela polcia da pessoa procurada aparecendo depois de cada nome. Tambm havia pginas extras para anotaes dos agentes e os resultados de suas buscas. Parece ter
sido compilada, originalmente, depois da queda da Frana em 1940, mas tinha sido anualmente renovada desde ento. A lista era encabeada por Winston Churchill, Clement
Attlee, e outros polticos, sindicalistas e editores britnicos. Inclua tambm a lista de "refugiados eminentes". Ali, junto com Charles de Gaulle, Dr. Sigmund
Freud - que morrera em 1939 -, o romancista Stefan Zweig e o presidente tcheco Eduard Benes, estava o Dr. Ernst Hanfstaengl.
Isso parece ter sido a prova de que Putzi precisava de sua oposio aos nazistas. Convencido de que era o seu visto de "liberdade da priso ,
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mostrou-a ao comandante do campo, que se recusou a pass-la adiante. Putzi tambm conseguiu avisar seu advogado, Kenneth Brown, que tambm fracassou ao argumentar
que agora havia fundamentos suficiente para a libertao imediata. No fim do ano, Putzi foi transferido para um campo armado na escola feminina de Beltane, em Wimbledon,
no sul de Londres.
Putzi pediu para ser transferido para os Estados Unidos, mas os norteamericanos no o queriam e os britnicos queriam mand-lo para a Alemanha. Ento, por acaso,
no comeo de 1946, ele leu no jornal que Eleanor Roosevelt tinha chegado em Plymouth. FDR tinha morrido em abril passado, mas Putzi sabia que a sua viva se lembraria
dele. Escreveu-lhe para pedir por seu caso, despachando a sua carta clandestinamente pelo barbeiro do campo.
Alguns dias depois, Putzi foi chamado  sala do comandante e recebeu uma carta com o selo: "Aberta pelo censor". Era a resposta de Eleanor Roosevelt. Estava claro
que ela achava que Putzi ensinava na escola, e no que fosse um prisioneiro ali.
Prezado Sr. Hanfstaengl,
Fico feliz que esteja em Londres. Gostaria de saber quando ter um tempo livre para tomar ch comigo no hotel. Profundamente comovida com a sua apreciao gentil
de meu marido,
atenciosamente, Eleanor Roosevelt.
A prova de relaes to influentes sem dvida melhorou o tratamento recebido por Putzi de seus carcereiros, mas no provocou a sua libertao. Tampouco podia esperar
que Harry S. Truman, sucessor de Roosevelt, interferisse a seu favor. Em 20 de fevereiro, Putzi fez uma greve de fome para protestar contra a planejada repatriao.
Em uma carta, relatada dois dias depois pela Associated Press, alegou que mand-lo de volta  sua ptria poria a sua vida em perigo "por fanticos do submundo alemo".
Pedia que tivesse permisso para se juntar a Egon, que fora promovido a tenente e acabara de retornar do Pacfico aos Estados Unidos, depois de dois anos no servio
ativo.
Egon tambm estava envolvido em um apelo, no ltimo momento,  embaixada dos Estados Unidos em Londres, para conseguir o visto para seu pai. No mesmo dia em que
a matria da Associated Press foi publicada, um amigo da famlia voou para a Gr-Bretanha levando uma declarao juramentada na qual Egon garantia que sustentaria
seu pai se ele tivesse autorizao para retornar aos Estados Unidos. Mas o tempo se esgotava; Egon receava que ele fosse deportado dentro de alguns dias. Em
uma entrevista ao New York Times, dada em seu quarto no Hotel Chesterfield, em Nova York, na rua 49 Oeste, Egon disse que estava preocupado com que Putzi viesse
a sofrer por causa da ajuda que havia prestado ao governo norte-americano durante a guerra. Se ele fosse mandado  Alemanha, disse, "um nazista ou nacionalista alemo
poderia tentar eliminar o que ele considera um traidor sujo". O papel de Putzi no projeto-S, no entanto, parecia contar pouco para os norte-americanos. Em uma declarao
divulgada em 25 de fevereiro, o Ministrio das Relaes Exteriores destacou que nenhum alemo tinha recebido visto para visitar o pas desde o comeo da guerra e
que no seria feita uma exceo a Putzi. Na primavera, foi levado de volta  Alemanha e colocado no antigo campo de castigo e fome em Recklinghausen.
Sua sade deteriorava-se rapidamente: sua presso sangnea oscilava de 46 a 76 e seu peso tinha-se reduzido a 70 quilos. Deveria ter sido libertado em 4 de julho,
mas o mdico do campo se ops com base em que estava doente demais. Foram usadas injees para elevar sua presso a 100. Em 3 de setembro de 1946 - quase sete anos
desde o dia em que fora preso em Londres -, Putzi finalmente voltou a ser um homem livre. Deixou o campo com 15 reichmarks e 40 pfennigs para uma passagem para Munique
e mais cinco reichmarks para despesas de viagem no bolso. De l, carregando duas malas pesadas, embarcou num trem para Tutzing, e l, tomou outro para a casa em
Uffing.
A provao de Putzi ainda no tinha terminado. Aqueles associados, de alguma maneira, com o regime de Hitler tiveram de se submeter a um processo conhecido como
desnazificao. Sob a superviso dos vitoriosos aliados, que
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agora ocupavam a Alemanha, foram estabelecidos uma srie de tribunais. Examinavam os relatrios de cada indivduo e, usando uma mistura de informao apresentada
pela prpria pessoa, documentos oficiais e depoimentos juramentados fornecidos por outros, tentavam analisar at que ponto tinham se envolvido nos crimes nazistas.
Eram colocados em uma das cinco categorias - que iam de Hauptschuldige [principais criminosos] a Entlastete [desnazificado]. A categoria escolhida era de grande
importncia para o papel que a pessoa seria permitida a representar na Alemanha ps-guerra.
Para Putzi, foi tudo semelhante ao processo que sofrera em Londres depois da sua primeira deteno. No obstante, esperava que suas aes desde 1937 - comeando
com a sua fuga da Alemanha e acabando com o seu envolvimento com o projeto-S-fossem vistas como mais importantes do que a colaborao com Hitler nos primeiros tempos
e lhe assegurassem um lugar na categoria dos desnazificados. Seus documentos pessoais contm uma frase copiada do Artigo 13 da Law for Liberation from National Socialism
and Militarism: "Esto isentos: pessoas que, apesar da qualidade de membros formais, da candidatura ou outra indicao externa, no somente mostraram uma atitude
passiva, mas resistiram ativamente  tirania nacional-socialista e portanto sofreram prejuzos." Putzi claramente acreditou que isso o inclua.
Sua defesa foi construda fundamentada em vrios elementos. Nas apresentaes detalhadas s autoridades, tentou demonstrar como tinha consistentemente tentado abrandar
os piores excessos de Hitler. Tambm tentou justificar seu posto de chefe da seo de imprensa estrangeira com base em que seu lugar seria ocupado por algum muito
mais radical e fantico se ele se demitisse. Em casa, por exemplo, Putzi alegou ter tentado moderar o antissemitismo de Hitler, t-lo incitado a abrir os campos
de concentrao  inspeo internacional e a ter interferido pessoalmente para reprimir uma conspirao para assassinar Dimitroff depois que foi absolvido das acusaes
de envolvimento no incndio do Reichstag; na poltica exterior, disse ele, tinha tentado, repetidas vezes, persuadir Hitler contra a expanso agressiva a leste e
a aliana com os japoneses e a lev-lo a estabelecer vnculos de amizade com os Estados Unidos. "At onde diz respeito s vrias coisas de que eu no gostava no
movimento de Hitler, conforta-
me o pensamento de que deveriam ser vistas como uma dor de dentes, por assim dizer, que desapareceria sozinha com o passar dos anos", declarou ele. Como prova de
sua determinao a combater o regime enquanto estivesse no exlio, citou seu trabalho no projeto-S e o artigo altamente crtico sobre Hitler que escreveu para a
Cosmopolitan.
Tudo isso, considerava Putzi, constitua uma resistncia ativa  "tirania nacional-socialista" no sentido do Artigo 13 da lei. At onde dizia respeito s "desvantagens"
conseqentes, citou a apreenso de sua casa na Pienzennauerstrasse e outra propriedade pela Gestapo, a imposio do Reichsfluchtsteuer de 40 mil marcos - o imposto
sobre a fuga da Alemanha
- e a privao de sua cidadania. Sua partida forada implicou a sua sada da firma da famlia.
Putzi fundamentou seu caso com uma massa de artigos publicados em jornais e diversos outros documentos. Vrios alemes apresentaram-se para responsabilizar-se por
ele: Harald Voigt, seu antigo ajudante, declarou como Putzi tentara, repetidamente, persuadir Hitler a proibir Der Strmer, o virulento jornal antissemita de Julius
Streicher; Edgar von Schmid-Pauli, escritor catlico de direita que havia se metido em apuros com os nazistas, contou como Putzi tinha descrito abertamente, e com
freqncia, Rosenberg e outras figuras eminentes do regime como "criminosos"; e Viktor Haefner, um s da aviao alemo na Primeira Guerra Mundial que se tornou
antinazista, contou como Putzi s" arriscava com freqncia para proteger vrios prisioneiros polticos judeus dos ataques de nazistas fanticos quando estava preso
em Fort Henry, chegando a salvar um que estava cado no cho e ameaado de morrer pisoteado.
Carter ofereceu-se para depor a favor de Putzi, dizendo a Egon que confirmaria que tinha mantido contato com seu pai sob instrues de FDR a partir de 1932 e colaborado
com ele "no interesse da paz mundial". Tentou tambm envolver Norman Armour, secretrio-assistente do Estado. Ele no se mostrou entusiasmado, embora tenha informado
que poderia ser convencido a fazer uma declarao a favor de Putzi "em uma emergncia". No fim, Putzi teve de se satisfazer com os depoimentos sob juramento de Carter,
Welles e Eleanor Roosevelt.
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A audincia foi marcada para as 9h30 da manh de 13 de janeiro de 1949 ( uma quinta-feira. A sala do tribunal na cidade bvara de Weilheim estava lotada. O promotor
pblico, Manfred Frey, pediu que Putzi fosse classificado como um dos principais criminosos. Putzi, com a sade recuperada desde a sua libertao dos campos, assumiu
uma atuao teatral, cheia de pathos e pausas dramticas, andando de l para c, diante dos trs membros do tribunal. Descreveu como, depois de tornar-se chefe da
imprensa de Hitler, tinha esperado que a propaganda de Hitler se revelasse uma tolice vazia e que a burocracia alem a derrubaria. Para a sua tristeza, alegou, a
burocracia tinha-se nazificado e os nazistas triunfado. Para sustentar seu caso, apresentou as declaraes de Carter, Welles e Eleanor Roosevelt.
Putzi conquistou com facilidade a sua platia. O presidente do tribunal decretou que ele tinha "empregado suas influncias para se opor ao nacional-socialismo" e
mencionou como durante o perodo nazista ele perdera a nacionalidade e sua propriedade fora confiscada. O fato de seu posto
- de chefe do departamento de imprensa estrangeira - no existir no diretrio de ocupaes nazistas (Amtsstelkn) tambm contou a seu favor, assim como a sua deteno
na Gr-Bretanha e o trabalho para Roosevelt. Baseado nisso, ele foi formalmente absolvido de todas as acusaes de ter sido nazista e colocado na categoria V - Entlastete
[desnazificado]. A platia - que inclua vrios jornalistas estrangeiros, alguns dos quais tinham conhecido Putzi pessoalmente - se regozijaram com o julgamento.
O caso deu a oportunidade  imprensa de apoderar-se de sua carreira bizarra e Putzi voltou s primeiras pginas dos jornais. "Do campo de deteno  Casa Branca",
dizia o jornal holands De Telegraaf. "O chefe do departamento de imprensa estrangeira de Hitler tornou-se consultor de Roosevelt na guerra psicolgica." Putzi disse
a outro jornal: "Meu objetivo era estabelecer uma relao aceitvel entre a Alemanha e os Estados Unidos. Mas foi impossvel por causa da imprevidncia de Hitler
e da estupidez de Von Ribbentrop e Rosenberg." Ciente de que em sua terra haveria quem o considerasse um traidor por seu papel na guerra psicolgica quando estava
nos Estados Unidos, enfatizou que "dos Estados Unidos, nunca estive envolvido em uma luta contra o povo alemo, mas somente contra seus governantes criminosos".
Apesar da concluso positiva de seu caso, Putzi continuou ressentido com o fato de ter sido obrigado a passar sete anos aprisionado. "J ouviu falar em algo mais
ridculo?" perguntou a Larry Rue, o jornalista veterano do Chicago Tribune, com quem tinha almoado no dia do golpe fracassado de Hitler, em 1923. "Aqui, eu era
um verdadeiro quinta-colunista no Partido Nazista, fazendo tudo o que estava a meu alcance para impedi-lo de adotar polticas cruis e desumanas que o tornavam alvo
do dio e desprezo do mundo inteiro. E fui punido por isso."
A entrevista aconteceu em maio de 1954, em Mittenwald, um resort pitoresco nos Alpes bvaros, onde Putzi tinha ido se tratar. Foi tudo um grande contraste com o
seu encontro anterior. Putzi, que ganhara muito peso, submetia-se a uma dieta de fome, de batatas, beterraba e suco de cenoura, o que lhe possibilitou perder seis
quilos em trs dias e curar-se do reumatismo. Apesar de sentar-se  mesa com Rue para jantar, no restaurante do sanatrio, no comeu nem bebeu nada.
Na poca em que tinha sido desnazificado, Putzi tinha chegado  idade em que a maioria dos homens pensa em se aposentar. Mas ele ainda tinha energia demais para
isso. No entanto, no ficou imediatamente claro o que ele poderia fazer ou como poderia se sustentar. Negcios eram atraentes, mas tambm a poltica, embora a proximidade 
de seu antigo relacionamento com Hitler impedia-o
de desempenhar qualquer papel importante na Bundesrepublik ps-guerra.
Talvez esperasse retornar aos negcios com arte de sua famlia, que continuavam sendo administrados por seu irmo Edgar. Apesar de ser membro fundador do Partido
Democrtico Alemo e um crtico constante de Hitler, Edgar, quatro anos mais velho que Putzi, tinha sobrevivido  era nazista e  guerra ileso. Assim como a firma
da famlia foi considerada kriegswichtiger Betrieb -, literalmente, preocupao de interesse ao esforo de guerra -, a percia tcnica que tinha adquirido em reproduo
de arte foi usada para ampliar fotografias areas para a Wehrmacht. Mas a relao entre os dois irmos, j deficiente desde a infncia, tinha-se deteriorado
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ainda mais durante os longos anos em que Putzi tinha sido entusiasta de Hitler e Edgar um antinazista convicto. Mesmo na velhice, era difcil concordarem sobre o
que quer que fosse - inclusive arte. "Sequer vou tentar trabalhar com o meu irmo", disse Edgar a Egon quando a relao com Putzi sofreu mais um abalo. "Eu iria
preferir que a firma fosse  falncia." Na verdade, durante algum tempo, os dois s se comunicaram por meio de seus advogados. Uma soluo acabou sendo encontrada,
graas a Egon, que sempre se dera bem com Edgar e respondeu ao apelo das duas partes de agir como mediador. Foi assinado um acordo de famlia e Putzi recebeu de
volta suas aes.
Putzi, entretanto, no atuou nos negcios, nem mesmo depois da morte de Edgar em 1958. Eles foram assumidos por Egon e sua prima, a filha de Edgar, Eva. Segundo
Egon, seu pai desprezava a arte moderna que comearam a vender. Ele tentou em vo explicar que o gosto do consumidor tinha mudado a partir da dcada de 1910, quando
Putzi geria a loja em Nova York. "A nica coisa que mostramos que ele aprovou no vendeu, enquanto os quadros que julgou ruins e sem futuro venderam muito bem",
recordou-se Egon.
Uma das principais prioridades de Putzi foi a escrita de suas memrias, nas quais comeara a trabalhar, de vrios modos, no fim da dcada de 1930. O impulso final
foi dado pelo escritor Brian Connell. Os dois homens tinham-se conhecido vrios anos antes e embora Connell continuasse a escrever seus prprios livros, ainda era
fascinado com a histria de Putzi. Em 1956, Connell foi v-lo em Munique para discutir como fariam. Acabou passando dois meses com ele, datilografando suas longas
conversas. O resultado, junto com a grande quantidade de material que o prprio Putzi compilara, formou a base para um livro que foi lanado no ano seguinte nos
Estados Unidos e na Gr-Bretanha com o ttulo Hitler: The Missing Years.
No foi um grande sucesso comercial; segundo Egon, seu pai culpou pelas vendas decepcionantes o fato de a imprensa estar dominada pelo lanamento bem-sucedido do
Sputnik, da Unio Sovitica. A mulher de Egon, que tinha trabalhado em editora, predisse que o livro no venderia porque o "Eu da histria no era simptico".
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Harvard tambm continuou a desempenhar um papel na vida de Putzi. Na verdade, em maro de 1953, ele foi dolorosamente lembrado de que as antigas animosidades no
tinham sido esquecidas, quando Conant, o antigo presidente de Harvard, visitou Munique.
Putzi, que soubera de sua chegada pelos jornais, no conseguiu localiz-lo, mas lhe disseram que a sua mulher estava almoando no Hotel Knigshof com um grupo de
senhoras alems. Ele enviou uma dzia de rosas brancas acompanhadas de um bilhete com suas saudaes. Um pouco depois, para horror de Putzi, um "membro da polcia
secreta alem" procurou-o e lhe devolveu as flores com a explicao de que a sra. Conant no queria v-lo.
Foi nesse contexto que Putzi aproximou-se dos preparativos para a reunio de cinqenta anos de sua turma, em 1959. Nessa primavera, os pedidos de doao de sempre
foram enviados aos ex-alunos. A turma de 1908 tinha surpreendido com um recorde de $268,441 de presente de aniversrio no ano anterior, o que seu sucessor estava
ansioso por, pelo menos, igualar. A reunio estava marcada para 8 de junho. De repente, a controvrsia de um quarto de sculo atrs ameaava retornar e assombrar
Putzi. "O bufo de Hitler planeja uma visita aos Estados Unidos" era a manchete de um artigo no New York Times de 24 de maio de 1959. A matria dizia que o antigo
"'bobo da corte'pianista de Adolf Hitler" planejava comparecer a uma reunio assim como dar a Harvard uma segunda chance de aceitar a doao de mil dlares que tinha
sido desprezada em 1934.
"Os negcios foram bem na minha galeria de arte e posso at mesmo conseguir $2.000", foi citado dizendo. "Estou to limpo quanto um dente de co de caa para um
visto para os Estados Unidos. Agora seria diferente de
1934", disse ele. "Espero ter um momento excelente e uma acolhida afetuosa. Por que no? Sou agora to antinazista quanto eles."
Putzi ficou pasmo ao receber, alguns dias depois, o clipping. Tinha acabado de escrever uma carta a Hollis T. Gleason, o agente da turma, contando o incidente de
Munique com os Conant, que, disse ele, "deixaram extremamente claro que ainda existe muita animosidade em relao a mim em alguns crculos de Harvard". Depois de
ler a matria no New York Times, acrescentou em um ps-escrito que a entrevista sobre a qual o artigo dizia
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se basear no tinha acontecido; o contedo era falso e o tom geral "manifestamente malicioso". "No vou permitir que o dia do 50 aniversrio da nossa turma seja
rebaixado a um dia de excurso escolar para a imprensa marrom", disse ele. Por isso ele no compareceria e no faria nem mesmo uma doao simblica. No obstante,
insistiu em que ficaria feliz em receber colegas de turma na Alemanha, "sem me aborrecer com os esforos simulados de qualquer rptil, dominado por clichs, da imprensa".
A vida privada de Putzi no estava menos tempestuosa. Para horror do resto de sua famlia, tinha-se apaixonado pela baronesa Renate von Willich, uma aristocrata
curvilnea muitos anos mais jovem do que ele. Von Willich - ou Rehlein [pequena cora], como era chamada - tinha sido casada com o presidente da maior usina eltrica
da Baviera, com que teve duas filhas. Tinham-se divorciado e ela, ento, mudou-se para viver com o general Franz Ritter von Epp - antigo Statthalter [governador]
nazista da Baviera e lder do Reich para assuntos coloniais, que os bvaros cruelmente apelidaram de Chevalier d'Epp [Sir Idiota]. Essa relao tambm acabou e ela
passou para Putzi, que mais tarde, a chamaria, zombeteiramente, de Der Wanderpokal der Erotik - a taa inconstante de erotismo. O casal poderia ter vivido junto
sem laos matrimoniais, mas Putzi era conservador por natureza e decidiram se casar. Como divorciados, s tiveram uma cerimnia civil. Em pequeno gesto de reconciliao
com seu irmo, Putzi convidou-o para o caf da manh e pediu-lhe que fosse uma das testemunhas.
O casamento no foi especialmente feliz e logo pesou nas finanas de Putzi. As filhas de Renate logo deixaram seu pai e foram morar com ela na Villa Tiefland, deixando
Putzi se lamentando por ter de satisfazer seu gosto por chapus e roupas caras. Quando tentou mandar as contas das compras para o seu primeiro marido, foram rapidamente
devolvidas. Renate logo comeou a tramar o divrcio. Estranhamente, a primeira suspeita de Putzi de que ela pretendia deix-lo aconteceu quando ela procurou seu
amigo Hjalmar Schacht, ex-presidente do Reichsbank, e tentou persuadilo a convencer Putzi a legar-lhe a casa. Para Putzi, foi a gota d'gua. Logo depois, chamou
Egon e foram a um tabelio assinar os papis do divrcio. De modo estranho, seu filho consignou os documentos.
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Foi uma deciso que os dois lamentaram pelo resto da vida. Assim como gostos caros, Renate tambm tinha um bom advogado que conseguiu um acordo altamente vantajoso
para ela. Mais ou menos dois teros da renda de Putzi iam para o sustento na sua velhice, obrigando-o a alugar parte de sua casa para equilibrar o oramento. Tampouco
essas exigncias financeiras terminariam com a morte de Putzi. A assinatura de Egon nos documentos significavam que ele arcaria com a responsabilidade depois. Para
seu desalento, Renate viveu at a faixa dos 90, seu gosto pelo luxo no foi afetado pelo tempo. No fim, foi declarada no responsvel por seus atos, mas no sem
antes mais contas no pagas terem sido enviadas para Egon. Seu filho, Eric, calculou, depois, que a deciso de Putzi de se casar com ela tinha custado  famlia
o equivalente a uma casa de campo. "Meu av foi regiamente extorquido", disse ele.
Nesse meio-tempo, Helene tambm tinha retornado  Alemanha. Depois de deixar Putzi, tinha comprado uma casa em Armberg no lago Starnberg e se mudado com Trausil,
que, no comeo, parecia ser o amor de sua vida. Antes de deixar os Estados Unidos, ela registrara, por sugesto de Trausil, a propriedade em seu nome; ele alertou-a
de que poderia ser confiscada se registrada no nome de um estrangeiro. Esse foi um erro quase to grave quanto o acordo de divrcio de Putzi com Renate. Quando Helene
retornou, em meados da dcada,de 1950, para pedir a casa, foi recebida friamente por Trausil que, nesse nterim, tinha se unido a outra mulher.
Sem se deixar intimidar, Helene decidiu ficar na Alemanha, em um pequeno apartamento em Munique. Seus anos de trabalho nos Estados Unidos tinham-lhe provido uma
penso que, convertida em marcos, era generosa o bastante para levar uma vida confortvel. Mesmo na velhice, estava sempre impecavelmente vestida e maquiada. Ao
contrrio de Putzi, o passado nunca a perturbou: no est claro se chegou a se arrepender de como salvou a vida de Hitler quando ele fugiu para a sua casa depois
do golpe de 1923 ter fracassado. Tambm podia consolar-se com o fato de nunca ter servido diretamente ao regime.
No entanto, a relao com seu ex-marido permaneceu fria. Sua deciso de retornar  cidade natal de Putzi implicava que os dois se encontrariam inevitavelmente no
Natal e outras ocasies familiares na casa de seu filho.
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Quando se encontravam, beijavam-se no rosto e mantinham uma relao corts. Helene, particularmente, permaneceu reservada e nunca houve nenhuma chance de reconciliao.
Putzi tambm foi assombrado por uma terceira mulher - seu amor da Primeira Guerra Mundial, Djuna Barnes, com quem manteve contato espordico ao longo dos anos. Barnes
almoara com ele em Londres em 1938, mas a tinha desconcertado quando deu em cima dela. " sempre triste ter amado algum anos atrs e descobrir o que ele se tornou", 
escreveu ela. "Ele era to
mais doce quando eu tinha 23 anos." Apesar de a guerra ter causado uma interrupo, eles no tinham perdido o contato. Putzi tinhalhe enviado doces e chocolates.
Ela tinha passado dificuldades e ele lhe oferecera dinheiro em vrias ocasies, mas ela sempre recusara. "Ele salvou minha vida duas vezes. A primeira, no avio,
a segunda, quando no quis se casar comigo", disse ela a seu amigo Hank O'Neal. "No precisava mais me salvar."
Em 1952, Putzi escreveu-lhe uma carta: "'Amor antigo no tem descanso' - ao que parece - e as nossas primeiras aflies permanecem leais pelo resto da nossa vida."
A carta terminava com "e um grande abrao de seu velho sedutor Putzi." O'Neal comentou que o nico quadro com alguma cor no apartamento dela era um carto-postal,
"Violetas", de Drer, uma lembrana de Putzi, que ficava em um canto de sua escrivaninha.
Em 1970, aos 83 anos, Putzi, ainda lpido, viu-se de repente como centro de ateno em sua terra natal. A razo era a publicao tardia de uma edio de suas memrias
em alemo. Intitulado Zwischen Weissem undBraunem Haus: Memoiren eines Politischen Aussenseiters [Entre a Casa Marrom e a Casa Branca: Memrias de um outsider poltico],
o livro diferia consideravelmente das verses americana e britnica anteriores.
Um dos acrscimos mais evidentes  uma seo no final, em que Putzi deplora o fato de ningum admitir que o vo de 1937, que precipitou sua partida da Alemanha,
foi uma tentativa sria contra a sua vida. "As explicaes eram sempre as mesmas", disse ele. "Que eu tinha entendido mal uma brincadeira grosseira e que sofria 
de mania de perseguio."
Parece que ele h algum tempo passou a aceitar relutantemente essa interpretao, at que, em um coquetel em 1965, encontrou-se por acaso com o general de diviso
Von Schoenebeck, o ex-oficial da Luftwaffe que forneceu o Junkers JU 52 para o vo. Para alegria de Putzi, Von Schoenebeck assinou uma declarao resumindo o que
tinha acontecido e deixando claro que, at onde sabia, estava longe de ser uma brincadeira. Putzi reproduziu a carta inteira em seu livro. Tambm citou uma conversa
com o Dr. Sigismund Freiherr von Bibra, que na poca havia sido embaixador alemo na Sua. Von Bibra disse que tinha chegado uma mensagem cifrada em Berlim no fim
de 1942 ou comeo de 1943 que declarava: "Por favor, faa com que o Dr. Hanfstaengl retorne  Alemanha o mais rpido possvel. O dinheiro no importa." Isso, achou
Putzi, era prova de que Hitler queria seu velho amigo de volta ao seu lado como um "quebra-galho". Apressou-se a acrescentar, entretanto, que teria recusado regressar
quela Alemanha "ainda governada pela camarilha de gngsteres".
A publicao do livro coincidiu com uma seqncia de recordaes de outras figuras proeminentes associadas ao regime nazista dispostas a contar suas histrias agora
que j havia se passado tempo suficiente desde a queda de Hitler. O livro de Putzi sofreu crticas diversas. O semanrio influente Die
Zeit - leitura necessria da inteligncia liberal alem - condenou-o como uma tentativa tardia de um velho de se justificar. Putzi, queixava-se o artigo, era incapaz
de separar o importante do trivial e as observaes srias que deveria fazer "perdiam-se em uma torrente de anedotas banais e fofocas". O Sddeutsche Zeitung, da
Munique natal de Putzi, foi um pouco mais gentil, mas lamentou que, apesar da proximidade com Hitler nos primeiros anos, ele continuasse sem poder explicar o mistrio
de sua ascenso.
Em 1972, a televiso transmitiu uma entrevista com Putzi de uma hora de durao. Ele estava, como era tpico, em plena forma, apesar da idade avanada. Passando
a maior parte de seu tempo ao piano, gostou da opor-
avar
tunidade de tornar a contar suas velhas anedotas. Dois anos depois, a entrevista foi passada de novo. Seu pai, escreveu Egon, ficou "excitado como uma noiva no dia
do casamento".
390
391
Putzi, finalmente, conseguiu retornar a Harvard para a reunio de junho de 1974. Acompanhado pelo filho, tinha relutado em submeter-se a um itinerrio, confundindo
aqueles com que iria se encontrar.  certa altura, pareceu estar completamente perdido. Por fim, conseguiu chegar ao encontro do que restava da turma de 1909. Com
a memria falhando e suas histrias um tanto enfeitadas, deu uma estranha entrevista ao Boston Globe, na qual descreveu, entre outras coisas, como Hitler gostava
de acompanhar assobiando velhas canes do Harvard Hasty Pudding Club. "Hitler assobiava bem", recordou-se. "Enquanto eu tocava, ele se recostava e assobiava o tremolo.
Como ele gostava dessas msicas do Pudding Club." Quanto  sua vida subsequente, foi prudente. "O que vivi foi uma farsa horrvel, enigmtica, ao estilo de Gilbert
e Sullivan",* declarou ele. "Nunca sabemos quem est do nosso lado, nem mesmo na priso. Hoje, aos 88 anos, sou um milionrio de tempo."
O tempo tinha-se esgotado para Helene em agosto do ano anterior. No foi, escreveu seu filho, uma morte fcil - mas ela "suportou tudo com aquele estoicismo que
a caracterizara durante toda a sua vida e que no a abandonou durante a velhice, o sofrimento da doena, a humilhao final da desintegrao orgnica".
Putzi - que seu filho chamava, de brincadeira, Learstaengl, ou apenas K.L., como o heri trgico de Shakespeare - ainda estava forte, escrevendo e trabalhando em
uma edio ampliada e aprimorada de seu livro. Ele tambm tinha muito orgulho de seus netos - especialmente de Eynon, o mais velho, que herdara o talento musical
do av, obtendo um impressionante 24 lugar no prestigiado Concurso Tchaikovsky, em Moscou, em junho de 1974.
Mas os anos comeavam a cobrar seus direitos. Em 19 de agosto de 1975, Putzi foi levado  clnica cirrgica do professor Dr. Hart, em Bertelestrasse, em Munique,
com cncer de tireoide. Uma semana depois, Hart o operou durante duas horas e meia. Putzi passou uma semana na unidade de tratamento intensivo antes de retornar
ao quarto. Egon esperava que seu pai
*W.S. Gbert (1836-1911) e Sir Arthur Sullivan (1842-1900), britnicos que escreveram vrias operetas cmicas, satirizando polticos e outras pessoas famosas na
poca. (N. da T.)
pudesse voltar para casa, embora soubessem que seria difcil cuidar dele. Mas ele enfraqueceu rapidamente. Logo s aceitava comer pudim de chocolate, e depois nem
mesmo isso. Mas continuou beligerante como sempre, fazendo discursos contra seus editores por no reimprimirem seu livro, publicando, em vez disso, um sobre Gring,
e acusando suas enfermeiras de comunistas e anjos da morte.
Durante uma das visitas dirias de Egon, vrias semanas depois, seu pai declarou que a sua vida tinha chegado ao fim e "pediu alguma forma de eutansia". Mas os
mdicos no desistiram e comearam a aliment-lo intravenosamente - prolongando uma existncia que nem Putzi nem sua famlia ou amigos queriam. A luta da morte,
como dizia Egon, continuou, e Putzi enfraquecia cada vez mais. Em 24 de setembro, entrou em coma e os mdicos predisseram que morreria em trs a cinco dias. Mas
na manh seguinte ele despertou s 6 horas e se ps a gritar pedindo
os jornais, que leu.
A morte, enfim, chegou em 6 de novembro. Putzi tinha 88 anos. Foi, escreveu Egon, "um alvio misericordioso para ele e, tambm, para todos ns." O falecimento de
Putzi foi assinalado com apenas um curto obiturio nos jornais alemes. Sua longevidade tinha-o reduzido a uma relquia de um passado remoto. A nova gerao de alemes
tinha pouco desejo de ser lembrada da poca mais inglria da histria de seu pas. Nascido na Alemanha do kaiser, havia passado pela Repblica de Weimar, os horrores
do Terceiro Reich e a Segunda Guerra Mundial, e a estabilidade da Repblica de Bonn. Criana na era da iluminao a gs e carruagens puxadas a cavalo, tinha testemunhado
a primeira aterrissagem na lua. Vaidoso e egocntrico, sentiu-se atrado por Hitler mais pelo glamour e glria do que pela ideologia nazista peonhenta. Foi o seu
amor pela ribalta que o levou a permanecer por tanto tempo no centro do regime, mas na hora do intervalo era Hitler quem ditava os termos e no ele prprio. Grande
parte do desconforto que se seguiu durante os longos anos na priso foi conseqncia direta de sua relutncia, mesmo depois de ter fugido da Alemanha, em romper
seus laos com os nazistas. Depois disso, inevitavelmente, foi a decadncia.
392
Putzi, uma vez, descreveu a sua vida poltica como um "teatro de revista melanclico". Em 1943, durante uma conversa com Sturm em Bush Hill, recapitulou a sua frustrao
com a maneira como as coisas tinham acontecido. " terrvel quando achamos que temos um carro com uma banda de msica e ele no passa de um caminho de lixo", disse
ele. Tinha escrito seu prprio epitfio.

NOTAS
Capitulo 1
O relato do primeiro encontro de Putzi com Hitler foi extrado de seus vrios escritos autobiogrficos, inclusive Ernst Hanfstaengl, Zwischen Weissem una Braunem
Haus: Memoiren eines Politischen Aussenseiters, Munique: R. Piper & Co., 1970, pp. 30-43.
Captulo 2
p. 26 O trabalho de... e mrmore, assim como vidro, couro e seda: Villa Hanfstaengl in Mnchen, sem data, em Nachlass Hanfstaengl na Beyerische Staatsbibliothek,
Munique, Ana 405/39.
p. 28   "Por trs da fachada... expresso em Pattica, de Beethoven, e noturnos de Chopin":
Ana 405/39, op. cit. p. 28   Edgar tambm... "por mentes adultas excessivamente artsticas": Ernst Hanfsteangl,
Hitler: The Missing Years, Nova York: Arcade, 1994, p. 25. p. 28   O sargento-ajudante "... em minha weltanschauung": Ana 405/39, op. cit. p. 30   "Quando esses... 
da suposta elite": Loomis H. Taylor a Putzi, 26 de fevereiro de 1958,
Ana 405, op. cit.
p. 31    "Consiga as boas graas... Hotel Tourraine em Boston": Ana 405/39, op. cit. p. 33   Foi lembrado... "Harvard Club, em Nova York": The New York Times, 5
de abril de
 1934.
p. 34   Ele pediu cerveja... "Toque algo para ns, Hanfy": Charlotte B. Clifford, Yankee, junho de 1965. Seu marido era calouro e assistiu  cena. p. 35   "Acho
que dedica... msica": Hurlbut a Edgar Hanfstaengl, 21 de novembro de 1906, citado em David George Marwell, Unwonted Exile: A Biography of Ernst "Putzi" Hanfstaengl,
dissertao PhD, State University of New York, em Binghamton, 1988,
p. 35.
p. 36 A generosa nota recebida... trabalho final: entrevista de Putzi com John Toland, 2 de setembro de 1971, na Franklin D. Roosevelt Presidential Library (FDRL),
Hyde Park, Nova York.
p. 31
p. 33
394
p. 36   Fugiram quando... alguns de seus camaradas: Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missin Years, p. 27. g
Captulo 3
p. 39   A galeria... recordou mais tarde: Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missing Years, p. 28 p. 41   Os dois... recordou ela mais tarde: Phillip Herring, Djuna: 
The Life and Works ofDjuna
Barnes, Nova York: Viking, 1995, pp. 67-73.
p. 41    Em certa ocasio... danava com ela: Andrew Field, The Formidahle Miss Barnes, Londres: Secker & Warburg, 1983, p. 61. p. 44   "Tentei"... duas dcadas 
depois: Ernst Hanfstaengl, "My Leader", Collier's, 4 de agosto
de 1934. p. 44   Putzi, de repente,..."em postos avanados": Ana 405/23 citado em Marwell, Unwonted
Exile, p. 5. p. 45   "Fui noiva de... com todos aqueles filhos alemes?": Hank O'Neal, Life Is Painful, Nasty
- Short... In My Case ItHas Only Been Painful & Nasty: Djuna Barnes 1978-1981, Nova
York: Paragon House, pp. 128-130. p, 46   As mulheres... melhores na cama do que os homens: Herring, Djuna: The Life and
Works, p. 74. p. 47   Mas admitiu... "saudade da Alemanha": Ernst Hanfstaengl, Zwischen Weissem und
Braunem Haus, p. 8. p. 47   De maneira significativa... tinham se conhecido somente em 1917: Badische Illustrierte,
15 de dezembro de 1951. p. 48   Putzi administrou a galeria... sua me lhe passara em maro de 1912: U.S. National
Archives & Records Administration (NARA) RG 131/158/CM818. p. 48   Um relatrio para... sua lealdade potencial: Harry J. Jentzer, 21 de fevereiro de 1917
em Ana 405, op. cit.
Captulo 4
p. 52 Putzi tinha ficado... "vida longa, solitria, demorada": Putzi a Kitty Hanfstaengl, 12 de maio de 1920, Ana 405/45, op. cit.
p. 52 "Ele parece me achar"... em maio: Putzi a Kitty Hanfstaengl, 20 de maio de 1920, Ana
405/45, op.cit.
p. 53   Seu pai, Johann... imigrante recente: Marwell, Unwonted Exile, p. 59.
p. 54 Esperavam... "recuperar a independncia econmica": Ernst Hanfstaengl, Collier's, 4 de agosto de 1934.
p. 54 "O relgio tinha parado"... escreveu mais tarde: Ernst Hanfstaengl, Hamish Hamilton, Ms 1/7, cit. Marwell, Unwonted Exile, p. 63.
p. 55   Se Putzi quisesse... por votao unnime: Marwell, Unwonted Exile, p. 67.
p. 56 Os dois trabalharam... "Guerra e paz, de Tolstoi": Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missing Years, p. 30.
p. 56 "A Alemanha era um urso domesticado... no estava nem a": Ernst Hanfstaengl> Collier's, 4 de agosto de 1934.
NOTAS
Captulo 5
p. 61 Ainda assim, havia, sem dvida, algo em Hitler... "quando estudante na Viena poliglota": Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missing Years, p. 38
p. 62 "O empado de Hitler precisava de uma crosta por cima", comentou mais tarde: Kurt G. Ldecke, I Knew Hitler, Londres: Jarrolds, 1938, p. 96.
p. 64   "Veja os retratos...", disse Putzi: Ernst Hanfstaengl, Adolf Hitler, 3 de dezembro de 1942,
p. 12. p. 64   "Era muito bom... um talento histrinico fantstico": entrevista de Putzi com John
Toland, FDRL, 18 de maro de 1971. p. 65   " grandioso pensar... ter de ser educada um dia": Ernst Hanfstaengl, Adolf Hitler,
p. 48. p. 65   Dois anos depois... "dio por seus inimigos": Carta de Alfred Rosenberg, 2 de abril
de 1925, em Archives du Centre de Documentation Juive Contemporaine, Paris,
document LXII-1.
p. 68   Como declarou Ldecke... "abrir suas portas a Hitler": Ldecke, / Knew Hitler, p. 96. p. 69   "Devia tocar... enfrentar o pblico": Ernst Hanfstaengl, "I 
Was Hitler's Closest Friend",
Heart'slnternational-Cosmopolitan, maro de 1943. p. 70   "Autorizo-o... o povo alemo": Ernst Hanfstaengl, Adolf Hitler, p. 44 p. 71   Quase duas dcadas... "Frau 
Hanfstaengl", disse ele: Henry Picker, Hitlers
Tischgesprche im Fhrerhauptquartier 1941-1942, Stuttgart: 1963, p. 165. p. 71   Quanto  sua aparncia, ele era "realmente pattico": Helene Niemeyer, Notes, citado
em Marwell, Unwonted Exile, p. 84. p. 72   Declarou o Times de Londres... "publicou na Baviera": The Times, 7 de setembro de
1923. p. 74   "O fato... nunca era a mesma por muito tempo": Egon Hanfstaengl, Outofthe Strong,
manuscrito no publicado, 194^, p. 8. p. 74   Como este recordou..."visitando cidados proeminentes": Ernst Hanfstaengl, Hitler:
The Missing Years, p. 55.
p. 76   "Em 1923, era... e na imprensa": Mnchener Post, 11 de novembro de 1930. p. 76   "Resumindo... na gria norte-americana?": Conde Von Treuberg a Hitler, citado
em Marwell, Unwonted Exile, p. 95.
Captulo 6
p. 77   "Isso mesmo"... estava pagando: Chicago Sunday Tribune, 30 de maio de 1954.
p. 78   A moeda alem... em algumas horas: The Times, 12 de outubro de 1923.
p. 78 The Observer (Londres)..."com zeros interminveis": Observer (Londres), 9 de setembro de 1923.
p. 79 "Minha organizao e eu... onde nos encontrar": Christian Science Monitor, 3 de outubro de 1923.
p. 79   "Jurem que... Levem suas pistolas": Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missing Years,
p. 91.
396
p. 80   Foi... "o esprito do socialismo internacional": Manchester Guardian, 12 de novembro de 1923.
p. 80    "A revoluo nacional... sob a bandeira da sustica": Joachim C. Fest, Hitler, LondresPenguin, 1974, p. 183.
p. 81    Em sua matria... "atirar em qualquer um que se opusesse a ele": Chicago Sunday
Tribune, 11 de novembro de 1923.
p. 82    "Melhores tempos... vergonha e sofrimento": Fest, Hitler, p.186. p. 83    Na manh seguinte... enfrentou a execuo sumria: The Times, 12 de novembro de
1923.
Captulo 7
p. 87 p. 88
p. 89 p. 90 p. 90
p. 91 p. 91
p. 92
p. 95
p. 96
p. 97 p. 100
p. 100
p. 102
"Schmiedel... Poderia estar aqui?": Neues Weilheimer Tagblatt, 10 de dezembro de 1949. "O que acha... prosseguir": entrevista de Helene Niemeyer com John Toland,
19 de outubro de 1970.
Outra recordao agradvel... de seu armrio: Egon Hanfstaengl, Out ofthe Strong, p. 3. "O que, diabos... sabem disso": Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missing Years, 
p. 113. "Landsberg", comentou The Times... "da fortaleza": The Times, 14 de novembro de
1923.
Putrificou... "ao polo Sul": Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missing Years, p. 114. A caricatura tornou-se... "parecia impossvel": Ernst Hanfstaengl, Hitler in der 
Karikaturder Welt, e Tatgegen Tinte, Verlag Braune Biicher Berlin Carl Rentsch, 1933, p. 15.
"Continuo a acreditar... salvaro a Alemanha": a anotao de Putzi no lbum anual da sua turma em Ernst Hanfstaengl, em Collier's, op. cit.
"Se eu pudesse..." declarou ele: entrevista de Helene Niemeyer com John Toland, FDRL,
19 de outubro de 1970.
"No, no quero fazer isso...  isso que odeio em Viena": Ernst Hanfstaengl, Hitler:
The Missing Years, p. 129.
"Se pelo menos eu pudesse... Coitado": Ernst Hanfstaegl, Adolf Hitler, p. 27.
"Mas, fora isso...", registrou em seu dirio: Joseph Goebbels, Tagebcher, Band 1:1924-
1929, Munique: Piper Verlag, 1992, p. 429.
Egon, que tinha permisso para assistir... sua pureza ideolgica: Egon Hanfstaengl,
Out of the Strong, p. 87.
O dinheiro... em um governo de provncia: lan Kershaw, Hitler, 1889-1936: Hubris, Londres: Penguin, 1999, p. 319.
Captulo 8
p. 106     "Agora estamos a caminho... estamos tentando realizar": Ernst Hanfstaengl, "I Was
Hitler's Closest Friend", Cosmopolitan, maro de 1943. p. 108    "Sempre tive a impresso... de quem gostava": Entrevista de Helene Niemeyer com
John Toland, FDRL, 19 de outubro de 1970.
397
p. 108   "A relao, independentemente da forma...", afirmou ele: Ernst Hanfstaengl, Hitler:
The Missing Years, p. 168. p. 109   "At onde me diz respeito..." que deixou Putzi confuso e ofendido: Egon Hanfstaengl,
Out ofthe Strong, p. 1. p. 109   Em 1 de novembro, retificou a omisso...nmero 668.027; Mitteilung ds Document
Center Berlin von Dec. 9,1986, citado em Wilfried Kugel, Der Unverantwortliche, Das
Leben ds Hanns Heinz Ewers, Dusseldorf: Grupello Verlag, 1992, p. 308. p. 110   "Ento, afinal vai se tornar um professor", brincou: Ernst Hanfsteangl, Adolf Hitler,
p. 6. p. 111   "Grande, moreno, e com a sorte de..." escreveu ele: Edgar Mowrer, Triumph and
Turmoil: A PersonalHistory ofOur Times, Londres: george Allen & Unwin Ltd., 1968,
p. 207. p. 112   A revista respondeu... Ela foi obrigada a recusar: Herring, Djuna: The Life and Works,
p. 177. p. 113   "Hanfstaengl, deixe de ser ambicioso... qualquer peso": Picker, Hitlers Tischgesprche,
p. 444. p. 113   "Algumas horas depois... louco furioso politicamente": Louis P. Lochner, Whatabout
Germany?, Londres: Hodder and Stoughton, 1943, p. 81. p. 114   "Hitler de sobrecasaca e cartola... gerar filhos homens paia o Estado": Dorothy
Thompson, "I Saw Hitler" Hearst's International-Cosmopolitan, maro de 1932. p. 115    Quando, finalmente, entrei... PODEM se enganar: Dorothy Thompson, ibid. O 
artigo
foi complementado e publicado como livro pela Farrar 8; Rinehart em 1932. p. 116   "Herr Hitler, por que... no o impediu de descobrir a Amrica": Ernst Hanfstaengl,
Hitler: The Missing Years, p. 178. p. 118   "Baur, voc fez um bom trabalho... area": Hans Baur, Hitler's Pilot, Londres: Frederick
Muller, 1958, p. 32. p. 119   No macadame tambm... "sendo afvel com todos": Sefton Delmer, Trail Sinister: An
Autobiography, Volume One, Londres: Martin Secker & Warburg, 1961, p. 143. p. 122   "Minha me e meu pai esto aqui... Hitler est muito ocupado": entrevista de
Putzi 
televiso bvara, transmitida em 1972. p. 124   "Herr Hitler, o que est fazendo... um insulto deliberado": Ernst Hanfstaengl, Hitler:
The Missing Years, p. 186.
Captulo 9
i p. 134   "Hitler no tomou o poder... o caracterizar na histria": Daily Express, 31 de janeiro
de 1933.
p. 135   The New York Times cometeu um erro ainda mais grave... "falam esperanosamente":
NY Times, 31 de janeiro de 1933.
p. 145   "Ergam a cabea... com a ajuda de Deus": Fest, Hitler, p. 398. p. 147   "Um dia histrico... Chegou a hora do Terceiro Reich": citado em Fest, ibid., p.
410.
398
Captulo 10
p. 150   "Ora, Putzi... magnfica": Hamilton Fish Armstrong, Peace and Counterpeace: From
Wilson to Hitler, Nova York: Harper and Row, 1971, p. 534. p. 150   Irrompeu... "e farda marrom": Lochner, What About Germany?, p. 257. p. 152   Um professor de 
histria metido em livros e retrado... "povo alemo": Notas sobre a
segunda entrevista de Arthur Pope com Putzi Hanfstaengl, PSF Box 99, FDRL, 14 de
dezembro de 1943, p. 10. p. 153   "No  um bom palco... Parsifal e a jovem Siegfried": William C. Bullitt a Roosevelt,
8 de novembro de 1936, PSF-30, FDRL. p. 154   "Hitler precisa de uma mulher... Martha, voc  essa mulher": Martha Dodd, Through
Embassy Eyes, Garden City, NY: 1940, p. 63. p. 155   Segundo seu filho... seu pai teve um caso: entrevista de Egon Hanfstaengl com autor,
dezembro de 2002.
p. 155   "Seu estilo de vida bomio... como um teatro": Frankfurter Nachtausgabe, 23 de maro de 1953. p. 156   O prncipe... "para unir diferentes classes": Prncipe 
Louis Ferdinand da Prssia, The
Rebel Prince, Chicago: Henry Regnery Co., 1932, p. 240. p. 156   "Oh, os judeus, os judeus... a Alemanha para ns, os alemes": Diana Mitford Mosley,
A Life ofContrasts, Londres: Hamilton, 1977, p. 107. p. 158   Segundo Putzi... "banheira com a gua transbordando": Entrevista com Putzi em
David Pryce-Jones, Unity Mitford: A Quest, Londres: Weidenfeld and Nicolson, 1976,
p. 155. p. 159   "Tem-se de conhecer Putzi para realmente no gostar dele", disse: Quentin Reynolds,
Quentin Reynolds, Londres: Heinemann, 1964, p. 92. p. 160   "Deixe-me falar...ele cuidar de vocs": ibid., p. 101. p. 161   "Nunca mais venha  minha casa, seu
calhorda: ibid., p. 110. p. 162   "Ele negligenciou... como um co fiel": Bella Fromm, Blood and Banqueis: A Berlin
Diary, Nova York: Touchstone, 1992, p. 92. p. 163   "Ele defende...", disse: Will Moore  Srta. Marguerite Lehand, Official File 198a, FDRL,
17 de setembro de 1933. p. 165   "O que est fazendo... tocar para mim?": Ernst Hanfstaengl, "My Leader", Collier's.
Captulo 11
p. 167   Hitler, recordou-se Egon... por seus padres habituais: Egon Hanfstaengl, Outofthe
Strong, p. 219.
p. 168   "Veja, meu menino, l  a ustria", disse Hitler de repente: ibid., p. 222. p. 169   A sua atitude... no sculo XVII: Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missing
Years, p. 216. p. 169   "Magda chamava-o de 'Engelchen'"..., comentaria Putzi: Hans-Otto Meissner, Magda
Goebbels, A Biography, Londres: Sidgwick & Jackson, 1980, p. 99. p. 173   "A necessidade de evidncias factuais... a existncia do Estado": NY Times, 30 de agosto
de 1934.
p. 174   Gring ficou furioso de incio... o "rumor horrvel" circulando: Philip Metcalfe, 1933,
Nova York: Harper & Row, 1989, p. 234. p. 175   "As relaes entre os nossos... nossos Estados fascistas": Ernst Hanfstaengl, Hitler:
The Missing Years, p. 235. p. 176   Como dissera a um visitante... "mais razovel": Notas sobre a segunda entrevista de
Arthur Pope com Putzi Hanfstaengl, PSF Box 99, FDRL, 14 de dezembro de 1943. p. 178   "Ele tenta o tempo todo",... escreveu Messersmith: documentos de Messersmith,
Messersmith a Moffat, 13 de junho de 1934, citado em Marwell, Unwonted Exile, p.
124.
p. 178   Um dos projetos mais estranhos... em setembro de 1933: Ernst Hanfstaengl, Hitler in der Karikatur der Welt, Berlim: Verlag Braune Bcher, 19 de setembro 
de 1933.
Captulo 12
p. 182 "Se  assim... Estados Unidos?": Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missing Years, p. 242.
p. 184 "Fazer objeo a... infantil": The Harvard Crimson, 8 de novembro de 1950.
p. 184 "Ver-me... que eu v": NY Times, 25 de abril de 1934.
p. 185 Isso pretendia... "nos campos esportivos de Harvard": ibid., 8 de junho de 1934.
p. 186 Helene estava magnfica em sua toalete branca: Metcalfe, J 933, p. 242.
p. 187 "Se a perda..." observou The New York Times: NY Times, 12 de junho de 1934.
p. 189 The Harvard Crimson... "que tinha alcanado": The Harvard Crimson, 13 de junho de
1934. p. 191   O presidente Roosevelt envia... incidentes": Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missing
Years, p. 244.
p. 191   "Um talento, sem dvida... e dois em retrospecto": Boston Globe, 18 de junho de 1934.
p. 192 Segundo a reportagem... dois mil dlares: Deutsche Allgemeine Zeitung, 15 de setembro de 1934.
p. 192   O ensaio, intitulado "My Leader"... as cabeas erguidas: Collier'$, 4 de agosto de 1934.
p. 193 "Se um carro atola na lama... embriaga-se com essa coisa?": Ernst Hanfstaengl, Hitler: The Missing Years, p. 244.
p. 194   "O que quis dizer na entrevista..." encerrada: NY Times, 19 de junho de 1934.
p. 197 Alguns dos manifestantes... "todos antifascistas presos": NY Times, 22 de junho de
1934.
p. 198   "Pode um liberal aceitar... queimar os livros que produziram: NY Times, 26 de junho
de 1934.
Captulo 13
p. 200   Embora os noivos.... "desfrutado": NY Times, 1 de julho de 1934.
p. 202   "Somos em parte responsveis... nos livrar dele de novo": citado em Kershaw, Hitler,
1889-1936, p. 508. p. 203   "No tenho comentrios a fazer... no abro mo do meu programa": NY Times, 1 de
julho de 1934.
400
p. 209   No escritrio do oficial de ligao Hess... "como se estivessem anestesiadas": Ernst
Hanfstaengl, Hitler: The Missing Years, p. 248. p. 211    "Agora que contei... receamos o pior": Louis P. Lochner, Always the Unexpected: A Book
of Reminiscences, Nova York: Macmillan, 1956, p. 244.
Captulo 14
p. 214   "Aqueles alemes de meia-idade"... outros povos: Philip Gibbs, European Journey, Londres: Heinemann, 1934, p. 386. p. 215   "Todos so a favor de Hitler... 
um salvador": David Nasaw, The Chief: The Life of
William Randolph Hearst, Nova York: Houghton Miffling, 2000, p. 494. p. 216   "Quando se  entrevistado na Alemanha... por uma semana ou mais": Edmund D.
Coblentz, org., William Randolph Hearst: A Portrait in His Own Words. Nova York:
Simon and Schuster, 1952, p. 111.
p. 216   O magnata da mdia... "minhas palavras exatas": Nasaw, The Chief, p. 495. p. 217   S precisei convenc-lo de que..."impressionar esses americanos": Metcalfe, 
1933, p. 280. p. 218   Chorou... um imenso buqu de rosas: Vincent Sheen, Dorothy and red, Londres:
Heinemann, 1964, p. 25. p. 218   Frederick Birchall... "meros ecos da propaganda nazista": NY Times, 26 de agosto de
1934. p. 218   Estou aqui para fornecer as informaes... percentagem de crianas deficientes": ibid.,
25 de agosto de 1934. p. 221   Ele costumava dizer",... disseram-lhe: Carta datada de 17 de agosto de 1955, Ana 405,
op. cit.
p. 222   A partir desse momento..." declarou ele: De Telegraaf, 19 de janeiro de 1949. p. 223   Hanfstaengl redigiu... "impostura e extorso": New Yorker Staatszeitung,
12 de maio
de 1933. p. 223   Mas I.decke decidiu... "uma zona quente do nazismo": Lothar Machtan, The Hidden
Hitler, Oxford: Perseus Press, 2002, p. 284.
p. 224   Foi nisso que deu, Herr Hitler... O que mais esperava?": Ernst Hanfstaengl, manuscrito no publicado de Hitler: The Missing Years, Ana 405/47, op. cit.
p. 226   Esperei",... disse depois: depoimento de Hanfstaengl ao Advisory Committee to
Consider Appeals Against Orders of Internment, 30 de outubro de 1939, KV 2/470,
Public Records Office, Kew, Londres.
Captulo 15
p. 231 "Havia uma profunda tristeza... chamar os comunistas de porcos": NY Times, 30 de novembro de 1934.
p. 231 "O que mais me magoou... a casa de Goethe ou Schiller": Daily Express, 30 de novembro de 1935.
p. 232 W. Perkins, um dos procuradores... "seu grande movimento": W. Perkins a Hanfstaengl, 16 de dezembro de 1935.
NOTAS
p. 233   O filme foi quase todo... Frente Trabalhista Alem: Marwell, Unwonted Exile, p. 149.
p. 233   "Ele simplesmente manifestou... se  ou no ": William E. Dodd Jr. e Martha Dodd
(orgs.), Ambassador Dodd's Diary 1933-38, Nova York: Harcourt, Brace and Co., p.
360-61.
p. 235   Prefiro deix-lo agora",... disse ela: dirio de Putzi, citado em Marwell, p. 147. p. 235   "Meus pais se divorciaram... minha me no tolerou": entrevista 
de Egon Hanfstaengl
com o autor, dezembro de 2002. p. 235   Quando ela lhe falou do divrcio... "pouca damas de verdade na Alemanha": Egon
Hanfstaengl a Toland, 4 de maro de 1973.
p. 236   "Aqui  bonito e tranqilo... alert-lo": Egon Hanfstaengl, Out ofthe Strong, p. 362. p. 236   Se Egon recebesse uma mensagem... providenciar a partida: 
entrevista de Egon
Hanfstaengl com John Toland, FDRL, 18 de maro de 1971.
Captulo 16
p. 239   "Est sendo requisitado com urgncia... do aeroporto de Munique": entrevista de
Hanfstaengl com John Toland, FDRL, p. 70. p. 240   "Por que no se sujeita... sua influncia seria muito valiosa": ibid., p. 71.
p. 240   "Quanto tempo ficarei... foi a resposta: ibid., p. 72.
p. 241 "O que esto fazendo... sobre minrios, entende": depoimento de Hanfstaengl ao Advisory Committee to Consider Appeals Against Orders of Internment, 30 de 
outubro de 1939, KV 2/470, PR.
p. 247   "Esperavam que... o exemplo": Egon Hanfstaengl, Out of the Strong, p. 370.
p. 248 "Goebbels comeou a difamar... conhecimento ntimo do Terceiro Reich": Albert Speer, Inside the Third Reich, Londres: Weidenfeld 8c Nicolson, 1970, pp. 188-189.
p. 249 Hitler sabia... ele me disse isso pessoalmente": Pryce-Jones, Unity Mitford: A Quest, p. 196. .*
p. 250   "Pai, essa mulher... em seus olhos": Ernst Hanfstaengl,Zwischen Weissem una Braunem
Haus, p. 371. i      p. 250   "Ele planeja uma..." em seu dirio: Jan Dalley, Diana Mosley, Nova York:Alfred Knopf,
j p. 243.
l      p. 250   "Uma brincadeira supostamente... jantaremos com ele hoje  noite": entrevista de
i Putzi com John Toland, 14 de outubro de 1970.
l      p. 251 "Deus, que cansao"... ltima anotao em seu dirio no dia de seu aniversrio:
i Marwell, Unwonted Exile, p. 161.
p. 253 "No h nada misterioso... acabo de chegar de l": Lochner, Always the Unexpected,
 p. 185.
;    p. 257   "No podemos calar... desagradveis para a sua famlia": Ernst Hanfstaengl, Hitler:
!: The Missing Years, p. 288.
j.       p. 258   "Foi o mesmo Fhrer...  a lei": Egon Hanfstaengl, Out ofthe Strong, p. 381.
[       p. 260   "Herrgott... finalmente est aqui": ibid., p. 385.
IH'-
402

Captulo 17
p. 263   O artigo, disse a Von Gersdorff... "para tudo que pretendemos fazer": Putzi a Mar
von Gersdorff, 6 de abril de 1937, citado em Marwell, Unwonted Exile, p. 188. p. 263   "Est agora evidente.... tolerar isso", escreveu Putzi: Hanfstaengl a Gring, 
7 de abril
de 1937, citado em Marwell, Unwonted Exile, p. 189. p. 264   "Hanfstaengl est em Londres... E nunca mais solt-lo": Joseph Goebbels, Tagebcher
Band 3:1935-1939, Munique: Piper Verlag, 1992, pp. 1066-1067. p. 265   Por ordem de Martin Bormann... "sem chamar a ateno": Friedrichs a Herr
Hauptamtsleiter Hederich do Parteiamtlich Prfufungskommission zum Schutz ds
NS-Schrifttums, 26 de julho de 1937. p. 268   Larkin, ativo no Partido Socialista... "a partir de 1915": depoimento de James Larkin
22 de janeiro de 1934, citado em Marw jl! Unwonted Exile, p. 294. p. 269   Se fizesse isso com lealdade, poderia levar "uma vida sem ser perturbado": Weizsacker
a Woermann, 29 de maro de 1938. NARA T- 120/F110553-554, citado em Marwell,
Unwonted Exile, pp. 289-90. p. 270   "Rimos muito..." lembrou-se Meeker mais tarde: Meeker a Putzi, 28 de agosto de 1961,
Ana 405/45.
p. 272   "Tero de admitir..." perguntou: Ana 405/46.
Captulo 18
p. 277 "Se eu sentisse..." recordou-se: depoimento de Hanfstengl ao Advisory Committee to Consider Appeals Against Orders of Internment, 30 de outubro de 1939, 
KV 2/470, PR.
p. 281 Em 27 de maio, tinha at mesmo enviado um telegrama a Gring... semana seguinte: Putzi-Gring, 27 de maio de 1939, citado em Marwell, Unwonted Exile, pp. 
405-6.
p. 284 "Vejo-me obrigado...", concluiu: Putzi a Bormann, 18 de agosto de 1939, citado em Marwell, Unwonted Exile, p. 435.
Captulo 19
p. 289 Como um dos prisioneiros.... "era concretizado ali": Hal Alec Natan, Barren Interlude, The Story ofMy Detention (Erlebnisberkht aus derlnternierung), manuscrito 
no publicado, Institu fr Zeitgeschichte, Munique, p. 54.
p. 296   Um dos prisioneiros comparou..., declarou: Marwell, Unwonted Exile, p. 450.
p. 298   "A inferncia  bvia... liberdade em um momento como este": KV 2/470. PR.
p. 298   "Porque respondi",... escreveu: Ana 405.
p. 299 O Ministrio do Interior, entretanto, insistiu... "prisioneiros", dizia: Arquivo H.8040 para Ernst Hanfstaengl, KV 2/470, PR.
Captulo 20
p. 302 "Pas Salvo do Golpe da Quinta-Coluna" declarou o Daily Herald: Daily Herald, 17 de maio de 1940.
NOTAS
403
p. 304   Putzi enviou a seu filho... "torpedo ou ataque areo alemo", escreveu: Marwell,
Unwonted Exile, p.466. p. 309   "As condies eram to ruins... finalmente, foi fechado": North American Newspaper
Alliance, 22 de abril de 1953.
Captulo 21
p. 313 Roosevelt tinha ficado impressionado... terceiro mandato de Roosevelt em 1940: Ernest B. Ferguson, "Back Channels", Washington, junho de 1966, p. 6.
p. 314 Como Carter afirmou... "no caso de publicidade": The Year of Crisis, John Franklin Carter Papers, 14 de abril de 1945, cit. Joseph E. Prsico, Roosevelfs 
Secret War, Nova York: Random House, 2001, p. 58.
p. 315   "O que diabos acha... explique seu comportamento": Carter Collection, Oral History,
FDRL.
p. 315   Sheila Carter ficou to... que estava carregando: Marwell, Unwonted Exile, p. 501. p. 316   "Legalmente voc  propriedade britnica... a Washington": dirio 
de Putzi, citado
em Marwell, Unwonted Exile, p. 501.
p. 316   "No tenho a menor dvida..." escreveu em seu dirio: ibid., p. 502. p. 317   "Fui procurado.... excntrico e no confivel": KV 2/470 PR. p. 317   Notando 
que Putzi... publicando-as ele prprio: Tamm a Hoover, 3 de junho de 1942,
FBI File 100-76954. p. 318   At onde dizia respeito ao FBI.... "24 horas por dia": Tamm a Hoover, 13 de maro de
1942, FBI File 100-76954.
p. 319   A mulher de Maugham... "cama com uma hiena": Furgurson, Washintonian, p. 17. p. 319   Mas, como escreveu um funcionrio do Ministrio das Relaes Exteriores... 
"ao experimento": W. G. Randall no Ministrio das Relaes Exteriores para F Newsam no Ministrio do Interior, 22 de maio de 1942. p. 320   "Devo admitir francamente... 
h bons e maus ex-nazistas", disse ele: Campbell a Carter,
FDRL, 23 de junho de 1942.
p. 320   "O que acha?... sua segurana enquanto estiver aqui": PSF Box 98, FDRL. p. 321   Como Carter admitiu... "destruio militar": Stevem Casey, "Franklin D. 
Roosevelt, Ernst 'Putzi' Hanfstaengl e o Projeto-S", June 1942-June 1944", Journal ofContemporary History, 35,3 (2000).
Captulo 22
p. 323   "No fomos bem... nem soldados": entrevista com o autor, dezembro de 2002.
p. 324   Apesar de Carter... tarefas no convencionais: Steven Casey, Journal ofContemporary
History, p. 342. p. 324   Field antipatizou... personalidade forte": Henry Field, "Memorandum on Ernst
Hanfstaengl", FDRL, 29 de outubro de 1965. p. 325   "Foi apenas Hanfstaengl usando sua inteligncia", garantiu: Carter Collection, Oral
History p.15, FDRL, citado em Prsico, p. 194.
404 
p. 327 "Nunca vi nada... me matar hoje  noite": Field,"Memorandun on Ernst Hanfstaensl" p. 47. S>
p. 332 Putzi sugeriu esperarem... Versalhes": Relatrio sobre a resposta de Sedgwick  sua pergunta, Carter a Welles, 1 de dezembro, PSF Carter 98, FDRL.
p. 333 A nomeao de algum leal a de Himmler... "facnora poltico": Carter, Observations on the Appointment of General Kurt Zeitzler to the position ofChiefof 
General Staff
17 de dezembro de 1942, PSF Box 98, FDRL.
p. 333 "Exigia mais... a esmo", escreveu Field: Field, "Memorandum on Ernst Hanfstaengl"
29 de outubro de 1965.
p. 335 Putzi demonstrava... "anglo-sovitica": Campbell a Carter, 23 de junho de 1942, citado em Casey,/. Cont. History, p.352.
p. 335 Campbell tambm escreveu... de um ms: Campbell a Welles, 27 de janeiro de 1943, FO/115/3579/116/1PR.
p. 336 Putzi, escreveu Carter a Welles..." inacessveis na Europa": John Carter, "Memorandum to Sumner Welles", 16 de novembro de 1942, FDRL.
p. 337   Roosevelt convocou Carter..."editor da Cosmopolitan": Casey,/. Cont. History, p. 353.
p. 337 Em 4 de janeiro de 1943, Carter... ascenso ao poder: 4 de janeiro de 1943, PSF (Subject) Carter, FDRL.
p. 337 Depois de uma breve biografia de Putzi... "este governo", disse ele: Anexo ao documento de 4 de janeiro de 1943, PSF (Subject) Carter, FDRL.
p. 339 Em um memorando minucioso..."nesse campo": 31 de janeiro de 1943, PSF (Subject) Carter, FDRL.
p. 340 De qualquer maneira... "seus servios nesta poca": L. B. Nichols a Tolson, 21 de abril de 1943, FDRL.
Captulo 23
p. 341   A verso final... 68 pginas: Os detalhes foram extrados de Ernst Hanfstaengl, Adolf
Hitler.
p. 346   Em 8 de maro, Putzi... escreveu ele: Carter a FDR, 8 de maro de 1943, PSF, FDRL. p. 347   Em maio, Carter pediu... cinco mil dlares: Carter a Harold 
Smith, 19 de maio de
1943, FDRL. p. 348   "A amarga verdade... escala sem precedentes": Relatrio sobre os comentrios de Putzi
sobre a Propaganda Alem do Incidente Katyn, 18 de maio de 1943, FDRL. p. 348   Em 14 de julho de 1943, ele disse... "nos braos da Alemanha": Relatrio sobre as
observaes de Hanfstaengl sobre a radiointeligncia FCC, FDRL. p. 349   Depois de lhe fazerem... "no vai passar despercebida": entrevista de Egon Hanfstaengl
com John Toland, 18 de maro de 1971, FDRL.
p. 350   "A morte de Hitler... o inimigo": Henry Field, 1976, op. cit., p.13. p. 354   "Existe algo mais triste.... como voc est!": Katherine Hanfstaengl a Putzi, 
9 de maio
de 1943. p. 354   Em outra, ela... "bem-estar": Katherine Hanfstaengl a Putzi, 24 de maio de 1943.
NOTAS
p. 361 p. 362 p. 362 p. 363
Captulo 24
p. 357   Era uma noite de novembro... Washington: Esse relato foi extrado do manuscrito
no publicado, de 39 pginas, de Alexander Sturm, "Bush Hill or Hanfstaengl in
Virgnia: A memoir dedicated to its hero with highest esteem by his inadequate Boswell",
nos documentos de Putzi na Beyerische Staatsbibliothek em Munique.
p. 360   A confirmao... destrudas pelo bombardeio aliado: Relatrio sobre Putzi Hanfstaengl,
26 de janeiro de 1944.
p. 360   Por isso... exclusivamente dos nazistas: John Carter, Relatrio de Putzi sobre os acontecimentos atuais, 3 de fevereiro de 1944, FDRL.
p. 360   Em um relatrio... Alemanha ps-guerra: John Carter, Relatrio sobre a opinio de Putzi sobre os acontecimentos polticos atuais na Europa, 28 de abril
de 1944, FDRL. p. 361   "Hspedes vm e vo, eu fico para sempre": Sturm, op. ci.t, p. 24. p. 362   "Sempre que entro..." em seu Lancia: Sturm, op. cit. p. 31 p.
362   "Goethe estava 20 anos... prescincia": Sturm, op. cit., p. 34. p. 363   Putzi, observou...ressentido com a influncia: Relatrio sobre a segunda entrevista
de Arthur Pope com Putzi Hanfstaengl, 14 de dezembro de' 1943, PSF JF Carter, FDRL. p. 363   Se o regime nazista... desempenhar o papel de "oposio leal": Jack
Morgan, Report
on Conversation, 24 de dezembro de 1943, PSF Carter, FDRL.
p. 364   Carter tinha escrito... Putzi estava nos Estados Unidos: Relatrio sobre a sugesto de Hanfstaengl para Panfletos de Propaganda para a Alemanha, 21 de julho
de 1943,
FDRL. p. 364   "Quem vai estar l?"... "Espere e ver": Henry Field, Dr. Sedgwick (Ernst Hanfstaengl),
11 de setembro de 1976, FDRL, p. 28.
p. 366   Em um de seus programas, declarou que "um traidor conhecido da Ptria, agora vivendo no exterior, transmjtia mentiras  Alemanha pelo rdio e por discos":
ibid.,
p. 29. p. 366   Segundo ele..."comida e abrigo": Carter, JF, Report on Security Arrangements for Putzi
Hanfstaeng l, 17 de janeiro de 1944, FDRL. p. 367   Carter ficou tambm impressionado... "inestimveis": Carter ao general-de-diviso
Jon T. Lewis, 13 de abril de 1944, FDRi,.
p. 368   "A nossa credibilidade",... alertou: Elmer Davis a Roosevelt, 24 de maio de 1944, FDRL. p. 368   "Mesmo que o plano... Inglaterra": Memorandum for the President
from the Under
Secretary of State, 7 de junho de 1944, PSF 9-7, FDRL
p. 370   "Quando Hitler e... garantia real de paz": Casey, /. Cont. History, p. 356. p. 370   O antigo "Reichswehr-Junker prussiano... acreditar", disse ele: Ernst
Hanfstaengl,"Notes on the Present Crisis", 23 de setembro de 1943, FDRL. p. 372   Putzi argumentou que os Estados Unidos... uma guerra asitica por vencer: Field,
Relatrio no. LIII do Dr. Sedgwick, 26 de junho de 1944, FDRL.
p. 372   Sua tristeza estendia-se... "Stalin-Asia": PSF Carter a Roosevelt, 11 de julho de 1944, FDRL.
p. 368 p. 368
p. 370
406
p. 375   "Tendo sabido que a Baviera... o dia inteiro": Ana 405/39, op. cit. p. 376   Na introduo... "valioso": Sumner Welles, introduo a The Catoctin Conversation,
Nova York: Charles Scribner's Sons, 1947, p. xii.
Captulo 25
p. 382   "Do campo de deteno"... na guerra psicolgica: De Telegmaf, 19 de janeiro de 1949. p. 382   "Meu objetivo era estabelecer... governantes criminosos":
Main Echo, 29 de janeiro
de 1949.
p. 383   "J ouviu falar... fui punido por isso": Chicago Sunday Tribune, 30 de maio de 1954. p. 384   "Sequer vou tentar... a firma fosse  falncia": entrevista
de Egon Hanfstaengl com o
autor, dezembro de 2002. p. 384   Um pouco depois... no queria v-lo: Putzi a Hollis T. Gleason, 23 de maio de 1959,
Ana 405/39. p. 388   " sempre triste... eu tinha 23 anos": Djuna Barnes a Emily Coleman, 21 de maio de
1938, citado em Herring, Djuna: The Life and Works, p. 70. p. 389   Putzi... "anedotas banais e fofocas": De Zeit, 15 de setembro de 1970. p. 389   Seu pai, escreveu
Egon, estava "excitado como uma noiva no dia do casamento": Egom
Hanfstaengl a John Toland, 12 de maro de 1974. p. 390   No foi, escreveu seu filho... "desintegrao orgnica": Egon Hanfstaengl a Toland, 9
de agosto de 1973.

ndice Remissivo
Academy Art Shop, 49,71 "Adolf Hitler Own Story" (artigo de jornal)
(Hitler), 111 Alemanha
e classe social, 66-67 economia, 201
ps-Primeira Guerra Mundial, 17, 21-24 e a Frana, 61,94,138 economia, 78,94,97,100-101,115 eleies, 116,118,125, ver tambm Partido Nazista, campanha eleitoral
infraestrutura da, 53-54 moeda, 62 -*
moral, 57, 78,146-147 partidos polticos, 29-30, 56-58, 75, 78,
93-94,97,100-101, 118,147-148 relao com a Gr-Bretanha, 164 sob o governo nazista conquista militar, 275-276 derrotada, 374 e a morte de Hindenburg, 213-214,218-
219
invade a Polnia, 285 sistema legal da, 209,227,229 Amann, Max, 16, 61, 62, 63, 72, 79 Amerika (transatlntico), 53 Anschluss, 174, 275
antissemitismo, 19, 24,57,100,102,196 cobertura da imprensa do, 160-161
de Hanfstaengl, 151, 156-157, 161, 190,
206, 347
de Henry Ford, 67
de Hitler, 123
do Partido Nazista, 156-157, 160,190 e atos violentos, 276
e confraternizao com judeus, 223
e reunio de turma de Harvard, 183
em campos de deteno, 289-290
em Mein Kampf, 91
"songbook de Hitler" (Hanfstaengl), 70-71
na imprensa, 125,280
nos campos de deteno britnicos, 286
reao dos EUA a, 216-217 Arandora Star (navio), 303 Arco-Valley, Anton, conde, 90 Armstrong, Hamilton Fish, 150 Associao Nacional-Socialista, 304 Associated Press,
149,184-185,253,307,378-
379
Association of Foreign Press
Correspondents, 171 Astor, John Jacob in, casamento, 199-201,
204
Astor, Vincen te, 321 Ato Habilitador, 147 Atos de sabotagem, 47-48, 267-268 August Wilhelm, prncipe, 119,120 ustria, 174,189
408
chanceler assassinado, 211 Hitler toma a, 275
babs do menino Hanfstaengl, 27-28 Baer, Sr. e Sra. George, 331, 361 Barnes, Djuna, 41,45,112,388
Nightwood,42,45 Baur, Hans,118 Bechstein, famlia, 68,69 Bernays, Robert, 163-164 Bblia, Hitler l a, 63-64 Bismarck, Otto von, 29 Black Tom, caso, 188,267-274
Bodenschatz, 253-256,263-264 bolsa de estudos, oferta de Hanfsatengl, 185 Bossidy, lohn Collins, "On the Aristocracy of
Harvard", 32 Boston Globe, 390 Boston Herald, 33 Boston Symphony Orchestra, 39 Braun Haus, 107,108-109 Braun, Eva, 108
Bremen (cruzeiro alemo), 33,309 British Union of Fascists, 286 Broun, Heywood, 188 Bruckmann, Elsa, 68,69,91 Bruckmann, Hugo, 68 Brckner, Wilhelm, 84,116,120,168-169
Brning, Heinrich, 101,125-126 Bullitt, William C., 152, 321
Camisas-Marrons, 77,80,82,84-85,133,139,
144-145
conspirao de golpe, 201-203
intimidao, 159 Camisas-Negras, 22,286 campo de concentrao de Dachau, 14 campos de concentrao, 227,277
Dachau, 148
o primeiro inaugurado, 148 campos de deteno britnicos, 286,294-295,
302-303,307-309
Canad, campos de deteno no, 302-303 Carter, John Franklin, 127,303-316,365,37Q,
371,375,381-382 The Catoctin Conversation, 375 Carter, Sheila, 313-314, 365 Catoctin Conversation, The (Carter), 375 catolicismo, 30
Cavalcade (revista), 262,263, 264, 277 censura, 172
Chamberlain, Neville, 275,301 chantagem, tentativas de Hanfstaengl de, 268-
269,281-282
charges de Hitler, 178-179 Chase, William, 31
Chicago Daily News, 110-111,115,228 Chicago Tribune, 77,81,383 Churchill, Randolph, 122 Churchill, Winston, 122,156,275 se torna primeiro-ministro, 301 CIA (Central 
Intelligence Agency), 314 cisma poltico e religio, 30 classe social, 66,68,155 Clayton, John, 81 cobertura da imprensa do golpe nazista, 81,
83 cobertura da imprensa do Partido Nazista,
110
cobertura da imprensa campanha eleitoral, 120 da reunio de Harvard, 188-189,206-207 DieTaverne, 137-139 do desaparecimento de Hanfstaengl, 252-
254
do trabalho para a inteligncia de Hanfstaengl, 336-339
dos atos antissemitas, 160-161,163 interna, 171,202,215-216 do incndio do Reichstag, 140-141,143-
144
influncia de Hitler, 216 internacional, 175 manipulada, 173-174,202-203,244
Collier's, revista, 153,159,191-192,279-280,
309-310
Columbia House, 139 comunistas, partido comunista, 57, 74, 78,
97-98,100, 127
e o incndio do Reichstag, 141-144 Hitler foge, 115-117 membros presos, 147 na eleio de 1932,116,122,126 represso de, 144-145,146,148,164 Conant, Bryant, 184,185,207-208
esposa rejeita Hanfstaengl, 385 Casablanca Conference, 369 Conferncia de Munique (1939), 275-276 Cossmann, Paul Nikolaus, 18 Counter Intelligence Corps (CIC), 367
crash da bolsa de valores de 1929,100 Crowley, Aleister, 46 Curtius, Julius, 149 Cutler, Elliot Carr, 182-184
Daily Express, 119, 128, 134,141, 178-179,
279, 294, 301 Daily Herald, 302 Daily Mau, 179,377 Daily Record, 306 ^
Daily Telegraph, 252 Darlan, Jean-Franois, 336-337 Das Schwarze Korps (publicao da SS), 308-
309
Davies, Marion, 214,216 Dawes Plan, 94 Delbruck, Schickler & Company, 185
Delmer, Denis Sefton "Tom", 119, 120,121,
128,141,142,144
democratas republicanos, 78
democratas, federalistas, 29
Denks, Friedrich, 39,52
desnazificao, 379-383
Deuss, Edward, 171
Deutsche Verein, 31,33
Die Abrechnung (Hitler), 91
Die Hilfe, 30
Diels,Rudolf,159
Dietrich, Otto, 181
Dietrich, Sepp, 116,120,168-169
Dircksen, Herbert von, 272
Dodd, Bill, 160
Dodd, Martha, 152,153-155,160,253
Dodd, William E., 152,363
Dollfuss, Engelbert, 211
Donovan, Wiliam J. "Wild Bill", 314,351
Drexler, Anton, 16,68,79
Duchess ofYork (navio), 302-303
Eckart, Dietrich, 68,72 "Ein Kaiser, Ein Reich, Ein Glaube", 29 Eisner, Kurt, 90 Eliot, T. S., 35
Empress ofBritain (transatlntico), 285,287 Epp, Franz von, 146, 386 Epstein, Sol, 189 Esser, Hermann, 62,99 Estados Unidos
Army's, Military Intelligence Division, 314 colapso da Bolsa de Valores de 1929,100 declaram guerra ao Japo, 309-310 exigncia da rendio incondicional, 369 inteligncia, 
313-317,320-321 e Hanfstaengl ver Hanfstaengl Ernst "Putzi" trabalhos para a inteligncia dos EUA Office ofWar Information, 352  , poder do, 67 socialistas nos, 
268 esterilizao obrigatria, 219 eugenia, 219
Europa (transatlntico), 186-187,189 Ewers, Hanns Heinz, 46,109 faz filme, 170 Vatnpir, 471 Ewers, Josephine, 47 exibio no piano, 34 ._-    "
410
Fairfield-Osborn, sra. Henry, 43 Fatherland, The (revista), 46-47 FBI (Federal Bureau of Investigation), 317-
318
federalistas democratas, 29 festa do aniversrio de Washington, 251-252 Field, Henry, 324, 325 Fiermonte, Enzo, 199-200 Flanner, Janet, 308 Ford, Charles Henri,
112 Ford, Henry, 39, 156
antissemitismo de, 68 Foreign Affairs (revista), 150 Fort Belvoir, Hanfstaengl em, 324-329 Francisco Ferdinando, arquiduque, 42 Frederico, o Grande, 147, 342, 345
French, Ellen Tuck, casamento de, 199-201,
202-203
Frick, Wilhelm, 102,134
Galeria Hanfstaengl, 39-40,52
confiscada, 49
Galeria Nacional, Berlim, 75 Genheime Staatspolizei (polcia secreta), 139 George, David Lloyd, 159 Gestapo, 252-253
lista da morte, 377-378 Gil, Emlio Portes, 111 Goebbels, Josef, 67,98,99,100,102,119,139,
140,141,142
e Hanfstaengl, 168-172, 219, 247-248
p aleijado, 169
Goebbels, Magda, 119,140,169 Goldbeck, Walter, 73 Gorbachev, Mikhail, 348 Gring, Hermann, 63, 80, 84, 99,105, J.26,
133, 134, 139, 142
Gring, Karin, 63, 99 j
Graf, Ulrich, 79 i
Groener, Wilhelm, 149, 151      .
Grossheim, Karl von, 26
Guerra-relmpago, 285 Gunther, John, 110
Hacha, Emil, 276 Halpern, Benjamin, 183,184 Hamish Hamilton, editors, 277 Hanfstaengl, Edgar (irmo de Ernst), 52,54,
94,109
depois da Segunda Guerra Mundial, 383,
384
Hanfstaengl, Edgar (pai de Ernst), 25,26,28,
29-30,73
doena e morte e, 37
Hanfstaengl, Egon (filho de Ernst), 17,53,99,
100
atua como mediador da famlia, 384
e a Juventude Hitlerista, 167-168,306,250
e Hitler, 64, 89, 92-93,167-170
e o casamento dos pais, 234-235
e o divrcio de Ernst, 387
em Harvard, 304, 305-306
entrevistado, 304, 305-306
escreve suas memrias, 352-354
na Inglaterra, 276
no exrcito dos EUA, 305-306, 323-324
designado guarda de Ernst, 349-354
designado para combater, 354-355
Out oftheStrong, 353
parte para os Estados Unidos, 285
se oferece para matar Hitler, 350
segurana ameaada, 256-260
fuga para a Sua, 258-260
tenta libertar o pai, 379 Hanfstaengl, Egon (irmo de Ernst), 44 Hanfstaengl, Erna, 54, 70, 251, 281, 282 Hanfstaengl, Ernst "Putzi", 16-17, 37, 206,
302,304,329
ao contra calnia, 183-187,263,264-265,
270-273,278-279
adere ao Partido Nacional-Socialista, 62
administra a Galerie Hanfstaengl, 39-40,49
anticomunismo, 347
411
antissemitismo, 157, 160-163, 190-191,
192, 206, 347 apelido, origens do, 27 caractersticas pessoais, 159 carter, 153,175, 349-350 carta a Collier's (revista), 309-310 casamento com Helene Niemeyer, 
51-52
divrcio, 234-235 casamento com Renate von Willich, 386
divrcio, 386-387 como chefe de imprensa, 149-150,156-159,
217
como escritor, 192
comparece  reunio de Harvard, 181-198 em 1974, 390
protestos e, 190,194,197,198,207-208 compra a Villa Tiefland, 73 critica Hitler, 222 defende o nazismo, 193-194 denuncia funcionrios do partido, 168-
172,219
depois da Segunda Guerra Mundial, 137 doutorado, 99 e a inteligncia dos EUA, 314-320,323-325
living arrangements, 324-331 e a moda, 157-158 .,"
e estranhamento, 332 e Hitler, 91-92,192,205 e influncia poltica, 66,67 e o caso Black Tom, 267-274 e o Partido Nazista
adeso ao Partido Nazista, 109 afastamento de, 232-234 afastamento, 236
como chefe de departamento de imprensa, 108-109,110-113,133,137 contribuies financeiras, 71-72,89 na campanha, 117,118,120,121 poltica interna, 171-172 tentativa 
de golpe, 77-80,80-81,85 e os negcios da famlia, 98,100,136 aes devolvidas, 384
em campos de deteno britnicos, 318 em Harvard, 32-37 em Londres, 261-262 entrevistado, 227-231 em Bush Hill, 362 na TV alem, 389 escreve artigos denunciadores, 
277, 279-
281 vende para a Hearst's International-
Cosmopolitan, 284,285, 336 escreve suas memrias, 384, 385 estudos acadmicos, 55-56
farda, 151 filmes, 233 greve de fome, 378 Hitler in der Karikatur der Welt, 178 "songbook de Hitler", 70 Hitler: The Missing Years, 384 infncia, 25-32 educao, 
30-32 interesse na msica, 31 pais de, 25-26, 27, 28 professoras particulares, 28 interesse na msica, 29,35, 36,98-99 lar na sua infncia, 26 leva presentes para 
Harvard e West Point,
187,205
levantamento de fundos em Berlim, 74-76 mandado para a Espanha, 239-250 conspirao autenticada, 389 fugas, 239-250, 244-247 origens da conspirao, 247-250 memrias 
reimpressas, 388-390 morte, 390, 391
na cidade de Nova York, 39-47,48-49 na lista negra da Gestapo, 377-379 na Sua, 251-260
nazistas pedem seu retorno, 253-254 nazistas emitem ordem de priso, 265 nazistas pedem seu retorno, 263-264 no Partido Nazista, 232-233 oferece a bolsa de estudos, 
185
412
oferta recusada, 207,208 parte para a Amrica, 32 preconceito racial, 327-328 preso, 285-288,288-294,296,307-309,382 problemas dentrios, 334 procura se desculpar,
267,277,282,284
e classe social, 66-67,95 97 relao com Hitler, 79,92,99
se deteriora, 221,222-223,224-226 renovada, 105-106,107 repatriado depois da Segunda Guerra Mundial, 378-381
audincia, 382-383
e desnazificao, 379-383 retorno a Alemanha, 53-56
depois da Noite dos Longos Punhais,
204,209
retorno aos Estados Unidos, 187,301-304 se estabelece, 23,63-68 servio militar, 36,42-43
escape da guerra, 66 tocando piano, 316,363-364
exibio de, 19-20
para Hitler, 69-70, 117-118,161,165,
225,365-366,390
trabalhos para a inteligncia dos EUA, 324-
354,358-68
living arrangements, 331,352,359, 360,
362-364,366-368
potencial para constrangimento poltico, 336-337
prepara relatrio sobre Hitler, 341-347
relatrio sobre Himmler, 346 vida amorosa, 41,45,155,156 386,388 vigilncia de, 273,292
' Hanfstaengl, Erwin, 44 
Hanfstaengl, Eynon (neto de Ernst),390 | Hanfstaengl, Franz, 25,26-27 j
Hanfstaengl, Franziska, 26-27 
Hanfstaengl, Helene (antes Niemeyer), 17,
51-52,52,53,71, '
divrcio, 234-235
e GeliRaubal, 107-108
e Hitler, 70-71,84,88,95,167,387-388
e Trausil, 387
morte, 390 Hanfstaengl, Katherine Sedgwick (antes
Heine), 25,26,26-27,54,353,354 Hanfstaengl, negcio da famlia, 98,109,137
dividido depois da morte de Edgar, 55
durante a Segunda Guerra Mundial, 383-
384
Hanfstaengl, Sedgwick Ernst trabalha para a inteligncia dos EUA
Despesas, 370-371
projeto encerrado, 372,373 Hanke, Karl, 120 Hans Westmar (filme), 170-171,183
exibido para Mussolini, 174-175 Harris, Frank, 46
Harvard Club, cidade de Nova York, 40,43-
44,48-49
Hanfstaengl renuncia, 45 Harvard Corporation, 185 Harvard Crimson, 183,186,189,207,208 Harvard University, 385
Hanfstaengl comparece, 18,31-37
Hanfstaengl oferece bolsa de estudos, 185
reunio de turma
Hanfstaengl denuncia, 187 stira nazista em, 196
reunio de turma, 25anos, 181-198 cobertura da imprensa, 184 protestos, 183,184
reunio de turma, SOanos, 385
reunio em 1974,390 Harvard, ex-alunos de, 182 Hauptmann, Gerhard, Schluck undjau, 169 Haus Wachenfeld, 97 Hausberger, Agnethe von, 136 Havard News Office, 207 Hearst 
Corporation, 170,171,280,284 Hearst, William Randolph, 11, 214-217
413
Hearst's International-Cosmopolitan (revista), 280, 304, 318, 336 artigo de Hanfstaengl  publicado, 339-340 Hanfstaengl assina contrato, 284 Hearsfs International-Cosmopolitan
(revista),
112,113-114 Heil Hitler, 97,136,159,191,195,219
Hanfstaengl recusa, 221-222 Heine, Katherine Sedgwick (depois Hanfstaengl), 25,26,26-27 Hess, Rudolph, 96,97,105,109, 307 Himmler, Heinrich, 100,107,333,346 Hindenburg,
Paul von, 97,118,148
morte, 213,218-219 Hindenburg, Oskar, 129 Hitler in der Karikatur der Welt (Hanfstaengl),
178
Hitler, Adolf, 16 "Por Adolf Hitler" (artigo de jornal), 111-
112
ambio de, 126 amor por Wagner, 69-70 apoio pblico para, 89-91 assume a ditadura, 148 bigode, 64
como escritor, 111-112,110-113
complexo de messias, 70
conhece a famlia de Wagner, 68
declara guerra aos Estados Unidos, 310
DieAbrechnung,9l
e Egon Hanfstaengl, 167-168
e Erna Hanfstaengl, 70
e Helene Hanfstaengl, 70-71,84,88,95,167
e Mussolini, 174-175,189,210-211
entrevistado, 114-115.176
escapa de comunistas, 74
estilo de discurso de, 21-22
estratgia poltica, 117
expectativas polticas, 57
faz discursos, 21-23,65
preparao para, 66-69 ganha poder absoluto, 214
heris de, 342
imagem internacional, 159
infncia, 64-65
influncia sobre a imprensa alem, 215-
216,218 insnia, 343
introduo  sociedade burguesa,68 l a Bblia luterana, 63-64 levanta fundos em Berlim, 74-76 magnetismo pessoal, 23,61,64,65,71,215 maneiras e gostos, 66-67,75-76,140,152-
153,342-343 mulheres, 158 timidez, 154-155 Me":amp/,91,94 nomeado chanceler, 129 obtm a cidadania alem, 110 ps-Primeira Guerra Mundial comitiva, 66,67 expectativas 
polticas, 19,23 proibido de falar em pblico, 97 proibio suspensa, 101 recusa o convite de Churchill, 121,125 relao com a famlia de Ernst Hanfstaengl,
92,93
relao com Hanfstaengl, 210, 211, ver Hanfstaengl, Ernst "Putzi", relao com Hitler
relatrio de Hanfstaengl sobre, 341,347 sexualidade, 70-71, 96,107-108,153-155,
158,344
tenta golpe, 77-85 condicional, 92 encarcerado, 90 esconde-se, 84-88 julgamento, 90 ordem de priso, 89 Hitler, Alois, 107-108 Hitler, Bridget, 107-108 Hitler: The 
Missing Years (Hanfstaengl), 384 Hoffman, Heinrich, 116,119,168,170 Home Guard, 302
414
Homossexualidade Hanfstaengl acusado de, 318-319 no Partido Nazista, 96-97, 120, 202-203,
344
Hoover, Herbert, 127
Hoover.J. Edgar, 317
Hugenberg, Alfred, 102,107-108
Hurlbut, Byron Satterlee, 35
/ Knew Hitler: The Story of a Nazi Who Escaped the Blood Purge (Ludecke), 266 ISaw Hitler (Thompson), 217 I Saw Hitler (Thompson), 115 Ibsen, Henrik, Peer Gynt,
68 lie de France (transatlntico), 269 incndio culposo, ver incndio do Reichstag indenizao, 61,94,101-102 inteligncia britnica, 333,335-336
interroga Hanfstaengl, 241-242
-   pedido de retorno de Hanfstaengl, 292-293
tentativas de encerrar o projeto-S, 369,371
vigia Hanfstaengl, 273,292 International News Service, 170,171
japons, ataque de Pearl Harbor, 309-310 Jones, Caroline, 28 judeus exilados, aprisionados com nazistas, 286,
290,295
represso de, 148, ver tambm anti-semitismo
Juventude Hitlerista, 101,352
Kahr, Gustav Ritter von, 57-77 concorda com apoiar os nazistas, 80
rescinde o acordo, 82-83,83-84    x nomeao para a Baviera, 78-79
Kaltenborn, Hans von, 35
Kayser, Heinrich, 26
Kiepura, Jan, 154
King Features Syndicate, Inc., 280
Klintzsch, tenente, 68
Knickerbocker, H. R., 79, 81,172 Kommer, Rudolf, 24, 56 Krause, Willi, 120 Kristallnacht, 276 Krosigk, Schwerin von, 135 Krupp, Alfried, 129 Ku Klux Klan, 67 Kunstverlag
Franz Hanfstaengl, 39
Landtag, 26
Larkin, James, 267-268
Laski, Harold, 40
Laubck, Fritz, 75
Lewis Sinclair, 113
Liberty, revista, 313
Lincoln, Abraham, 26
Lippman, Walter, 35,40
lista negra da Gestapo, 377-378
Liszt, Franz, 25,29,31
Lochner,Hilde,149,150
Lochner.Louis R, 113,141,149,150-151,211-
212,253-254,264-265 entrevista Hitler, 177 Loon, Hendrik von, 35 Lossow, Otto von, 80, 82,83-84 Louis Ferdinand, prncipe, 155-156 Lowell, Abbott Lawrence, 193 Loy, 
Mina, 46 Lubbe, Marinus van der, 143
julgamento, 172
Luce, Henry e Clare Booth, 318-319 Ludecke, Kurt, 62-63,68,172,225 detido, 223 / Knew Hitler: The Story of a Nazi Who
Escaped the Blood Purge, 266 Ludendorff, Erich, 18,81,83-84,84, 90,97 Ludwig II, Rei da Baviera, 26,55-56 Luftwaffe, 303 Luisitania, 44,188
Massacre de Katyn, 347-349 Massary, Fritzi, 56
NDICE REMISSIVO
415
Maurice, Emil, 74,116,125
Mayer, Louis B., 216
Mein Kampf (Hitler), 91, 94
Merkel, Otto Julius, 51
Messersmith, George, 149
Mitford, Diana, 156,159
Mitford, Unity, 157-159, 248-250,273,281
moda de roupas, 150-151
Moffat, Jay Pierrpont, 313
Montgomery Advertiser, 307
Montgomery Alabama Observer, 207
Moore,Will, 163
Morgan, Pierpont, 39
Mosley, Oswald, 156,286
movimento vlkisch, 97
Mowrer, Edgar, 111,171
Munchener Post, 76,82-83
Mnchner Neueste Nachrichten, 18,70
Munich Franz Hanfstaengl (firma da famlia) ver negcios da famlia Hanfstaengl
Mussolini, Benito, 22,97,111 e Hitler, 175,189,210
"My Leader" (Hanfstaengl), 192
nacionalista, Partido Nacionalista, 57-58
.^
coligao com o Partido Nazista, 145-146,
202
mensagem, 19
Napoleo Bonaparte, 147, 342 National Student League, 186,196 Natan, Alec, 294-295,299 Naughty Nines, 193,196 Naumann, Friedrich, 30 nazistas, nos campos de deteno 
britnicos,
286,290-291,294-295 e Hanfstaengl, 295, 303-304, 308 Neithardt, Georg, 90 Neurath, Konstantin von, 135,136,203 New Republic (jornal), 270-271, 278 New York Evening 
Post, 172 New York Press, 46
New York Times, 33, 89, 135, 179, 183, 185,
187, 189, 198, 200, 218, 231, 252, 292-
293,313,331,379,385 New York World-Telegram, 188 New Yorker Staatszeitung, 223 New Yorker, revista, 308 News Chronide, 163 Niemeyer, Helene Elise Adelheid (depois
Hanfstaengl), 51 Nietzsche, Friedrich, 147 Nightwood (Barnes), 42,45 nobreza alem, 30-31 Noite dos Longos Punhais, 201-2052, 214,
220, 286-287
Observer (Londres), 78-301 "On the Aristocracy of Harvard", 32 Organizationsbuch (Partido Nazista), 137 OSS (Office of Strategic Services), 314
datilografa as memrias de Egon, 353 Out ofthe Strong (Egon Hanfstaengl), 353
Pallenberg, Max, 56
Papen, Franz von, 42,126-127,127,128-129,
134,142, 202,
Partido Catlico do Povo Bvaro (BVP), 78 Partido Catlico Zentrum, 101,126-127,147 Partido Nacional-Socialista, 61-62, 98,192,
ver Partido Nazista Partido Nazista, 94,97,159 Aliana com o Partido Nacionalista, 146,
202
anti-semitismo, 156,160,162 banido, 78-79 campanha eleitoral, 115-122,125,127,139-
140,145-146 viagem area, 118-121 cobertura da imprensa internacional, 110
reprteres expulsos, 171-172 crescimento do, 101-105,127,146,149
abre novas sedes, 107 durante priso de Hitler, 93-94
416
417
e eugenia, 219
e moda, 150-151
e mulheres, 219
e pessoas deficientes, 219
financiamento, 71-72, 74-76,102,107
Hanfstaengl assume posto, 107
homossexualidade em, 96-97,120
imagem internacional, 155-159, 163-164,
173,175
e Noite dos Longos Punhais, 214 pouco-caso de Hitler, 171
Organizationsbuch, 137
partidrios aristocratas, 76,101-102
pedido do retorno de Hanfstaengl, 263
prmios, 233
Propaganda, 102,139, 347
relao com os Estados Unidos, 152,154
saudao, ver heil Hitler
slogans e smbolos, ver tambm susticas "songbook de Hitler" (Hanfstaengl), 70
suspende direitos e liberdades, 145, 147-
148
tentativa de golpe, 77-85 Partido Zentrum, 101,125,147 Pearl Harbor, ataque a, 309-310 Peaslee & Bingham, advogados, 268^269,273-
274 -..':;.   -
PeerGy"f(Ibsen),68 Pinansky, Max, 196,210 Plano Young, 102 Plmer, Friedrich, 76
polcia secreta (Genheime Staatspozei), 139 Polnia, 276, 347-3498
Hitler invade a, 285 Pomona (cargueiro alemo), 287 Primeira Guerra Mundial, 42-44,47-49
Alemanha ps-, ver Alemanha ps-Primeira Guerra mundial
declarada trgua, 55 '
e o sentimento antigermnico, 43-45,47-
48
Estados Unidos entra na, 48
fbricas de munio americanas sabotadas,
47-48
processos contra calnia, 227-232,263,264-
265,271-273,278-280 programa de deteno britnico, 286, 288-
299
Projeto-S ver Hanfstaengl, Ernst "Putzi", trabalhos para a inteligncia dos EUA relato publicado, 375-376 propaganda do Partido Nazista, 78102-103, 139, 156-
157,169,347 Estados Unidos, 364,366 Protestantismo, 30 Putzi, 27 Pyne, Mary, 46
Raubal, Geli, 107-108,331,339-340
Reader's Digest, 353, 354
Red Rock, 303
Reed, John, 35,40
Regimento de Artilharia de Campanha
Bvaro, 44 Reichstag, 101, 105, 115-116, 125-126, 126-
127
derrota a si mesmo, 147 incndio do, 140-143
julgamento dos incendirios, 172,173 Reichswehr, 83-84,148 Representaes da paixo de Cristo Oberm-
margau, 63-64
Repblica de Weimar, 18,57,94,97-98 ameaada pela economia, 101 partidos polticos, 193-194 reunio de turma, Universidade de Harvard,
181-198
Reynolds, Quentin, 153,159-162,279-280 Ribbentrop, Joachim von, 134,155-156,277 Riefenstahl, Leni, Triunfo da Vontade, 171 Rohm, Ernst, 82,84,100,120, 343 executado,
202
Roosevelt, Franklin Delano, 35,127,309,313-
314,319,336-337
e relatrios de Hanfstaengl, 336, 337, 347 Roosevelt, Franklin Delano, 40 Roosevelt, Nicholas, 49 Roosevelt, Theodore Jr., 35 Roosevelt, Theodore, 21, 35,40 Root,
Elihu, 49
Rosenberg, Alfred, 19-20,65,66-67,68,77,79 como editor do Beobachter, 72,78, 79, 96 como ministro das Relaes Exteriores,
136,137
Hanfstaengl denuncia, 100,106,136, 219 preside o Partido Nazista, 93-94 Rue.Larry, 77, 81, 382-383 Rumford Soup, 55-56 Rumford, conde (Benjamin Thompson), 55-
56 Rupprecht, Ahnenreihe, prncipe herdeiro,
18,78 Rssia, 347-349
SA(camisas-marrons),verCamisas-Marrons (AS) sabotagem, atos de, 47-48,267-268 Sagamore Hill (residncia de Roosevelt), 40 Santos-Dumont, Alberto, 39 ^
Sarfatti, Margherita, 111 Schaub, Julius, 116,120,168 Schleicher, Kurt von, 129 Schluck undjau (Hauptmann), 169 Schmidt-Lindner, 17 de agosto, 31 Schmidt-Pauli,
Edgar von, 219-220 Schnborn, conde, 139 Sedgwick, John e Catherine, 26 Segunda Guerra Mundial
Gr-Bretanha, ver inteligncia britnica;
campos de deteno britnicos Estados Unidos entra na, 309-310
inteligncia dos, ver inteligncia dos Estados Unidos
Japo, 309
Polnia, 276, 285, 347-349 Tchecoslovquia, 275, 276 Selfridges, 271-272, 273,278 sentimento antigermnico 43, ver tambm Harvard University, reunio da turma,
25anos
Sexta-Feira Negra, 100 Shirer, William L., 115 Sieg Heil, 63 Sieg Heil, origem de, 63 Simplidssimus (revista), 72,91 sistema legal na Alemanha nazista, 209,227,
229-230
slogans e smbolos nazistas, 178 Smith, Charles, 304 Smith, Truman, 18 Sobernheim, Kurt, 149, 151 socialdemocratas, 57, 94, 98,100 socialismo, socialistas, 30, 78 
jornal ver Mnchener Post nos Estados Unidos, 268
"songbook de Hitler"(Hanfstaengl), 70 Sophie Charlotte, duquesa, 26 Sousa, John Philip, 29 Speer,Albert,248 Spengler, Oswald, 112 Spengler, Otto, 99 Sphere (revista), 
164 Sphinx club, 34 SS, 133 Das Schwarze Korps (publicao da SS),
308-309
Stork Club, 191 Strauss, Richard, 29 Streicher, Julius, 83,125 Streit, Franz, 28 SturmAbteilung, 77
Sturm, Alexander, 357-359, 360, 362, 367 Strmer, Der (jornal), 125, 379-381 susticas, 70,157,161,162,178-179, 206 Sudetenland, 277
418
suicdio
de Geli Raubal, 107-108 de Hitler, 374
Tamm, Edward A., 317
Taverne, Die, 275, 276
Tchecoslovquia, 118,122
Thlman, Ernst, 90, 93
Thompson, Benjamin (conde Rumford), 56
Thompson, Dorothy, 113-115
expulsa da Alemanha, 217-218
ISawHitler, 155,217 Thompson, William Ormonde, 227-228
entrevista Hanfstaengl, 227-231 Thomsen, Hans, 155 Thyssen, Fritz, 129 Time, revista, 229, 313 Times (Londres), 72,78,83,90,134-135,275 Titanic,43,199 Torgler, Ernst, 
143 tortura, 139
Tratado de Versalhes, 215,275 Trausil, Hans, 235, 387 Treuberg, conde von, 76 Tribunal Popular, 229 Triunfo da Vontade (filme), 171       '        :
Universidade de Munique, 99 Uriburu, Jos Flix, 111
Vampir (Ewers), 47
Versalhes, Tratado de, 21
vida noturna de Berlim, 137-138
Vila Hanfstaengl, 26
Vila Tiefland, 73,99
Vitria, Rainha, 25, 26
Voigt, Harald, 136,187,189
Volk ohneRaum (Pessoas sem espao) (Hanfstaengl), 233
Vlkischer Beobachter (jornal do partido Nazista), 71-72,76,78,85,96,147,203,215,
244
e o incndio do Reichstag, 144
Vossische Zeitung, 161-162
Wagner, famlia de, apoio para Hitler, 91 Wagner, Richard, 18,55
conhece Hitler, 68
msica de, e Hitler, 69-70,93,118,211,343 Wagner, Sigfried, 68 Wagner, Winifred, 68, 282-284 Wahnfried, Haus, 68 Waldorf-Astoria Hotel, 51 Washignton Post, 331 Weber,
Christian, 61-62,68,72-73 Welles, Sumner, 314-317 Wessel, Horst, 109
assassinos condenados, 189-190
livro e filme, 170
Goebbels probe, 171-171 Wied, Viktor zu, prncipe, 139-140 Wilhelm I, kaiser, 29 Wilhelm II, kaiser, 25,29 Whelmscult, 29
Willich, Renate von, baronesa, 386 Wilson, Woodrow, 42, 43,48 Wittelsbach, famlia, 112 World Economic Conference, Londres, 136
Zwischen Weissem und Braunem Haus: Memoiren eines Politischen Aussenseiters
(Hanfstaengl), 388

Este livro foi impresso nas oficinas da DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina, 171 - Rio de Janeiro, RJ       para a EDITORA JOS OLYMPIO LTDA. '; em agosto de 2009
77 aniversrio desta Casa de livros, fundada em 29.11.1931
